Walking After You

12 Capítulo 11: Caravanserai


Notas iniciais
Oie ♥ Tudo bem com vocês?
Bom, hoje eu não tenho muito o que dizer, mas vamos lá.
Enrolei um pouco mais porque foi um capítulo complicado de escrever. Mas fiquei contente com o resultado, ainda bem. E espero que gostem tanto quanto eu!
Não sei se vocês já leram MacBeth, mas acho que ninguém vai ficar perdido (ou pelo menos eu espero que não, mas caso fiquem, porem me perguntar numa boa e eu responderei com o maior prazer q) ;;
Eu revisei, mas a ansiedade em postar falou mais alto, então, se deixei algum errinho passar, por favor, me avisem!
Boa leitura! :3

Shizuo acordou mal-humorado naquela manhã. Embora fosse um dia agradável, ensolarado e fresco, nada conseguia melhorar o seu humor. A falta que Orihara estava fazendo era mais do que aparente, embora só para ele. Nenhuma das pessoas ao seu redor sabia, de fato, que era esse o motivo. Nem mesmo especulavam. Afinal de contas, o loiro nunca tivera o melhor dos gênios, logo, era apenas normal que estivesse se comportando daquela maneira. Não que ele admitisse que estava assim por causa de Izaya. Mas ele sabia que era a única razão possível. Queria que o informante voltasse; ele havia dito que voltaria na sexta-feira, mas quem poderia ter essa certeza? O moreno era um tanto instável demais. Estava longe de ser algo “certo”. Ele não podia esperar nada, só aguardar o dia passar e ver o que aconteceria. Ficou enrolando, deitado na cama, por alguns minutos. Não teria de trabalhar naquele dia, consequentemente não haveria nada para distraí-lo. Decidiu focar seus pensamentos em outras coisas, embora tudo lhe levasse ao mesmo fim, como num beco sem saída. Tudo lhe fazia se lembrar de Izaya. Mas tentaria novamente, mesmo sabendo que seria em vão. Repassou o encontro que tivera com CN algumas vezes em sua cabeça, e terminou por perceber um detalhe importante: ela não havia dito o horário da peça de teatro. Será que poderia chegar lá a qualquer hora? Provavelmente não. Iria sair de casa às cinco horas da tarde* – pouco antes do sol se pôr. Esperava que Orihara já tivesse chegado até lá.

“Izaya...” Suspirou.

Não adiantava. Novamente, se via preocupado com ele. Preocupava-se em saber onde e como ele estava... Três dias sem dar notícia sobre seu paradeiro era como tortura psicológica para Heiwajima. Pois se sentia culpado – embora não soubesse o que havia feito – por esse sumiço de Orihara. Queria resolver as coisas com ele para que tudo voltasse ao normal entre os dois. Esperava que isso acontecesse logo que se encontrassem. Mas ficar pensando naquilo só o faria se sentir pior. Depois de outro longo suspiro, levantou-se da cama; ainda um pouco sonolento, cambaleou até a cozinha para fazer seu café da manhã. Abriu a geladeira – que havia se tornado muito mais “farta” por causa das frescuras do informante – e, ignorando todas as comidas deliciosas que estavam lá, pegou uma caixa de leite. Nem se importou em colocar em um copo, bebeu direto de lá. Depois de terminar (o que não demorou muito já que a caixa não estava muito cheia) decidiu fumar para dar uma relaxada. Havia um maço de cigarros sobre a mesa, Shizuo sacou uma unidade e a acendeu no fogão – a preguiça de voltar até o quarto para pegar um isqueiro era muito grande. Depois da primeira tragada – que costumava ser a mais longa – ficou pensando que se Izaya estivesse ali provavelmente implicaria com ele. Diria que tinha de se preocupar com sua saúde, e não ficar fumando àquela hora da manhã... Ele havia pedido inúmeras vezes para que Shizuo amenizasse a quantidade de cigarros que fumava por dia; e embora o loiro nunca tivesse atendido aos seus pedidos, gostava de vê-lo se preocupando com sua saúde. Aquilo o fez sorrir discretamente. A cada tragada no cigarro podia até mesmo ouvir Orihara ralhando-o por seu costume matinal não muito saudável. Riu consigo mesmo; lembrar-se daquilo amenizou levemente o seu mau humor. A pequena esperança de vê-lo ainda naquele dia o alegrava um pouco. Embora não realmente esperasse por aquilo... Não queria se decepcionar, então, criar expectativas não era a melhor escolha. Mas não podia evitar fazê-lo.

Terminou de fumar, e jogou a bituca do cigarro no lixo mais próximo. Em seguida, tomou banho e trocou de roupa. Colocou uma roupa qualquer para ficar em casa, provavelmente não receberia visitas naquele dia também. Ele nunca recebia, era completamente inútil esperar. Decidiu ligar a televisão para passar o tempo, e embora nunca houvesse nada que lhe agradasse ali, ficou zapeando os canais sem prestar muita atenção. Terminou por escolher assistir um documentário sobre animais e a natureza... Não era muito interessante, mas serviria para passar o tempo. Não gostava muito de assistir televisão, achava que era perda de tempo – e realmente, era –, mas naquele dia em especial, precisava perder tempo o máximo que pudesse. Era óbvio que estava ansioso para ver o que CN faria, apesar de ter evitado pensar sobre o assunto até ali. Evitava pensar nela, também. Tinha de ser honesto: Cora o assustava de uma forma que nunca havia sentido antes. Era inigualável, incomparável. E olhe que nunca fôra do tipo que se sentia amedrontado por terceiros, mas ela era uma exceção – e uma exceção tremendamente perigosa, valia dizer. Mesmo Izaya nunca lhe fizera se sentir tão ameaçado quanto aquela mulher fazia. E não fazia ideia do que aconteceria quando chegasse ao teatro... Assim como fôra com Shinra e Celty, era impossível prever o que CN poderia fazer. Ficava tentando imaginar as possíveis situações, mas nada lhe vinha à mente. Aquela era, com certeza, uma mulher excêntrica – era assim como Orihara, ou talvez pior –, e nenhum ser humano aparentemente “normal” conseguia prever o que esse tipo de pessoa iria fazer. Ficar pensando – ou tentando pensar – nisso só serviu para aborrecer ainda mais Shizuo. Ele já não estava muito feliz desde o começo do dia. O barulho da televisão juntamente com o clima matinal tão agradável – com o qual ele não se conformava, por sinal. Por que um dia tão bonito tinha de anteceder acontecimentos tão ruins? Era irritante –, a ansiedade, a falta que Izaya fazia... Tudo. Tudo contribuía para que seu humor só piorasse. Sentia vontade de quebrar algo, ou alguém. Não faria diferença, no fim das contas.

Ficou com tanta raiva que quebrou a televisão num soco repentino. A tela trincou por inteira, para em seguida ficar aos pedaços. O aparelho caiu no chão e fez um estrondo tenebroso, espatifando o que havia sobrado do mesmo, mas Heiwajima não se importou – não poderia dizer o mesmo dos vizinhos, porém, mas não era como se alguém fosse se arriscar o bastante para ir lá reclamar. Pelo menos o zumbido irritante pararia (tudo bem que ele poderia simplesmente ter ido lá e desligado a tevê, mas não fazia muito seu estilo fazer esse tipo de coisa). Infelizmente, tal ato não serviu para aliviar toda aquela tensão, só parte dela. E uma parte bem pequena – a televisão não era grande como as modernas e complicadas de mexer, que só serviam para tirar-lhe a paciência. Mas adiantava alguma coisa; ou pelo menos, ele preferia pensar que sim, já que custaria um preço considerável para consertá-la. Respirou fundo, tentando recuperar a calma, e concluiu que a melhor coisa a se fazer seria fumar outro cigarro. E outro, e outro, e outro... E o maço inteiro, por fim. Isso deveria acalmá-lo. Caso o contrário, terminaria destruindo a casa inteira.

E assim, o tempo continuou a passar. Shizuo encarava o relógio de cinco em cinco minutos, até ver que eram quatro horas da tarde. Começou a ficar irritado novamente. Tudo bem que não havia combinado nenhum horário exato com Izaya, mas já era para ele estar ali... Reclamou do descaso do informante, mas resolveu esperar “pacientemente” (entre aspas porque, como todos nós sabemos, Shizuo Heiwajima e paciência são duas coisas completamente opostas) até o horário que havia decidido sair. Nesse tempo, colocou sua roupa de bartender e os sapatos sociais. Tentou ser o mais lento possível, para ver se o tempo passava mais rápido. Mas quando terminou só haviam se passado sete minutos... Resmungou todos os palavrões que conhecia em voz baixa. Não gostava muito dessa linguagem vulgar, aliás, odiava como as pessoas nos dias atuais viviam soltando palavrões aos sete ventos quando ninguém era obrigado a ouvir aquelas baboseiras, mas havia horas em que era inevitável até para ele. Aquele relógio só poderia estar de zombaria com a cara dele. Oras, demorando tanto para passar! Sentia vontade de estraçalhá-lo, mas não podia, pois havia sido um presente de Kasuka, e por isso ele o estimava muito.

Mesmo que tardiamente, o ponteiro apontou que faltavam três minutos para as cinco da tarde. Shizuo ficou ainda mais bravo. Não esperaria mais... Orihara provavelmente não viria mesmo. Ótimo. “Ele havia dito que estaria aqui.” Pensou. “Não deveria ter confiado nas palavras daquela pulga maldita!”, e embora soasse extremamente exasperado em sua mente, era só para esconder a decepção que estava sentindo. Esperava que ele viesse, assim como havia dito que faria. E apesar de ter dito antes que não criaria expectativas, a verdade é que ele tinha grandes expectativas para o momento em que se reencontrariam. Realmente queria resolver as coisas... Muito mais do que aborrecido, Shizuo estava extremamente magoado. Não sabia o que pensar, e também não sabia o que aquilo significava. Talvez tivesse feito algo realmente ruim... Mas não fazia ideia do quê. E, se Izaya não falasse, nunca saberia também. Sentiu-se mal. Embora isso, não havia tempo para ficar daquele jeito. Tinha de arranjar um jeito de achar o teatro abandonado... Pegou seu celular e ligou para Tom, que o informou sobre o local sem questionar o motivo de ele estar querendo saber – isso era uma característica que Shizuo prezava muito no amigo. Depois de agradecê-lo, Heiwajima seguiu sozinho.

O caminho era longo, desde que estava no centro da cidade, mas ele chegou lá em tempo – ou pelo menos, no tempo que havia previsto. Seu celular apontava que era cinco e cinquenta e cinco. O dia já começava a escurecer. O céu não tinha estrelas, a lua aparecia timidamente e o local não estava iluminado. Aliás, aquela região não tinha quase nenhuma iluminação, salvo pelos pouquíssimos postes de luz localizados ali perto. A entrada do teatro tinha algo escrito em francês num letreiro que algum dia já deveria ter sido extremamente luminoso e bonito – tanto que Heiwajima até tirou os óculos escuros para admirar melhor. As letras estavam meio caídas, algumas até estavam faltando, o que dava um ar um tanto melancólico para o lugar. A porta tinha um cadeado que estava quebrado, provavelmente obra de CN ou de algum bandido/mendigo/sei lá buscando refúgio. Era um lugar majestosamente grande, e Shizuo hesitou algum tempo antes de entrar. Quando abriu uma das portas, deparou-se com um enorme corredor, iluminado fracamente por um único lustre de ouro, com detalhes em prata. O chão do corredor era coberto de madeira, que, por estar extremamente velha, rangia um bocado a cada passo dado pelo loiro. Ele seguiu num ritmo lento, observando os quadros pendendo tortos na parede, tinham imagens que retratavam a tragédia e a comédia, os únicos temas trabalhados nas peças de teatro da antiguidade. Algumas imagens tinham uma aura um tanto sombria, outras pareciam extremamente vívidas e alegres. Todos os elementos que as compunham pareciam observá-lo, porém. Não que isso lhe desse calafrios, mas era um tanto incômodo. Provavelmente era coisa de CN... Tinha certeza que ela estava aguardando-o. Já era possível sentir sua presença, mesmo estando um tanto longe.

Logo que chegou ao fim do caminho, deparou-se com uma imensa sala. Imensa, e completamente vazia. As cadeiras eram de um vermelho escarlate. Extremamente vivas, embora velhas. O recinto tinha um formato semelhante ao de uma sala de teatro bem antiga, e provavelmente era o propósito de quem o projetara criar aquele tipo de ambiente. As cortinas eram de um vermelho ainda mais chamativo que o das cadeiras, e era incrível como isso se tornava evidente mesmo em meio à iluminação fraca. A sala inteira era ornamentada por detalhes dourados e brancos, extremamente bonitos e harmoniosos. Shizuo ficou embasbacado com a grandiosidade de tudo aquilo... Mesmo para um homem um tanto distraído e ignorante a coisas como aquelas, era impossível não notar o quanto era bonito de se ver. CN tinha um ótimo gosto, ele tinha de admitir. Dirigiu-se a primeira fileira e lá sentou. Assim que se acomodou, a cortina se abriu. Vestida com um traje de guerreiro medieval, que lhe caía muito bem e mantinha sua elegância de mulher, embora extremamente másculo, estava Cora. Ela tinha uma espada embainhada, e Kasuka também estava lá, embora trajasse uma roupa um tanto mais formal – como um rei – também tinha roupas de guerreiro. Ambos estavam maquiados. Ela encarou Heiwajima com um olhar de surpresa, provavelmente ponderando onde Izaya estaria. Mas em seguida, deu um sorriso.

- Que bom que veio, Heiwajima Shizuo-san. – Deu uma risadinha psicótica, como o de costume. – Chegou um tanto atrasado, devo dizer que já estamos perto do ato final. – Kasuka o observava com certa indiferença. Estranho. Ele estava agindo naturalmente... O que será que CN tinha feito com ele? – Passamos o dia inteiro ensaiando para te proporcionar o melhor espetáculo possível. Não é, meu querido Kasuka?

O garoto assentiu com a cabeça, sem nada dizer.

- Continuaremos com a encenação agora. – Continuou, em tom sonoro e parecendo extremamente satisfeita. – Infelizmente, os únicos personagens presentes são MacBeth, que é Kasuka, e Macduff, que sou eu. Espero que não se importe.

Ambos se posicionaram, Kasuka ficou de costas e CN desembainhou a espada, orgulhosa, e apontou para ele. Estavam a uma distância considerável. (N/A: Aqui começa a encenação da Cena VII da peça MacBeth, por Shakespeare. As falas não são de minha autoria.)

- Vira-te, cão do inferno, vira-te! – Exclamou a mulher. O caçula dos Heiwajima o fez, desta vez parecia mais determinado e interessado, porém. Shizuo sabia que ele levava todos os seus papéis muito a sério, e incorporava completamente seus personagens. Não seria diferente dessa vez.

- Dentre todos os homens, evitei justamente tua pessoa. – Sua voz era firme, como um verdadeiro rei. E embora estivessem numa situação não muito agradável, Shizuo estava um tanto orgulhoso do irmãozinho. – Dá volta, vai-te embora, que minha alma encontra-se por demais pesada com o sangue dos teus.

- Não tenho palavras; minha voz está no fio de espada, seu verme sanguinário, mais afiada que todos os nomes que pudessem ofender-te. – Exclamou CN.

Kasuka também desembainhou sua espada, que parecia muito mais inofensiva do que a da mulher. Aproximaram-se um do outro e começaram a brigar; Shizuo ficou um tanto nervoso com aquilo, até inclinou-se um pouco exaltado, pois, caso o irmão mais novo precisasse de ajuda, teria de sair dali correndo. Mas depois de um tempo viu que aquilo parecia nada mais do que uma encenação. Não tentavam se ferir realmente, mas isto não o acalmou. Provavelmente a cena em que ela faria algo ainda não havia chegado, por isso o loiro manteve-se em alerta. Não deixaria que ela o fizesse pensar que estava tudo bem, pois ele sabia muito bem que não estava. CN era uma mulher traiçoeira, não deveria depositar nem um pingo de confiança na mesma. Teria de prestar bastante atenção nos movimentos dela para ver o que estaria prestes a fazer, e isso poderia ser bastante complicado, em vista que ela era uma mulher um tanto imprevisível demais...

- Perdes teu tempo, teu esforço é vão. – Kasuka disse. Continuaram, ainda se atracando. – Mais fácil seria cortares esse impenetrável ar com tua espada aguda que fazer-me sangrar. Faze tua lâmina cair sobre elmos vulneráveis. Eu carrego uma vida enfeitiçada, e a ela não dará fim nenhum homem nascido de mulher. – CN parecia ficar cada vez mais empolgada com tudo aquilo, os golpes se tornavam cada vez mais intensos, embora ainda não passassem de mera atuação. Mas dava para ver que suas pupilas brilhavam à cada palavra pronunciada pelo Heiwajima mais novo.

- Agora, desespera-te com teu feitiço, e permite que te diga o próprio Anjo de quem és escravo: – Pigarreou, desferindo mais alguns golpes. – “Do ventre de sua mãe Macduff foi arrancado à força, antes do tempo”.

- Amaldiçoada seja a língua que me diz tal coisa, pois fez acovardar-se minha parte mais humana. – Shizuo observava a mulher, mas fora a excitação, não havia nada de estranho em seu comportamento. Kasuka, de certa forma, também parecia estar gostando do duelo. – Que ninguém mais acredite nesses demônios que praticam malabarismos com as palavras, brincam conosco à base de frases ambíguas, sussurram doces promessas em nossos ouvidos para depois não cumpri-las, azedando nossas esperanças. – O Heiwajima mais novo recuou, em um gesto nobre. – Não entrarei em combate contigo.

O combate cessou por alguns instantes, CN não o atacou novamente. Bradou:

- Então entrega-te, covarde, e vive para ser a atração máxima destas terras, assombro dos tempos. Faremos contigo o que se faz com nossos monstros mais raros: te teremos pintados no topo de um mastro, e embaixo de tua imagem estará escrito “Podeis contemplar aqui o Tirano”.

- Não me entregarei! – Ele avançou novamente, desferindo um golpe em CN, que desviou de maneira habilidosa. – Não beijarei o solo diante dos pés do jovem Malcolm, não serei atormentado pelas imprecações da ralé. Mesmo tendo o Bosque de Birnam chegado a Dunsinane, mesmo sendo tu, a quem tenho diante de mim e contra mim, homem que não nasceu de mulher, ainda assim cruzarei armas contigo, até o fim. Empunho, à frente de meu corpo, o meu escudo guerreiro. – Recuou alguns passos, e Cora o seguiu. – Ataca, Macduff, e maldito seja o primeiro a gritar “Basta! Eu me rendo!”

As cortinas se fecharam abruptamente, e pôde se ouvir o barulho de alguns golpes, embora nada que parecesse muito diferente do que havia sido antes. Depois de algum tempo – tempo que demorou demais, tinha de dizer –, mas ele sabia que essas trocas de cenário demoravam um pouco, então achou que não havia motivos para se preocupar. Enfim, as cortinas se abriram novamente, e Shizuo se deparou com um cenário do mais puro horror: CN estava sentada sobre os joelhos, observando Kasuka desacordado em seu colo e com a espada afiada prestes a entrar em seu pescoço. Shizuo sentiu as bochechas esquentarem de raiva, pensou seriamente em se levantar de seu assento e partir para cima dela, mas mesmo ele sabia que aquilo era algo extremamente impensado e impulsivo para se fazer, ainda mais em um momento delicado como aquele. Era a vida de Kasuka que estava em perigo, no fim das contas. Ela continuava a encará-lo, de certa forma parecendo estar apaixonada pelo que via. A afiada lâmina da espada já fizera um pequeno corte no garoto, e sangrava, ainda que só um pouco – não deveria ser muito profundo, ou pelo menos foi o que Shizuo imaginou por causa da quantidade de sangue. CN passou o dedo indicador levemente, buscando limpar o sangue, e em seguida levou-o para os lábios, lambendo o líquido vermelho ali contido.

- Ele é realmente um garoto muito bonito, não acha? – Perguntou a mulher, num tom dócil e calmo. Shizuo xingou-a mentalmente, sua vontade era estourar a cabeça dela com um soco (e provavelmente o faria se nada o impedisse), teve de cerrar os pulsos com toda a força para não perder a calma. Respirou fundo. – Eu acho que vou guardar a cabeça dele para mim...

Shizuo arqueou as sobrancelhas.

- O que pretende fazer? – O loiro perguntou, tentando manter o tom de voz calmo.

- MacBeth perde a cabeça. Kasuka é MacBeth, logo... Kasuka perde a cabeça. – Ela disse, risonha. – Nós estávamos querendo fazer uma representação realmente fiel da peça.

- Entendo. – Por certo momento, culpou-se por nunca ter lido MacBeth em sua vida. Se tivesse feito, teria sabido (e evitado) um fim como aquele. Mas ele ainda tentaria evitar, custasse o que custasse.

- E onde está Izaya-kun? – Perguntou com curiosidade.

- Gostaria de saber também... – Murmurou.

Ele grunhiu insatisfeito, fazendo com que Cora risse ainda mais da situação, e passasse a encará-lo. Heiwajima nunca entenderia o modo enigmático como ela o observava, era de uma maneira intensa e indecifrável. O que não daria para entender a mensagem que aqueles olhares queriam passar...

- Sei que está se segurando para não vir aqui e me matar. – Continuou. – Mas é o melhor que você faz, meu querido Heiwajima Shizuo-san.

- E por que diz isso? – Perguntou já visivelmente aborrecido com as palavras da mulher.

- Porque antes de tirar a vida de seu querido irmãozinho, quero te contar uma história. – Respondeu. – É sobre seu amado Izaya-kun, aposto que vai gostar.

Heiwajima pareceu ligeiramente mais interessado ao ouvir aquilo, em vista que tirou o olhar focado no irmão e passou a encarar Cora, e o rosto da mulher se iluminou com o gesto. Ela sorriu. Realmente deveria estar esperando por aquele momento.

- Faz algum tempo que te conheço, sabe? – Começou, fazendo carinho no cabelo de Kasuka com uma das mãos, embora sem deixar de segurar e apontar a espada para o garoto nem por um segundo. – Mais tempo do que gostaria, aliás. Então você não estava completamente errado ao dizer isso à ele.

Shizuo deveria estar assustado com a afirmação, mas não estava. Era algo que esperava, de certa forma. Ainda mais vindo de uma mulher como ela. Só queria saber onde e como haviam se conhecido. Mas acreditava que isso seria esclarecido depois – ou pelo menos, esperava que sim. Também não havia ficado nem um pouco surpreso com o fato de ela tê-los ouvido. Aquela maldita estava em todo lugar, no fim das contas.

- E Izaya não suporta isso. – Ela riu. – Ele acha que nós já tivemos algo... Está enciumado, pobrezinho! – Fez um bico entristecido.

- O quê? – Perguntou Heiwajima, um pouco confuso. Não podia ser. Izaya... Realmente... Com ciúmes? Era impossível.

- Pode acreditar, Heiwajima Shizuo-san. – Ela sorriu ao ver com o loiro estava desconcertado. Tão desconcertado que havia se esquecido do irmão mais novo. Realmente, Orihara mexia com ele de uma forma impressionante. – Ele não gosta do efeito que tenho sobre você, não gosta de como eu te hipnotizo.

- Mas... Eu não entendo... – Murmurou. Parecia surreal demais para que ele acreditasse, e além do mais, não sabia quão confiáveis as palavras de Cora eram, já que até o momento não havia se provado uma pessoa muito digna de confiança.

- Normal. Não é esperado que alguém como você entenda algo assim. – Provocou-o. – Mas não é isso que quero dizer. Pouco me importa qualquer coisa que envolva aquele informante.

- Então por que o mencionou? – Ela o irritava com toda aquela embolação. – Vá direto ao assunto.

- Porque queria falar de como nós nos conhecemos, meu querido. E eu precisava de algum jeito de chamar sua atenção. – Sorriu, embora tenha saído mais como mostrar as presas.

Afiadas presas, por sinal.

_

*Gente, não sei se vocês se lembram, mas no último incidente o horário em que eles começaram a sentir a ~presença da CN~ foi cinco horas da tarde.

Notas finais
E agora, o que vai acontecer? ~drama~
Mereço review? o3o
Não tô podendo falar muito porque tô com pressa (vou ter que ir pra uma festa de 15 anos mais tarde, e já tenho que me arrumar x__x), mas enfim, espero ter surpreendido vocês pelo menos um pouquinho com esse capítulo.
Ah, e caso alguém não tenha entendido nada da peça: http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo_c_3130.html Um resumo de MacBeth. É uma das minhas peças favoritas! ♥
Enfim, obrigada por estarem lendo. O novo capítulo sai fim de semana que vem, sem falta, porque não quero deixá-las ansiosas. Então aguardem~~
Um beijo :*