Way Side -Interativa
2 Amethyst
Notas iniciais
Dois dias depois...
(...)
Quando o trem parou, ninguém sabia onde estava. Ninguém havia sido informado em que tipo de lugar ficava Amethyst, a grandiosa escola de bruxaria, a escola que aparentemente havia se reerguido das cinzas. Alguns alunos colocaram a cabeça para fora do trem, e deram de cara com uma floresta escura com árvores altas. O clima lá fora era frio, e não havia qualquer sinal de luz ou alguém que pudesse orientá-los.
Num pequeno vagão, na parte de trás do trem, havia duas garotas observando com curiosidade o ambiente fora da janela, e ao mesmo tempo sentindo-se nervosas. Era escuro, e sem qualquer sinal de ajuda.
–Ei, Myranda... –Murmurou a pequena garota de cabelos castanhos, cuja metade também era pintada de azul turquesa, e que fitava as árvores escuras com seus olhos arroxeados brilhando.
–Sim... ér... Suka? –Respondeu Myranda, observando o ambiente escuro com sua expressão de desconfiança. Seus cabelos negros balançavam levemente com o vento, e seus olhos, que eram da mesma cor, também brilhavam.
–Pra onde será que nós...? –A garota não terminou a frase, pois de repente, a porta do vagão foi aberta abruptamente, levando-a a soltar um pequeno grito. Ambas as garotas olharam para a porta recém aberta, quando um homem de mais ou menos trinta anos, alto e vestido completamente de preto apareceu. Ele usava um tapa-olho, e sua presença era bastante intimidadora.
–Boa noite. –Disse simplesmente, levando as duas garotas a se entreolharem em silêncio.
Ele estendeu a mão para a pequena Risuka, que o encarou sem saber o que fazer.
–Eu me chamo Sebastian. –Apresentou-se o estranho homem. –Irei levá-las à escola pela floresta. Caso não queiram se perder, sugiro que me acompanhem.
–Ah, sim... –Murmurou ela, sorrindo. Ele conduziu as duas garotas para fora do vagão, e então elas viram que no corredor do trem haviam vários outros alunos formados em grupos de seis ou sete, cada grupo acompanhado por uma pessoa vestida de preto.
Myranda olhou para trás, e viu mais duas pessoas se aproximando. Uma delas, uma garota baixa de cabelos e olhos castanhos, trajada toda de preto e vermelho e com um olhar de desinteresse, e a outra era alta, de cabelos negros com mechas azuis, vestida com estilo punk.
Sebastian apareceu de repente entre elas, com uma folha de papel nas mãos e uma caneta na boca.
–Certo... –Murmurou ele, pegando a caneta. –Vocês são... Coraline Amelia Williams...
A garota punk levantou o dedo com a unha pintada de preto.
–Cindy Cole...?
A de cabelos castanhos assentiu.
–Risuka Charlotte...
A pequena de cabelos azul turquesa acenou.
–E... Myranda Willoy.
–...Sou eu. –Murmurou Myranda.
–Certo, venham comigo, senhoritas. Eu as levarei à escola. –Disse Sebastian, pegando a folha de papel, dobrando-a no meio e colocando no bolso de sua jaqueta num gesto rápido.
–E as nossas malas? –Perguntou Coraline, olhando para o vagão ao lado, onde estava.
–Nós cuidaremos disso. Venham comigo. –Falou Sebastian, com um leve tom de irritação na voz, e a morena deu de ombros. Logo ele começou a andar e as meninas o seguiram.
Fora do trem estava muito frio, tanto que elas podiam ver a própria respiração em forma de névoa no ar. De repente, em meio à floresta escura e sombria, pequenas luzes foram aparecendo, e logo todos puderam ver um imenso caminho, como uma trilha pela floresta, iluminado por lamparinas que ficavam presas às árvores. A primeira coisa que todos notaram foi que ninguém estava lá para acender as luzes.
–Sigam-me. –Disse Sebastian, gesticulando para as quatro garotas. –Só saiam de perto de mim caso queiram ter uma desagradável noite em nossa floresta, que a propósito, chega a ficar em graus negativos à noite.
–Não, obrigada. –Falou Coraline, dando longos passos até ficar ao lado de Sebastian. Cindy, Suka e Myranda foram atrás, observando a floresta com desconfiança. Quando elas entraram na trilha, tentaram enxergar o que havia mais adentro, mas era impossível. Mesmo com as lamparinas, a escuridão da floresta não permitia.
O caminho do enorme grupo de alunos foi barulhento, todos conversando sobre como o lugar era escuro, sobre como a caminhada fora longa, e alguns até sobre detalhes pessoais, como quando descobriram serem bruxos, entre outros assuntos.
O grupo de Sebastian estava em completo silêncio. Nenhuma das garotas queria conversar sobre nada daquilo.
(...)
A caminhada acabou quando, em meio à escuridão, todos puderam enxergar uma grande quantidade de luminosidade direcionada a um lugar só: a enorme construção, um prédio imenso e moderno, de paredes pintadas de roxo. A escola Amethyst era cheia de prédios e salas iluminadas, cercada por um muro branco não tão alto.
De frente para a trilha, havia um enorme portão dourado, que os levava à escola. Sem nenhum comando aparente, o portão abriu, revelando um pátio arborizado e de aparência simpática, que ficava de frente para a entrada da escola.
–Incrível... –Sussurrou Suka, dando uma cotovelada leve em Myranda.
–Estamos em um palácio, hein? –Brincou Coraline, rindo.
–Desobedeçam as regras e conhecerão as masmorras. –Disse Sebastian, indo em direção à escola junto com outros grupos de alunos.
As garotas se olharam.
–Cara mal-humorado... –Murmurou a morena, cruzando os braços e pondo-se a segui-lo, juntamente com as outras meninas.
(...)
–Esse troço parece um castelo medieval! –Gritou Suka, apontando para uma foto antiga no corredor da escola Amethyst, assustando as outras garotas e até Sebastian, que parou de andar para encará-la.
–É por que isso aí é um castelo medieval. –Falou Cindy. –Me disseram que foi a primeira Amethyst... A escola de bruxas da idade média. Foi fechada quando a caça às bruxas começou. Se as pessoas soubessem que as bruxas estavam bem embaixo de seus narizes...
–Sim. –Afirmou Sebastian. –Mas pessoa alguma teria chance contra uma bruxa de verdade.
–Então só inocentes morreram, não é? –Murmurou Myranda.
–Exato. –Ele confirmou, como se nada daquilo o afetasse.
–...Baixou o clima tenso... –Sussurrou Suka para si mesma, olhando para Cindy e Myranda, que não pareciam gostar de ter ouvido aquilo.
A antiga Amethyst fora na idade média, quando a igreja católica iniciou uma perseguição tola contra bruxas, que na verdade, eram meramente mulheres comuns. Além de que as histórias que essas pessoas contavam sobre bruxas eram completamente falsas. Chegavam a ser engraçadas, de tão ridículas que eram aos olhos dos bruxos.
Certamente, não aos olhos das mulheres que foram enforcadas por causa daquilo.
(...)
Os alunos estavam todos reunidos num enorme salão de teto espiral prateado, cheios de poltronas vermelhas aveludadas. Era um salão belíssimo e claramente caro, que só era usado em eventos especiais, segundo Sebastian dissera às garotas.
Elas estavam sentadas uma ao lado da outra em silêncio. De repente, todas as luzes diminuíram, e um holofote de luz perolada foi direcionado a um palco. No meio do palco, havia uma mulher de aproximadamente vinte anos, de cabelos alaranjados com mechas pretas presos num coque, e olhos de um tom quase transparente de azul.
–Boa noite... –Disse ela, pegando um microfone, que ninguém soube exatamente de onde saiu. Ela recebeu um “boa noite” em forma de couro como resposta. –Bem-vindos a Amethyst. Sei que vocês tiveram uma longa viagem, mas preciso lhes dizer algumas palavras, como sua diretora.
Coraline ergueu as sobrancelhas.
–Essa mulher é a nossa diretora? –Sussurrou. –Achei que fosse uma velhota...
–Como muitos de vocês sabem, nossa escola acaba de se reabrir após muitos, e muitos anos. Esta escola foi cuidada e dirigida por minha família há gerações, e eu decidi trazê-la de volta aos tempos atuais. É claro que existem outras escolas de bruxaria... Mas a Amethyst tem uma história. –Contou a diretora.
“Vocês passarão por momentos loucos por aqui. A Amethyst é uma escola rígida, e qualquer aluno que desobedecer às regras, sofrerá as consequências. Muitos de vocês nem sequer sabiam ser bruxos, e de repente, são encaminhados para um lugar como este. Saibam que todos aqui são iguais, e todos vocês devem se sentir em casa, como se estivessem entre sua família.”
Myranda olha para suas mãos em silêncio.
–Só há... Uma pequena diferença entre vocês. –Disse a diretora, e um silêncio tenso se instala no salão.
–Não me diga... que ela vai falar sobre “isso” agora... –Murmurou Sebastian.
–“Isso”? –Pergunta Cindy.
A diretora olha por alguns instantes para a multidão de alunos e diz:
–Alguns bruxos são “bons”. E outros bruxos são “maus”.
A maioria dos alunos franziu a testa, sem entender do que se tratava. Sebastian massageou a têmpora.
–Mas é claro... Que tudo o que é ruim tem um lado bom. E tudo o que é bom tem um lado mau. O “bem” e o “mau” não são definidos como o preto e o branco. –Diz ela. –Isso é tudo. Peguem as informações sobre seus dormitórios e aulas com seus orientadores.
As garotas olham para Sebastian, que foi logo tirando um monte de papéis de dentro de seu casaco. Elas ficaram se perguntando como exatamente todos aqueles papéis ficavam acomodados ali dentro.
(...)
–Você tinha mesmo que falar sobre o “bem” e o “mal”, não tinha? –Ele perguntou, sentando em sua cadeira giratória coberta por sombras, sentindo-se bem no escuro.
–Acabei não me contendo. –Disse a diretora, brincando com um de seus globos mágicos, pequenas esferas que mudavam de cor conforme os sentimentos da pessoa iam mudando também.
–Eu percebi. –Disse. –“O bem e o mal não é como o preto e o branco”. É sua frase favorita, não é?
–Como percebeu? –Brincou ela.
–Fico me perguntando... Se você só não diz essa frase a todos, para se autoconvencer disto.
Ela olhou para onde ele estava, tentando fitá-lo na escuridão, mas não conseguia sequer enxergar seu rosto. Em sua mão, a esfera adquiriu uma cor avermelhada. Raiva.
E em resposta a isso, ela escutou o riso baixo dele.
–Não me provoque, Cameron. –Sibilou a diretora.
–Sim, vovó.
Continua...
Fale com o autor