War Angel - Sonhos

7 Capítulo 6 – O Oráculo e o Mistério de Kruken


Notas iniciais
E alguns segredos começam a ser revelados! Boa leitura!

~ Capítulo 6 – O Oráculo e o Mistério de Kruken ~

Sob os olhos da imensa e bela Lua violeta, brilhante acima do céu de Kruken, aos poucos cada habitante daquela cidade se dirigia à sua residência em busca de repouso. Mal sabiam que aquele descanso seria por toda a eternidade.

Sem demais testemunhas ou a quem confrontar, Mylla se viu perdida. Embora enfurecida, sua raiva por Akira não superava o medo de nunca mais poder ver as pessoas que tanto amava, que se importavam com ela mais do que ela mesma. Sua decisão mais sensata então fora tomada. Realojando os bastões em seu cinto, ela seguiu até o alpendre onde a arqueira permanecia.

— Olha... Sei que te ataquei agora a pouco, que não somos amigas... Nem confio em você, mas Witc sim. Ele vê algo que não consigo enxergar ainda, então... Acho que devo acreditar nele.

Baixando seu arco, ela estendeu a mão em seguida, como cumprimento.

— Então me aceita como líder do grupo... Herdeira do raio? — Indagou Akira com um olhar atento.

— Depois decidimos isso. E pode me chamar de Mylla. — Sorriu. — Sabe onde estamos?

— Não tenho ideia. Por que vocês da superfície acham que sei de tudo?

— Ho! Calma aí esquentadinha, só perguntei onde estávamos pois... Quando tentei me comunicar com um cavaleiro e uma senhora, antes de te ver, eles passaram por meu corpo como fumaça... Como se eu não existisse, ou eles, sabe?! — Sua explicação foi ressaltada com a estranha movimentação na praça.

— Xiu! — Gesticulou, pondo um dedo sobre a boca de Mylla e dando continuidade a conversa em tom de sussurro. — Você fala daquilo? — Apontou para as estátuas dos dois sacerdotes ao centro da praça e a do oráculo.

Enquanto permaneciam escondidas nas sombras, fumaças de cor violeta, vívidas e assombrosas como a Lua naquela noite, emergiam. O espectro da escultura feminina aflorou por entre as pequenas fissuras de sua imagem, até mostrar sua forma humana, coberta por um longo vestido branco. Caminhando lentamente e surpreendendo as jovens que apenas observavam a cena, o vulto seguiu.

— A estátua de antes... É aquela mulher? Ainda estamos no Santuário? Ainda estamos na nossa época? — Mylla ficava mais confusa a cada instante.

— Eu realmente não faço ideia, mas acho que devemos segui-la e ver para onde está indo.

Cumprindo o plano, elas a seguiram até uma rua, duas quadras depois da praça, e dobraram para a direita, quando avistaram um morro e a grande construção em seu cume, um pouco mais afastado do centro da cidade.

Na espreita, acompanharam-na pelos arbustos até seu topo, deparando-se com a prisão onde a besta de Aldebarã permanecia aprisionada.

Ser isolado da cidade não era apenas para trazer segurança aos seus moradores, mas também uma estratégia dos sacerdotes vivos na época. A criatura mantida ali possuía a força que nenhum humano comum jamais teve, além da grande resistência e poder.

Trazer destruição por onde passava era seu maior prazer, até que um dia, a jovem oráculo, uma garota virgem e dotada de dons de clarividência, previu sua chegada à Kruken. Os líderes rapidamente se reuniram e montaram guarda frente a situação. Esforço inútil. Muitos morreram antes da chegada dos Primeiros Sacerdotes.

Portadores de magia rúnica e de invocação, os Primeiros Sacerdotes conseguiram, sem muito esforço, arrastar a besta até o monumento no alto das colinas, próximas à Kruken, e a prenderam, selando todas as passagens num pacto de sangue.

Seus ensinamentos foram passados às gerações seguintes, aqueles que viriam a colocar toda glória de seus ancestrais no lixo.

Guiados pela ambição e mais poder, os terceiros sacerdotes – aqueles formados na terceira geração após o evento. – Se dirigiram ao planalto do outro lado da cidade, onde fora construído o templo da maior oráculo humano vivente. Tratava-se de Miléfis, a que mais tarde seria chamada de Princesa de Gelo e Imperatriz de Nefise.

De sua posição, Akira e Mylla puderam avistar uma jovem, presa em amarras, ser jogada em frente ao portão da criatura. Seus olhos, grandes e vermelhos brilhavam por entre as grades. Sua respiração podia ser ouvida há alguns metros, assim como o barulho ensurdecedor que ele fazia.

Seguindo os passos aprendidos, os seis sacerdotes ali reunidos iniciaram o ritual para desativar as runas em volta daquelas estruturas, encerrando com desaparecimento da aura que cobria as paredes.

Sem demorar, o monstro atravessou, por entre as barras, suas imensas garras e agarrou o corpo frágil da garota a sua frente, perfurando seu abdômen e deixando aquele sangue escorrer por seus dedos. Em seguida a soltou e arrebentou o portão.

— Cumprimos com nossa parte do acordo, Minotauro, agora é sua vez. — Pronunciou um dos homens, de forma receosa e amedrontado.

— Minha vez? — A criatura indagou-se com uma voz roca. — Sim, é minha vez. — Puxando seu machado, atingiu os seis sacerdotes com um único ataque, partindo-os ao meio. O sangue respingou por uma grande área.

O Minotauro deu mais alguns passos para além dos muros e portão que o prendia e afastou-se em seguida. Momentos depois, um rapaz, magro e de vestimentas simples aproximou-se correndo do corpo do oráculo.

— Miléfis, por que fizeram isso a você? Aguente firme, irei até a cidade e trarei algum médico, eles irão cuidar de seus ferimentos... — Dizia em desespero.

— Não há tempo... Crivus... O monstro destruirá Kruken e...

— Então só há uma forma de eu conseguir evitar sua morte... — O jovem desamarrou os braços do oráculo, desenhou, em volta da donzela, as runas proibidas que aprendeu se escondendo na biblioteca do Templo dos sacerdotes e entregou nas mãos de Miléfis o cristal em forma de octaedro, chave do portão que prendia o monstro. — Faça!

— Mas...

Em lágrimas ele continuou.

— Faça! Um garoto como eu nunca se casaria com uma garota como você. Por mais que renunciasse seu título de oráculo, os sacerdotes escolheriam algum príncipe para ser seu marido e... Eu logo envelheceria, mas você não... Ora, você é o lendário oráculo humano que impediu a besta do Imperador Aldebarã, não envelhece na mesma velocidade que pessoas normais e possui um grande poder. Faça o que precisa ser feito e salve a todos. Não permita que aquele monstro faça mais pessoas sofrerem, assim como fez a meu pai. — Agachou-se, apertou as mãos de Miléfis e sussurrou olhando em seus olhos. — Eu amo você mais do que a minha própria vida. Salve Kruken, Miléfis.

— Eu sinto muito Crivus... — Igualmente entristecida, ela agarrou o cristal, ativando a chave e pronunciando, em voz baixa, as palavras do ritual. Logo notou a aura violeta envolver seu corpo enquanto o cristal brilhava com intensidade e todo o solo começava a congelar. Lentamente viu a face sorridente de seu amado ser eternizada nas molduras de gelo que o cobria.

Como uma grande explosão, toda Kruken fora coberta por aquele manto branco. Todo homem, mulher, criança e qualquer outra forma de vida comum jazeu diante de tamanho poder, que também curaram os ferimentos no abdômen do oráculo.

Aproximando-se da garota, Akira e Mylla se depararam com o Minotauro, antes de pelagem escura, mas que se tornou albino após a liberação do poder de Miléfis. Agora, sob seu comando, a criatura retornava e as observava com cautela e receio.

— Aquele bicho está nos encarando, aquele bicho está nos encarando... Atira uma flecha nele, faz alguma coisa.

— Nem brincando. — Respondeu com o balançar de cabeça. — Ei... Poço te fazer uma pergunta?

— Claro, vá em frente.

— Você o ama não é?! — Akira a encarou.

— Fala de Witc? Sim... Ele é muito especial para mim...

— Ele parece gostar bastante de você também, tem sorte... Antes que pergunte, não estou interessada nele, apenas... Admiro os sentimentos de vocês. — A arqueira sorriu timidamente.

— Obrigada! Talvez eu estivesse errada... Talvez você seja uma pessoa legal. — Mylla retribuiu, rindo baixinho até perceber que estava no campo de visão da jovem oráculo.

Levantando-se ainda com certa dificuldade, a jovem mirou o olhar fixamente para aquelas que a observava. Enquanto todos na cidade não podiam vê-las ou tocá-las, a criatura e sua doma sabiam exatamente de suas localizações, feições e anseios.

— A partir de hoje passei a ser chamada de Princesa de Gelo, herdeira mestra. Entrei para o exército da Rainha Nefise, me tornei a maior estrategista de guerra, contudo, não descobri o paradeiro da esfera divina. Mas os tempos da nova Deusa chegará, alguém que lidere os três mundos de uma forma justa.

Ao seu lado, elementais de Gelo se erguiam, resfriando o ar a sua volta e protegendo sua invocadora.

— A viagem foi longa e demorada, herdeira mestra. — Miléfis andou alguns passos a frente. — Agora já sabes da verdade e muito em breve descobrirá sobre a profecia do fim, acredito que nos veremos novamente algum dia. Encontre e reúna as demais imperatrizes e meu futuro amigo. Uma nova guerra se aproxima... Saberá o que fazer quando chegar o momento. — Tocando a face das garotas estáticas ali, a imagem da Imperatriz do gelo se desfez em fumaça, assim como toda a Kruken antiga, deixando em seu lugar a escultura de um rapaz isolada em uma sala, cercada por paredes de cristal. O brilho sobre aquela forma masculina esculpida era forte.

Ao dar-se conta de que tudo que viram não passava de uma visão do passado e um estranho contato com alguém que viveu há mais de 5000 anos, Mylla notou que runas ascenderam-se em um tom violeta, contornando todas as paredes de cristais ao aproximar-se. Ao fundo pôde observar o Minotauro, que antes os perseguia, ajoelhado, como se as venerasse também. Em seguida, ele deixou o local. Somente as vozes de seus companheiros podiam ser ouvidas a partir dali.

— Ei, Mylla! Akira! Estão bem? Fiquei preocupado com vocês... Juntas... — Witc berrou do buraco no teto por onde caíram, rindo em seguida. — Meu pai e o senhor Zenkatsu nos encontram e também descobriram como sair daqui.

— Sim, estamos sim. — Mylla respondeu.

— Sua garota ainda está inteira, se é o que deseja saber. Mas como irão nos tirar daqui? — Akira retomou a velha postura séria.

— Ainda estou com a corda que usou para me tirar da poça de lava, na caverna. Iremos puxa-las. — Explicou.

Todos haviam descoberto algo a mais sobre a história dos herdeiros naquele Santuário, embora desconhecessem o paradeiro da esfera divina, não soubessem todos os mistérios que a envolviam e o motivo pelo o qual o destino os uniu.

Não tardaram a encontrar a saída. O portal que os levaria para além das montanhas e ao mundo fantástico que nunca esperaram: O Reino das Fadas!

O Sol finalmente brilhará outra vez em Banotown.

Notas finais
Próximo capítulo: Aquela que Transforma Até breve!