War Angel - Sonhos
5 Capítulo 4 – A profecia
Notas iniciais
~ Capítulo 4 – A profecia ~
A fuga prosseguiu. Passos rápidos sobre o chão congelado, escorregadio e instável. Acima de suas cabeças, estalactites reluziam o brilho das chamas cintilantes em volta das mãos de Lina e tremiam pela agitação naqueles corredores. Era difícil escapar de todas as sunas que saltavam de buracos nas paredes como abelhas de uma colmeia.
Avançar a todo custo. Este foi o lema encontrado e aceito pelo grupo na ausência de um mentor. Mesmo em cinco, eles não conseguiam enfrentar todas as criaturas, que atacavam freneticamente, e escapar sem lutarem.
— Já vi vocês em momentos melhores. Qual o nível de magia que dominam? – Indagou Akira disparando suas flechas elementares.
— Segundo um mago que conheci, posso usar até o nível três ou quatro, se me esforçar. – Lina a respondeu.
— Eu e meu Witc também – Mylla continuou, deixando transparecer seu incômodo com a presença da arqueira.
— Eu domino o nível dois... — Ela o olhou de forma séria. — Só eu que não passei do tutorial ainda?! Isso é injusto, esse jogo é muito difícil para mim! – Resmungou, virando-se para o outro lado.
Akira sorriu ironicamente.
— Então eu serei a líder deste grupo de agora em diante. Sou mais forte e mais ágil. Observem como a magia de nível cinco é superior. – Posicionando-se com as pernas levemente flexionadas, ela retirou três flechas da comporta em suas costas, focou em seu objetivo, deixando que o vermelho sangue de seus olhos desse espaço para o laranja brilhante. Uma leve corrente de ar começou a circular em volta de Akira a medida que um brilho azul se concentrava em seu arco e tremulava a capa e o capuz que a cobria. Um forte disparo fora lançado na direção oposta a que seguiam. As flechas, que antes eram três, multiplicaram-se em dezenas. – Chuva de espinhos!
Com a intensidade do ataque, parte do teto desabou e a passagem fora barrada.
Em um rodopio, ela virou-se e deixou um leve sorriso de canto de boca escapar, disfarçando-o em seguida com o retorno da cor original de sua íris.
— Estamos salvos por enquanto. Agora que já conhecem um pouco mais do meu poder, sigam-me.
— Witc, você podia ter ficado perto da fogueira como todos e deixado seu pai e o senhor Zenkatsu cuidarem de tudo, mas não, tinha que procurar sarna para se coçar... E ela ainda riu de mim por eu dominar apenas um elemento, não vejo nada de errado nisso! Retiro meu voto para ela ficar. – Ayurik sussurrava para seu amigo, que apenas ria da situação.
***
Em passos cuidadosos, os homens saltavam sobre as pedras e escombros da ruína vista outrora. Eles seguiram, a princípio, ao objetivo do professor. Como todo o local ali, as poucas paredes de pé pareciam intocadas por humanos da época atual, o que evidenciava o desgaste apenas pela ação do tempo.
Aquele ambiente mitológico trazia memórias indesejadas a Zenkatsu. Ele nunca esquecera daquele dia, daqueles símbolos grafados na superfície da tumba. Ver seus amigos desaparecerem em meio a um mistério, que deveriam ser capazes de decifrar, foi frustante na época, fazendo-o adotar um pseudônimo como disfarce e forjar um "falso" diploma, visto que não usaria seu nome real.
— Shawn, veja, naquela parede a frente; os símbolos dos quais falei. – Apontou, acelerando os passos da direção dos hieroglifos.
— Você consegue ler... Isso? – Indagou confuso enquanto deslizava a mão sobre a rocha.
— A maioria. Na verdade, Tracy me superava em simbologia. Ainda se recorda dela?
— Vagamente.
— Mas da Diva, você guarda várias memórias, não é mesmo?! – Riu.
— Melhor você se focar na tradução, amigo. – Shawn tocou em seu ombro, sorrindo, e voltou a andar pelas salas, quando reencontrou a passagem que o levou ao cristal. Era uma porta construída com traços arquitetônicos antigos. Sua moldura, de aproximadamente três metros de altura e pouco mais de um de largura, cheia de detalhes e linhas de uma ponta a outra lembravam um ramal de flores, como os de Rose, em seu jardim. Ela levava direto ao subsolo ou algum tipo de porão da construção. – Zenkatsu, depois venha aqui...
— Certo! Já termino... Parece haver tanta história aqui... – De forma desajeitada ele saltou da rocha onde estava e seguiu ao encontro de Shawn, alguns metros a sua esquerda.
Numa ligeira tradução, o professor pôde descobrir, com exatidão, onde estavam. Tratava-se da antiga cidade de Kruken, onde viveu uma das Imperatrizes de Nefise, Miléfis: O grande Oráculo, Estrategista do exército do Norte, Rainha das bestas polares e Senhora do gelo.
— Sob seus pés existiu uma cidade. Kruken, era seu nome, mas fora congelada pelas lágrimas de seu oráculo ao ser entregue como oferenda à besta de Aldebarã, aprisionada no topo da colina pelos primeiros sacerdotes. Parecia incompleta... Seria de grande agrado poder descobrir mais sobre essa fascinante Imperatriz. – Zenkatsu comentou dominado pela curiosidade. Seus olhos chegavam a brilhar de emoção.
— Sim.
— Até onde acha que esse corredor nos levará?
— Preciso que me siga até um compartimento dessa construção e leia algo que encontrei junto disto. – Mostrou-lhe o octaedro de cristal novamente.
A nova sala, desta vez, com inúmeros símbolos espalhados por suas doze paredes, com igual tamanho e ângulos entre elas, guardavam a última profecia de Minéfis. Ao centro da sala, o pedestal dourado onde Shawn encontrara o cristal azul.
— Há muita coisa aqui, mas receio que não poderei traduzi-las por completo. Essas paredes também possuem muitas falhas, rachaduras ou buracos... – Mas por que doze? Indagou a si mesmo em murmúrios. – Iniciarei pelo pedestal mesmo... Hum... Hum! Interessante. Pelo o que li, se eu estiver certo, o octaedro é a chave para sairmos deste santuário... Precisamos encontrar um portão aos pés dos gigantes de terra, acredito que sejam as montanhas que avistamos antes, e gira-lo em uma volta completa pela fechadura! Acho que só.
— E essas paredes, o que dizem? – Prosseguiu o alquimista.
— Bem, vejamos... Iniciarei por esta que entramos... Elas começam falando de uma profecia do fim ou fim da profecia, como disse antes, simbologia não é meu...
— Prossiga!
— Calma! Não apresse uma mente tranquila como a minha, cada evento em seu tempo – Zenkatsu notou a cara de tédio de seu amigo. Ele sabia que falava demasiadamente. – Está bem, serei mais objetivo. Aqui fala “No início e no fim eles se encontrarão...” Acho que este desenho represente raiar... um Sol nascendo com doze linhas... Já sei! “... O rompimento do selo divino e o nascer dos doze trará o desabrochar de uma nova era” Isso! Mas não consigo ler o restante, as gravuras estão quase apagadas. Vamos para a segunda.
— Esses doze certamente são os guerreiros do War Angel e as Imperatrizes de Nefise!
— Então esse é motivo de existir doze paredes... Talvez cada uma faça referência a um dos herdeiros... Bem, a segunda diz “De uma gota ele nascerá... Sobre seu domínio, ele voará. Coberto por escamas impenetráveis como diamante e asas tão fortes e grandes quanto montanhas, ele voará...” Fiquei curioso. Não foi possível traduzir alguns trechos, assim como nas outras, mas existe algo além disso... Este desenho de um olho reptiliano... A mensagem da terceira parede está totalmente indecifrável, alguém não queria que essa parte fosse descoberta no futuro e a destruiu totalmente, apenas vejo a representação do que parece ser um raio ou chifres, mas não tenho ideia do que poderia estar escrito aqui ou o que isso tudo queira dizer.
— Estranho... Não conheço nada a respeito de tal criatura... Parece ser muito poderosa, talvez seja a sexta imperatriz do exército de Nefise ou até mesmo um imperador, pois você disse “ele voará”.
— Como sabe tanto sobre eles?
Observando as gravuras pelas paredes, Shawn não podia sentir-se menor. O maior de seus poderes não passava de migalhas próximas aos feitos e títulos grandiosos que descobrira ali. Seus olhos vagavam de um lado para o outro, vislumbrados, enquanto seus ouvidos apenas recebiam a voz de Zenkatsu, que contara uma parte perdida da história, desconhecida até então.
— Sempre fui curioso. – Sorriu.
— Bem, continuando... “Ao tocar do Sol, a luz despertará os instintos da besta de gelo. A Rainha refará suas estratégias e a contagem regressiva será ativada. O tempo terá fim...” Ou “a luz terá fim...” Algo assim, não tenho certeza do final. Essas também foram destruídas, então vamos para aquelas. – Caminhou em continuação. – Em busca do anjo, os quatro reis retornarão ao mundo da superfície... Não estou entendendo esses aqui... É alguma relação a morte e caos.
— O que significa este aqui? – Apontou com o dedo para a parte seguinte, onde havia um pentagrama formado pela união de 5 círculos e uma pedra negra próxima a um deles.
— Ela diz “Do quarto mundo eles virão, transparentes e inatingíveis... Filhos do éter...”
— Então por que há cinco pontas?
— Não sei, a tradução está correta. Tenho certeza.
— Há muitas pontas soltas aqui... – Shawn comentou.
— Nisso concordo, mas como pediu para ser rápido, a sexta fala de algo muito mais apocalíptico. “O céu cairá diante da terra oculta... O Mar cobrirá a superfície com um manto de paz e ira...” Estou ficando com medo de continuar.
— Precisamos saber o que estar por vir para sabermos com lidar com a situação. – Aproximando-se de Zenkatsu, o feiticeiro o encorajou. – Continue amigo, estarei aqui para protegê-lo.
— Faz sentido, então continuarei. Esta outra fala “As chamas eternas serão acesas ao lado do vencedor...” Ainda faltam mais duas partes e não encontramos nenhuma armadilha, acha que... – Ao observar em volta, notara que Shawn andara rapidamente por toda a sala, a procura de mais algum item raro. – Certo, não acho nada. Lerei esta e a última com mais atenção. “Com o poder do Sol, aquela que antes perdera, agora vencerá...” Acho que esse símbolo... Conheço ele de algum lugar... Será da tumba? Uma mulher dentro de um círculo e alguns símbolos ao lado... Sim! É o mesmo, a mãe do mal! Isto não é legal, eu queria saber como ela conseguirá isso.
— E quem é a mãe do mal?
— Não sei, não encontrei nada a respeito. E agora, indo para a... – Um passo mal planejado o fez pisar sobre uma pedra solta no chão, ativando uma passagem secreta através da décima segunda parede, que levantara, encobrindo a mensagem. – Shawn, não consegui ler a última parte.
— Deixa para lá, vamos seguir por esse caminho, não dá mais para voltar, veja. – Mostrou a porta de entrada fechando-se. Ao fundo, um bando de sunas de aproximavam.
Seus primeiros passos foram recebidos pelo assombroso rugido da besta presa no labirinto subterrâneo, fazendo todas as criaturas que chegavam, recuarem.
— Os meninos devem estar em apuros, vamos nos apressar e encontra-los. Se ao menos tivéssemos um mapa, é loucura entrar em um labirinto quando desconhecemos sua saída e...
— É verdade, mas já temos a chave da saída – Retirando-a do bolso do casaco, Shawn deixou o cristal cair, abrindo sua parte superior como um botão de rosa a desabrochar e ativando um tipo de projeção holográfica da estrutura do santuário. – Acho que agora temos o mapa, vamos!
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