War of Hearts
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Outra coisa, eu estou muito acostumada a assistir The Walking Dead em inglês então eu não sei exatamente quais palavras eles usam na tradução (já que ninguém usa a palavra zumbi), então eu deixei em inglês mesmo a palavra "walkers".
Dito isso, boa leitura.
Beijos de luz.
Três semanas. Fazem exatas três semanas do nosso primeiro encontro com Negan. Três semanas que a vida de todos em Alexandria parece ter virado um inferno maior do que já era. Fomos obrigados a assistir o assassinato brutal de Glenn nos fazendo sentir extremamente impotentes. Os Salvadores, então, pegaram metade de nossa já escassa comida e munição, novamente tudo mudou. Rick está completamente perdido e ausente culpando-se de tudo o que havia acontecido e sem ser capaz de formar mais de duas frases coerentes. Maggie nem mesmo voltou para Alexandria, todo o seu luto pelo marido foi em Hilltop enquanto ela lutava entre a vida e a morte para não perder o bebê. Eu não consigo mais ficar em Alexandria, todo aquele sentimento de estar sufocado quando eu cheguei parece ter voltado. Sendo assim, o único modo de ocupar minha mente é sair à procura de suprimentos todos os dias. O problema é que não importa o quanto eu insista e discuta, eles não me deixam ir sozinho e apesar de todos os meus protestos a única pessoa disponível para me acompanhar é Paul Rovia, mais conhecido pelo apelido ridículo de Jesus.
Paul mora em Hilltop e é um dos únicos de lá que realmente consegue lutar, mas por alguma razão ele insiste em passar a maior parte de seu tempo em Alexandria. Inicialmente nossas viagens eram silenciosas, vez ou outra, Paul tentava iniciar uma conversa, mas eu preferia simplesmente ignorar. Após alguns dias, porém, por algum motivo me senti mal por isso, por mais que ele me irritasse, ele estava ajudando uma comunidade que nem era dele sem receber nada em troca. Nossas conversas a partir de então eram curtas e sem muita emoção, mas isso parecia o bastante para Paul.
— Você é um péssimo motorista. – comentou uma tarde e eu apenas grunhi como resposta. – Sem ofensas. – acrescentou rapidamente e eu revirei os olhos tentando controlar minha raiva. Alguns segundos se passaram e percebi que o olhar de Paul ainda estava pairando em mim, senti a raiva passando por todo o meu corpo e freei o carro no meio da estrada.
— Faça melhor então. – respondi, saindo do carro e batendo a porta com força. Seu olhar era confuso enquanto me acompanhava dando a volta no carro, mas ele foi para o lado do motorista sem nem pestanejar.
O filho da puta realmente fez melhor. A partir desse dia eu não dirijo mais, não só Paul é melhor como também mais rápido, mas eu jamais admitiria isso em voz alta. A verdade é que desde o primeiro dia Paul me irritou de uma maneira inexplicável, bem antes dele bater em mim e Rick e bem antes dele roubar nosso caminhão, desde a primeira vez que botei os olhos nele, um sentimento estranho me acompanhava. Parte desse mau humor que parecia que jamais iria parar eu sei muito bem o que é: frustração por não encontrar alimento o suficiente para todos em Alexandria e a culpa pela morte de Glenn. Se eu não tivesse saído cegamente atrás de Dwight, Glenn não teria sido capturado e consequentemente estaria vivo para ver seu filho nascendo em alguns meses. Meu irmão sempre disse que devíamos agir racionalmente e não deixar o emocional tomar conta, meu desejo por vingança matou Glenn. Eu sabia muito bem, a culpa é minha.
— Você escutou alguma coisa que eu disse? – perguntou Paul com a voz suave e calma de sempre. Eu pisquei algumas vezes em confusão, não havia percebido que ele estava falando. – Onde estava sua mente? – perguntou em um tom curioso.
— Glenn. – imediatamente me arrependi do que disse, por que eu estava compartilhando de meus pensamentos com alguém que mal conhecia? E pior, alguém que eu nem mesmo suportava. Evitei olhar para seu rosto, mas só de ouvir o ritmo de sua respiração mudando eu sabia que ele havia sido pego de surpresa pela minha sinceridade repentina.
— Você sabe que não é sua culpa, certo? – perguntou com a voz firme e uma certeza irritante. Aparentemente os poucos momentos que já passamos juntos foram o bastante para que Paul aprendesse a me interpretar, não foi a primeira vez que ele falou algo sobre mim que eu nunca havia mencionado em voz alta.
— Você sabe o que ele estava fazendo na floresta aquele dia? – perguntei irritado e Paul assentiu com a cabeça antes de voltar os olhos para a estrada. – Então você sabe de quem é a culpa. – após isso ele não falou mais nada ou talvez tenha falado, eu não estava prestando atenção. O barulho do crânio de Glenn sendo esmagado por Negan ecoava em minha mente e sempre me assombrando, como uma avalanche de memórias e arrependimentos daquele dia.
Senti um nó se formando em minha garganta e uma ardência familiar nos olhos, apressadamente os fechei, eu não podia chorar na frente de Paul. Fraco. Disse a voz de Merle em minha mente, por mais que ele estivesse morto há meses, sua voz sempre voltava para me dizer que não sou bom o bastante. Meu coração começou a bater mais rápido enquanto eu procurava desesperadamente alguma coisa para desviar meus pensamentos, de tempo em tempo eu sentia o olhar de Paul em mim e isso só piorava as coisas.
— Olhe! – falou rapidamente enquanto parava o carro. – Uma fazenda. – senti certo alívio ao olhar para a casa aparentemente intacta, talvez finalmente acharíamos algo bom. – O que acha?
— Pode ser. – respondi após alguns segundos fazendo um grande esforço para minha voz soar impassível.
Descemos do carro em silêncio andando cuidadosamente pelo campo em direção a fazenda. Paul ia à frente por ser melhor em combates físicos e eu ficava atrás cobrindo sua retaguarda. Ao nos aproximarmos reparei que a pintura da casa apesar de escura e suja, estava intacta. O celeiro aparentava ser maior que a casa – fazendo-me lembrar da fazenda de Hershel – decidimos começar por ele, as chances de ter algo útil na casa era bem pequena. Paul foi andando confiante em direção ao celeiro enquanto eu olhava para os lados a procura de algo suspeito, ao olhar para o chão percebi que estava distraído o bastante para não ter prestado atenção nas marcas.
— Espere! – gritei inutilmente ao ver a porta do celeiro se abrindo e dezenas de walkers saindo imediatamente. Paul se livrou do que estava mais próximo e começou a correr em minha direção.
— Vamos! – chamou, puxando minha mão em direção a pequena floresta na nossa frente.
Paul era rápido e extremamente ágil, mas por mais que estivéssemos alguns minutos à frente tínhamos a desvantagem de que nós nos cansávamos, os mortos não. Eu mantive meu olhar em Paul, seguindo seu caminho e pisando onde ele pisava.
— Ali. – disse Paul tentando recuperar o fôlego enquanto apontava para o alto de uma árvore.
— Uma casinha na árvore para crianças não vai aguentar o peso de nós dois. – respondi ofegante, sentindo meu pulmão doer pela urgência de ar.
— Não seja tão duro consigo mesmo, você não está tão gordo. – senti uma onda de raiva, como esse idiota conseguia brincar em um momento como esse? – Se tiver uma ideia melhor...
Eu não tinha. Após bufar em resposta, comecei a subir apoiando nos restos do que um dia havia sido uma escadinha que levaria as crianças ao topo da árvore. O interior era digno de um filme de terror, brinquedos quebrados, pequenos móveis desgastados e alguns pedaços de madeira que davam a impressão de que iriam ceder a qualquer momento. Andei cuidadosamente para o outro lado em direção a uma das janelas para dar passagem para Paul que já estava no meio do caminho. Eu tinha que admitir, para uma casinha de criança ela havia sido muito bem construída. Exausto, me joguei no chão, ouvindo algumas madeiras rangendo que logo foi abafado pelos sons guturais de walkers que cercavam a árvore.
— Qual a chance deles derrubarem a árvore? – perguntou Paul com o sorriso que ele sempre tinha no rosto quando tentava me provocar gratuitamente, optei por não responder enquanto ainda estava lutando para recuperar o fôlego. – Desculpe. – disse alguns minutos depois, fazendo-me tirar o olhar do chão e voltar para ele que parecia bem chateado.
— Pelo que? – perguntei indiferente, mas me sentindo mal ao vê-lo infeliz pela primeira vez nessas últimas semanas.
— Por abrir o celeiro, acho que fiquei tão empolgado com a ideia de finalmente poder levar mais comida para Alexandria que me esqueci de conferir antes. – reprimi um sorriso ao perceber como Paul se importava tanto com uma comunidade que nem mesmo era dele.
— Não é sua culpa, eu devia ter visto as marcas no chão antes. – respondi com sinceridade.
— Uau, você realmente gosta de se culpar por tudo. – brincou Paul.
— Eu apenas sou realista e não fico com esse papo sentimental de merda em que vocês ficam tentando jogar a culpa em outras pessoas. – respondi irritado, levantando um pouco o tom de voz. Por mais que estivéssemos em lados opostos da casinha, ela era pequena o bastante para ainda estarem próximos e eu soar com muita mais raiva do que realmente estava. Senti uma leve culpa por descontar minhas frustrações em alguém que não merecia, lembrando-me do porque eu não conversava muito com as pessoas. Paul só parecia estar brincando comigo para melhorar meu humor, coisa que ele fazia com muita frequência em nossas buscas por suprimentos.
Em um momento de distração me peguei observando Paul, como fazia em raras ocasiões que ele não estava o olhando. Não era exatamente um ato consciente apenas acontecia e eu tentava não pensar muito sobre isso. A pouca luz do sol que restava estava iluminando quase todo o rosto de Paul destacando cada pequeno detalhe, principalmente seus olhos verde-azulados. Rapidamente meu coração começou a acelerar o ritmo e em meio ao nervosismo voltei a olhar para a janela ao meu lado. Isso não é nada, pensei.
— Em alguns minutos ficará escuro, acho que vamos ter que passar a noite aqui. – disse Paul em um tom quase indiferente e eu apenas o olhei sem saber o que responder. Por algum motivo que eu não conseguia descobrir, eu não achava uma boa ideia passarmos a noite aqui sozinhos.
— Ok. – respondi sem muita emoção procurando algo para me distrair, encontrei um caderno em baixo de uma das pequenas cadeiras do lugar e comecei a folheá-lo.
Era um caderno de desenhos, inicialmente tinham alguns animais e pessoas feitas por traços infantis. Um dos desenhos eram duas mulheres e uma criança, em cima estava indicado como “mãe, mamãe e eu”, sorri, mas logo senti uma tristeza pensando no que poderia ter acontecido com essa família. Mais algumas páginas a frente senti meu coração pesar ainda mais, a garota havia começado a desenhar walkers, mas não foi isso que o incomodou e sim o desenho de um homem de cabelos brancos e cara de mau apontando uma arma para uma de suas mães. Talvez um homem invadiu a fazenda e decidiu matar uma de suas mães, talvez ela passasse a maior parte do tempo na casa da árvore desenhando e talvez isso tenha a matado.
— Acho que você devia parar. – me assustei ao ver Paul se aproximando e colocando a mão em cima do caderno, minhas reações estavam tão óbvias ou ele estava me observando?
— Eu odeio esse lugar. – grunhi atirando o caderno para o outro lado da casa da árvore.
— Nós devíamos conversar para distrair os pensamentos das coisas ruins. – sugeriu Paul e eu o encarei. Isso quer dizer que ele também estava sendo assombrado pelas suas memórias? Ou só sentia pena por mim?
— O que você sugere? – perguntei dando-me por vencido e vendo uma luz surgindo em seus olhos.
— Eu não sei quase nada sobre você, me conte alguma coisa. – pediu, cruzando as pernas para ficar de frente para mim.
— Não. – respondi secamente. Eu não iria falar do meu passado, não para ele.
— Pode ser uma coisa boa. – insistiu e comecei a vasculhar minhas memórias, existia alguma memória boa sobre o meu passado?
— Queimar dinheiro é uma boa sensação. – respondi finalmente e Paul soltou uma risada.
— Por que você fez isso?! – perguntou indignado.
— Foi depois que o mundo virou essa merda, dinheiro não importa mais então eu usei para queimar uma cabana. – respondi lembrando-me daquele dia.
— O que tinha de errado com a cabana? – Beth. O pequeno sorriso em meu rosto sumiu instantaneamente enquanto o barulho da arma que matou a garota ecoava em minha mente. O tempo havia passado, mas a dor continuava lá. – Tudo bem, deixa pra lá.
O silêncio tomou conta e só então percebi o quão próximo de Paul eu estava, quando isso aconteceu? No canto dos meus olhos pude ver que ele ainda me olhava, como se estivesse estudando cada movimento meu, não era a primeira vez que isso acontecia, mas ainda sim me irritava.
— O que? – perguntei grosseiramente, Paul arqueou uma sobrancelha me olhando confuso.
— O que o que?
— Você estava me olhando, você faz isso o tempo todo e é irritante. – mais uma vez percebi tarde demais que havia compartilhado mais do que gostaria, o arrependimento foi quase instantâneo. O que tinha com Paul que eu sempre falava mais do que queria?
— Desculpe. – disse Paul abaixando o olhar.
— Só isso? Nenhuma explicação? – insisti. Paul me encarou por alguns segundos, era a primeira vez que trocávamos um olhar tão intenso e fiquei surpreso ao perceber que isso não me incomodava.
— Você sabe o por quê. – respondeu por fim, desviando o olhar para a janela e se afastando cuidadosamente. Todos os músculos de meu corpo se tencionaram e meu coração parecia que iria saltar de seu peito. Eu sabia. Cada olhar de Paul falava mais que suas tentativas de conversas tolas. Eu sentia culpa por não conseguir interagir abertamente com ele, como ele faz comigo. Senti uma forte onda de ansiedade, eu precisava sair desse lugar. Em um movimento repentino, me levantei e só parei quando ouvi um barulho de tecido rasgando.
— Merda. – exclamei ao perceber que havia um buraco nas costas da minha blusa, não muito grande, provavelmente ela estava presa em algum prego solto.
— Meu Deus! – disse Paul em surpresa, eu sabia exatamente o que ele estava olhando e dei graças por estar de costas ao sentir meu rosto queimando. – O que aconteceu? – perguntou curioso, se levantando e chegando mais próximo de mim.
— Foi antes. – respondi, não querendo entrar em detalhes sobre as cicatrizes em minhas costas.
— Oh, sinto muito. – disse Paul, aproximando a mão para tocar na única cicatriz aparente pelo rasgo da camisa. Rapidamente me virei e segurei seu pulso. – Eu não vou te machucar. – sua voz era suave ao ponto de quase me acalmar.
— Não é tão simples. – respondi por fim.
— Talvez porque você complique tudo. – disse enquanto me encarava com seus grandes olhos verde-azulados.
— Você não sabe o que está dizendo, você não sabe nada sobre mim. Nem todo mundo pode ser livre como você. – desabafei, sentindo um nó se formando em minha garganta e minha cabeça girando. Eu não ligava mais para o que estava dizendo, eu só sabia que precisava urgentemente sair desse lugar.
— Nós estamos no fim do mundo, você pode ser o que quiser. – disse mantendo sua voz suave que acabou me acalmando, fazendo com que eu finalmente o soltasse, e só então percebi como estávamos perigosamente próximos.
— Eu não posso mudar quem eu sou só porque o mundo acabou. – respondi triste. Eu queria me afastar, mas o meu corpo não obedecia mais a minha mente, eu não conseguia dar um passo.
— Você quer dizer que quem você mostra é quem você realmente é? – perguntou com o olhar mais intenso do que nunca, como se ele conseguisse ver minha alma só de olhar para meus olhos.
— Que merda filosófica é essa? – por mais irritado que quisesse aparentar, eu tinha a completa noção de que soava como um adolescente inseguro. O adolescente que eu era antes de tudo que meu pai fez.
— Eu consigo te ver Daryl Dixon. – Paul lançou-me um sorriso ousado enquanto arqueava uma sobrancelha. Eu simplesmente não sabia o que fazer, todos os pensamentos que ignorei pelas últimas três semanas vieram como uma avalanche em minha mente, eu não sabia lidar com meus próprios sentimentos, ainda mais vindo vários de uma só vez. Paul começou a se aproximar ainda mais, deixando apenas um polegar de distância entre nossas bocas.
— Não... – sussurrei com a voz vacilante, mas eu sabia que esse não era um pedido sincero.
— Está tudo bem, somos só você e eu nessa caixa. – ele tinha razão, meu pai e meu irmão estão mortos, minha vida se tornou imprevisível, eu podia ter anos de vida ou apenas dias, mas nada disso importa, porque agora éramos só nós dois. O que eu tinha a perder?
Paul continuou se aproximando devagar, como se eu fosse um bichinho assustado, talvez eu realmente fosse. Consegui sentir a respiração calma dele em minha pele e de algum modo tudo isso parecia certo. Fechei os olhos, a única parte de meu corpo que ainda conseguia mexer voluntariamente e logo senti o calor de sua boca na minha. Por alguns segundos nenhum de nós nos mexemos, ele parecia estar levemente inseguro sobre a minha reação para tudo isso, esperando que eu estivesse pronto. Todas as minhas preocupações e medos pareciam ter sumido, eu não conseguia ouvir nada além de nossas respirações e tudo que eu conseguia sentir era o sabor de sua língua em minha boca.
Ainda sendo cauteloso, ele colocou uma de suas mãos no meu pescoço e esse simples contato fez com que todo o meu corpo reagisse. Eu estava com medo de partir o beijo por não fazer ideia do que acontecerá depois. Seus dedos acariciavam minha nuca enquanto eu enlaçava os meus em sua outra mão, eu estava me entregando a ele de um modo que nunca fiz com ninguém. De repente ele parou, meus lábios estavam latejando e minhas mãos tremendo – ele provavelmente estava sentindo – mas eu não queria abrir meus olhos.
— Está tudo bem. – disse ele acariciando meu rosto. Eu abri os olhos e fiquei grato por estar escuro, assim ele não podia ver o quão corado eu estava.
— E agora? – perguntei com a voz vacilante, minhas barreiras haviam caído.
— Agora, o que você quiser, — ele sorriu enquanto abria os braços, como no dia que nos conhecemos. – o fim do mundo é nosso, Daryl Dixon.
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