Walldern
1 Recomeço.
Notas iniciais
A sirene da ambulância era alta, as luzes coloridas do giroflex eram as únicas que iluminavam a rua da casa do garoto, uma faixa amarela com a palavra “CUIDADO” gravada em preto estava em volta do terreno, as pessoas esticavam seus pescoços para saber o que acontecia. Ninguém realmente se importava, era apenas mais uma notícia chocante para o chá da tarde do dia seguinte — mesmo nessa cidade de pessoas diferentes, nesse bairro elas conseguiam ser sempre iguais. Os amigos da vítima olhavam confusos, a ex-namorada tentava invadir a faixa para descobrir o que acontecera. Então, os paramédicos saíram da casa segurando uma maca, o braço do corpo sobre ela pairava ao lado: cheio de cicatrizes, hematomas e vários cortes recentes, mas não fundos o bastante para serem a causa da morte, o sangue seco tinha uma cor escura. Quando o corpo entrou na visão de todos, estava coberto dos pés a cabeça, e isso significava apenas uma coisa: não tinha mais volta, a vítima embaixo do lençol agora era um cadáver, sem batimentos cardíacos, sem respirações… sem vida.
Acordei ofegante, os olhos estalados, encharcada de suor.
Não, suor não, água gelada.
Olhei para cima e vi meu irmão com as mãos pairando acima de mim, a água de dentro do vaso de flores em cima da minha cômoda tinha sumido. Ele não precisava de um balde, apenas um aceno com sua mão e água ia para onde ele quisesse.
“Andrew, seu idiota!” gritei. “Por que você fez isso?”
“Você estava se debatendo e gritando, como sempre. Só quis ajudar, fiquei preocupado.” ele respondeu, levantando as mãos em rendição.
“Se é como sempre, você deveria ter me acordado como sempre me acorda nessas situações, cara!”
“Não resisti, desculpe.”
Ele fez um movimento com a mão e toda a água do meu corpo e de meu edredom voltou para o vaso, eu estava completamente seca.
“Achei que os pesadelos parariam.”
“Eu também, mas pelo visto irão me perseguir minha vida inteira.”
“Pensamento positivo pra que, né?” ele saiu do meu quarto.
“Eles não mudam os fatos, Andrew” murmurei, mesmo que não pudesse ouvir.
Era meu primeiro dia de aula, quando o ano começava de verdade. Era o meu recomeço, e tudo iria dar certo, mas eu precisava me lembrar disso o tempo todo.
Quando já estava a caminho do novo colégio, recebi uma mensagem de Diana:
“Primeiro dia no Nettle, hein! Encontre-me na estufa 1! xx”
Passei o trajeto observando a cidade através da janela do carro. Walldern é um lugar próximo a um continente chamado Europa que reúne várias características (que podem ser alteradas) de vários lugares do mundo, por exemplo: idioma e clima brasileiros, moradias e veículos estilo britânico, comidas ‘típicas’ do Japão e da Itália e etc.. Pessoas como nós nunca saímos daqui sem provar que iremos nos controlar do lado de fora.
Todos os cidadãos, com algumas exceções, a partir dos 10 anos de idade, desenvolvem poderes especiais que refletem física e/ou mentalmente na característica mais marcante de sua personalidade -algumas vezes os poderes são hereditários ou apenas aleatórios, sem se relacionarem a nada em especial- e somos chamados de poderosos. As tais exceções são os triviais: filhos de poderosos que não desenvolvem nenhum superpoder, mas são considerados tão cidadãos quanto qualquer outro. Não podemos deixar esse lugar permanentemente, só podemos viajar, porque seria muito perigoso para o resto do mundo, e eu, particularmente, não tenho vontade alguma de visitar o lado de fora. Eu sinto que, se sairmos, seremos tratados como tóxico pelos ordinários -que é como chamamos as pessoas não poderosas fora de Walldern.
Apesar de ser apenas uma ilha, Walldern é do mesmo tamanho que alguns pequenos países, então uma mudança do bairro Norte, onde ficava meu antigo colégio, Corystone, para o bairro Sul, onde fica o colégio Nettle, é o suficiente para que a razão pela qual eu saí de lá morra como uma fofoca inútil.
Depois de passar por dezenas de casas com tijolinhos escuros a vista, meu pai virou a esquerda repentinamente e eu bati a cabeça na janela.
“Da próxima vez, venho de metrô.” resmunguei.
Meu pai parou o carro no estacionamento do colégio Nettle, um prédio de tijolos vermelho-barro, do mesmo tamanho que o prédio de Corystone — bastante largo e com quatro andares. Porém, o terreno se estendia do estacionamento à parte de trás do prédio, quase não dava pra ver o final, era como um campus universitário, mas no lugar dos apartamentos que seriam os dormitórios, havia quadras, piscinas, campos com apenas grama, jardins e, finalmente, as estufas -que, para me dar mais chances constrangedoras de andar no meio de gente desconhecida, era longe.
“Ah, que saudades da infância nesse lugar!” comentou meu irmão.
“Só nesse lugar, né?! Porque ao que tudo indica, sua infância ainda não acabou.” rebati.
Fui me despedir deles e percebi que estavam saindo do carro.
“Aonde vocês vão?”
“Queremos dar uma olhada onde nossa filhinha vai estudar nos próximos meses e relembrar o tempo que seu irmão passou aqui.” respondeu minha mãe.
“Próximos meses? Filhinha? Pra começar, espero ficar aqui até me formar, e se por acaso isso virar uma universidade, vou continuar aqui. E por fim, eu tenho quase catorze anos!”
Meu irmão tossiu, disfarçando a palavra “pirralha”, soquei seu braço.
"Cale a boca, seu mer-"
“Parem de implicar!" interrompeu meu pai. "Carol, você pode ir direto para a coordenação, não precisa estar com a gente, ninguém vai saber que somos da sua família. Entendemos como é constrangedor ter um irmão desse.” Eu e minha mãe caímos na gargalhada. Meu irmão fez uma careta.
“Queríamos que você estudasse aqui desde sempre, Carol, nos desculpe.” suspirou minha mãe.
“A culpa não é de vocês, mãe.” acalmei-a. “Foi o melhor para o jornal na época, eu entendi antes e entendo agora.” Ela deu um sorriso triste e eu me despedi.
Fiz como meu pai disse e, depois de subir todos os lances de escada, estava na sala impecavelmente organizada da coordenadora Tricia Flick -uma mulher magra e esguia com um sorriso amigável- com mais uma garota que não dei muita atenção.
“Você deve ser a Srta. Loyd, certo?” ela perguntou, assenti. “Ótimo, seja muito bem-vinda, nós do Colégio Nettle a recebemos de braços abertos, não é mesmo, Stewr?”
Segurei uma risada, o nome da garota era Stewr? Mas ela acabou com minhas dúvidas quando respondeu com um sorriso irônico:
“Pode me chamar de Lizzie, professora.” ela virou-se pra mim e sorriu normalmente “Sim, você é muito bem-vinda, sou sua guia de primeiro dia, muito prazer, meu nome é, como você já deve ter notado, Lizzie Stewr.”.
Apertei a mão estendida da garota. Ela parecia ser simpática, tinha os cabelos negros presos em uma trança embutida e os olhos mais negros ainda, mas com um formato que os tornavam muito belos e assustadores. Eu falei:
“Na verdade, eu não preciso de guia, minha melhor amiga, Diana Slyth, estuda aqui e-”
“Não precisa incomodar sua amiga, deixe-a com as plantas, a Srta. Stewr será uma ótima guia!” interrompeu-me a Sra. Flick.
Lizzie balbuciou a palavra “detenção” pra mim.
“Certo. Tem mais alguma coisa que eu precise saber, Sra. Flick?”
“Sua sala é a 14A. As salas são divididas por idade, da 10 a 17.”
“Vamos começar o tour,…?” começou Lizzie.
“Carolyn.”
“Tá, vamos, Carolyn?”
Retiramo-nos da sala e passeamos pelo colégio. Não havia nada de incomum e muito menos de clichê: pessoas fazendo coisas estranhas com os olhos, movendo as mãos tentando controlar algo, objetos levitando, pessoas extremamente concentradas em algo que não se era possível descobrir o quê. Típico de um lugar de Walldern. Mas algo que me chamou atenção, mesmo não sendo nada demais, foi um garoto conjurando fogo para uma pequena plateia, ele fazia isso como se estivesse brincando com uma bolinha de pingue-pongue, nem se concentrava, deveria ser veterano. Seus olhos refletiam as chamas, dando a impressão de que eram dourados. Veterano ou não,pensei, ele é impressionante.
Livrei-me de Lizzie na metade do campus, com a desculpa que iria ao banheiro. Fui direto para a estufa 1, que era a maior de todas. Avistei Di mais ou menos no centro, bastante concentrada em uma planta, suas mãos nem se mexiam, e a planta fazia movimentos incríveis controlada por sua mente. Não quis interrompê-la, então apenas observei.
Em livros de História Ordinária -que é como chamamos os fatos sobre os continentes do qual nós não fazemos parte, onde não há ninguém como nós-, quando eles falam sobre um lugar próximo daqui chamado Grã-Bretanha, eles normalmente mencionam Diana, a Princesa de Gales, a conheciam também como “Lady Di”. E desde que descobri isso, sempre chamava Diana assim, porque mesmo que ela não tivesse nenhuma semelhança com a Princesa, ela era tão delicada quanto uma. Seu cabelo castanho escuro caia no ombro e era cacheado desde a raiz, e sua pele era da cor de noz-moscada. Ela usava uma blusa rosa que acabava um pouco acima do cós-alto de seu shorts.
Diana parou de se concentrar e quando percebeu minha presença quase me derrubou no chão com um abraço:
“Carol!”
“Lady Di!”
“Então, como se livrou de seu guia?”
“Ela não se livrou.” afirmou uma voz de trás de mim.
“Lizzie.” Di sorriu, apenas porque era simpática, percebi que não se gostavam.
“Oi, Diana.”
“Lizzie, desculpa, eu não queria incomodá-la e estava com saudades de Di, então vim direto para cá. Não conte para a Sra. Flick, por favor!” pedi.
“Não se preocupe, não faz diferença alguma.” seu rosto relaxou e ela sorriu “Divirta-se.”
O sinal bateu, quando chegamos ao Principal -que descobri ser como todos chamam o prédio de tijolos vermelhos- Di me guiou até a sala 14A, que era a mesma que a dela.
O professor entrou na sala, se apresentou e todas essas coisas de começo de ano. Sem perceber, eu já estava com os olhos pequenos de concentração em Lizzie. Despertei-me
Não faça isso!, disse a mim mesma, Você mal a conhece, e mesmo que conhecesse, ninguém merece tamanha dor de cabeça. Foque no que é importante. Recomeço.
Por que ela teria dor de cabeça? Se eu não conseguisse me controlar, eu estaria invadindo sua memória para descobrir as desavenças entre ela e Di. E, obviamente, ela não estaria permitindo que eu fizesse isso, e isso a daria uma enxaqueca de uma semana e lembranças muito vívidas sobre o que busquei.
“Srta.…” o professor procurou pela minha foto na chamada. “Loyd?”
“Sim?” respondi, olhando pra cima. Eu não tinha percebido, mas tinha voltado a olhar fixamente para Lizzie.
“Está prestando atenção?”
“Ah, perdoe-me, professor.”
“Tudo bem.” ele olhou na chamada de novo, demorou-se mais dessa vez e olhou para mim de volta. “Dirija-se para a sala da Srta. Flick, no fim da aula.”
Ele iria assinar uma ocorrência por não prestar atenção em uma frase que ele disse? Sério mesmo? Comecei a ficar nervosa. Depois disso eu não prestei atenção mesmo no que ele falava, meus pensamentos não saíam disso. E se eles tivessem pesquisado sobre meu último ano em Corystone? Meu recomeço iria por água abaixo. Felizmente, ou não, o fim da aula chegou rápido.
“Você sabe chegar à sala da Tricia, né?” perguntou Diana.
“Sei, não se preocupe. E não precisa me esperar, eu pego o metrô.”
“Não tenho pressa e o combinado é minha mãe te levar para casa. E eu aposto que você nem trouxe seu cartão do metrô.” Ela estava certa.
Virei-me para ir para a sala da coordenação pela segunda vez na mesma manhã e Diana me puxou e sussurrou:
“E os pesadelos, pararam?”
“Nem perto.”
Cheguei à sala da Sra. Flick e bati na porta com uma plaquinha prateada com o nome “Tricia Joanne Flick”, depois de ouvir a voz dela permitindo minha entrada. Abri a porta e tive uma surpresa:
O garoto do fogo estava na sala.
E alguns outros alunos, inclusive Lizzie. Senti um alívio: se não fora a única chamada, então o problema não era comigo.
“Sente-se, Srta. Loyd.”
Não havia cadeiras disponíveis. Olhei das pessoas sentadas para a coordenadora e fiz uma expressão confusa.
“Sr. Minns, onde está sua educação?”
Imaginei que o tal do Minns, que era um menino meio musculoso com o cabelo cor de areia, iria se levantar para eu sentar, mas ele fez algo completamente diferente: com movimentos das duas mãos, ele retirou livros da estante e montou uma cadeira com eles. Não parecia muito resistente, então falei:
“Ãh… Estou bem de pé.”
Sra. Flick não discutiu e foi direto ao assunto:
“Todos vocês estão aqui pela mesma razão: precisam treinar seus poderes. Ou porque algum professor percebeu sua falta de habilidade, ou colega, ou eu.”
Não entendi o que o garoto do fogo fazia lá, ele parecia tão seguro no começo da manhã. Ela prosseguiu:
“Então, cada um foi designado a um veterano para auxílio.” Então o garoto do fogo não era veterano, deveria ter uns 15 anos, no mínimo.
“Por que não podemos usar os alunos das salas 10?” perguntou Lizzie.
“Porque eles são apenas crianças e não podem se proteger, senhorita.”
“Mas isso que é mais divertido.” ela sorriu e olhou para o garoto do fogo, como se o comentário fosse chamar a atenção dele. Ele apenas rolou os olhos.
“Continuando, vocês se encontrarão com seus veteranos amanhã à tarde, na sala 17C.” ela pegou um vidro redondo debaixo da mesa, como um aquário vazio, cheio de papéis. “Eles serão sorteados.”
A coordenadora acenou com a mão e todos os papéis voaram, um para cada um. Resolvi ler o meu depois. Flick nos dispensou e eu me encontrei com Di no estacionamento. Expliquei tudo que aconteceu e ela não estava surpresa:
“Vai ser bom pra você, quem sabe vendo as memórias dos outros você se distrai e seus pesadelos podem até parar.” ela sorriu otimista.
“Espero.” sorri de lado.
A mãe de Diana chegou e, quando íamos para o carro, uma garota quase esbarrou na gente, mas ela desviou com uma rapidez extrema, como se tivesse previsto o movimento.
“Quem era essa?” perguntei, já dentro do carro, depois de cumprimentar a mãe de Diana.
“Katie Lawer, tem 16 anos, está no último ano e só anda com Simon Clark.”
“Como você sabe tudo isso?”
“Tenho minhas fontes.” a expressão de Di escureceu. “Até o ano passado, eram os dois e James Thorn. Eles eram melhores amigos e super sociáveis com todos, ela e Simon sempre foram muito simpáticos, James era divertido e todos gostavam dele.”
“E o que houve no último ano?”
“Simon e Katie voltaram com a notícia que James tinha morrido em um trágico acidente, eles não explicaram como nem porque, disseram que receberam a notícia da família. Todos foram no velório, todos gostavam dos três e consolaram os melhores amigos. Mas a maioria das pessoas acham que eles sabem o que aconteceu, inclusive eu. Mas ninguém se atreve a perguntar, pois eles ainda sofrem com a perda. Katie foi a mais abalada, é preciso muita delicadeza para lidar com ela. Ele e Simon eram tudo pra ela, e agora ela só tem metade de seu ‘tudo’, nem imagino o quão doloroso deve ser.”
"Por que delicadeza?" parei e pensei. "Ela era apaixonada por James?"
"Digamos que ela não consegue desviar seus pensamentos de James, às vezes algo a lembra dele e ela te olha com uma expressão assustada e começa a tremer. Quando ela começa a perder o controle, apenas Simon consegue acalmá-la. Mas esses ataques são bem raros, ano passado eram muito mais complicados e ela precisava de seu irmão para tranquilizá-la. E não! Os dois tinham namorados."
"Ah… E se Simon não estiver por perto nesses momentos?"
"Ela começa a perguntar por ele desesperadamente. Acho que as piores coisas passam pela cabeça dela quando ele se ausenta por muito tempo, coitada."
“Coitada mesmo… E quais são seus poderes?”
“Katie tem um reflexo perfeito, tanto desviando de algo quanto percebendo rapidamente o que uma frase subliminar quer dizer. E Simon é muito persuasivo, então com um toque ele consegue fazer a pessoa pensar do jeito dele, não pra sempre, mas o suficiente para convencê-la do que ele quer.”
“Uau, e o do tal do James?”
“Não me lembro direito, ele quase não o usava. Mas, não vamos mais falar sobre isso, não vai fazer bem para ninguém, muito menos pra você…” ela respirou fundo e sorriu.
“Quem é o seu veterano?”
Peguei o papel do bolso da calça com certa dificuldade e o li pela primeira vez, em voz alta:
"Katie Lawer."
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