Wasted Sacrifice

3 Transformação


Notas iniciais
Demorei a postar, mais do que eu previa. Mas está ai o segundo capítulo, aproveitem. :D

Minha refeição foi desconfortável. Exatamente por aparentar isso, eu divertia a todos que me observavam, curiosos. Principalmente a garota de olhos verdes que me fez esquecer como respirar há 10 minutos atrás. Ninguém nunca havia conseguido arrancar uma reação dessa de mim, e fiquei bastante atordoada. Que tipo de efeito poderoso o olhar dela com o meu, combinados, fariam? Afastei esses pensamentos e voltei minha atenção para a xícara de café a frente, de forma inútil. Voltei a questionar como me surgia a vontade de ir e, ao mesmo tempo, ficar naquele jogo de olhares com uma desconhecida. Decidi mais uma vez fitá-la de forma penetrante e ver até quando sustentaria tal pose; mas não suportava poucos segundos mirando tais esmeraldas que cintilavam em sua íris. Aquilo estava começando a parecer um teste de resistência.

Um pouco inconformada e levantando como quem perdia uma batalha, fui até a recepcionista da pequena lanchonete e paguei, virando-me para ir embora. No caminho até a grande entrada, ousei outro olhar. Ela me deu um sorriso tímido e baixou a cabeça para sua refeição. Soltei um risinho irônico em resposta. Tudo bem, eu estava agindo de forma estranha por causa de uma garota que nunca vi na minha vida? O que estava acontecendo comigo? Balancei a cabeça negativamente e coloquei as mãos nos bolsos do meu moletom cinza. Só costumo andar assim, camisa/moletom, jeans e tênis. Nada mais básico que isso. Nada mais complicado e chamativo do que isso. Não sou acostumada com olhares, e talvez por isso a garota dos olhos esmeralda tivesse conseguido me tirar do sério. É uma boa justificativa.

No colégio, ninguém me nota entrar ou sair de lá. Penso que caso eu sofresse um acidente e viesse a morrer, perguntariam “Mesmo que ela estudava aqui? Nunca a vi nem nos corredores” ou nem perguntassem nada. E prefiro assim. Não tenho que me preocupar com gente se envolvendo nos meus problemas, me perguntando coisas inconvenientes ou fazendo fofoca. Vivo num grupo de pessoas que são completamente anônimas e neutras, uma perfeita zona de conforto. Quer coisa mais agradável que isso? Os populares sempre naquele seu esforço continuo e clichê pela “fama” e, os renegados sofrendo nas mãos deles. É tudo tão comum e chato que eu não dou a mínima; por isso a neutralidade.

Já no quarto da minha mãe, vi que estava pronta em sua cama e com o soro devidamente posicionado, no cateter de sua mão esquerda. Assistia a TV calmamente, e só notou minha presença quando eu fiquei ao seu lado.

-Então, o que está achando de tudo? – perguntei num tom descontraído.

-Mais do que eu esperava. É tudo tão brilhante e limpo que chega a ser bonito – disse gargalhando – e eu confio bastante no Joey. Ele era um rapaz que no colégio não aparentava querer isso da vida e, hoje é um grande cirurgião. Fiquei muito feliz por ele. – terminou, mirando a paisagem da janela a direita.

-Ele é legal, confio também. Fico mais tranquila com um conhecido cuidado de você. Agora eu tenho que ir mamãe, meu colégio vai começar daqui a pouco e não trouxe a mochila. – respondi, dando um beijo em sua testa e me dirigindo a porta – Ah, e mais tarde eu estarei de volta. Disseram que posso dormir aqui, tem uma cama ali embaixo do armário e basta desmontá-la. Até, mãe.

Saí apressada, agradecendo ao Joey que estava novamente no balcão e me dirigindo ao elevador. Logo alcancei a rua e chamei um táxi para casa, onde apenas subi aos pulos para pegar a mochila jogada em cima da cama. Fiz tudo rapidamente, pois graças a condição de minha querida mãe, eu havia acumulado um número considerável de atrasos no colégio; isso porque antes de sair, eu me certificava de que Grace, senhora simpática com seus 45 anos e nossa vizinha, chegaria para fazer-lhe companhia com tudo pronto. Era uma grande quantidade de remédios a serem tomados, em horários muito específicos. Por obrigação, eu já havia gravado todos.

Olhei o relógio. 6h45, bem a tempo de esperar o ônibus. Alguns minutos para vê-lo chegar e me lancei dentro dele. Sentei no meio e entrei num estado de reflexão ao observar a janelinha. Mas apenas uma coisa me veio a mente: aqueles olhos cor de esmeralda e o sorriso tímido. Tudo bem, eu teria que concordar, ela é linda. Caso entrasse em qualquer lugar, seria vítima de olhares curiosos e desejosos. E por segundos, prendi a respiração novamente... Reconheci aquele cabelo preto longo alguns bancos a frente. Mas como...? Ela estava no hospital minutos antes, não é possível. Perdi a linha de raciocínio, deixei o queixo cair. Poderia não ser ela, óbvio. O ônibus começou a diminuir a velocidade, indicando que já estávamos na entrada do colégio. Levantei sem tirar os olhos dela e fui caminhando até a porta da frente, tentando focar seu rosto, mas saiu rapidamente acompanhada de mais 3 amigas e sumiu de vista na multidão da entrada.

Decepcionada por não ter confirmado minha suspeita, fui lentamente até a minha sala. Teria que ver no intervalo se a encontraria novamente, ai confirmaria se era a mesma. A aula de física foi monótona, mais por causa da minha falta de interesse do que pelo assunto. Só fazia pensar na garota. Refletindo melhor, não havia como ser ela. Se estava internada em um hospital há minutos atrás? Eu tinha sua imagem nítida na memória e sabia que, nunca me enganaria quanto aquele cabelo preto longo, um pouco bagunçado e levemente ondulado.

O professor fez uma pausa, e afastou meus pensamentos.

-Classe, temos uma nova aluna. É a Lori Ablaze, que veio da cidade vizinha, Gordon. Pode vir, senhorita. – chamou ele, sinalizando.

E vi a mesma garota. A mesma do hospital. O mesmo sorriso tímido. Aquela que me fez esquecer como respirar... Mas seus olhos não eram os mesmos. Cintilavam num azul que apenas o céu pode ter. Assim conheci Lori Ablaze, a segunda garota a fazer meu dia e minha mente, uma bagunça.

Notas finais
Erros, críticas, sugestões e elogios serão bem-vindos. ^^