Wasteland

8 Sarah e Sarah


Sarah e Sarah.

Aquilo foi feito para ser uma imitação de couro, presumiu a loira. Uma falsificação mal feita ou um original muito, muito velho. Era uma jaqueta preta, que agora já perdera um pouco a cor, mas ainda possuía predominância escura. Lembrou do sol e do calor infernal que estavam lá fora, e decidiu não usá-la. Ficou apenas com a calça de tecido desconhecido e de um bege nem tão claro. A camisa era sem mangas, pensou num primeiro momento. Na verdade tinham sido rasgadas a muito tempo, talvez nem sendo obra dos irmãos. Sua cor original era branca, sua cor de agora era alguma coisa próxima disso. Não tinha estampa nem dizeres, e ficou muito grande nela. Uns dois números acima, chutou. Nem tinha ideia do seu tamanho de vestimentas. De qualquer forma, pouco importava.

Com exceção da calça, que teve de usar um cinto para segurá-la a cintura. A peça era quase tão feia quanto todo o resto, tendo algo parecido como mordidas em sua superfície, além de uns furos a mais que serviram um dia para alguém mais magra que ela, se é que isso era possível. As botas foram as únicas que serviram perfeitas. Eram de cano longo, pretas e quase podiam ser consideradas bonitas. Também estavam, como qualquer coisa naquele mundo em que acordou, sujas e empoeiradas.

Faltavam agora só as peças íntimas, mas essas preferiu deixar por sua própria conta, não tinha coragem de pedir aos irmãos por elas. Esse era um dos motivos, o outro era um certo receio de descobrir que eles na verdade tinham. O que seria algo ligeiramente perturbador.

Deu uma última olhada naquele espelho velho que encontrou pelo local. Era pequeno, não muito maior que a palma de sua mão. Usou-o para verificar o estado de seu rosto. Não se achou muito diferente dos zumbis que encontraram no hospital. Esses, ao menos, tinham a desculpa de serem sacos esqueléticos ambulantes. Já ela, estava demasiadamente magra. Mesmo não lembrando de momentos passados de sua vida, supôs que jamais estivera num estado como aquele antes, e se um dia passou pela sua cabeça manter aquela aparência anoréxica por quaisquer motivos, aquilo acabaria hoje.

Passou a mão pelo rosto. A impressão que teve foi de sentir primeiro os ossos e depois a pele. Aquilo, mais a aparência acabada e cansada quase fizeram-na vomitar de novo, se ainda houvesse alguma coisa no seu corpo para isso. Deu uma última olhada no cabelo e deixou o espelho onde encontrou. Segurou e puxou os fios louros para trás. Parecia pegar num monte de palha. Fez um rabo de cavalo e tentou passar por ele um prendedor que não existia.

Um gesto automático, concluiu. Talvez fosse assim que usava seu cabelo antes de perder a memória. Aquele movimento ficou marcado em seu cérebro e a medida que segurou e alisou com força os fios ele foi ressurgindo e realizado sem ela ter consciência. Bom, pensou. Mais uma coisa que descobria sobre seu “eu” passado.

Deixou-o em paz por enquanto e um prendedor foi adicionado à sua lista mental de coisas a se comprar, ou conseguir, que seja. Os fios molhados caíram até o pescoço. Uma franja indesejável foi jogada ao lado. Com o casaco de couro vagabundo em mãos, abriu e fechou a porta. Deu de cara com mais uma sala cheia de equipamentos e coisas espalhadas pelo chão. Nas estantes dessa, ao menos, haviam livros e ela sentiu uma curiosidade de abri-los. Mas não era tão grande para fazê-lo agora, tinha de dar prioridade ao seu estômago que não via nem o sinal de comida havia sabe-se lá quanto tempo.

Não demorou para achar Rob e Mav. Estavam em outro cômodo da casa. Um pouco mais apertado que os outros, mas com espaço o bastante para conter uma mesa para quatro pessoas e três cadeiras. Reconheceu pelo formato delas que a quarta era a que estava em frente ao banheiro. Ficou parada no meio daquilo que poderia ser chamado de cozinha, formulando uma desculpa e em seguida um abuso, que na verdade era um pedido, de aproveitar-se mais um pouco da hospitalidade deles. Suspirou aliviada quando ambos fizeram-lhe sinal para sentar na mesa. Ela o fez sem delongas.

Puxou a cadeira e sentou. Depois perguntou-se mais de uma vez como era possível ter o seu nome escrito na louça. O seu recém adotado nome, na verdade. Sarah estava escrito em letras contínuas e feias. Uma tinta especial que Rob fez e Mav pintou.

- Vocês... – Nem acreditou no que iria perguntar. Parecia ridículo demais. – Botam nomes em seus próprios pratos? – Deu uma risada para desconversar. – Que bonitinho...

- Não. A gente botou nesse para diferenciar. É o prato da Sarah, a iguana dele.

- Vocês me deram... o prato... que a iguana come...?

- É. Mas relaxa. A Sarinha não vai se importar. Ela gosta de visitas.

- V-vocês... vocês...

- Sim, lavamos. Duas vezes.

Sarah viu de relance algo pular de uma prateleira. Fez um barulho considerável quando tocou o chão. Não olhou para ver o que era, concentrava-se no prato com o nome de uma outra Sarah que não era ela. Decidiu que não iria comer. Ao menos não naquele prato. Pediria um novo para os irmãos, ou mesmo comeria na mão. Mas se recusava a comer no prato de um animal. Principalmente um réptil frio e nojento.

Sentiu alguma coisa enroscar em uma de suas pernas, e depois sair e arrastar-se sobre a outra. Gelou. Só podia ser uma coisa. A loira olhou para o chão, em direção as suas botas longas e escuras. Um rabo acabava de desenrolar-se de uma delas, e postada ao lado da moça, deitada estarrada e confortável no chão, estava Sarah.

Ela era cinza e tinha o tamanho de um cachorro.

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- Isso é normal? – Referiu-se à iguana.

- A Sarah? Sim. – Respondeu Mav à loira. Ele sentava em um sofá com duas estampas diferentes. Ao seu lado, ocupando o restante do móvel, o animal comia algo em um pote azulado. Eram os restos do almoço do trio.

- Ela não é, tipo, mutante? Por que isso ai é maior que um cachorro.

- Depende do cachorro. Ela é menor que um pastor alemão, por exemplo.

- Claro, se fosse maior que um pastor seria um dinossauro.

- Não fale assim dela. A Sarinha gostou de você – Deu uma cutucada na cabeça da iguana.

- Tem certeza que ela gostou de mim? – Perguntou desconfiada. O de óculos escuros assentiu e fez carinho no animal de novo, que deu as costas para os dois e concentrou-se em sua comida.

- Agora temos que pensar no que fazer com você. – Disse e cruzou os braços.

A moça ficou em silêncio. Tinha tanta ideia do que fazer quanto ele, ou seja, nenhuma. Mav, ao menos, tinha a vantagem de conhecer o local e as pessoas que ali viviam, podia pensar em alguma coisa.

A loira ficou em silêncio. Os braços cruzados do rapaz quase fizeram-na repetir o gesto. Decidiu-se por cruzar também, mas as pernas. Ambos, em poses pensativas, refletiam no passo seguinte que teriam de dar. Mav conhecia a todos naquela cidade, e também a muitos em agrupamentos próximos. Mas não lhe veio iluminação nenhuma sobre o que fazer com a loirinha que não obstante em acordar para a própria vida, veio cair na dele sem mais nem menos. Por alguns poucos momentos pensou em dar-lhe uma pequena quantia qualquer de dinheiro e deixá-la virar-se sozinha no mundo. Mandaria ela numa caravana para uma cidade maior e com mais pessoas. Lá teria mais chances de encontrar alguma coisa pra sua vida, ou mesmo lembranças do seu passado.

Desistiu logo da ideia por um motivo obscuro. Tentou refletir sobre, mas a única conclusão que chegava era um simples afirmação de que aquilo seria errado. Considerou também que sua vida não era das mais atarefadas, e ocupar-se com alguma distração fora do comum como a de achar informações para a moça não poderia ser tão má experiência assim. Rob sugeriu alguns lugares para levá-la: o templo, que estava sempre lotado de gente disposta a praticar alguma boa ação, além de senhoras que sabiam da vida de todos que moravam ou já moraram em Slum; o Four Ways, bar e casa de entretenimento, que sempre lotado de viajantes e locais poderia servir de alguma coisa para eles; e a delegacia, que mantinha algumas fichas de todo mundo que já cometeu alguma coisa de errado naquela cidade ou nas proximidades. Eles preferiam que não, mas talvez fosse o caso da loirinha. Foi a primeira opção a desconsiderar, porque poderia trazer problemas para Sarah e provavelmente para os dois irmãos também, e segundo que já à algum tempo mantinha certa distância do xerife Perlman, e pretendia continuar assim.

Restando apenas o Four Ways e o templo, achou melhor consultar a maior interessada no assunto. Olhou para a Sarah loira, que olhava para a Sarah iguana, que não lhe retornava a atenção. A moça olhou para o réptil deitado no sofá. Praticava um ritual curioso. Mordiscava os pedaços daquela carne que a humana mal teve coragem de tocar, depois de mastigada e engolida, mexia a cabeça. A crista e o papo balançavam, principalmente a última.

Sarah forçou-se a rir. Precisava rir ao menos uma vez naquele dia. Acabou sendo a coisa mais nojenta – que não queria matá-la – a proporcionar isso. Mav resolveu interromper o momento, apesar do agrado de ver finalmente a felicidade estampar-se no rosto da jovem.

- Sarah. – Esperou que essa lhe desse a atenção. Coincidentemente, as duas o olharam, mas o réptil logo voltou para seu almoço. – Há alguns lugares que podemos ir para sei lá, ver se achamos alguém que conhece.

- Lembra dos papéis que achamos no meu quarto? – Pensou em corrigir-se, mas desistiu. Apenas ela que deu-se o trabalho de procurar alguma coisa há algumas horas atrás. O outro recusara-se. – Eu dei uma lida neles após o almoço. Queria ver se achava o meu nome, mas nem eles foram capazes de descobrir. Eu era a paciente 117, parece que eu já dei a entrada no hospital sem documento algum. – Ela pareceu entristecer-se um pouco. – Mas eu vi um nome em comum em todas as fichas. Era um tal de doutor Evans Park. Talvez... pudéssemos procurar por ele?

- Provavelmente ele morreu no ataque. E mesmo que nós encontrássemos, de que ajuda ele seria?

- Não sei! Ele poderia lembrar de alguém que me visitou no hospital. Poderia me dar alguma pista para encontrar essa pessoa! – Sentiu-se idiota em fazer tantas suposições cegas. E ficou indignada com o pessimismo de Mav.

- É um tiro no escuro. Podemos perder tempo procurando por esse médico e no final ele está morto mesmo.

- Eu não te culpo por achar isso absurdo demais. Mas é a minha única pista, por mais idiota que seja. – Meneou os braços. Tentou encontrar uma posição confortável. Não conseguiu. – Olha... você me ajudou muito, e eu sou realmente grata por isso, e não vou ficar chateada se não quiser me ajudar agora. Só peço alguma indicação ou coisa parecida. A partir daqui eu me viro.

- Tem a Nina, que cuida da clínica. Acho que ela é médica de verdade, talvez conheça esse Park, ou mesmo tenha ouvido falar dele.

- Onde é essa clínica?

- Fica mais ao norte, do lado da torre de rádio. Dá uns 15 minutos de caminhada.

- Obrigada. – Ela levantou e foi em direção a porta. O andar era lento e os passos exitantes.

- O que vai fazer se não der em nada?

- Eu...

- Onde vai ficar? Por que mesmo se você conseguir alguma coisa, não vai poder sair agora, nesse Sol. E se precisar ir para outra cidade, também não poderá ir a pé.

- Já disse... – As palavras quase não saíram. – Eu me viro a partir de agora. – Completou com um sorriso mentiroso.

Mav levantou e foi na mesma direção dela. Passou, pegou o chapéu pendurado próximo a saída e abriu a porta.

- Vamos. Dá só dois minutos de carro.

A loira previu que jantaria com a iguana novamente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.