Em agosto de 1944, enquanto Paris ardia em chamas, um pequeno café nos Champs-Élysées resistia à loucura da guerra. Entre o eco dos tiros e o cheiro de fumaça, Agnes estava sentada tranquilamente à mesa, saboreando um croissant e um café fumegante, como se o caos lá fora fosse apenas um ruído distante.


Um soldado americano surgiu às pressas, surpreso ao vê-la tão calma.

— O que está fazendo aqui, fantasiada de Scarlett O’Hara, tomando café no meio de um tiroteio, pequena? — perguntou o Tenente Myres, incrédulo.


Agnes ergueu os olhos, sorriu e respondeu com elegância:

— Meu caro Tenente Myres, estou apenas fazendo meu desjejum matinal nesta bela manhã de verão. E, se quer saber, estou esperando minha amada, senhorita Addams. Depois do café, pretendemos lidar com esses germânicos incivilizados que tomaram minha querida Paris.


— Você tem que sair daqui imediatamente, isto é uma zona de… — começou o tenente, mas o rugido de um motor interrompeu suas palavras.


Uma Harley-Davidson reluzente parou diante do café. O piloto, vestindo um antigo uniforme da cavalaria francesa com insígnias apagadas, trazia o rosto oculto por um capacete, óculos e um cachecol escuro.


O tenente franziu o cenho:

— Como chegou aqui sem ser visto, senhor?


— Magia, Tenente Myres — respondeu a voz feminina, calma e entediada.


O militar recuou um passo.

— Quem é você, afinal?


A figura retirou o capacete, os óculos e o cachecol. Surgiu uma jovem de cabelos escuros presos em Maria Chiquinha, o rosto sujo de fuligem e os olhos frios como noite de inverno. Ela fez continência e se apresentou com solenidade sombria:

— General Wandinha Wednesday Addams, da Corte Sombria de Versailles. Terceira no comando da retomada de Paris, senhor.


Agnes bateu o relógio de bolso e murmurou, num tom provocante:

— Exibida! Está atrasada quinze minutos para o nosso desjejum matinal, minha amada.


O tenente piscou, confuso.

— General Addams, a senhora conhece essa mulher?


Wandinha sorriu, um raro gesto de nostalgia atravessando o rosto pálido.

— Conheço esta fina dama desde nosso primeiro encontro em Montmartre, em 1868, na porta do meu antigo ateliê.


Agnes cruzou as pernas e completou, divertida:

— Fomos juntas, de mãos dadas, à primeira sessão de cinema de Paris — 28 de dezembro de 1895, no Salão Indiano do Grand Café.


— Bons tempos, meu amor — suspirou Wandinha.


O tenente arregalou os olhos.

— Estão dizendo que são mais velhas que minha avó?!


Agnes mordeu uma torrada e respondeu, irônica:

— Possivelmente mais velha que sua bisavó, meu caro tenente.


— E eu, sem dúvida, mais velha que sua tataravó — completou Wandinha, séria. — Agora, Tenente Myres, quero que leve seu batalhão à Torre Eiffel. É crucial que ela esteja sob nosso controle antes do anoitecer.


O homem, ainda atônito, endireitou-se e bateu continência.

— Sim, senhora, general Addams!


— Excellent, Tenente Myres. Nos veremos na Place du Trocadéro, d’accord?


Enquanto ele se afastava, Agnes acenou com graça:

— Au revoir et bonne journée, mon cher lieutenant!


— Essas francesas são todas loucas… — murmurou ele, desaparecendo na esquina.


Agnes suspirou, retomando seu café.

— Esta guerra está acabando com o pouco de cavalheirismo que restava nos homens, não achas, minha amada?


— Concordo — respondeu Wandinha, impaciente. — Mas agora preciso que venhas comigo até a Torre Eiffel. A tua presença é vital para a sobrevivência de Paris… e do mundo.


— Mon Dieu, ma chérie, fiquei tão importante assim? — ironizou Agnes, erguendo o olhar provocante. — Só irei se responder uma pergunta.


— Qual? — perguntou Wandinha, com a paciência se esgotando.


— Por que chegaste atrasada para o nosso desjejum?


Wandinha cruzou os braços.

— Estou combatendo uma guerra que pode terminar num apocalipse, e tu te preocupas com quinze minutos de atraso?


— Não me venhas com a desculpa da guerra outra vez! — retrucou Agnes, erguendo-se indignada. — Sei muito bem que tens treinado as recrutas da resistência francesa… no teu leito!


Wandinha fechou os olhos, suspirando.

— Mon Dieu, ma chérie, não temos tempo para crises de ciúmes. Há uma hora recebi uma mensagem do alto comando americano. Os espiões decodificaram um plano germânico: a Luftwaffe pretende bombardear Paris com bombas de Fogo Negro Lemuriano.


Agnes empalideceu, levando a mão à boca.

— Mon Dieu! C’est terrible!


— Exatamente por isso precisamos ir agora — disse Wandinha, caminhando até a moto.


Agnes agarrou o violino que repousava sobre a mesa.

— Posso abrir um vórtice transportador até a Torre Eiffel, amor!


— Não! — respondeu Wandinha, firme. — Preciso que economizes tua energia imortal. Vou precisar dela para o meu plano.


— E qual é o teu plano, afinal? — perguntou Agnes, já inquieta.


Wandinha montou na Harley, o olhar determinado.

— Sobe na garupa, e eu te explico no caminho. O tempo está contra nós.


Agnes hesitou.

— Vais atravessar as linhas inimigas com essa… bicicleta motorizada horrível?


Wandinha sorriu, sombria.

— Sim. E para isso, vou congelar o tempo mortal.


Fez um gesto elegante com a mão. O ar pareceu vibrar. As balas cessaram, as chamas pararam de dançar, e o mundo ficou suspenso em silêncio absoluto.


— Agora sim, minha querida — murmurou ela. — Estamos atrasadas para salvar o mundo do apocalipse.


Agnes sorriu, subindo na garupa e abraçando sua amada.

— Então vamos, ma chérie. Mostra a esses mortais o que duas imortais são capazes de fazer.


O motor rugiu, e a Harley partiu pelas ruas congeladas de Paris — duas vampiras apaixonadas correndo contra o tempo, enquanto o destino da humanidade dormia imóvel sob o feitiço do silêncio.