Capítulo 9

Amélia White

– Onde fica o Warriors of Light? – perguntei.

– Indianapolis. – respondeu Mia.

– E para onde vamos? – Josh perguntou.

– Segundo o mapa... – disse ela – Miami.

– Dá 435 quilômetros. – disse ele.

– 435 quilômetros? — engasguei – É muito!

– Ah, é? Agradeça por irmos de trailer. Eu tive que ir até Little Rock por túneis subterrâneos só para te buscar! – disse Mia.

– Você mora em Little Rock? – Josh perguntou.

Assenti.

– E vocês? – perguntei.

– Moro em Atlanta. – disse Josh – Mas passo as férias no Warriors of Light. Sem contar quando eu fico “doente” nos dias da semana.

– Sortudo. – disse Mia – Meu pai quer me colocar em um colégio interno, então não vou mais ficar “doente” nos dias da semana. – ela bufou.

– Uou, colégio interno, que legal. – eu disse – Soube que eles tem os melhores professores.

– De que adianta? – ela perguntou. – Ninguém presta atenção nas aulas, mesmo.

– Está brincando? – perguntei – Deve ser um colégio dos sonhos! Com colegas de quarto, uniformes com gravata, garotas riquinhas e chatas... parece até um filme do tipo “Garota Mimada”.

– É. Talvez. – ela disse – Mas eu prefiro o Isaac Newton High School. Sem colegas de quartos, sem uniformes com gravata... a única coisa desse tipo lá são garotas riquinhas e chatas.

– Isaac Newton High School? – perguntei – Não é aquele colégio particular super caro em Los Angeles?

– É. – Mia se levantou o banco e esfregou as mãos na calça jeans. – Vou pegar uma água.

Quando Mia saiu, Josh olhou para mim, com os olhos arregalados.

– Está louca? – ele perguntou.

– Louca? Como assim louca?

– Olha, eu sei que você é nova aqui e tal, mas há algumas coisinhas que deve saber sobre Mia. – disse ele – O pai dela é um homem muito rico, tão rico que humilha o Tony Stark e o Bruce Wayne – que bela comparação – Ela odeia o pai, e os dois vivem brigando porque ele quer transformá-la em uma dama, coisa que ela não é – Jura? Não tinha percebido – E...

– E a mãe dela? Alguém deve ajudar ela, né? – perguntei.

– A mãe dela morreu, Amélia. Quando ela tinha dez anos.

– Ah... deve ter sido... triste.

– É, com certeza foi. – Josh suspirou. – Ela vive com a madrasta, que segundo Mia, é ela que dá as ideias de tornar Mia uma dama para o pai dela. E também tem os meio-irmãozinhos, filhos do pai com a madrasta. Eles infernizam a vida dela.

– Uou, isso deve ser...

– E o pai dela não quer que Mia dome os elementos. Ele quer que ela seja uma pessoa normal, e não...

– E não uma praga na sociedade. – disse Mia, com uma garrafa d’água na mão – “Tem ideia do que vão pensar se descobrirem que um dos Jones é uma aberração.” – Mia se sentou no banco – “Então trate de disfarçar sua mutação genética, e aja como uma pessoa normal.”

– Ah, Mia, me desculpe, eu... – tentei falar, mas ela me interrompeu.

– Não, tudo bem. Eu vou lá para frente. John deve estar precisando de companhia. – ela se levantou e andou até a parte da frente do trailer, e pulou para o banco de carona.

***

Eu e Josh estávamos sentados nos bancos de couro do trailer, assistindo The Big Bang Theory. O episódio terminava quando Penny, a garçonete loura vizinha dos garotos cantava “Gatinho Fofinho” para o robô/computador ambulante de Sheldon, o cara alto e magro que era seu vizinho antissocial e morava com seu namorado.

Josh desligou a TV antes de os créditos aparecerem.

– O que foi? – perguntei.

– Ouvi algo. – ele olhou em volta.

– Não ouvi nada.

– Era de se esperar.

Ele pulou do sofá e correu até a parte da frente do trailer.

– John, problemas. – ele disse.

John parou o trailer tão bruscamente, que Mia que estava dormindo ao seu lado foi lançada para frente, e logo voltou para trás.

– O q... – ela estava com os olhos arregalados em uma expressão confusa.

– Josh ouviu algo. Perigo. – disse ele.

John soltou o cinto e ajudou Mia à tirar o mesmo. Ele andou de um lado para o outro no trailer.

– Mia, pode emprestar uma faca para Amélia? – ele perguntou.

– Ei, eu posso usar meus poderes! – protestei.

– É perigoso demais, Amélia. – disse Mia – Os perigos de fora não são como Brad, Rick e Jack. Nem como os bonecos da arena, programados para ataque. São terríveis. Além disso, você é uma iniciante, seus poderes estão fracos. É melhor não usa-los enquanto isso.

“Pegue. – ela jogou uma faca para mim – Agora, vocês prestem atenção. Eu tenho um plano.

***

Eu e Josh andamos lentamente com as armas em punho, na parte de trás do trailer, preparados para atacar o que quer que esteja aqui.

Fazer silêncio foi um difícil desafio com as folhas secas se quebrando aos meus pés. Meus tênis all star – Chuck Taylor – também não ajudaram muito. Eles são grandes e pesados, sem contar que tem duas solas. Senti uma leve inveja de Josh. Ele era alto, magro e ágil, nem deve saber o que é atrapalhação ou barulho.

Despertei de meus pensamentos quando ouvi um grito. Era alto, agudo e feminino.

Era o grito de Mia.

–Rápido! – Josh sussurrou.

Corremos em posição de ataque. Quando fomos atacar a tal coisa, nós vimos... nada. A coisa tinha simplesmente desaparecido.

Ouvi um barulho de folhas e galhos se quebrando. E uma grande sombra pairou perante eu.

– CUIDADO! – gritou Josh.

Mas era tarde demais. Algo pesado atingiu a lateral de meu corpo e fui lançada para o lado.

– Aii.. – gemi.

Ouvi um grito de Josh. Ele estava me dizendo alguma coisa... mas o que?

Algo bateu na minha testa. Era duro e estava pendurado no meu cabelo. Sua cor era rosa e tinha forma... de borboleta.

Arregalei os olhos, enquanto me lembrava da conversa que tive com Lindsay.

“O dormitório estava vazio quando coloquei a última peça de roupa na mala. Lutando para fechá-la, pulei em cima dela.

– O que está fazendo? – Lindsay perguntou, entrando no quarto.

– Fechando a mala. – respondi.

– Quer ajuda?

– Com certeza.

Ela riu e me ajudou a fechar aquela coisa. Peguei um zíper e ela outro.

– Você vai mesmo? – ela perguntou.

Assenti.

– É tão injusto. – Lind suspirou.- Quero dizer, você mal chegou e já vai para uma missão.

– É tudo muito injusto mesmo. Quero dizer, Mia, Josh e John até tentaram me ajudar, me treinar... mas se senhor Johnson não tivesse mandado eles nem se preocupariam comigo. – Lind assentiu.

– Sei como são as coisas, Mellie. Mas eu me preocupo com você. E vim te dar um presente de despedida. – ela tirou uma fivela do cabelo, deixando sua franja cair sobre o rosto. A fivela era rosa e azul clara, com a forma de uma borboleta. Do outro lado havia uma fivela grudada.

– Oh, obrigada pela... fivela.

Ela riu.

– Não é uma simples fivela. Se você a tirar do cabelo e dizer palavras em latim, ela se transforma no que você quiser. Por exemplo: Aperi, Air. – a fivela se transformou no famoso guarda-chuva de Lindsay – Viu?

– Obrigada Lindsay. Quando eu voltar, se eu voltar, vou te devolver em perfeito estado.

Ela sorriu.

–É bom mesmo. Agora vamos puxar esse zíper, você precisa de uma mala melhor. “

Me levantei com muito esforço, e segurei a fivela com as duas mãos.

– Aperi. Aqua.

A fivela imediatamente se transformou em um cajado prata com uma safira azul na ponta, e água foi lançada em uma grande camada vermelho-escura.

A camada começou a se mexer, e quando eu vi, olhava para mim. Era a coisa mais horrível que eu já vira. Devia ter uns 30 metros de altura, era vermelho escuro com camadas de dourado e bem... era uma naja. Ela tinha o rosto deformado. Metade estava coberto por uma grande cicatriz fazendo seu olho pender para o lado. O nariz eram duas fendas, sendo que uma era mais estreita que a outra. A boca era gigante, e os caninos bem afiados. A cobra olhou para mim e sibilou, enquanto girava seu grande rabo em um giro de 180° graus. Tropecei na cauda e corri cambaleante para me esconder atrás de uma árvore. Após minutos de silêncio virei, apontei meu cajado para o monstro e gritei:

– Proluit!

Um redemoinho saiu do cajado e acertou o rosto da naja.

– Tsunami!

A cobra foi lançada para trás, e caiu sobre umas árvores, derrubando-as.

Corri até ela e me preparei para mais um golpe. Ela se levantou com dificuldade, mostrou as presas, se lançou para frente e... uma espada atravessou seu peito. Quando a espada foi retirada a cobra caiu no chão, ardendo em chamas. John estava lá, segurando a espada.

– Você está bem? – ele perguntou.

Assenti.

– T-tudo bem com a Mia?

Ele deu de ombros.

– Só um corte na barriga. Ela vai sobreviver.

Soltei uma risadinha e o segui de volta ao trailer.