Wasting Time
2 II
― Ok, o que exatamente estamos procurando? ― perguntou Sara para Kyle, o simpático arqueólogo o qual havia sido encarregada de acompanhar. Estavam cavando há horas e nada muito interessante havia aparecido, além de alguns pedaços de argila quebrados que poderiam ou não ter sido algo em um passado distante.
― Qualquer coisa que sirva de resquício. Ao que parece houve uma vila aqui, há muito tempo. ― ele comentou distraído com o trabalho que faziam. Sr. L achou que seria produtivo para seus alunos que acompanhassem outras áreas de conhecimento que estivessem ligadas a aquela pesquisa e Sara realmente acreditava nisto, mas algo naquela caverna a fazia se sentir deprimida e amedrontada. Talvez por saber que o corpo, ou melhor, os ossos que havia visto dias atrás, no laboratório, com Sr. L e Beth havia sido encontrado naquele lugar. Uma forte luz a cegou por um momento, fazendo com que cobrisse os olhos com uma pequena exclamação.
― Qual o seu problema, Bran Harold Mackenzie? ― reclamou Sara, ainda um tanto cega por conta do flash de sua câmera.
― Tenho que fotografar todo o progresso, ordens do Sr. L. ― Bran deu de ombros. O constrangimento inicial pelo episódio da biblioteca havia sumido, uma vez que ambos tiveram que conviver durante quase duas semanas por conta da pesquisa.
― Espere, acho que encontrei algo! ― exclamou Kyle empurrando a perna de Sara para o lado e cuidadosamente cavando em torno de uma pedra que lá estava. Ela olhava em expectativa, mas tinha medo de tentar ajudar ou tocar em algo e acabar por estragar tudo, se contentando então em assistir junto a Bran o que estava acontecendo. Dois arqueólogos vieram se juntar a Kyle, mas, ainda assim, demorou o que pareceu uma eternidade para os dois estudantes antes que uma espécie de caixa de pedra fosse retirada da terra. ― Tem alguma coisa escrita na tampa, mas não consigo ler.
― Isso abre? ― ela perguntou curiosa.
― Talvez ― Kyle deu de ombros. Bran fotografou o artefato, ganhando alguns olhares feios. Kyle forçou levemente a tampa para cima, abrindo com facilidade a caixa. Havia terra ali dentro, assim como ossos e mais coisas escritas, das quais Bran fotografou também. Uma onda de tontura passou por Sara junto com um sopro frio que poderia ser atribuído ao inverno. ― Acho que está escrito Fiachra.
― Corvo? ― Sara traduziu confusa. Ainda se sentia mal ― Ok… Será podemos…
― Sair daqui? ― perguntou Bran, também sentindo algo estranho no ar.
― Podem ir, está na hora do almoço mesmo ― confirmou uma das mulheres que trabalhava no sítio arqueológico. ― Nos veremos amanhã.
Os dois caminharam em silêncio, divagando sobre o que poderia ser aquela caixa. Eram ossos de um animal pequeno, com certeza, mas seriam parte de algum ritual? Adivinhação, talvez, era algo comum. Alguns metros de distância haviam sido percorridos quando Bran notou um ponto mais alto no solo, uma pequena elevação formada por uma pedra de cerca de dois metros, um lugar perfeito para fotos do horizonte de montanhas que se estendia atrás deles.
― Venha aqui ― convidou Bran, fotografando a paisagem.
― Acho melhor não ― recusou Sara, ciente de seu medo extremo de altura.
― Está com medo de uma mini rocha? Qual é, Tighearnach.
― Não estou com medo deste lado da pedra, mas do outro. Lá em baixo tem o que? Um quilômetro de queda?
― Cinquenta metros. Oitenta no máximo. Sua noção de espaço é péssima.
― É do tamanho de um prédio, isso já é alto demais para mim. ― ela cruzou os braços em objeção.
― Tudo bem, você é quem manda ― Bran suspirou e desceu da pedra, tornando a caminhar pela trilha. ― Vamos almoçar em algum lugar?
― Acho que vou comer em casa. Ainda vai demorar para eu receber o primeiro salário, então tenho que…
― Tighearnach, assim você me ofende! ― Bran colocou a mão sobre o peito em uma expressão dramática ― Eu estou te convidando, portanto, eu vou pagar.
― De jeito nenhum. Você precisa parar com esta mania de querer pagar as coisas para mim ― Sara rebateu, referindo-se ao dia da biblioteca, onde não tinha dinheiro para pagar por seu próprio trabalho. ― Além do mais, estou suja de terra até a alma.
― Vamos fazer assim, eu te dou uma carona para casa, você toma um banho, veste uma roupa limpa e nós vamos comer. Considere como um pedido de desculpas por quase te cegar lá na caverna. ― ele sorriu, fazendo Sara sorrir junto, sem ter o que responder. Fitou o belo sorriso, o formato do rosto, ainda mais realçado devido a barba deixada por fazer e os olhos profundos que pareciam ler sua alma. Algo em Bran fazia seu estômago se agitar e sua respiração descompassar e Sara não sabia se gostava disso. Ainda assim, uma voz no fundo de sua mente a impulsionava a aceitar, ainda que contrariada, apenas para passar um momento a mais com ele.
― Não sei se…
― Sem discussões, vamos lá. Eu realmente não quero voltar para casa agora, então é praticamente um favor que fará para mim.
― Tudo bem, tudo bem ― Sara levantou as mãos para cima, como se estivesse se rendendo. ― Mas você realmente tem que me deixar tomar um banho antes de eu entrar em qualquer restaurante com você.
― Às ordens ― disse Bran batendo continência, o que fez Sara rir enquanto Bran apontava seu carro. Não era o melhor carro do campus, nem o mais bonito, mas era muito mais confortável do que o ônibus, que era desconfortável e balançava a ponto de Sara pensar que voaria pela janela a qualquer momento. Relaxou no banco de carona por alguns momentos, o silêncio pesando cada vez mais. ― Você tem um cabelo bonito. ― comentou Bran distraído com a estrada.
― Obrigada, gosto muito dessa cor, pena que o rosto não ajuda ― brincou, fazendo os rir.
― Já pintou de outras, sem ser o roxo?
― Sim ― pensou um pouco ― vermelho, verde…
― Verde? Interessante, deve ficar legal também.
― Até que ficava. Posso ligar o rádio?
― Claro ― ele respondeu. Uma música pouco conhecida soou e Bran cantou junto ao cantor, sendo acompanhado por Sara, que parava de cantar apenas vez ou outra para indicar o caminho até seu pequeno apartamento.
Ao chegarem ao local, Sara o convidou para entrar e ligou a televisão para que Bran se distraísse enquanto ela tomava banho. Decidiu por não lavar o cabelo devido ao frio, apenas penteando-o novamente, para parecer um pouco mais arrumada. Escolheu uma nova roupa, um pouco mais quente que a última utilizada. Em pouco tempo, havia tomado seu banho, passado uma leve maquiagem e estava pronta.
― Onde vamos comer? ― perguntou ao entrar no carro de Bran.
― Você gosta de massa?
― Claro, quem não gosta de massa?
― Aparentemente só duas pessoas que eu conheço. Uma delas é minha mãe.
― Sua mãe não gosta de massa? Ela é humana? ― Sara perguntou antes que conseguisse raciocinar o que falava, se sentindo constrangida pelas próprias palavras, mas Bran riu.
― Na maior parte do tempo eu acho que não. Ela não gosta de nada, na verdade. Muito menos do Sr. L. Acredita que ela decidiu não me ajudar mais com os custos da faculdade por eu ter aceitado esse estágio?
― E porque você aceitou?
― Porque não preciso depender dela. Posso me virar sozinho, embora vá ficar um pouco mais apertado.
― Nesse caso, você realmente não deveria gastar dinheiro comigo, Bran.
― Bom… Ainda tenho alguma coisa guardada e não é um almoço que vai acabar com isso.
― Se você escolher esse restaurante, é sim. ― eles estavam parados em um restaurante italiano, onde os preços não eram muito amigáveis, na concepção de Sara.
― Você não pode voltar atrás agora. ― disse ele a empurrando para dentro do restaurante. Era um lugar grande e bonito, com pisos negros de mármore contrastando com uma parede clara, com colunas coríntias adornando em alguns pontos. As mesas eram de madeira, com toalhas em um padrão xadrez vermelho e branco. Foram recebidos por um senhor de meia idade que os ofereceu uma mesa confortável, próxima a uma lareira, o que deixou Sara extremamente grata. Uma vez acomodados na mesa e com os pedidos feitos, ambos se encararam com a sombra de um sorriso no rosto, incapazes de desviar o olhar, até que Bran o fez, tomando um gole de sua água. ― Obrigada por me fazer companhia Sara.
― Você mencionou que queria ficar longe de casa por um tempo, está tudo bem, Bran? ― Sara perguntou curiosa.
― Não há nada de errado realmente, só… as coisas andam um pouco tensas ultimamente.
― A rixa da sua mãe com Sr. L?
― Antes fosse ― ele riu ― com eles eu sei lidar bem. Não, meu problema é com Elle, minha namorada. Moramos juntos há um ano, mas… De uns tempos pra cá tem algo estranho acontecendo.
― Estranho? ― repetiu Sara, incentivando-o a continuar, ainda com a palavra “namorada” ecoando em sua mente.
― Não sei. Brigas bobas, no início, mas agora ela anda um pouco distante.
― Talvez seja normal, finais de ano sempre são movimentados.
― Talvez. ― Houve uma pausa quando o garçom colocava o vinho escolhido por Bran em suas taças. ― De qualquer forma, não te chamei para te chatear com meus problemas, Tighearnach. O que está achando do estágio?
― Maravilhoso, eu nunca pensei que eu iria ver tudo o que eu estudo assim tão de perto. É bem diferente do que imaginei… E muito melhor também.
― Sim, adoro trabalhos como esse. Leonard sempre dá um jeito de incluir várias disciplinas no meio.
― Você e o Sr. L são parentes ou algo assim? O sobrenome de vocês…
― É o mesmo, eu sei ― Bran tomou um grande gole de sua taça, a reabastecendo logo em seguida com a garrafa deixada na mesa pelo garçom. ― Ele é meu avô, de certa forma. Adotou meu pai ainda pequeno e o criou como seu próprio filho. Sempre foi muito presente, apesar da minha mãe realmente o odiar.
― Mas como ela consegue não gostar dele? Ele é tão simpático. ― Sara lembrou do olhar atencioso e sorriso fácil do professor, sempre solícito e preocupado com seus alunos.
― Ela é reitora de uma universidade rival. ― Bran deu de ombros. ― Tentou contratá-lo de todas as maneiras possíveis, mas depois de algumas afirmações sobre descaso com alunos e lavagem de dinheiro, eles acabaram criando certa… Inimizade, eu diria.
― Reitora? E o que faz aqui então?
― Eu a convenci de que não havia nenhum mérito em passar em uma universidade em que sua mãe é a reitora e não cairia bem no meu currículo futuramente. Então, vim para cá. Mas de uma maneira ou de outra o sobrenome Mackenzie me persegue, a maioria deles sabem todo meu histórico familiar antes de sequer me ver e pensam que eu seria uma ótima aquisição. ― O silêncio tenso que se seguiu foi apenas quebrado pelo garçom, trazendo dois pratos de macarrão ao molho branco com legumes e parmesão.
― Bran… ― chamou a atenção dele, apertando sua mão por alguns instantes antes de soltá-la e tomar um gole de vinho, se voltando ao prato a sua frente ― Sei que não é muito, mas… Você está indo muito bem aqui na universidade e eu sei que vai dar tudo certo. Tanto com sua família quanto com Elle.
― Eu espero mesmo que sim ― ele sorriu, começando a comer logo em seguida ― Às vezes fica difícil de acreditar.
― Se precisar de alguma coisa, mesmo que só de um ombro amigo, você sabe até onde eu moro. E onde eu trabalho. E onde eu estudo.
― Estou me sentindo um verdadeiro Stalker agora.
― Talvez você seja um pouco.
― Talvez, mas quem pode me culpar? ― ironizou ele.
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