Ao atravessar rapidamente o portal energético transportador, Wandinha e Mãozinha encontraram-se na ampla sala de visitas do Château Addams, um antigo e sombrio castelo francês de estilo barroco, magicamente transportado para uma dimensão fantasmagórica décadas atrás.


Wandinha tirou a mochila das costas, a pendurou no cabideiro e, com olhar perdido, encarou uma poltrona de encosto alto em juncos negros trançados, parecendo o trono de uma antiga rainha.


— Mamãe… saudades da minha pomba sombria! — sussurrou tristemente.


Virou-se para a esquerda, onde uma antiga máquina de fita de ações repousava sobre um pedestal de madeira:


— Papai… que falta fazem seus conselhos agora.


À direita, uma dama de ferro medieval, usada para torturas, e uma cadeira elétrica coberta de teias de aranha evocavam lembranças macabras:


— Meu irmão e meu tio… saudades das nossas pequenas brincadeiras!


Por fim, um órgão de igreja macabro encostado na parede com uma vassoura próxima despertou outro suspiro:


— Minha avó e meu assustador Tropeço… eram o horror da família, saudades também!


Mãozinha, no ombro de Wandinha, gesticulou tristemente.


— Que situação bad, minha amiga!


— É a vida… C’est la vie! — disse Wandinha, segurando com dificuldade uma lágrima.


Uma voz suave surgiu atrás dela:


— És tu que sussurra tristemente, minha amada imortal?


— Quem mais seria, mon amour! — respondeu Wandinha, virando-se.


Agnes apareceu carregando uma bandeja de prata com chaleira, três xícaras e uma pequena travessa de biscoitos.


— Triste demais, minha amada… também sinto falta dos meus sogros e do meu cunhado! — disse Agnes, mudando o tom rapidamente.

— Estás atrasada como sempre, ma chérie!


— Tive um contretemps, minha querida!


— Com certeza este contretemps envolveu os abraços e beijos da meretriz do Pigalle, mon amour!


— Agora não, meu amor ciumento! — respondeu Wandinha seriamente.


— Podes ficar tranquila, minha amada imortal. Temos a visita da nossa querida amiga, a senhorita Barclay, e não quero estragar este momento formal com uma celeuma… apesar de tu merecer sentir a minha ira hoje! — disse Agnes, sorrindo ironicamente.


— Depois que nossa querida amiga se for, prometo que faremos as pazes, mon amour! — disse Wandinha com um sorriso confiante.


— Veremos, mon amour! — respondeu Agnes, erguendo a cabeça e levando a bandeja ao fundo da sala.


— Vocês duas não têm jeito mesmo, né, gótica da Shopee! Deviam ir imediatamente para o CAPS, suas doídas! — gesticulou Mãozinha ironicamente.


— Se comportar na frente da senhorita Barclay, senhor Mãozinha! — repreendeu Wandinha, séria.


— Vixe! Hoje você está com humor do cão também, gótica de Taubaté! — continuou Mãozinha.


Seguindo Agnes com a bandeja de chá, Wandinha a acompanhava com Mãozinha no ombro, até uma jovem admirar um estande com uma roupa japonesa e uma katana. Ela usava blazer roxo escuro, camisa social preta, calça de linho roxa, sapatos pretos, maquiagem discreta e joias sutis.


— Bienvenue, Mademoiselle Barclay — disse Agnes, em francês polido, sorrindo e mostrando a bandeja.


— Thanks, Miss DeMille! — respondeu Bianca com um sorriso.


— Poderia nos acompanhar até o sofá para contar as novidades da corte sombria de Versailles, enquanto desfruta deste Green Tea quentinho e meus deliciosos cookies caseiros, Mademoiselle Barclay? — continuou Agnes.


— Será um prazer! — disse Bianca, ainda olhando para o memorial de Yoko Tanaka com nostalgia.


— Gostei muito que tenham feito um memorial para nossa amiga… ela era a melhor de nós! — sussurrou Bianca tristemente.


— Era o mínimo que eu podia fazer para minha sempai! — disse Wandinha, cabisbaixa.


— Até hoje sinto falta dos nossos saraus e das conversas nos salões do palácio de Yoko em Kyoto — suspirou Agnes, saudosa.


— Bons tempos, minhas amigas — disse Bianca, com uma lágrima escorrendo.


Guiadas até os sofás antigos, Bianca sentou no menor, enquanto Agnes e Wandinha ocuparam o maior. Mãozinha, ágil, preparou o chá e os biscoitos com gestos graciosos, servindo Bianca cuidadosamente.


— Quantos torrões de açúcar, GOAT? — perguntou Mãozinha.


— Um, senhor Mãozinha! — respondeu Bianca.


— E quantos biscoitos? — continuou ele.


— Dois, meu amigo! — disse Bianca.


— Dois biscoitos no capricho para minha GOAT! — concluiu Mãozinha, entregando a bandeja.


— Isto que é classe, bem diferente das duas cavalas imortais que dividem o teto do meu barraco — murmurou Mãozinha.


— O que disseste, seu desavergonhado? — reagiu Agnes, nervosa.


— Duas cavalas! — provocou Mãozinha.


— Como ousa dizer isso na frente de Mademoiselle Barclay, seu malcriado! — exclamou Agnes, apontando o dedo.


— Querem parar com este vexame agora? — interveio Wandinha.


— Mãozinha, castigo. Agnes, se acalme, ou sem biscoito, leite quente, historinha e cafuné por um mês! — decretou Wandinha.


— Sim, senhora! — responderam Agnes e Mãozinha simultaneamente.


Agnes voltou a se sentar, tomou o chá, mas a tensão ainda pairava. Wandinha, então, perguntou a Bianca:


— Então, quais as novidades da corte sombria de Versailles?


— Antes de tudo, quero saber como vocês vivem no Brasil — disse Bianca, interessada.


— Mal cheguei nestas terras tropicais e já encontrei minha amada imortal cortejando uma meretriz do Pigalle, mon amour! — cortou Agnes, furiosa.


— Não é educado falar de nossas intimidades para as visitas! — repreendeu Wandinha.


— Sua intimidade, não a minha! — rebateu Agnes.


— Tu a seguraste pela mão e disseste juras de amor bem na minha frente! Que ódio!


— Mas não fui eu que a beijei na boca, mon amour! — respondeu Wandinha, séria.


— O beijo foi tão longo e ardente que coitada da Sinclair sentiu o gosto do teu hálito!


— Como ousa, indecente! — ameaçou Agnes.


— Precisas melhorar a higiene bucal, pois reclamou muito, ma chérie! — disse Wandinha, ternamente.


Quando Agnes se preparava para dar um tapa, Bianca interveio autoritária:


— Querem parar com esse espetáculo de ciúmes sem noção agora?


— Sim, Mademoiselle Barclay — responderam em uníssono.


— Excelente! Agora podemos conversar como adultas civilizadas.


— Antecipando o mais urgente: o assassinato do Sultão Shahriar.


— O quê? — exclamou Wandinha.


— Sim. Ele foi mortalmente ferido pela esposa, a princesa Scheherazade, há três dias.


— Mas… como? Ele era um dos mais antigos imortais! — disse Agnes, assustada.


— Tudo indica que o assassinato foi cometido com um sabre do leste europeu.


Assustada, Agnes derrubou a xícara e o silêncio sepulcral tomou o Château.


— Mas… como sabem que foi uma assassina? — perguntou Wandinha.


— Elementar, minha cara… a assassina deixou uma carta endereçada a você, Miss Addams.



— O quê? — perguntou Wandinha, intrigada.


— Sim… Baronesa Hilda Von Stein, mon amour! — disse Wandinha, e o horror do passado congelou a sala.