Notas iniciais
Essa ideia me veio a mente a partir da letra da seguint música: Numb - Linkin Park.
Dedico essa one a Luan Snow que muito me ajudou e a Lady Alface, minha professora de português no Nyah! hahahahaha.
Espero que gostem. =D

E todos os dias eram iguais.

Com o tempo, Heloísa foi percebendo que, cada vez mais, ela se tornava uma invisível para as pessoas ao seu redor. Um dia era copia do outro. E, não demorou muito, para ela perceber que a vida se tornara algo tedioso de se viver. Dia após dia a garota era confrontada com a decepção de sua mãe sobre ela, as expectativas que criavam nela, as piadas que faziam dela, os olhares estranhos que lhe lançavam. Ela queria gritar, queria explodir; exausta de toda a pressão, seus olhos ganhavam peso e tudo que ela almejava era gritar e implorar para que ao menos uma vez em sua vida deixassem que ela fosse ela mesma.

Na faculdade, ela não via o tempo passar, sentada no fundo da sala, ela se mergulhava em devaneios. Imaginava o dia em que ela diria a sua mãe que não queria fazer faculdade de administração e sim desejava fazer Letras. Contudo, mesmo em pensamentos, ela era capaz de ver que sua mãe iria ficar pasma com aquilo e começaria a chorar por Letras ser uma faculdade insignificante em relação à administração e então ela lhe olharia com aqueles olhos... Por isso, Heloísa começava a acreditar que estava destinava a viver por sua mãe. Ela era a filha bonita que representava tudo que sua mãe queria ter sido e não pode ser.

Vez ou outra uma pessoa tentava puxar conversa com ela, e ela, claro, era gentil, sempre tinha as respostas na ponta da língua para qualquer indagação, porém nunca fazia perguntas e nunca respondia mais que o necessário. Com o tempo as pessoas ao seu redor foram se afastando dela, a garota esquisita, despenteada, que mesmo em dias quentes andava com as jaquetas cobrindo todo o seu braço. Na verdade, ela não desejava que as jaquetas lhe fizessem calor, apenas queria cobrir os seus pulsos, onde, lá, revelava suas tentativas vãs de um fim para aquilo. Nem para morrer eu sirvo.

Ela era um jovem de dezenove anos a cursar o segundo período da sua faculdade. Morava somente com a sua mãe, Alicie Ribeiro, uma mulher viúva que vivia a custa do dinheiro que o exercito lhe dava pelos serviços prestados de seu esposo, Jonas Ribeiro. Heloísa tinha apena quatro anos quando recebeu a noticia de que seu pai jamais iria voltar de uma missão que o exercito lhe proporcionou. Heloísa queria tanto que seu pai, Jonas, estivesse ali, mas com o tempo ela foi aprendendo que a vida não fazia nada do que ela queria.

Sempre na volta da faculdade, pouco antes de chegar a casa, ela voltava a pentear o seu cabelo do modo que sua mãe, Alicie, penteava antes dela ir para faculdade. Tinha que chegar intacta, caso contrário sua mãe lhe olharia com aquele olhar de quem estava desapontada, e Heloísa não gostava daquele olhar de reprovação. Quando ela via aquele olhar, sentia como se seu coração ardesse em chamas de amargura. A jovem já havia entendido que sua única função era agradar sua mãe, afinal, aquela havia sido a mulher que tinha batalhado para lhe dar uma educação melhor e lhe alimentar. Heloísa estava sendo egoísta, não poderia se dá ao luxo de querer ser alguém, tinha que agradar a mulher que tanto lhe amava, certo?

Sim! Ela repetia várias vezes à resposta em sua mente, mas no fundo, ela sempre soube que estava mentindo a si mesma, não era assim que ela pensava, não era. A verdade era que Heloísa sempre cobiçava um futuro com escritora de livros, ou uma artista de rua capaz de pintar um sorriso nos bravos dos homens. Ou, quem sabe, ela poderia ser uma alpinista, pianista... Qualquer coisa que lhe fizesse se sentir livre, qualquer coisa que fosse capaz de lhe fazer sentir única. Sim! Se eu falar isso minha mãe escutará, é isso!

Arranhou o machucado de seu pulso, como forma de punição por aquele pensamento infantil. Tola, estúpida, essas coisas nunca irão acontecer, nunca...! Lágrimas brotavam de seus olhos chineses, olhos que ela havia herdado de seu pai. Um homem afável que morreu cedo demais, poucas eram as lembranças guardadas de Heloísa em relação a ele, sim, eram poucas, mas eram fortes lembranças, memórias que eram com água fria atiçado em seu coração fervescente. Era sua calmaria em meio à tormenta.

No jantar, as coisas também não eram diferentes, ambas as mulheres da casa se sentavam nas cadeiras que contornava a pequena mesa redonda. Enquanto comia, frequentemente ela olhava para a sua mãe, e sempre que olhava, via ela a lhe observar com olhos pedintes e insaciáveis. Aquilo fazia à jovem se sentir como um objeto a ser admirado e manuseado pela “dona”.

Alicie nem sempre foi assim com sua filha, isso se intensificou mais quando ela percebeu que Heloísa seria sua única filha. Pouco tempo após Jonas ter sido velado, a mulher descobriu que estava grávida de um menino que pertencia ao seu falecido marido. Alicie ficará tão feliz, pois Heloísa, mesmo pequena, sabia que o desejo de sua mãe sempre foi um menino.

Os meses passavam, e cada vez mais Alicie dava mais atenção ao bebe do que a filha que havia simplesmente sido esquecida. A garota aprendera a fazer a comida sozinha, ou pelo menos o básico. Vez ou outra a garotinha tentava chamar a atenção de sua mãe, contudo Alicie sempre lhe dava um olhar negativo ou indiferente querendo dizer: “É o mínimo que você tem que aprender a fazer.” A menina não entendia, porque um bebê que ainda estava na barriga e não fazia nada, ganhava mais atenção e mais sorrisos do que ela.

Pois bem, o tempo passou e hora do parto chegou. A menina ficou esperando quatro dias em casa, até que sua mãe voltou, com os braços... vazios. Daquele momento em diante, sua mãe nunca mais sorriu novamente e dedicou todo o seu tempo a cuidar de sua única filha, Heloísa. Foi depois de alguns anos que a jovem ficou sabendo que o bebe ao havia resistido ao parto. Assim, o tempo passou; a garota era privada de suas amizades, com o tempo nenhuma amiga sua queria ir para sua casa e ter que encarar a sua mãe que era rude com as visitas. E o tempo passou, ela ingressou na faculdade que Alicie almejava quando jovem, e ali estava ela, uma jovem que vivia para agradar sua mãe.

Ao final de todos aqueles dias monótonos, chegava à hora de se deitar, o momento que ela ia para seu quarto se deitar e descansar. O quarto era todo pintado de rosa como a sua mão gostava, com imagens de príncipes e princesas colocadas na parede. Ela costumava estudar antes de dormi, afinal, ela passava as aulas todas perdida em um mundo só seu. Após estudar, ela se deitava na cama e fechava os olhos desejando que o próximo dia fosse diferente. Ás vezes ela escutava a porta de seu quarto abrir, era sua mãe a lhe observar e vê se estava tudo bem, nem sequer a chave do quarto a jovem tinha, dizendo Alicie, que a filha ainda não tinha idade suficiente para dormi sozinha trancada em um quarto.

E todos os dias eram iguais.

Na faculdade, a garota esquisita. Em casa, o sonho da mãe. E assim os dias se passavam sem emoção. Heloísa se recusava a querer passear em viagens de faculdade com os colegas de sala, ou quem sabe ela se recusava pelo fato de ficar longe de sua mãe. Não! Respondeu ela em pensamento quando sua mente lhe confrontou com a afirmação... Equivocada?

E todos os dias eram iguais.

A verdade era que o tempo passava, os dias eram iguais e Heloísa vez ou outra tentava um suicídio, ou melhor, ela fingia tentar. Ela queria enganar a si mesma, mas tentar de verdade, para lhe causar um fim definitivo, ela não tentava. As memórias de seu pai ficavam cada vez mais distantes... Mais fracas e sujeitas ao esquecimento definitivo. Ela começava a acredita no que a mãe dizia: “Seu pai era um vagabundo que morreu na hora errada, ele só morreu para me causar mais prejuízo.”

Em outros tempos, Heloísa não concordaria. Lembrava-se que seu pai lhe levava para passear, mas eram tudo lembranças tão apagadas e frágeis que chegavam a ser duvidosas se eram realmente verdadeiras. Podia ser que não. Aquilo poderia ter sido somente um truque de sua mente para dar-lhe esperança que um dia a vida foi melhor.

A filha ideal, ou a garota esquisita, com o tempo, foi se distanciando dessas memórias e se tornava cada vez mais uma marionete a ser manipulada de acordo com os desejos da mãe. Nem sequer conseguia mais ficar longe dela, estava se tornando dependente. A rotina lhe mostrava que talvez ela realmente quisesse se formar em administração. Afinal, não era só porque sua mãe queria que ela não pudesse querer o mesmo, certo?

Suas tentativas de aparente suicídio pararam. E seus desejos se tornaram os da mãe. E assim Heloísa viveu, e demorou muito tempo para perceber que ela já havia morrido. Sim, Heloísa estava morta, desde o dia que aceitou a rotina como algo da vida. Desde o dia que aceitou sua mãe lhe comandando. Afinal, a jovem já não tinha mais vontade própria, não tinha opinião era como um robô que concordava com o que os outros diziam, sorria na hora certa, mesmo sem vontade, porque foi assim que sua mãe lhe ensinou... Ela estava morta, mesmo que seu corpo vagasse pelo mundo. Já não havia chama em seu coração. Apenas um corpo a vagar pela imensidão de tormento.

Notas finais
É isso, se leram até o final, por favor, comentem! Comentários irão me fazer feliz e vocês não perderam suas mãos, juro! =D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!