Wannabe Cinderela
17 Quando a magia não ajuda
Notas iniciais
Ele adentrou o quarto confuso, a cabeça quase explodindo com tantos questionamentos, dúvidas e inquietações.
A volta de Camille o abalara, ele tinha que admitir. Era totalmente surreal vê-la preparando o bufê para as bodas de prata dos Benson, ele nunca poderia supor que a veria novamente. No entanto, ela estava lá, e tudo o que eles viveram voltou como um tsunami, arrastando Finn para as profundezas de sentimentos que ele pensou já terem ido embora. Não que ele não tivesse mais consciência da dor da ausência dela, de como foi difícil se reerguer, mas saber que ela estava com depressão grave, incapacitada também por dor e remorso de retomar sua vida o deixara muito estranho, muito confuso. E, no meio de tudo isso, havia Rachel: ele não esperava, mas aquela morena misteriosa que ele quase tinha atropelado mudou sua vida, trouxe de volta a paixão à sua alma... o que ele faria?
– Hey. – a voz de Rachel soou no apartamento dele, quando ela abriu a porta destrancada. – Posso entrar?
– Pode. – ele assentiu.
Finn estava sentado numa poltrona a um canto da pequena sala, com uma expressão grave no rosto.
– Eu não vou fazer rodeios. – Rachel iniciou. – Posso saber o que você e a Camille estavam falando ainda há pouco lá no jardim?
– Nada de mais. – ele respondeu, alguns segundos reflexivos depois.
–Por que eu tô com a impressão de que você está mentindo, ou encobrindo algo?
– Porque você tá sempre com o pé atrás, achando que algo vai acontecer. – ele bufou, coçando a nuca.
–Eu nunca te vi assim, com o semblante tão carregado. – ela comentou, séria. –O que reforça minha opinião de que você tá me escondendo algo.
– Eu não quero te magoar. – Finn admitiu, por fim, desviando o olhar.
–Mas você já está magoando! – Rachel se impacientou, aumentando a voz. – Ou você acha que eu fiquei feliz ao te ver conversando ao luar com aquela francesa? Ou você acha que a sua falta de explicação me deixa confortável e segura?!
Finn levantou-se:
– Eu não tô fazendo nada por mal! E nem tô agindo às escondidas, não tô te traindo, não tô correndo atrás dela.
– Mas você ainda gosta dela! – Rachel estremeceu.
–Eu... eu... – Finn hesitou. Não sabia o quê responder.
– Você ainda gosta dela. – Rachel constatou, tentando não chorar, mas as lágrimas já dançavam nos seus olhos. – Oh, Deus. Você não a esqueceu.
– Rachel... Rachel, me dê um tempo... – Finn estava aflito, nervoso, com as emoções bagunçadas. – Eu preciso pensar, digerir tudo. Se eu só a tivesse visto uma vez... mas ela está aqui, todo tempo... e hoje ela me revelou porquê sumiu. Eu só... – ele baixou os ombros, vencido.
Rachel mordia o lábio inferior e chorava. Nunca ela sentira aquilo, como se estivessem arrancando o coração de dentro do seu peito. Naquele momento, desejou ardentemente ser aquela bitch que não ligava para ninguém, e que apenas descartava os outros; seria bem mais fácil.
–Você quer um tempo? – ela repetiu, lentamente. – Você terá todo o tempo que quiser.
–Você tá terminando comigo? – Finn segurou o pulso dela energicamente. – Eu não falei em término!
– Mas eu estou falando! – Rachel se desvencilhou dele. – Eu estou dizendo que não quero mais namorar com você! – ela gritou. – Você disse que não quer me magoar, então: só assim você vai me poupar. Porque estar comigo e ficar conversando, ouvindo as lamúrias da Camille, sendo lentamente tragado pela lábia e pelas desculpas dela vão me magoar, vão acabar comigo!
–Você não acha que está sendo radical demais?! Eu não pedi um tempo separado de você, mas apenas um tempo para ajustar meus sentimentos, e...
– A quem você tá tentando enganar? – ela o interrompeu. – A mim você não engana, mesmo não sendo essa a sua intenção. Me avise quando você tiver pensado melhor sobre o que você sente por mim e o que sente por ela. Por enquanto, eu tô fora.- declarou a empregada, saindo do apartamento com os olhos ardendo de lágrimas.
{...}
Ela escutou barulhos de coisas quebrando, mas não foi até lá ver o que era. Finn parecia estar determinado a aplacar sua raiva e frustração quebrando a pouca mobília do seu pequeno apartamento, mas Rachel decidiu ir à cozinha da mansão àquela hora para comer algo, com o intuito de ficar o mais longe que fosse dele.
Ao se aproximar, ela viu que a luz estava ligada, e achou que fosse Mercedes que ainda estivesse lá. Tomou um susto ao ver quem era ao entrar:
– Sr. Benson?
O patrão estava sentado à mesa, tomando um chocolate quente e comendo biscoitos.
– Olá. – ele disse simplesmente.
Rachel continuou plantada onde estava, sem saber como se portar às sós com o patrão, e ele percebeu isso:
– Eu não posso fazer um lanche à noite na minha própria casa? – ele indagou, irônico.
– Claro que pode. – ela respondeu. – Mas nunca o vi aqui a esta hora. – O senhor deseja algo?
– Pode sentar-se, ou fazer o que você veio fazer... senhorita...
–Berry. Rachel Berry.
– Isso mesmo. Não sabia ainda seu nome. Só sei o da Santana, mas, francamente, quem não decora o nome daquela latina? – ela sorriu, encostando a caneca com chocolate quente na boca. – Você namora o Hudson, não é?
Ela teve que piscar muitas vezes para controlar as lágrimas:
– Mais ou menos... – ela sussurrou.
Rachel dirigiu-se ao armário e pegou uma caixinha de chá para preparar; estava torcendo para que seu patrão fosse embora, mas ele parecia comer bem devagar, saboreando. Ela preparou seu chá e ele disse:
– Sente-se aí.
Ela o obedeceu, e pela primeira vez reparou de verdade no seu patrão, e lembrou-se de mais cedo, quando ele fora tão impositivo a cerca dos empregados não poderem sair no próximo final de semana:
– Por que o senhor não deixa o Finn e o Puck irem tocar ?
– Porque eles são meus empregados.
– O senhor sabe que isso não é justo. Eles lutaram muito para chegarem a esse festival, e são realmente bons. – ela insistiu.
O patrão sorriu melancolicamente:
– Parece que para quem não namora com certeza com o Hudson, você se preocupa demais com ele. – observou o sr. Benson.
– É que nós acabamos de brigar muito sério. – ela justificou, desviando o olhar para não chorar. – Mas o senhor não deveria fazer isso com eles, pois não são sua propriedade.
– Na verdade, minha mulher disse que eles não mereciam. Que estavam sendo insolentes, que não mereciam tantas folgas, e que não estavam trabalhando direito.
“Que megera!”, Rachel exclamou para sim mesma, e então disse:
– Ela está mentindo! Eles são bons profissionais! Sabe, eu conheço pessoas como o senhor e a sua esposa. Gente que acha que, só porque têm dinheiro, podem passar por cima dos outros, fazer o que quiserem sem levar em consideração quem está ao redor.
O sr. Benson não esperava levar nenhum sermão de uma empregada àquela hora da noite, mas não parecia com raiva:
– Você parece ser muito altruísta. – ele comentou, comendo um biscoito. – Está me criticando dessa forma, defendendo seus colegas, sabendo bem que eu posso demiti-la...
Rachel refletiu. Ela sabia que não deveria ter dito o que disse, mas não se importava. Sentia que estava fazendo o que era certo.
–Olha, garota. – o patrão falou, enfim, levantando-se. – Eu não sou esse homem sem escrúpulos. Não saio pisando na cabeça dos outros.
–Não foi o que pareceu quando o senhor falou conosco hoje mais cedo. – ela rebateu.
O sr. Benson saiu da cozinha, sem dizer mais nada.
Rachel acabou seu chá e uma sensação de vazio apoderou-se dela. Tinha terminado seu namoro com Finn e criticado o patrão. “Se melhorar estraga, Rachel”, ela disse para si mesma, cabisbaixa.
Na manhã seguinte, todos perceberam que o clima entre ela e Finn estava carregado. Kurt, Mercedes e Santana tinham as suas próprias conspirações, e todas convergiam para Camille, a chef francesa com quem ele já fora noivo.
A governanta Beiste entrou na cozinha e informou a todos daquela forma direta e prática que ela tinha:
– Hudson e Puckerman, o patrão mandou dizer que vocês dois podem ir tocar no final de semana como vocês pediram.
Os rapazes se entreolharam espantados, e o jardineiro indagou:
– Como assim? Ele mudou de ideia do nada?!
–Ah, o que fez ele mudar de ideia, eu não faço a mínima! Agora, pro trabalho! A folga é só a partir do sábado! – ela bateu palmas e pôs todos rumo ao serviço.
Rachel já estava indo rumo à parte superior da mansão quando sentiu Finn segurar o seu braço:
– O que foi? – ela tentou disfarçar a voz de quem tinha chorado por muito tempo.
– Nós precisamos conversar. Eu não aceito o que houve ontem. – ele inquiriu.
– Você me pediu um tempo, e eu dei!
– Eu não quero tempo longe de você! – ele disse entredentes, tomando cuidado para não ser ouvido, chegando mais perto dela. – Eu gosto de você!
– E gosta dela também! – Rachel revidou.
Eles passaram um longo instante trocando um olhar intenso, cheio de angústia e paixão misturadas. Finn e Rachel ofegavam, ela sentia o corpo formigar, porque, querendo admitir ou não, ela adorava quando ele falava naquele tom, com aquele ar de macho alfa. Resistindo bravamente, se soltou dele:
– Me deixa, Finn. Quando você estiver bem resolvido com os seus sentimentos, nós conversamos.
Finn desceu a escada, aturdido, e deparou-se logo com Beiste ordenando que ele pegasse o carro para levar Camille para fazer compras para o grande jantar que finalmente se aproximava.
Ela entrou no automóvel e ele apenas perguntou:
– Para onde vamos?
– Para o Eataly, um marcado italiano, que fica na 200, Fifth Avenue.
– Ok. – ele disse, ligando o motor.
– Lá tem ingredientes bem variados, acho que o jantar do aniversário de casamento será maravilhoso. – ela comentou, empolgada.
Finn permaneceu calado.
– O que aconteceu? – ela perguntou, por fim. – Você... você não quer mais falar comigo?
– Não é isso, Camille.
– Já sei... – ela suspirou. – Você agora me acha doente ou louca porque revelei minha depressão, não é? Eu não quero que você pense que eu sou uma coitada. Eu tenho noção da gravidade do meu erro, de ir embora, de não te avisar. Mas eu juro que, agora, tá tudo bem.
– Você disse que permanece tomando remédios. – Finn observou.
– Sim, continuo. Mas eu tô bem e disposta a continuar minha vida, a reparar meus erros.
Finn continuou a dirigir resignadamente, até chegarem ao mercado. Quando estacionou, foi surpreendido pelo toque da mão de Camille na sua:
– Eu sei que eu não devia, mas... você sabe que eu ainda te amo. – ela disse, antes de inclinar-se e beijá-lo na boca.
{...}
Rachel já tinha limpado com louvor o quarto do detestável Jim Benson e estava se dirigindo aos quartos dos irmãos menores deles quando viu aparecer em sua frente uma loira que há alguns dias não ela não via:
– Cassandra! – ela exclamou, com os olhos arregalados.
– Oi, Rachel. – a fada cumprimentou, tentando não demonstrar alegria ao ver a sua missão (porque ela tinha uma fada de irônica a zelar, não é?) – Vejo que conseguiu sobreviver sem mim.
– Sua chata. – Rachel ralhou. – Quase corri para te dar um abraço, mas já passou.
– Ainda bem. Nós duas sabemos que este relacionamento não funciona na base do carinho. E, bem, nem precisa me dizer o que houve, porque eu já sei que você não segurou a barra e terminou com o Finn ontem à noite; também sei que você teve uma atitude muito nobre em defender a ele ao Puck.
– Você realmente estraga o momento que a gente tem para contar as novidades. – a empregada falou sarcástica. – Mas, como você soube?
Cassandra revirou os olhos:
– Tenho uma bola de cristal portátil.
– Ah, tá. – Rachel riu.
– Sério. Ajuda bastante. – Cassandra falou sem brincadeira. – Nós temos que conversar sobre algo muito importante, Rachel. Magia poderosa está vindo contra nós.
A empregada franziu o cenho, estranhando:
– Como assim, contra nós?
A fada inspirou fundo e respondeu:
– Uma fada que eu odeio, e que me odeia, Holly Hollyday, olha o nome dessa vadia... –ela pausou. – Enfim, esta vaca se intrometeu com a minha missão, no caso, você. Ela aceitou um novo tipo de trabalho, que é o de colocar a vida de uma pessoa de volta aos trilhos sem partir para a forma radical.
– Eu... eu não tô entendendo... – Rachel balbuciou, mas pelo tom sério de Cassandra, aquilo realmente parecia ruim.
– Um trabalho de nível radical é esse que aconteceu com você: a missão é privada de tudo o que tinha antes, inclusive da própria vida. No âmbito mágico, cria-se para esta pessoa uma rota de destino alternativa. No seu caso, a rota alternativa do seu destino é este plano no qual você está vivendo há meses e onde vai ficar até cumprir o que foi estipulado e você provar que merece sua vida de volta.
–Tá, tá. – Rachel concordou.
– Então... parece que o Departamento das Fadas percebeu que certas pessoas não precisavam ter uma reviravolta tão grande no destino. Sabe, criar rotas alternativas nele não é lá muito fácil, e eles criaram um tipo de trabalho para as fadas-bota-na-linha em que a missão permanece na sua vida, mas com a chance de recuperar tudo, sendo orientado.
– Ok. Agora entendi. Mas, qual a parte em que nós entramos nessa enrolada toda? – Rachel perguntou, já impaciente.
– Eu disse que a tal Holly me odiava, não foi? Pois é. Ela aceitou, ou melhor, deliberadamente armou para ter como missão nesse novo tipo de trabalho que eu acabei de te explicar, a francesa que era noiva do Finn.
– Oi?! – Rachel sentia que sua cabeça estava dando um nó.
– A Camille é a missão da minha rival! A Holly me odeia, e vai fazer de tudo para me prejudicar, e, se ela me prejudica, claro que interfere na sua vida também! Ela não vai sossegar até a Camille se dar bem!
Rachel ficou boquiaberta. Até a magia parecia estar contra ela agora.
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