Na manhã de 20 de agosto de 1944, Paris parecia uma fotografia esticada: todo o movimento da cidade — a barulhenta batalha que rugia pelas ruas — estava congelado pelo feitiço de Wandinha. Soldados, civis, veículos militares e automóveis particulares; animais, árvores, incêndios, prédios desmoronando; balas suspensas no ar, projéteis lançados por morteiros e mesmo aviões abatidos em queda livre — tudo permanecia imóvel, como se o mundo tivesse preso a respiração. O único som que rasgava aquela paisagem petrificada era o ronco de uma Harley-Davidson em alta velocidade, cruzando as avenidas em direção à Torre Eiffel. Em cima da moto, duas figuras — imunes ao congelamento — conversavam enquanto o motor reclamava.


— O seu feitiço de paralisação do tempo é fascinante, meu amor — disse Agnes, na garupa, sorrindo, o braço esquerdo levantado para segurar o chapéu enquanto a mão direita abraçava a cintura de Wandinha.


— Até eu mesma me espanto com o poder deste feitiço — respondeu Wandinha, pilotando, desviando com precisão entre carros, soldados e até balas suspensas. — Aprendi com os elfos sombrios das estepes do nono círculo.


— Só tenho uma pergunta, minha amada — disse Agnes.


— Qual é a sua pergunta, minha querida?


— Por que nós duas e esta bicicleta motorizada estamos nos mexendo?


Wandinha sorriu por baixo do capacete.


— Simples, meu amor. O meu feitiço paralisa o tempo mortal — explicou ela —, mas não tem efeito sobre imortais como nós: nossas ações, nossas armas e qualquer veículo movido por alguém da nossa estirpe continuam funcionando. Vivemos em outro ritmo temporal; é por isso que não envelhecemos nem nos desfazemos após o abraço das sombras.


— Como tu és a única entre nós que conjura esse feitiço, tornas-te a mais poderosa da nossa estirpe — disse Agnes, orgulhosa. — Até o nosso querido rei lunar já afirmou isso na Corte Sombria de Versailles.


— Não sou, não — retrucou Wandinha, imitando um sotaque nova-iorquino com sarcasmo. — Como dizem meus compatriotas yankees: há peixes maiores neste mar, pequena.


— Ainda assim — insistiu Agnes, sorrindo —, és a única que consegue gerar vórtices energéticos transportadores através da música.


Agnes apertou a cintura de Wandinha com as duas mãos, deixou cair o chapéu, encostou o corpo nas costas dela e deu um beijo carinhoso no seu pescoço.


Durante o trecho restante até a Torre Eiffel, Agnes lançou um feitiço simples para ampliar seu foco de visão. Foi então que viu algo numa praça a cinco quarteirões: uma cena que a fez engasgar e gritar.


— Mon Dieu! Pare a moto agora, meu amor!


— Por que? — indignou-se Wandinha.


— Os soldados germânicos selvagens vão fuzilar mulheres e crianças nesta praça! Temos de impedir isso, minha querida — respondeu Agnes, aflita.


— Sinto muito — disse Wandinha com frieza prática —, não dá tempo de salvar essas pobres criaturas agora; temos que ir à Torre Eiffel imediatamente.


Agnes não aceitou a resposta. Saltou da garupa como se voasse, aterrissou na calçada e disparou:


— Que a sua missão vá para o inferno! Vou salvar esses inocentes sozinha, senhorita Addams — e, depois, irei contigo para Torre Eiffel, sua cabeça-dura egoísta!


Wandinha suspirou, balançou a cabeça, fez meia-volta com a moto e voltou ao lado de Agnes. Estacionou na calçada e falou, conciliadora:


— Tens razão no teu julgamento, minha amada imortal. Sobe de novo — juntas iremos salvá-los.


Agnes bateu palmas em alegria e, num instante, estava de volta à garupa. As duas seguiram para a praça, prontas para impedir o que parecia um genocídio anunciado.


Ao chegarem, a cena congelada os recebeu em toda a sua monstruosidade: um pelotão de soldados nazistas se preparava para fuzilar mulheres e crianças; um segundo pelotão arrastava corpos de homens — possivelmente maridos e pais — jogando-os na carroceria de um caminhão militar como se fossem carcaças de animais. A visão era dantesca, digna de pesadelo. Agnes, tomada pela fúria, começou a vomitar insultos e maldições.


— Monstros! Assassinos! Covardes! Canalhas! Filhos de uma meretriz! Ratos sujos de esgoto! — bradava.


Wandinha, pálida de ira, estacionou a moto entre o pelotão e suas vítimas congeladas.


— Desta vez esses malditos, guiados por uma ideologia infernal, ultrapassaram todos os limites — disse Wandinha, em voz dura. — Malditos sejam.


Agnes saltou da moto, punhos cerrados, avançando:


— Como ousam transformar a minha bela Paris num abatedouro e inocentes em gado para o abate, seus monstros nojentos do inferno!


— Não suje tuas delicadas mãos com esses trastes da Wehrmacht, minha amada — aconselhou Wandinha, calma e letal ao mesmo tempo, ao sacar o sabre de cavalaria da bainha.


— Chegou a hora de mostrar a esses malditos o horror que sou capaz de fazer com meu feitiço de paralisação do tempo e meu sabre! — vociferou Agnes.


Wandinha não esperou: avançou. Como os soldados estavam congelados, tornaram-se presas fáceis. Em poucos minutos, os dois pelotões estavam mortos, espalhados pelo chão como manequins esfacelados. Wandinha limpou o sangue da lâmina num uniforme, guardou o sabre e se voltou para Agnes.


— Graças ao meu feitiço e ao meu sabre, apliquei um castigo terrível sobre esses malditos da Wehrmacht.


Agnes aplaudiu, emocionada.


— Bravo! — exclamou. — Tua justiça foi implacável, digna de Nêmesis! Meu anjo sombrio vingativo de Paris!


— Que sirva de aviso — disse Wandinha, — a todos os miseráveis da ideologia sanguinária e a seus asseclas pelos horrores que cometeram.


Wandinha ergueu o punho, cerrado, e jurou:


— Juro por minha honra que, até o fim desta reconquista de Paris, trarei justiça a todas as vítimas dos crimes cometidos pelos soldados nazistas guiados por sua ideologia maléfica!


Mal a última palavra soara, sons estranhos começaram a emergir dos prédios ao redor da praça: passos que rangiam como armaduras medievais, batidas metálicas de espadas em escudos, gritos e risadas sádicas. Wandinha sacou o sabre, posicionou-se diante de Agnes.


— Estás ouvindo esses sons estranhos, meu amor? — perguntou, em alerta.


— Sim — respondeu Agnes, assustada. — Mas… como ouvimos isso se paralisaste o tempo?


— Não sei — murmurou Wandinha, com um pressentimento frio. — Tenho a sensação de que caímos numa armadilha.


Portas, janelas e sacadas se abriram; da pedra e do tijolo surgiram centenas de figuras hominídeas, envoltas em armaduras medievais corroídas, brandindo armas antigas e escudos trincados. Cercaram Wandinha e Agnes por todos os lados. A ilusão do fuzilamento havia sido a isca: agora as duas amantes, mesmo imortais, estavam no epicentro de uma emboscada mortal.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.