Pois é na madrugada que aqueles pensamentos que calamos durante o dia ergue a voz, violando os sonhos e se tornando estrondoso diante o silêncio do mundo.

Tão irônico como se torna um grande ciclo vicioso, o desgaste matinal se estende durante o resto do dia, até chegar a noite e a tentativa falha de sono. Em meio á sonhos, devaneios, vozes, lembranças fragmentadas de sua presença .

A cicatriz que ainda não cicatrizou pulsa. Há quanto tempo vem perpetuando minha mente exatamente no mesmo horário? Já não lembro mais. Por mais quanto tempo rescindirá cravada sob minha pele?

E a fonte que tantos dizem secar depois de tanto tempo de sofrimento, quando finalmente irá acabar o reservatório? Ainda choro como uma criança solitária.

Eu já deveria saber, depois daquele dia nada mais voltaria ao normal. Em cada sorriso, vejo suas lágrimas. É doloroso pensar que desejo a destruição de tudo que defendi por mais uma visão de seu sorriso ridículo e esnobe.

Nunca mais deixei se aproximarem de meu coração, muita coisa mudou. Já não sou mais a mesma pessoa imperativa, doce e quente como outrora conhecestes.

E a culpa é unicamente tua.

Nas possibilidades de que haviam, você arriscou todas suas forças, toda sua história em uma. E eu não poderia deixar realizá-la.

E naquele momento, eu vi que não poderia fazê-lo regredir. Nunca jamais eu teria o direito de fazê-lo negar toda tua história, todo teu sofrimento.

Pergunto-me quantas vezes você se sentiu assim como me sinto, com o sangue do que ama em mãos. Enquanto minhas lágrimas caem nelas, posso ver os filetes de sangue após a explosão de nossos golpes.

E lembranças saltam-me a mente.

Seus olhos negros, o vermelho escorrendo por eles enquanto você tentava inutilmente ver o céu.

–Então é isso?-Você dizia com suas últimas forças. -Então aqui é o fim dos Uchihas. -Sorria.

Me aproximei com o coração não sabendo mais se batia. Sua força vital esvaecia. Caí de joelhos ao teu lado.

–E apesar de tudo... -O timbre abaixava. — Eu sempre te amei... -Sussurros.

Ah, essas palavras tão afiadas como navalhas...

E a ironia do tempo. Aquelas foram suas últimas palavras, sequer pode ouvir as minhas, mas gostaria de imaginar que de onde você esteja possa agora ouvir.

Nunca julgarei o caminho que decidistes seguir, e eu também sempre te amei, e sempre vou lhe amar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!