Notas iniciais
Espero que gostem. Capítulos todas as quintas.

Ela adentrou no subterrâneo do Café Itália. Já passavam das onze da noite, e o ar frio do outono lhe congelava os ossos. Ela puxou o sobretudo pra si, tentando espantar o frio. O cabelo ruivo ondulado estava meio desgrenhado, os olhos verdes sinalizavam cansaço. Tudo o que queria era, no conforto de sua cama, dormir doze horas seguidas. Abriu a porta sem alarde, e os homens a esperavam, jogando cartas e fumando seus charutos. Isso é a Cosa Nostra, a mais tradicional máfia da Itália, localizada na região da Sicília. Nossa garota em questão é Alicia Belucci, parte da Máfia, sobrinha de Don Daniel Belucci, ou só Don Belucci, como preferia ser chamado. O chefão da Máfia. Ele cuidara de Alicia desde quando esta era apenas um bebê. Os pais dela morreram, ou melhor, foram assassinados quando ela ainda era uma recém-nascida. Daniel, irmão de sua mãe, cuidara dela desde então, e teve que iniciá-la na máfia, quando ela completou quinze. Na verdade, foi ela quem insistiu pra entrar tão jovem. Ela tinha sangue de vingança correndo nas veias. Ela era uma das assassinas da máfia. Matava qualquer um friamente. Era a melhor deles.

- Ragazza! Já estava preocupado. Você demorou mais que o de costume. Venha, sente-se conosco. – disse Don.

- Culpa daquele velho gordo. Indegno. –ela comentou. – Eu demorei pra levá-lo pro “necrotério”.

- Pelo menos tudo deu certo. Vamos celebrar. Junte-se a nós na próxima rodada.

- Não, muitíssimo obrigada, titio. –disse enquanto pegava uma dose de uísque. –Hey, onde está Paolo? –completou.

- Ele teve uma pequena missão essa noite. Mas disse que depois vai lhe esquentar. –comentou maliciosamente um dos capos (pessoas que conseguem o dinheiro dentro da máfia). Don olhou-lhe com desaprovação. – Desculpa chefe. Era só pra descontrair o ambiente.

- Sugiro que guarde suas descontrações pra si mesmo. –comentou Benneti, o conselheiro (consigllere). De nome verdadeiro Pedro Benneti. Um senhor de uns sessenta anos, gordo e com cabelos grisalhos.

- Obrigada pela defesa, El Pedron. –disse Alicia, usando o apelido que o velho odiava.

- Não defendo mais, se continuar me chamando assim, Fio de cobre.

- Só tentei descontrair o ambiente. –ela disse sarcástica. – Bom, estou cansada demais e acho melhor ir. Addio.

- Espere. O Giovanni irá levá-la.

- Giovanni?

- Nosso mais novo iniciante. Gostaria que você o treinasse.

- Eu?

- Sim. Ele vai ser um soldado (assassino). Precisa aprender algumas técnicas. Essa é sua missão, por enquanto.

- Ah, não é nem um pouco divertido ser uma babá.

- Alicia! Não lhe criei com essa falta de compaixão. –disse Don. – Talvez com um pouquinho, mas eu ainda sou seu chefe, e se você quer ser promovida, precisa treinar alguém primeiro.

- Promovida pra que? Capo? Não é nem um pouco excitante só roubar o dinheiro das pessoas.

- Hey! –reclamou um dos capos.

- Só disse a verdade. Ok, tanto faz. Chama logo esse Giovanni. Estou cansada.

Don apertou um botão do telefone que ficava em cima da mesa, e falou o código de entrada na sala. Alguns segundos depois entra um loiro magricela usando óculos de grau.

- Sim senhor, em que posso servi-lo, senhor? –ele perguntou com olhos esbugalhados. Os homens fitavam suas cartas tentando não rir. Que noob! Alicia nem prestou atenção. Realmente, estava cansada demais.

- Leve Alicia pra casa. Adesso.

- Alicia... Admitem mulheres na Máfia? –ele perguntou inocentemente.

- Não, idiota. É só meu apelidinho. –Alicia bufou. Chame do que quiser, mas ela não suportava tamanha ignorância. Por que raios aquele idiota que mal deve saber o nome estava ali, afinal? Era a pergunta que martelava sua cabeça.

- Alicia! –exclamou Don. Também achara uma tremenda ignorância, mas devia defender o pobre coitado. Regras são regras.

- Mi scusi. Será que já podemos ir? –ela disse.

- Claro. Don jogou as chaves pra Giovanni, que se retirou com Alicia. “Tomara que ele saiba dirigir, pelo menos” — ela pensou.

- Então, dama, pra onde iremos? –ele perguntou já no carro.

- Carpas, 196.

- Acho que não fomos devidamente apresentados. Sou Giovanni Alcatti. –disse estendendo a mão. Alicia queria logo ir pra casa, mas se teve uma coisa que aprendeu, foi ter educação, então lhe apertou a mão.

- Alicia Bellucci.

- Filha do Don Bellucci?

- Digamos que sim. Como você veio parar na Máfia?

- Meu pai é um velho amigo do Don Bellucci. Já fez parte da Cosa Nostra nos tempos de juventude, mas teve que sair depois que sofreu um acidente e ficou paraplégico. Agora ele exige que eu entre também. Mas não gosto muito disso. Queria cursar artes cênicas, só que meu pai acha que é coisa de gay. Então fui obrigado a entrar na Máfia. Fim.

- Triste história. Mas se você for um sanguinário, tudo se acerta. Eu, com o tempo, acabei vendo tudo isso como um trabalho, como outro qualquer. Devemos honrar nossa organização.

- Esse é o problema. Eu não mato nem moscas.

- Roubos?

- Não tenho um timing muito bom.

- Ok. Você realmente não tem muito dom. Mas nada que não se ajeite. Sua habilidade de ator pode ser bem interessante.

- Tanto faz desde que eu não acabe morto.

- Estou no ofício desde os dezesseis anos e nada me aconteceu.

O carro parou, e Alicia viu que já estava na porta do prédio em que morava.

- Addio, Giovanni. Vejo você amanhã. Só pra avisar, sou uma professora bem carrasca. Não se atrase.

- Addio, mestra.

Ela não pode deixar de rir. Até que ele não era tão paspalho assim.

Palermo, Sicília, na mesma noite.

Stefano saia da redação da revista Italian por volta das nove da noite. O jornalista e fotógrafo tinha recebido a matéria de sua vida naquela noite, e celebrava ao lado de Diana, sua amiga fotógrafa da revista. Os dois pararam em uma cantina naquela noite, pra comemorar.

- Um brinde a você, que em algum tempo será o jornalista mais falado da Itália. – disse a bela loira de olhos castanhos. – Quiçá, do mundo. –completou. Os dois brindaram com taças de vinho tinto.

- Sem exageros, Diana. Nem comecei a matéria ainda.

- Mas eu sei que será um sucesso. Você nasceu pra isso, é um dom.

- Tomara mesmo. Se eu falhar, adeus emprego, e você sabe, nosso mochilão pela América do Sul.

- Ah, qual é, pensamento positivo é o que há.

Os dois riram, e por mais alguns instantes, conversaram sobre assuntos cotidianos. Depois, Stefano deixou Diana em casa.

- Obrigada pela carona. — ela disse. Apertou-se contra ele por alguns segundos, meio desajeitadamente. Diana era alta, tinha o cabelo na altura dos ombros e mente brilhante. Desenhava e tirava fotos como ninguém. E claro ninguém no mundo podia negar que ela era completamente apaixonada por Stefano. Mas ele, cego, como a maioria dos homens, jamais percebera. Ela nem achava muito ruim. Antes a amizade do que nada. Alimentava fervorosamente esperanças de que um dia ele pudesse correspondê-la.

- Que isso, Di. Boa noite.

A porta se fechou e Stefano saiu pelas ruas de Palermo.

Fim do primeiro capítulo

Notas finais
Gostaria de reviews, sabe...