War of Hearts

1 Capítulo I — Uma carta dos mortos


Notas iniciais
Olá, queridinhos! Essa ideia foi tão espontânea (mentira), mas eu logo me apaixonei por escrevê-la! E eu realmente espero que gostem tanto quanto eu! Boa leitura.

Não estava um dia ensolarado em Nova York. Não haviam senhoras adoráveis andando com seus poodles e yorkshires nos esverdeados e reluzentes espaços abertos do Central Park, e não haviam crianças felizes pedindo que suas mães comprassem brinquedos para elas nas lojas espalhadas pela cidade. Era uma terrível, fatídica, tediosa, ridiculamente azarada e chuvosa manhã de terça-feira. E Hayden não podia detestá-la ainda mais.

Isso, claro, até o momento em que o carteiro passou em sua porta.

O apartamento em que morava no Upper East Side era tão simples quanto o salário de florista de sua mãe poderia pagar; o flat no sexto andar do prédio na terceira rua do bairro não era luxuoso, muito menos cheio de regalias, mas era aconchegante e confortável, e sempre tinha um clima muito agradável. A sala era repleta de flores e plantas, almofadas cobrindo o chão de madeira polida e uma lareira que sempre as mantinha aquecidas durante o inverno rigoroso de Nova York. Para a garota dos cabelos castanhos, aquele ambiente sempre lhe seria um lugar de paz.

Mas naquele momento, a sala parecia impregnada com o cheiro da tensão que pairava pelo ar.

A família Mills — consistente em Joyce, florista, e sua filha Hayden — nunca recebia pacotes ou encomendas. Todos os documentos eram pegos pessoalmente e a jovem nunca se atrevera a comprar coisas pela internet. Então, por que o carteiro trouxera aquele envelope, certo de que era para ela? A julgar pelo tamanho do que lhe fora entregado, parecia ser um livro. Quem poderia tê-lo mandado? A faculdade?

Não. Marymount Manhattan College não lhe mandaria livros no meio do ano letivo. Então, quem diabos havia mandado aquilo?

— Hayden?

A estudante de jornalismo suspirou, brevemente assustada. Estava tão concentrada no maldito envelope que se esquecera do fato de sua mãe estar em casa. Joyce havia adoecido de forma rápida e assustadoramente significativa nos últimos dias, e nenhum médico da cidade sabia dizer o que a mulher tinha. O dinheiro para consultar mais doutores estava acabando, e a garota não poderia simplesmente abandonar sua mãe sozinha em casa para poder ir trabalhar. Hayden deixou os ombros caírem, impotente. Não havia nada que ela pudesse fazer, e aquilo, de forma lenta e dolorosa, começava a instalar-se em sua mente. Ela atravessou a sala, caminhando na direção do quarto onde Joyce agora passava quase cem por cento do seu tempo.

— Estou aqui, mãe. — escorou-se no arco da porta — Algum problema?

A mulher era linda. Os cabelos curtos eram da cor de carvão, tais quais os olhos escuros que antes costumavam ter tanta luz e felicidade. Uma pequena cicatriz, imperceptível, em seu lábio superior lhe dava um charme que Hayden simplesmente amava. A pele bronzeada havia perdido sua cor, e agora era pálida como papel. A doença desconhecida continuava a sugar cada floco de energia que a doce florista tinha. A jovem sorriu, aproximando-se e sentando ao lado da mãe na cama. Elas eram tão parecidas que era quase impossível dizer que a garota era adotada.

— Não, querida. Eu só queria ver você. Sabe, como eu estou prestes a morrer eu...

— Mãe. — ela pediu carinhosamente, alisando os fios sedosos de Joyce — A senhora não vai morrer. Eu vou encontrar uma cura, ouviu? Eu vou até o inferno pela senhora, e sabe disso. Agora tente descansar, tudo bem? Eu... Preciso estudar.

A florista assentiu com a cabeça e piscou ao sentir os lábios da filha contra sua testa. Hayden caminhou a passos pesados na direção da sala e sentou-se no sofá, passando as mãos pelo rosto enquanto encarava o pacote.

Ela estava curiosa.

Hayden Mills

Minhas unhas coçaram o papel afim de abri-lo. Deus sabia como eu estava intrigada, nunca recebíamos nada pelo correio além das contas, e agora aquela encomenda aparecia? É, pode apostar que eu estou me mordendo de curiosidade.

Quando o durex que prendia o envelope se abriu, puxei o que havia ali dentro para fora. Havia um papel claro em cima de um livro, onde uma letra relativamente legível desenhava-se sobre a superfície branca. O objeto embaixo do mesmo tinha uma bela capa de couro, livre de qualquer design, e uma fechadura lateral o mantinha fechado. Pousei o livro em minhas pernas e comecei a ler a carta, extremamente perdida.

"Se isto chegou até a você, Hayden, significa que eu estou morto. E se você não sabe quem está escrevendo, significa que eu fui um imbecil a minha vida inteira.

"Acho que começo pelo básico: meu nome é Robert Singer. Sou um caçador de coisas sobrenaturais. E também sou seu pai.

"Certo, agora você não vai acreditar em mim. Mas pode ter certeza de que tudo o que direi nesta carta é verdadeiro, da primeira à última palavra. Sei que deve ter um ódio absurdo de mim por tê-la abandonado. Sei que deve se sentir injustiçada por estar recebendo isso agora, depois de vinte e cinco anos. Ou vinte e quatro. Eu nunca parei para contar. Mas apenas o que quero lhe dizer é que eu sinto muito por nunca ter visitado você. Que sinto muito por estar fazendo você passar por essa inconveniência agora. Mas eu precisava fazer isso. Meu último desejo como um velho moribundo.

"Eu apenas quero dizer a você que o mundo não é o que parece. Você pode não ter percebido, mas nos últimos anos, o Apocalipse veio à tona umas duas vezes. Quase como um evento de moda com proporções catastróficas, onde os humanos iriam usar caixões como vestido principal. Existem aberrações de todos os tipos, e o diário que lhe mandei junto com a carta vai te explicar muito mais do que eu posso agora.

"Hayden, eu... Eu me arrependo muito de ter ficado longe de você. De nunca ter nem ao menos te visitado uma vez. Mas precisa acreditar que fiz isso pelo seu bem. Você não merecia ter sido criada nessa bagunça alcoólica e insana que minha vida foi. Posso nunca ter estado presente, verdade, mas sempre estava observando você. Observando Joyce na floricultura não incomode sua mãe perguntando sobre mim, ela não sabe de nada , você na faculdade... Você estava feliz. Está feliz. Nunca me pareceu justo trazê-la para esse mundo, assim como nunca me senti melhor sabendo que você não saberia quem eu era.

"Acho que já tentei me explicar demais, não é? Espero que tenha, pelo menos, me entendido. Eu realmente me preocupei com você, filha. Me preocupo. E agora que sabe do mundo que existe além do normal, eu vou deixar você e sua mãe nas mãos de dois imbecís incrivelmente capazes de protegê-las. Se tiverem qualquer tipo de problema, procure por David Berkowitz e Kris Warren, os dois moram no Kansas. Apenas diga a eles a verdade e entregue essa carta, eles irão ajudar você.

"Eu... Eu realmente espero que me perdoe, filha. Não importa tudo o que nos manteve separados, eu amo você.

Robert Singer."

Encarei o papel em minhas mãos. Sentimentos diversos estouravam em meu peito. Raiva, confusão, amor, tristeza profunda, pena... Meu pai estava morto. Eu não pude conhecê-lo. A carta agora me diz que um mundo totalmente diferente do nosso existia, e que seria capaz de bater em minha porta atrás do meu pescoço. Eu estava entrando em colapso, mas não poderia demonstrar. Não com minha mãe daquela maneira.

Deixei os olhos escorregarem até minhas pernas, onde o diário se encontrava. Pousei a carta na mesa de centro e toquei a capa de couro, sentindo-a sob os dedos. O que eu iria descobrir ali? Aquela ideia me assustava. Mas se aquela mensagem fosse verdadeira e Robert Singer, de fato, fosse meu pai, aquele seria a coisa que mais me aproximaria dele. Com um suspiro fundo o suficiente para fazer meu peito doer, eu abri na primeira página do livro.

E posso dizer que fora ali que minha vida começara de verdade.

Notas finais
E então, gostaram? Deixem seus comentários! Até o próximo ♥