Walking After You

23 Capítulo 22: Closer


Notas iniciais
OI GENTE. Fiquei bastante feliz com os reviews recebidos! E o capítulo está postado como prometido~ Comentários no final, pra não dar spoiler pra ninguém. qq Boa leitura! :3

Ouvir a voz de Shizuo era sempre confortante, ainda que Izaya não conseguisse discernir se estava lúcido ou se a circunstância estivesse lhe fazendo alucinar sobre a presença do loiro ali. Talvez fosse sua compensação, à medida que o fim se aproximava. Costumava ouvir que em seus últimos minutos de vida, sua história passava como um flashback diante de seus olhos. Bem, não era exatamente assim que estava acontecendo, mas se lembrava de vários momentos que passara com Heiwajima. Momentos bons e ruins. O rapaz sempre estava em suas memórias, e sua figura parecia mais vívida do que nunca, como se o informante estivesse passando por aquelas cenas mais uma vez. Era quase como se mal tivesse vivido a própria vida até encontrá-lo. E não podia negar que era verdade. Izaya sempre buscara qualquer que fosse o sentido para sua existência medíocre. Ele sempre se entediava rápido demais, as coisas a seu ponto de vista eram todas banais e as pessoas não lhe comoviam facilmente. O loiro, entretanto, fora uma exceção desde o início. Tê-lo por perto lhe fizera repensar sobre a superficialidade da existência, e finalmente encontrar um sentido nela. Lembrar-se do sorriso de Shizuo, mesmo naquele momento, mantinha-lhe aquecido e consciente – na medida em que alguém em seu estado conseguia estar.

Mas o barman de fato estava ali. Chegara há pouco com Celty e pedira que a Dullahan esperasse lá fora. Não queria envolver mais ninguém naqueles problemas, algo dentro de si dizia que tinha de resolver aquilo sozinho. Logo que entrou na Igreja, se deparou com Orihara amarrado com cordas firmes em cima do velho altar cinzento de mármore. O casaco do informante estava manchado de carmim e o cheiro de seu sangue exalava por todo o local. Mesmo de longe, dava para ver os ferimentos em seu rosto e corpo. Ele mal parecia estar conseguindo abrir os olhos. O loiro tentou alcançá-lo o mais rápido que podia, mas seus passos pareciam pequenos demais se comparados ao imenso corredor que tinha de atravessar.

A igreja podia até estar abandonada e caindo aos pedaços, mas tinha um aspecto realmente bonito. Deveria ser linda quando ainda estava inteira. Apesar de alguns vidros quebrados, remendados com tábuas de madeira desgastadas pelas traças, tinha belas pinturas ornamentando-a. Havia uma cruz ao centro, com Jesus Cristo pregado na mesma. Era a única coisa que se mantinha intocada. De resto, havia resquícios do fogo que assolara o local, destruindo várias partes da Igreja e cinzas do incêndio esparramadas pelo chão, mas ainda dava para ter uma ideia de como era antes. Não que Heiwajima tivesse prestado atenção, pois tentava a todo custo chegar até Izaya.

– Heiwajima-san! – A voz estridente de CN ecoou. Ela realmente estava tardando em aparecer. Seu rosto estava todo ensanguentado, assim como o vestido branco de noiva que usava. O véu cobria uma parte de seu rosto. Ela estava maravilhosa, ou estaria, se não estivesse banhada no líquido escarlate que Shizuo tanto odiava. Suas pupilas estavam tão dilatadas que pareciam duas jabuticabas. Mal dava pra ver o azul de seus olhos. Parecia totalmente fora de si. Suas garras estavam à mostra. Ela as usara para retalhar Izaya há pouco. Em uma das mãos, no entanto, segurava um belo buquê de lírios. Ofegava com dificuldades. Shizuo quis vomitar mais uma vez. – O que acha das minhas flores? – Ela se aproximava rapidamente, cada vez mais, impedindo que o loiro chegasse perto do informante.

– Cora... Eu não acredito... – Murmurou, encarando-a fixamente nos olhos. Tinha um sorriso esquisito estampado no rosto. Um sorriso de puro deleite. Perguntava-se se essa era a última coisa que todas as suas vítimas viam. Era de arrepiar a espinha.

– Eu muito menos! – Ela exclamou, avançando para cima do rapaz, que se esquivava rapidamente. – Eu lhe pedi que não interferisse! Já está quase acabado, você não tinha que vir aqui!

– Então por que deixou o cinzeiro no meu bolso? – Perguntou. A mulher, arisca, tentou arranhá-lo num gesto súbito, mas ele conseguiu desviar a tempo. Tinha vontade de revidar, mas não conseguia. Havia algo em si que o deixava imóvel. Talvez a mínima esperança de acreditar que Cora ainda poderia voltar ao normal.

– Uma lembrança. Era só uma lembrança! – Não parecia a mesma CN que ele havia encontrado no dia anterior. Sua voz era aguda e irritante, e ela ria de um modo psicótico, ainda que o loiro pudesse deduzir que, para ela, aquela situação não tinha a menor graça. – Não vê que eu preciso fazer isso? Por que está tentando me impedir?

Outro ataque súbito, que, desta vez, atingiu o ombro esquerdo de Heiwajima, expondo-o no rasgo feito. A ferida que se formava era feia e profunda. Ele ainda não estava totalmente recuperado do tiro que havia levado durante a perseguição, e grunhiu com a dor aguda que lhe invadia. Sangue, sangue e mais sangue. Já estava ficando nauseado com toda aquela situação. Não costumava sentir dor tão facilmente, mas andava tão desgastado... Estava fraco e indisposto demais para não se sentir baqueado. CN era forte. Não era como as pessoas que lhe abordavam na rua, querendo brigar apenas por diversão. Ela era sua igual, e por isso a temia. Tinha sorte de nunca ter perdido a calma a ponto de ficar como ela.

– É pelo Vicenzo. – A moça prosseguiu, com os olhos cheios de lágrimas. – Izaya merece tudo de pior. Ele não te merece, Shizuo. Não merece ser salvo por você. – Pegou uma das mãos de Heiwajima e acariciou-a ternamente, sujando-a. – Pare com isso, por favor.

– Você é quem deveria parar com isso, Cora. – Retrucou, rispidamente, desvencilhando-se da mulher, que fechou a cara imediatamente. – Quantas vezes terei que dizer que matar o Izaya não vai trazer o Vicenzo de volta?! – Heiwajima parecia estar juntando forças para continuar falando. Sentia-se fraco demais. Seu tom de voz era rouco e vagamente desesperado. – Você precisa seguir em frente.

– ACHA QUE EU CONSIGO PERDOAR A MIM MESMA?! – Explodiu, entre soluços e lágrimas grossas que se misturavam com os respingos do sangue de Orihara em sua face. – Foi culpa minha... Tudo culpa minha... – Gaguejava, encarando o chão. Deixou o buquê cair, mudando totalmente de humor mais uma vez. Parecia desolada e totalmente sem rumo. – Eu não tenho como seguir em frente se ele não estiver comigo...

Orihara ouvia àquelas palavras já praticamente apagando. Shizuo estava ali para ver seus últimos momentos. Era bastante miserável morrer daquele jeito. Não podia negar que sua excentricidade lhe fazia querer uma morte digna de cinema, e por mais que todo aquele cenário fosse exótico, morrer nas mãos de Cora, que terminara por desmascarar-se como alguém totalmente previsível, era patético. Sua visão embaçada apenas conseguia enxergar uma silhueta disforme do loiro alto, junto com a da moça. Izaya não conseguia entender o que os dois falavam, e muito menos tinha forças para interferir. Só conseguia ouvir gritos incompreensíveis e o choro de CN.

Shizuo estava apreensivo para ver se o informante ainda estava vivo. Ele estava seriamente machucado, e não parecia nada bem, mas o loiro ainda conseguia sentir sua presença. De maneira bem vaga, quase se esvaindo, mas ainda ali. Tinha medo de que a conversa com Cora se prolongasse e ele não conseguisse chegar a tempo. Em sua mente, a única coisa que ecoava era que deveria tirar Izaya dali, mas como fazer aquilo com a mulher lhe impedindo? Seu choro parecia sincero, mas não sabia até que ponto ela conseguia fingir. Era imprevisível, afinal de contas.

– Me deixe ver o Izaya, por favor. – Shizuo disse, por fim. A mulher fez uma expressão confusa.

– Ele já está praticamente morto... – Cora retrucou com dificuldade.

– Por favor. – Insistiu.

CN assentiu. O informante já havia parado de agonizar e perdido muito sangue, então, ela supunha que a hora dele finalmente chegara. Só faltava o golpe de misericórdia, que a moça estava prestes a fazer, até Shizuo chegar. Não faria mal deixá-lo ver o informante pela última vez, ainda que lhe doesse. Ninguém merecia ver a morte de alguém que amava. Nunca se esqueceria do dia que vira Vicenzo esparramado no chão, sem pulso, frio como gelo. Nunca se esqueceria da sensação de medo e solidão que lhe assolara naquele momento. Nunca se esqueceria do momento em que finalmente percebeu que não havia mais ninguém para lhe fazer companhia. Não queria que Shizuo se sentisse dessa forma, mas ele parecia um tanto desesperado. Era uma pena ele não entender que tudo aquilo tinha um propósito muito maior. Em sua cabeça, a morte do mafioso só teria sentido quando Izaya também tivesse seu fim – de uma forma mais dolorosa ainda. Ela finalmente estava conseguindo cumprir seu objetivo, o que a deixava radiante.

Caminharam até o altar em silêncio, ouvindo os passos de ambos claramente. O teto da igreja era alto e havia lustres de cristal nele todo. Era um belo lugar para se casar, realmente, mas tal pensamento não passava pela cabeça de nenhum dos dois. Quando Heiwajima se deparou com o corpo todo estilhaçado de Izaya, sentiu lágrimas quentes escorrerem por suas bochechas. A garganta secara de repente. “Pulga...”.

– Ora, é lindo, não é? – A mulher perguntou num tom de voz doce, completamente mudado. Ela contemplava o que havia acabado de fazer como se fosse uma obra de arte. – Quase como Saturno, na obra de Goya. Eu o destruí. O devorei...

Não conseguia conter o ódio que lhe invadira ao ver o sorriso satisfeito de Cora ao seu lado. Como ela se atrevia a sorrir em uma hora como aquelas? Sabia que ela sentia-se triunfante por causa do que acabara de fazer, mas, ainda sim, ela tinha perfeita consciência dos sentimentos do loiro por Izaya. Aquele comentário fora o ápice para ele. O choro incessante da mulher parara de repente, servindo apenas para deixar Heiwajima ainda mais estressado. Pouco a pouco, sentia-se perdendo o controle. Suas mãos tremulavam de raiva, e suas veias latejavam. Estava irritado, podia sentir o ódio ficando maior do que si mesmo. Estava prestes a explodir. Era maior que o que costumava sentir quando o informante o provocava. Por mais que quisesse perdoar Cora, ver Orihara naquele estado o afetara mais do que imaginou. Ninguém deveria ser submetido àquele tipo de coisa. Todos aqueles cortes profundos... Totalmente impiedosos... Era uma visão horrível. Só um monstro conseguia fazer um estrago daqueles. Tentou respirar fundo. Perder a consciência ali não era a melhor coisa a se fazer.

Mas, quando viu, já estava com as mãos no pescoço de Cora. Sua raiva era tamanha que conseguiu tirar a mulher do chão. Podia ver seus lábios adquirindo um tom arroxeado vagarosamente, e o olhar de desespero da mulher. Mas não enxergava nada. Não conseguia controlar seus atos. Apertava CN com tanta força que nem sentia, mesmo que a mulher se debatesse com todas as forças, tentando se soltar. A única coisa que passava por sua mente era o que ela havia acabado de fazer com Izaya. Nada daquilo tinha explicação. Ele não merecia, por pior que fosse o que fizera. Por mais que tivesse sua parcela de culpa na morte de Vicenzo. Ela havia retalhado ele. Podia ouvir os gritos do moreno, por mais que não tivesse presenciado a cena, e eles ecoavam em sua mente num tom tão claro que pareciam reais. Entrava em desespero só por imaginar o quanto ele sofrera, e aquele desespero todo ia crescendo dentro de si, transformando-se em raiva e puro descontrole. Já não conseguia mais ter senso de moral, nem discernir o que era certo do que era errado.

Talvez também fosse um monstro. Um animal. Como todos sempre disseram.

Por mais que não tivesse consciência naquele momento, tinha vontade de matá-la. Essa vontade era algo que nunca se permitira ter antes, mas era o que o guiava naquele momento. Era bestial. Ultrapassava todos os limites que lhe foram impostos pela própria consciência. Em todos aqueles anos, em meio a vários atos de extrema agressividade, nunca cogitara matar alguém, por mais irritado que estivesse. Hospitalizar era até viável, e acontecia de vez em quando, mas, matar, nunca. Era o que lhe separava das pessoas ruins. Prometera-se a si mesmo que nunca faria algo assim. No entanto, naquele momento, queria ver Cora no mesmo estado em que deixara o informante. Era a única coisa que lhe motivava. Não se importava mais com Vicenzo. Não se importava mais com os motivos da mulher, ou com a remota possibilidade dela se reintegrar na sociedade. Ela não lhe parecia mais alguém que fosse digna de sua piedade. Tornara-se um monstro por causa de Izaya. Chegava a ser irônico, pois o informante também lhe despertava o sentimento mais humano de todos.

Amor.

O amor era algo assustador para Shizuo também. Ele não pensava dessa forma, mas qualquer outro pensaria. Vê-lo surtar daquele jeito por causa do moreno fizera Cora se assustar como jamais se assustara antes na vida. Heiwajima era bom, mas a fúria em seu olhar enquanto ele fincava as mãos insistentemente em seu pescoço e apertava faziam a moça pensar no quão longe ele poderia ir. Até onde aquele impulso iria? Talvez fosse tão longe quanto ela, que não sossegou até matar o principal culpado pela morte de Vicenzo. Não imaginou que ele fosse descer tão baixo... Mas era isso que tornava aquele sentimento tão formidável. A capacidade de mostrar as pessoas como elas realmente eram. O amor, e tudo o que se fazia por ele. O desespero que se sentia ao perdê-lo. Era destrutivo. Era a motivação mais irracional que alguém poderia ter.

Não se arrependia de ter matado Izaya, apesar de ter feito Shizuo perder a razão àquele ponto crítico. Alguns sacrifícios teriam de ser feitos, ela sempre soube. A morte do informante não lhe fazia se sentir menos vazia nem mais realizada, mas, de algum modo, lhe trazia satisfação. A ideia de que Orihara já não pertencia mais a esse mundo era confortante. Que o inferno lhe desse boas-vindas da forma que ele merecia. Finalmente, Vicenzo fora compensado. Seu amado italiano tivera sua morte devidamente vingada. Agora, independente do que aconteceria, estava tudo bem. Ela não se importava em morrer, até porque nunca teve medo da morte. “Quando se nasce como eu, a morte não é nada mais do que um livramento.” Era o que costumava dizer para os outros. De fato, quando morresse, não faria diferença. Nada poderia ser pior do que o que ela havia passado. A seu ver, o inferno era ali mesmo. Na Terra.

A dor que sentia não era insuportável. Era incômoda, mas já passara por coisas piores. Nada conseguia se equiparar ao dia que perdera Vicenzo. Agora, finalmente sentia que poderia descansar de sua tormenta. Independente de para onde fosse, esperava que pudesse estar com ele. Talvez encontrá-lo mais uma vez. Sabia que era pedir demais, e que não merecia isso, mas... Era só um devaneio, de qualquer forma. E mesmo que seu instinto a fizesse se debater por sua própria vida, já havia se resignado as circunstâncias.

– Vicenzo... – A voz da mulher era praticamente inaudível, mas, mesmo se não fosse, Shizuo estava num transe intenso demais para percebê-la. – Me espere...

Shizuo não a soltou até que a mulher caísse morta de uma vez. O baque do corpo sem vida de CN fizera um estrondo da igreja. E, então o silêncio reinou. Um silêncio cortante. Horrível. Silêncio que perdurou por instantes que pareciam ser eternos. Heiwajima encarou as mãos que formigavam. Estavam cobertas de sangue fresco. Sangue de Cora. E de Izaya. Seus olhos estavam vazios. Não sentia nada. Não havia recobrado a consciência de seus atos ainda, então, ficou encarando a parede por um longo período de tempo, esperando que as batidas descompassadas de seu coração se estabilizassem.

Cora e Izaya.

Aqueles lhe pareciam nomes comuns. Em qualquer outra história, talvez eles não tivessem se cruzado. Existem tantas pessoas que passam pela vida uma da outra e não deixam nem uma marca, não é mesmo?

Infelizmente, não foi o que ocorrera ali. Ali, a história havia chegado a um ponto extremo. A interferência de um na vida do outro foi impactante a ponto de ser fatal. O ápice e o fim. Sem eufemismos. O sofrimento e a morte. A morte de Cora significava que nada mais aconteceria. Ninguém mais teria que morrer. Heiwajima não teria mais de se preocupar em perder nenhuma de suas pessoas queridas. Não haveria mais dor. Shizuo ainda não havia processado o que acabara de fazer, e nem as consequências de seus atos. Muita coisa aconteceu ao mesmo tempo. Era demais para ele. Acabara de fazer algo que jamais pensou que faria. Suas mãos haviam tirado a vida de alguém em um instante tão breve que sequer passou diante de seus olhos.

Alguns minutos. Foi isso que bastou para que as mãos de Shizuo ficassem sujas para sempre. Alguns minutos que valeram pela vida toda de alguém. Alguns minutos que o loiro jamais poderia retomar. Um tempo que ele nunca voltar atrás. Não adiantava se arrepender. Não adiantava desejar que aquilo não houvesse acontecido, porque já ocorrera. E foram apenas alguns minutos. Foram meses de agonia, de medo e receio, para acabar num período de tempo tão curto. Foram meses tentando se agarrar num fio miserável de esperança, desejando que tudo ficasse bem. Foram meses de expectativa que cessaram de repente. Era inacreditável. Aos poucos, ia voltando a si, totalmente desnorteado, sem conseguir se lembrar como avançara em Cora tão rapidamente. Só se lembrava da raiva que sentia. Da raiva quase bestial que lhe invadira há pouco. Ela se esvaíra completamente, mas seu corpo ainda pesava. Seu corpo estava totalmente tenso. A sensação de relaxamento que esperava ter quando tudo acabasse não havia chegado. E provavelmente não chegaria nunca.

Caminhou até Orihara, ainda que tivesse sequer descido do altar. Quão irônico era que um pecado tivesse sido cometido perante a cruz? Quão irônico era todo aquele sangue derramado num lugar sacro? Não sabia dizer. Honestamente, nem queria pensar nisso.

– Eu sinto muito. – Abaixou-se, mal conseguindo falar com o desespero que lhe invadia. – Eu sinto muito... – Sequer sabia dizer pelo quê sentia. Percebera tudo tarde demais. Os sentimentos de Izaya, os próprios sentimentos, o surto que acabara de ter... Tudo. Riu da própria desgraça, acariciando o peitoral exposto de Orihara. Não conseguia senti-lo respirar. Não conseguia sentir nada. – Eu sempre percebo tudo tarde demais. Mas eu não queria te perder. Eu amo você, pulga... Como eu nunca achei que fosse amar alguém... Na minha vida...

Acabara de cometer um gesto tão egoísta. Tão mesquinho. Não sabia como colocar em palavras. Não queria o perdão de Izaya por isso, porque sabia que o informante entenderia facilmente. Entretanto, como ele próprio poderia se perdoar? Finalmente entendia a indagação de CN, e por mais que seus motivos fossem diferentes, a culpa os unia de alguma forma.

O informante remexeu-se vagamente. Shizuo estreitou os olhos. Pode vê-lo erguer uma das mãos, com muito esforço, deixando escapar um gemido baixo de dor. O loiro sentiu-se iluminar um pouco, ainda que o peso de suas ações fosse muito maior do que qualquer felicidade que sentia no momento.

– S-Shizu-chan... – Ele sorriu de maneira imperceptível, fazendo com que o loiro entrelaçasse os dedos de suas mãos com os dele. Sim. Ele estava ali. E estava vivo. Sua respiração era quase imperceptível, e parecia que iria cessar logo, logo. – Vamos sair daqui... – Pediu. – Acabou. – Não sabia o que acontecera, porque se perdera em algum momento, mas ouvira as últimas palavras de Shizuo. Só queria sair dali o mais rápido possível. Enquanto ainda conseguia resistir à morte batendo à sua porta. Bem... Era como diziam. “Vaso ruim não quebra fácil”.

O rapaz desatou os nós que prendiam Orihara o mais rápido que pôde. Ainda que eles estivessem bem firmes, não tivera tanta dificuldade em afrouxá-los. O moreno não falou nada durante o processo, em vista que ele não estava totalmente consciente – e mesmo que estivesse, estava machucado demais para fazer qualquer coisa. Pegou Izaya no colo com cuidado, carregando-o para fora em passos lentos. Honestamente, por mais que tudo houvesse acabado, ele não se sentia bem. Acabara sim. Mas a preço de algo imensurável. Era uma vida. E por mais que Cora tivesse tirado tantas outras... Não merecia que o mesmo acontecesse consigo. Ela não era de todo ruim. Não sabia em que ponto a mulher havia se perdido e se entregado completamente à própria vingança. Não sabia por que se deixara cegar de tal forma. Mas não conseguia parar pensar nos sorrisos sinceros que ela lhe lançara quando estava lhe contando sua história. Não conseguia parar de pensar nos olhares animados e apaixonados quando se lembrava de Vicenzo, e quando narrava o modo que eles haviam se beijado ao som da música que ele tanto gostava. Não conseguia parar de pensar como aquela mulher problemática e corrompida um dia fora uma moça verdadeiramente feliz. Ao dar a última encarada no corpo da mulher sem vida, suspirou longamente, tentando oferece-la suas devidas condolências. Sabia que não estava em posição, uma vez que foram suas próprias mãos que acabaram com a vida dela, mas sentia-se no dever.

Estranhamente, a mulher tinha uma expressão muito serena em sua face. Não parecia mais agoniada ou infeliz. Era como se finalmente tivesse conseguido seu descanso, depois de um bom tempo. Shizuo não pensou que aquilo fosse de todo ruim. A ilusão de que ela havia conseguido matar o informante talvez lhe trouxesse paz do outro lado.

– Se todos os seus atos finalmente lhe trouxeram a calmaria, Cora... – Heiwajima murmurou, caminhando para fora da Igreja. – Então, eu fico feliz.

“Sinto muito por ter te encontrado quando já era tarde demais para te salvar.”

Quando deixou Orihara nas mãos de Celty, ela se lembrou do dia que o informante fizera o mesmo quando Shizuo fora atacado no beco. Ele também encarregara a Dullahan de cuidar do loiro. Parecia algo que havia acontecido muito tempo atrás. Era quase como um ciclo, que começava e terminava da mesma forma. Não pôde deixar de se preocupar com a expressão tensa e insatisfeita de Heiwajima. Ele parecia sem rumo, e definitivamente não se prolongou.

– Cuide bem dele. E peça para Shinra não fazer nenhuma loucura. – Deu um sorriso desgostoso, quase como se sentisse dor por entregar o informante a motoqueira. Ela tinha certa ideia do que ocorrera, apesar de se surpreender com o fato do loiro estar bem menos machucado do que imaginou que ele fosse ficar.

– “Você não vem?” – Celty perguntou.

– Não. – O barman retrucou com certo receio. Sua cabeça latejava de dor e sua expressão era visivelmente abatida. Sturluson sabia que havia algo de errado com ele, mas sabia que não era a melhor hora para perguntar.

– “Shizuo...” – A Dullahan só esperava que Heiwajima não fizesse nada precipitado. – “O que você vai fazer agora?”

Ele suspirou. Aquela era mesmo uma ótima pergunta.

– Honestamente, Celty, eu não faço a mínima ideia.

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Gente, a obra do Goya mencionada pela Cora é "Saturno devorando a su hijo" e pode ser vista aqui: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9b/Francisco_de_Goya,_Saturno_devorando_a_su_hijo_(1819-1823)_crop.jpg

Notas finais
Beeem... Essas notas vão ficar muito grandes, eu acho. Mas como são as notas finais, elas nem vão tomar o tempo de vocês. Pra começar: o que dizer de tudo o que ocorreu né? É muito estranho ver que a Cora finalmente tenha morrido. Foi muito complicado escrever esse capítulo, eu poderia ter prolongado mais, com mais brigas e tensão, mas eu gosto de deixar essas coisas o mais "cruas" possíveis. O Shizuo agiu como um animal, mas já tava predestinado desde o começo. Essa era uma das coisas que eu nunca quis mudar em relação ao rumo da história, porque sempre achei necessário que ele próprio matasse a Cora. Podia ser até por causa do Izaya que ela tava fazendo isso, mas o Shizuo vem acumulando raiva dela faz um tempo, então ele tinha que descontar em algum ponto. Enfim, sobre a minha querida doidinha, só posso dizer que ela vai deixar muitas saudades. Eu criei a Cora pra ser uma princesa, numa história medieval que eu planejava escrever há muito tempo e que nunca levei pra frente. Ela é um dos meus alter-egos e definitivamente é o mais parecido comigo. Mas acho que tá tudo bem agora. Não na história, mas com ela pelo menos. O próximo capítulo sai na semana que vem. Espero que cês tenham gostado desse, porque com certeza foi um dos mais importantes até aqui. O que o futuro reserva pro Shizuo eu não posso dizer ainda, mas espero que cês não se desapontem. Um beeeijo :*