Wanted Dead Or Alive
17 Capítulo 16 - Inconsistente
Notas iniciais
- Valentina, você não vai mesmo me contar sobre o estranho de ontem? – insistia Patrícia enquanto elas arrumavam as prateleiras com os novos livros que chegaram.
- Ai, ok, Pati, já que você insiste tanto. Nós só... Passeamos por aí. Deixei-o no hotel e ponto.
- Vocês trocaram telefone, e-mail, endereço ou algo assim?
- Ele me deu o e-mail dele. Para conversarmos sobre os livros. – mentiu Alicia de novo. Ela não estava gostando nenhum pouco dessa curiosidade de Patrícia. Talvez porque ela nunca tivera uma amiga antes para compartilhar esse tipo de coisa. Ela não entendia muito bem esse universo.
- Ai, que lindo. Mas responde uma coisa, Val, última pergunta, prometo. Você gostou dele?
- Ah, sei lá. Ele é misterioso, diferente... É bonito também. Um pouco mal cuidado, mas bonito. Não sei. Ele tem um comportamento estranho, mas totalmente envolvente. – ela disse. Mas foi aí que ela se deu conta de que tinha acabado de dizer a verdade. Não sabia definir suas primeiras impressões do estranho que destruiu sua vida. Não sabia explicar o que ela tinha em sua mente naquele momento.
- Ele te disse quem era a tal da Alicia com quem ele te confundiu?
- Aquela não era a última?
- Droga, eu tinha me esquecido dessa pergunta. Fiquei curiosa, Val. Sei lá, esse nome me persegue...
- Não, não falamos sobre a tal da Alicia. Nos exaltamos demais conversando sobre livros.
Nesse momento, dois clientes entraram na loja. Alicia foi atendê-los para se esquivar da curiosidade de Pati, antes que revelasse coisas demais que não deviam ser ditas.
Em sua mente, enquanto conversava com o cliente sobre os lançamentos, ela pensava em um turbilhão de coisas. Ela se perguntava como estaria Stefan, se ela podia confiar nele... Ao mesmo tempo planejava mentalmente uma fuga de emergência caso algo desse errado. Nesses tempos ela não confiava nem na própria sombra.
Enquanto comia sozinha sua comida no refeitório da livraria, ela imaginava o que acontecia na reunião...
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O clima de tensão era evidente na sala de reuniões. Don Daniel estava nervoso, queria resolver aquela situação, principalmente depois da conversa que tivera com Cunha na noite passada. Stéfano só queria se esclarecer e sair daquele lugar, voltar para Mondragone, fazer Alicia confiar nele de verdade. Ele sabia que precisava ser muito convincente, mexer com a máfia não é brincadeira. Considerou a hipótese de ligar para Luis depois que aquela reunião acabasse. Não para contar a ele sobre Alicia. Jamais contaria aquilo a alguém. Para ele não desconfiar de nada. Pensou também em ligar para Diana e rever a amiga tão querida... Depois, resolveu se concentrar ali no seu futuro. Don Daniel começou a reunião.
- Bom dia, irmãos. Sem delongas, Franco, pode nos passar seu relatório.
- Claro. Tenho várias informações importantes. Primeiro, eu vasculhei o apartamento de Alicia e encontrei algumas fotos da Suíça, de quando ela ainda era uma garotinha. Tinha pouca idade. – isso realmente ele vira no apartamento. Por isso decidira plantar a pista da Suíça. – Percebi, na personalidade dela, que ela precisa sentir-se em um lugar seguro, e ela tinha alguns amigos na Suíça, que eu pude ver por cartões postais e cartas que ela deixou. Essa foi a única pista que eu consegui. Decidi pesquisar então em Zurique, fiquei de olho nos amigos dela, mas se ela esteve lá na Suíça, soube se esconder bem.
- Permita que eu interrompa caro Franco – começou Álvaro. – Mas eu tenho provas de que você praticamente não saiu do quarto de hotel no tempo que esteve na Suíça. Como pode dizer que vigiou os supostos amigos da Alicia?
Ele engoliu fundo. Devia ter suspeitado que alguém mandaria segui-lo... E se tivessem encontrado Alicia? E se tivessem matado-a? Não conseguia pensar em mais nada. Respirou fundo e disse a primeira coisa que passou pela mente.
- Eu não podia dar a cara à tapa. A Alicia me conhecia, já tinha me visto aqui. Eu fiquei sabendo que ela tem uma memória afiada, logo iria me reconhecer. Então fiquei na espreita. Eu tinha alguns contatos na Suíça, pedi a eles que ficassem de olho em qualquer mulher que entrasse ou saísse da residência.
Todos pareceram convencidos de que ele dissera a verdade.
- E então, prossiga Franco.
- Então, depois desse tempo vigiando, esses meus amigos me disseram que viram uma mulher estranha sair da casa. Mais ou menos o que eu havia descrito da Alicia. Mas uma mulher loira de cabelos curtos. Claro que ela iria mudar o visual. Eles seguiram-na até o Aeroporto, e viram que ela comprou uma passagem para Nápoles. E eu liguei para um conhecido de Nápoles e pedi para ele vigiar a área e segui-la depois que ela saísse do aeroporto. Claro que não revelei nenhum segredo da organização. E então, ele disse que nenhuma loira saiu do aeroporto naquele dia. Agora estamos tentando outras pistas. Tinha pegado uma boa pista. Descobri que a mãe da Alicia tinha uma grande amiga em Nápoles, não é mesmo, Don Daniel? – disse ele, usando de outra informação que recolhera no apartamento de Alicia.
- Isso consta. Ela ia sempre à Nápoles visitar essa amiga. Só não me recordo o nome dela agora.
- É Sra. Monneti. Não sabemos o primeiro nome nem o sobrenome de solteiro ainda. E foi aí que eu parei meus irmãos, na investigação.
- Ok, senhor Franco. Está fazendo um bom trabalho por enquanto. Tem a permissão da organização para voltar à Nápoles. Pode comprar sua passagem hoje mesmo. Lucca irá levá-lo ao aeroporto.
- Não precisa senhor. Preciso fazer umas visitas antes de partir.
- Podemos saber quem?
- Uma velha amiga daqui de Palermo. Filha de uma amiga da minha falecida mãe.
- Certo. Apenas nos comunique quando deixar a cidade.
- Sim senhor.
- A reunião está finalizada.
Stéfano saiu do subterrâneo do Café Palermo, e nostalgicamente lembrou-se de quando viera ali com Diana almoçar pela primeira vez e encontrou Alicia. Parecia uma eternidade, mas nem fazia tanto tempo. Talvez porque aquilo mudara totalmente a sua vida. Tanto faz, decidiu. Ligou para Sr. Luis. Para sua surpresa, foi Diana quem atendeu ao telefone.
- Stéfano? Dio mio! Quanto tempo. Você desapareceu!
- Diana, querida, que saudades. Como vão as coisas?
- Muito bem, por enquanto. Tenho novidades. – disse ela, ansiosa para contar à Stéfano sobre a gravidez. Ela, de certa forma ainda se sentia conectada a ele, precisava de seu ombro amigo, de sua aprovação. – Eu vou ser mãe, Stéfano. Estou grávida! –disse ela contente.
O silêncio predominou do outro lado da linha. Stéfano não podia acreditar no que ouvia. Diana grávida... E ainda mais, de Sr. Luis? Um cara totalmente sem escrúpulos... Não podia acreditar.
- Stéfano, ainda ta ai? Você não ficou feliz?
- Claro que fiquei feliz, Diana. É só que estou muito surpreso. Meus parabéns, a você e ao Sr. Luis.
- Obrigada. Você está em Palermo?
- Estou, mas por pouco tempo. Luis está ai?
- Não, ele deixou o celular em casa hoje. Não dá tempo de me fazer uma visitinha?
- Infelizmente não será possível, Diana. Mas eu voltarei um dia para visitá-la.
- Tá bom. Até depois então.
- Até depois.
Desligou o aparelho, perplexo. Foi até seu antigo apartamento, no subúrbio onde Giovanni o esperava. Não gostava muito da idéia de ter alguém revirando suas coisas, mas não podia fazer nada. Quando lá chegou, encontrou Giovanni lendo um livro qualquer que pegara na estante. Esperou de todo coração não ter deixado nada que pudesse incriminá-lo visível. O rapaz desviou os olhos do livro.
- Ora, ora. Foi mais rápido do que eu esperava...
- Sim. Foram bem objetivos lá, você sabe. Mas houve desconfianças, muitas desconfianças... Tive que inventar várias histórias para fazê-los acreditar em mim. Agora preciso fundamentar minhas histórias... Não é fácil enganar aqueles caras.
- Não mesmo... Mas eu posso ajudá-lo, quando confiar em você. Meu pai era parte deles, foi por muito tempo. Ele me passou um longo relato sobre os mafiosos. Mas isso não interessa agora. Vou telefonar para Alicia.
Ele pegou o celular e discou rapidamente para a garota. Conversaram por pouco tempo.
- Vamos de barco. Saímos em uma hora. Vamos direto para Mondragone. Tem algo que deseja fazer antes de partirmos?
- Não... Não me lembro de nada. Aceita alguma coisa?
- Seria bom se tivesse uma dose de uísque. Para acalmar os ânimos, você sabe.
- Concordo plenamente. Vou buscar na cozinha.
E então ele saiu. Antes de levar os copos com uísque para a sala, bebeu pelo menos uns três. Aquela pressão toda estava acabando com ele, não sabia por quanto tempo iria resistir. Queria que fosse como antes, quando ele podia ficar no seu apartamento o dia todo bêbado, sem ter que lidar com nada, apenas uma matéria. Agora a vida dele estava em risco. A vida da garota que ele dizia amar estava em risco, e a culpa era toda dele. Parou de pensar nisso e levou a dose para Giovanni. O misterioso Giovanni. Não sabia o que pensar dele... Não sabia o que pensar do relacionamento dele com Alicia... Não sabia nada.
- Obrigado, cara. – agradeceu Giovanni quando Stéfano ofereceu o uísque a ele.
Stéfano assentou-se no outro sofá e começou a folhear uma revista que estava em cima do mesmo. Mas sua mente estava longe, muito longe dali. Suas mãos agora suavam frio. Foi uma longa hora. Ou melhor, horas. O tempo que passou dentro do barco, totalmente nauseado, aquela terrível tontura, delírios... Não foi fácil. Apenas quando ele viu aquele carro preto estacionado perto do convés, a jovem de cabelos pretos e óculos escuros de braços cruzados do lado de fora, foi que ele sentiu-se confortável. Se pudesse, ali naquele momento se jogaria nos braços dela e choraria todos os seus medos. Mas isso é para os fracos. Contentou-se em sorrir de canto enquanto entrava no banco de trás. Tentar ser normal quando estava em pedaços por dentro.
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