Notas iniciais
Gente, tinha até esquecido dessa história, mais um capítulo aí pra vocês. Espero que gostem.

— Senhora, por favor tenha calma.

Disse o policial que antes tava conversando com meu chefe.

_ Central, aqui é a viatura 357, solicitando reforço, situação com refém, peço apoio imediato QS?

Disse o policial para o rádio em seu ombro.

QS, viatura 357, reforço a caminho.

_ Calma é o caralho! Se você se aproximar eu corto ele!

Disse Fernanda, enquanto andava de costas em direção a porta da repartição

_ Mano, não acredito que eu vou morrer assim! Puta que pariu velho, minha vida é uma bosta mesmo!

Pensei

_ Senhora, vamos resolver essa situação, entregue o refém. Ele não tem nada a ver com isso.

Argumentou o policial.

_ Foda-se! Vocês nunca vão nos pegar vivos!

Gritou ela.

_ Mas é claro que vão pegar a gente vivo! Que história é essa de “a gente”, eu sou seu refém, não sou seu cumplice. Me peguem vivo sim! Por favor!

Eu não conseguia entender. A Fernanda parecia outra pessoa, estava completamente alterada. Beleza que eu não conhecia ela tanto assim pra saber, mas a mudança foi muito brusca, de uma mulher meiga e tímida ela passou a uma psicopata assassina que estava prestes a cortar minha jugular.

_ Da licença, Fernanda, se é que esse é seu nome...

Disse.

_ Que é que foi?

Gritou ela.

_ Pintou uma dúvida aqui agora, você queria mesmo sair comigo?

Perguntei.

_ Pra alguém que tá prestes a morrer você tá bem calmo.

Disse ela.

_ Bom, já que eu vou morrer, pelo menos eu quero morrer sem nenhuma dúvida.

Respondi.

_E então, você pode me responder?

Continuei

_ Sim, eu ia sair com você. Precisava de um disfarce convincente e o que melhor que namorar um colega de escritório? Ficaria acima de suspeitas e, já que só tem mulher trabalhando aqui e não me parece que nenhuma seja lésbica, era você ou o seu amigo.

Respondeu.

_ E por que eu? Por que não o Bruno?

Continuei.

_ Até parece que eu ia topar sair com aquele escroto! O cara me cantou no meu primeiro dia aqui! Olhou pra minha bunda e disse que ela não era montanha russa, mas ele queria ter altas diversões com o carrinho dele nela!

Respondeu.

_ É ele é escroto assim mesmo desculpa pela pergunta idiota.

Disse

_ Como não tinha mais ninguém tinha que ser você mesmo.

Disse ela

_ Na verdade, ainda tinha o Maeda da contabilidade.

Disse eu

_ E onde tava esse cara que eu nunca vi ele?

Perguntou

_ Ele não sai muito da sala dele.

Disse.

_ Senhor, por favor fique calmo o reforço já está a caminho!

Disse o policial.

_ E você não se meta! Estamos tendo uma conversa aqui!

Gritou ela pro policial.

_ Só uma última pergunta. Se você não fosse... O que você é... se a situação fosse diferente... você toparia sair comigo?

Perguntei.

_ Até que você é bonitinho, e não me fez cantada de pedreiro. É sairia sim.

Disse ela.

Não sei por que perguntei aquilo, logicamente eu deveria estar mais preocupado em arrumar uma maneira de sair dali. Pelo menos eu morreria sabendo que não fui dispensado por ela. Isso de alguma forma me dava um certo calor na alma.

_ Quais são as suas exigências senhora.

Falou o policial em voz já alta pois a gente já tava bem perto da porta.

_ Eu quero um carro na porta do prédio quando eu descer e não quero ser seguida!

Gritou ela novamente.

_ Nós providenciaremos senhora!

Nesse momento, quando a gente já tava cruzando a porta da repartição, em um breve olhar de relance, vi um policial atrás da gente. Ele disparou um tiro de arma de choque certeiro nas costas da Fernanda.

Antes de eu contar o que aconteceu, eu só queria fazer um adendo. Essa parada de arma de choque tá em alta agora né? O policial pode atirar sem se preocupar se o cara vai morrer ou não. Seria uma arma perfeita para uma situação com reféns se não fosse por um pequeno detalhe; energia elétrica pode ser conduzida de um corpo pra outro.

Já deu pra perceber o que aconteceu né? O policial atirou nela, que estava segurando meu corpo, o choque passou pelo corpo dela e eletrocutou nós dois e eu acabei perdendo a consciência.

A próxima coisa que me lembro é de acordar na cama de um apartamento de hospital. Meu corpo doía como se tivesse sito atropelado por um caminhão. O quarto tava cheio de flores e balões.

A medida que ia acordando sentia uma mão suave acariciando a minha testa e dizendo alguma coisa com uma voz bem doce fui começando a ver uma silhueta branca, já tava começando a me animar quando fui percebendo que a silhueta de branco parecia ter cabelo curto, barba e gogó.

_ Olha, parece que ele tá acordando!

Dizia. Parece que havia mais alguém na sala.

_ Ele tá abrindo os olhos!

Continuou.

Quando consegui ver direito descobri que o dono da silhueta era aquele desgraçado do Bruno.

_ Bruno!? Que é que você tá fazendo aqui?

Perguntei.

_ Eu vim te ver João! Que falta de consideração é essa? Eu fui o único que veio te ver esses dias todos!

Respondeu ele.

_ Dias?

Perguntei.

_ Quando você levou o choque, você desmaiou...

Disse o Bruno.

_ Na verdade ele ficou em coma.

Interrompeu o médico.

_ Sorte que a gente tem um hospital bem pertinho da repartição.

Disse o Bruno

_ E quanto tempo eu fiquei em coma?

Perguntei.

_ Cinco dias.

Responderam ao mesmo tempo.

Aquilo me deixou espantado, o choque que recebi de um taser, mesmo que secundário, foi capaz de me deixar cinco dias em coma, imagina o que deve ter acontecido com a “Fernanda”.

¬_ Pelo menos eu tô vivo.

Disse

Eu olhava ao redor do quarto e via toda aquela decoração com flores, balões bichos de pelúcia...

_ As meninas do escritório não vieram, mas pelo menos mandaram uns presentes legais.

Continuei.

_ Olha, acho que não foram as meninas que mandaram isso não. Pelo menos eu não tô sabendo de nada.

Disse o Bruno.

_ Olha, tem um cartão.

Continuou, apontando o cartão que estava em meio as flores.

Ele pegou o cartão, me deu e eu abri e li.

_ “Com os cumprimentos do 56º DP de São Paulo”?

_ Ah! Foram os caras da delegacia! Foram eles que pagaram a conta do hospital.

Olha! Tem mais um cartão escrito no ursinho de pelúcia.

“Melhoras. Cabo Machadão”

Estava escrito no cartão.

_ Cabo Machadão?

Perguntei pro Bruno.

_ Na verdade é Machado, mas o pessoal da delegacia chama ele de Machadão porque ele é grandão saca. É um apelido carinhoso, foi ele que te salvou da maluca lá do escritório

Disse ele.

_ Você quer dizer que esse foi o cara que me deixou cinco dias em coma né?

Exclamei.

_ Ah João, deixa de ser pessimista cara! Você tá vivo! Além do que, o cabo Machadão é muito gente boa, devia ter visto a homenagem que ele fez pra você lá no escritório. Foi comovente cara.

Disse o Bruno.

_ Doutor, ele acordou. Significa que ele já pode ir embora?

Perguntou o Bruno pro médico.

_ Vamos deixa-lo em observação por um dia por precaução, se correr tudo bem, amanhã ele receberá alta.

Respondeu.

_ Então tá, amanhã eu venho te buscar joão, descansa aí. Vou avisar o pessoal do escritório que você tá bem!

No dia seguinte, durante o horário de visitas o médico entrou no quarto:

_ Tudo bem senhor João da Silva, aparentemente não houve sequelas relacionadas à descarga elétrica, o senhor está bem e pronto para receber alta.

Disse o médico.

_ Muito obrigado Doutor.

Respondi.

_ O senhor gostaria de chamar alguém para vir busca-lo?

Perguntou.

_ Não precisa, o meu amigo disse que ia me buscar ele já deve estar pra chegar.

Respondi.

Duas horas depois, o Bruno ainda não apareceu e o pessoal do hospital já estava me expulsando do quarto, então não tive escolha, a não ser sair.

Eles deixaram minha roupa e minhas coisas em cima da cama, fui lá me vesti e quando fui pegar minhas coisas, percebi que só tinha meu celular.

_ Droga, esqueci que quando aquela maluca me atacou eu só tava com meu celular no bolso, minhas coisas tão na mochila.

Pensei

_ Senhor João, está na hora de ir, o senhor já recebeu alta e precisamos do apartamento para outro paciente.

Disse um dos enfermeiros que estavam na porta do quarto.

Sem ter o que fazer, fui até a portaria, na verdade os enfermeiros meio que me empurraram até lá, esses caras não andam brincando em serviço, não te deixam ficar um minuto a mais sem necessidade. Bom, continuando enquanto eu fui “gentilmente” encaminhado até a portaria do hospital, eu tentava ligar pro bruno e ouvi a frase que qualquer pessoa odeia ouvir pelo telefone quando mais precisa:

_ “Seus créditos acabaram, por favor recarregue seu celular”

Dizia a gravação

Crédito especial já tinha ido a muito tempo, então tentei o que todo pobre tenta numa situação dessas, liguei a cobrar e ouvi a segunda frase que a gente mais odeia ouvir pelo telefone.

_ “Este número encontra-se ocupado, por favor ligue mais tarde”

Disse a gravação.

Quando cheguei na porta de saída, sem ter o que fazer, tentei argumentar com o enfermeiro:

_ Cara, vocês não podem simplesmente me expulsar do hospital!

Disse.

_ Podemos sim, o senhor já teve alta.

Disse o enfermeiro.

_ Mas, eu não tenho grana nenhuma cara, minha carteira ficou na minha mochila no escritório!

Tentei argumentar novamente

_ E o que eu tenho com isso?

Perguntou ele.

_ Cara eu moro na sé, sabe o quanto é longe daqui até a sé?

Perguntei

¬_ Eu pego dois busão só pra vir trabalhar!

Continuei.

_ Eu pego quatro.

Respondeu ele.

_ É, mas você tem dinheiro pra pegar os quatro. Não dá nem pra emprestar uma grana?

Tentei argumentar mais uma vez.

_ Olha cara, nosso trabalho é fazer você sair daqui bem e nas melhores condições de saúde e, se possível, de pé com suas próprias pernas. O que você faz depois que sai daqui é com você.

Respondeu ele.

_ Além do que, é fim de mês e eu só tenho a grana pra voltar pra casa, foi mal cara.

Continuou, enquanto a porta da entrada fechava nas minhas costas.

_ Fodeu.

Pensei.

Já que não tinha muito o que fazer, decidi ir andando até em casa, eu até poderia passar no escritório pra pegar minha mochila, mas se eu aparecesse lá naquele dia só pra pegar minha mochila era capaz do meu chefe contar como falta e ainda me demitir por justa causa, eu não ia dar esse gostinho pra ele. Eu tinha ainda um dia de atestado e iria usá-lo pra chegar em casa, nem que isso me custasse o dia inteiro.

Então comecei a andar, se fosse pelo simples fato de andar não teria sido tão traumático, mas imagina que que é andar naquele asfalto de São Paulo no calor de plenas duas horas da tarde. Quando chegou no final da tarde, eu estava com fome, com sede, meus pés doíam, mas pelo menos o calor estava acabando, o que deu lugar a um frio congelante. As sete da noite, estava em um lugar que não conhecia, que parecia ser bem barra pesada, o dia já estava escurecendo e eu tinha duas escolhas, ou continuava andando, ou ficava lá, adivinha o que eu escolhi.

Juntei todas as forças que ainda me restavam e andei até não conseguir mais, não sei exatamente até que horas andei, a bateria do meu celular tinha acabado, só sei que o céu era de lua cheia e ela tava bem alta, quando percebi, notei que tinham umas lojas, já fechadas com uma arquitetura meio diferente, pareciam japoneses.

_ Acho que tô na liberdade

Pensei.

Naquela hora eu tava exausto, não tinha comido o dia todo, não tinha bebido água, estava tão cansado que nem conseguia me mexer.

_ Aqui parece ser de boas pra passar a noite

Pensei.

Me recostei na parede de uma das lojas, olhei pra paisagem ao redor, não mudava muito, eram algumas casas algumas tinham sacos de lixo na porta, muitas vitrines, na loja de frente pra mim tinha uma estátua de gato que achei legal.

_ Ai cara! Nunca vi tanto problema de uma vez só.

Disse pra mim mesmo

_ Queria ter menos problemas.

Continuei, quase já adormecendo.

Nesse momento um gatinho surgiu do nada, foi se aproximando, me deixou fazer um carinho.

_ É... bicho não tem problema nenhum.

Pensei

_ Só tem que comer, cagar, dormir e vadiar... Oh vida boa.

Pensei.

De repente esse bicho veio pra cima de mim e me deu um arranhão na cara!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.