Walking After You
21 Capítulo 20: Lonerism
Notas iniciais
Mas tá aí um capítulo cheio de FEELS pra vocês.
Escrevi muito empolgada, e revisei mais empolgada ainda, então posso ter deixado algum errinho passar. Se deixei, me avisem.
Não vou falar muito bc of reasons (enrolei demais ÇÃS~]Ç]ÃSDÇ). ;o;
Boa leitura!
Izaya não estava ali.
As cortinas encontravam-se abertas. A janela escancarada, fazendo com que a claridade entrasse no quarto de forma bastante intensa. Heiwajima coçou os olhos buscando tornar a visão mais nítida. Há poucos minutos, ainda se sentia sonolento, mas acordara de súbito assim que se dera conta do que estava acontecendo. Tateou o lado da cama onde Izaya supostamente deveria estar mais algumas vezes. Não sabia por que, mas ficava pensando que talvez ele fosse se materializar ali, do nada.
Estaria mentindo se dissesse que não esperava por aquilo. Esperava, sim. Mas não tão cedo. Pensou que talvez Cora fosse enrolar para agir. Mas não deveria ter sido tão ingênuo de sequer cogitar algo assim. Bem sabia como a mulher gostava de agir sem delongas. Era típico dela. E, além de tudo, havia sido avisado (coisa que, de certa forma, era um grande avanço). Lamentou-se um pouco por não ter conseguido fazê-la desistir da vingança. Mas, tinha de convir, que não dava para ajudá-la. Não dava para salvá-la. Simplesmente porque ela não queria. Suspirou longamente. Parecia gostar de tornar as coisas mais difíceis. Bom, se era assim que queria, então não havia nada a ser feito. Era triste ver alguém se perder de tal forma.
Levantou-se da cama e começou a andar em círculos. Acendeu um cigarro para não entrar em desespero. Tinha de se manter tranquilo, caso o contrário, nada resolveria. O mais importante naquele momento era não se desesperar e tentar fazer algo o mais rápido possível. Tentou organizar as ideias calmamente, enquanto tragava e observava a fumaça se esvair no ar, lenta e disforme, até desaparecer de uma vez por todas. Primeiro, tinha de descobrir para onde foram (não que precisasse ser um gênio para saber dessa). Era claro que tinham saído pela janela, mas, para qual direção seguiram? Esse era o verdadeiro enigma. E nada se resolveria sem sua resposta.
Novamente, CN se mostrava brilhante. Havia deixado as opções para onde seguira extremamente vastas. Podia ser para qualquer lugar. Ikebukuro era uma cidade enorme. E o loiro não podia deixar de cogitar que talvez ela até tivesse saído de lá... Para Shinjuku ou para algum lugar nos arredores. Não dava para saber. Dessa vez, Cora não queria mesmo que seus atos fossem impedidos. Não era à toa que não havia deixado nenhuma pista. Mesmo o celular do informante se encontrava ali, depositado na cabeceira da cama. “Ela conseguiu fazer a pulga largar o celular... Tsh. Realmente impressionante”, pensou alto. Se bem que, não era impressionante quando se tratava dela. Era comum que fizesse coisas que ninguém nunca conseguiria. Era quase que algo rotineiro.
Pensou, pensou e pensou. De nada adiantava. Seu maço de cigarros acabou, assim como o que tinha de reserva. Era um extremo mau hábito fumar quando estava nervoso, mas não era algo que pudesse simplesmente conter. E o pior de tudo é que mesmo depois de todos aqueles cigarros, nada acontecia. Sabia que nenhuma resposta iria cair do céu e já começava a ficar agoniado, embora estivesse relutando para não deixar isso acontecer. Os minutos se passavam como segundos. Parecia que seu tempo estava se esgotando cada vez mais a cada vez que olhava de relance para o relógio. Seu coração estava apertado. E, por mais que tentasse afastar quaisquer tipos de pensamentos ruins sobre o que poderia estar acontecendo com Izaya, simplesmente não conseguia. Arrepiava-se até a espinha só de pensar que ele poderia não estar mais ali àquela hora. Sua garganta tinha um nó enorme. Nunca se sentira tão sufocado... Tão incapaz de fazer qualquer coisa. Era muito frustrante.
Socou a parede para descarregar um pouco de toda aquela energia negativa. Um estrondo ecoou no recinto. O golpe certeiro atingira o mesmo lugar onde já havia uma rachadura feita previamente, no dia em que discutira com o moreno e perdera o controle. A rachadura ficou maior... Alguns pedacinhos da parede (ou do que restou dela) caíram. Olhou para sua mão. Sangue fresco escorrendo, uma ferida que acabara de ser aberta e os sentimentos ruins que continuavam ali. Presos nele. Infernizando-o. Incessantemente. Assim como aquela parede, ele estava por um triz. Não aguentaria mais por tanto tempo. Seria completamente derrubado sem sequer ter chances para mudar esse cenário. E era tudo culpa de Cora.
Mesmo para um homem forte – talvez o mais forte de Ikebukuro – como Shizuo, era demasiadamente complicado tentar conter sua vontade de chorar. Tentava, em vão, ignorar as gotículas que se formavam em seus olhos e deixavam sua visão turva. “Ah... Pulga...”. Era tenebroso aquele medo que o invadia. Tocava seu íntimo, torturava-lhe por dentro. E doía. Como doía. A ideia de perder Orihara finalmente parecia estar se concretizando. Era assustador. Para alguém que pensara que teria o moreno ao seu lado até seus últimos dias – quer fosse brigando, quer fosse como um possível namorado – devastava cada poro de seu ser cogitar que isso não mais aconteceria. As lágrimas escorriam sobre sua face de forma involuntária. Extremamente amargas ao chegarem sorrateiras aos seus lábios rosados. Há quanto tempo não chorava? Com certeza, era muito mais do que podia contar. Havia se esquecido o quanto era ruim. Sua respiração era descompassada e dificultosa. Parecia que seus pulmões estavam sendo comprimidos por algo que impedia a circulação do ar. Tudo a sua volta girava. As pernas bambas, já fracas e desajeitadas, pareciam querer vacilar a qualquer momento. Incapazes. Assim como ele. Arrastara-se para sentar na poltrona mais próxima e evitar uma possível queda. A cabeça apoiada nas mãos, extremamente pesada e dolorida. Suava frio. As gotas deixando seus cabelos loiros úmidos, e se juntando com as lágrimas, tornando-se uma só com as mesmas.
Estava ficando sem tempo. Mas de nada adiantava. Já estava se convencendo de que não conseguiria e começara a aceitar a realidade dos fatos. O que alguém como ele poderia fazer? Tinha força de sobra, é claro. Mas só tinha isso. No mais, estava sozinho, não tinha ideia de que caminho seguir, e ainda por cima havia começado a passar mal daquele jeito. Sua boca estava seca, e por mais que tentasse mantê-la úmida com sua própria saliva, não conseguia. Precisava de água, precisava de ar, precisava voltar a raciocinar direito. Tinha de encontrar uma saída. Qualquer uma que fosse. Mas tinha perfeita consciência de que não conseguiria manter-se lúcido para tentar se recuperar. Culpou-se. O informante sempre tentara lhe proteger, independente do fato de que isso também lhe colocasse em perigo. Sempre esteve ali por ele, ao seu lado, sem que ele nem mesmo soubesse, em quaisquer que fossem as circunstâncias. E, na única vez que tinha a oportunidade de retribuí-lo, de compensá-lo por todos aqueles anos que lhe fizera tão mal ao manter-se alheio ao seu sentimento, de mostrar o quanto o amava e que nunca iria largá-lo... Não. Ele teria de fazê-lo. Estava tentando, de todas as formas, não desmaiar ali mesmo. Não podia. Não quando Izaya estava precisando dele.
Mas sentia seus olhos fecharem. A visão escurecia gradativamente. Era difícil, cada vez mais difícil...
Até finalmente não ver mais nada.
-x-
Seus olhos estavam vendados por uma fita negra, o corpo era impossibilitado de se mover. Estava preso pelas mãos e pelos pés e estendido em uma superfície rígida, extremamente desconfortável e fria – o que lhe fazia pensar que talvez fosse feita de mármore. Hora ou outra, ouvia alguns passos. Não sabia onde estava, e nem como havia chegado ali – provavelmente era algo que envolvia clorofórmio e ser arrastado. A única coisa que sabia era que a pessoa circulando para cá e para lá era Cora, embora não pudesse pensar no porquê de ela estar tão calada, ou imaginar o que estava fazendo só pelo barulho que seus sapatos faziam. Gostaria de entender o porquê da demora, mas algo que aprendera com toda aquela perseguição era que CN não era nem um pouco apressada. Muito pelo contrário, gostava de aproveitar cada momento de sofrimento da vítima. Demorara um bocado só para chegar até ele. Realmente, demorar mais um pouco não lhe fazia absolutamente nenhuma diferença. Ainda mais porque já havia conseguido executar mais da metade do plano com êxito. Não falava, e Orihara também não ousou abrir a boca. Aguardaria o momento certo – se é que ela iria querer conversar –, porque, naquela hora, parecia só estar preocupada em fazer sabe-se lá o quê. Talvez estivesse amolando sua faca... Não que importasse.
O informante era realmente corajoso em tentar não ter medo. Algo lhe dizia que não tinha com o que se preocupar, mas é um fato que o sistema nervoso sempre tenta apaziguar nossa consciência em casos extremos. Claro que existem inúmeros casos, e que o sistema nervoso não é do mesmo jeito em todo mundo, mas, pelo menos com Izaya, era assim. Em momentos de pânico gostava de acreditar que tudo ficaria bem, eventualmente. Isso lhe dava mais autoconfiança e lhe permitia relaxar. Nunca teve medo de morrer. Levou uma vida de situações que lhe deixavam à beira do limite, nunca teve medo do perigo, ou das consequências. A morte sempre andou ao seu lado, pronta para pegá-lo, uma vez que caísse. Bastava vacilar uma vez, e estaria entregue. Por que se assustaria agora? Não havia motivo. O que lhe assustava mesmo era perder Shizuo. Embora pensasse que não haveria jeito. Afinal, haviam se deparado com uma adversária formidável. E imbatível também. As chances de que o guarda-costas conseguisse impedi-la àquela altura eram praticamente nulas.
Mas não tinha do que reclamar. Nunca imaginou que fossem chegar até onde chegaram. Podia afirmar, com convicção, que finalmente havia conseguido a reciprocidade de seus sentimentos. Conseguira fazer Shizuo amar-lhe. Por pior que fossem as circunstâncias... Havia algo bom em tudo aquilo. Algo que CN estava prestes a lhe arrancar. Mas, bem, é como as coisas são, não é? Uma vez que você se apega à alguém, que passa a amar cada traço da pessoa e se torna completamente dependente dela, se torna ainda mais propenso à perdê-la. E se afeta mais do que o normal quando isso acontece. Mas é o rumo das coisas, portanto, tem de acontecer mais cedo ou mais tarde. Não queria que fosse tão cedo assim, porém, não podia contestar. Havia sido uma grande oportunidade, e fizera bom usufruto dela, na medida do possível. Tinha de agradecer a Cora por ter lhe permitido ser um pouco humano. E por ter dado essa chance ao seu amado Shizu-chan, também. Eles haviam conseguido, por fim, sentir o amor. Amor. Um sentimento tão humano, tão imensurável, tão intenso. Haviam conseguido se encontrar em meio à toda aquela monstruosidade em que viviam. Era como se estivessem sido resgatados um pelo outro.
Todos os momentos que passaram juntos, desde o primeiro dia que se viram, até a noite passada, invadiam sua mente como um filme. Sorriu para si mesmo ao lembrar-se do rosto de Shizuo dormindo. Havia sido a última vez que o olhara. Aquela serenidade que o loiro demonstrava era a mesma que enchia seu coração naquele momento de aperto e lhe dava uma estranha e inusitada sensação de calmaria, mesmo que tivesse perdido todas as esperanças. Como pode viver tanto tempo sem tocar aquele homem? Cada minuto que passou ao lado dele valeu à pena. A verdade é que ao lado daquele guarda-costas mal-humorado e um tanto rabugento era, e sempre foi, onde o moreno encontrava sua plenitude. E, independente do que acontecesse naquele dia, só queria poder agradecer. Heiwajima lhe ensinara o que era amar e o que era ser amado, mesmo sem perceber, ou sem ter a intenção de fazê-lo. Havia lhe amado com todos os defeitos, e lhe perdoado pelas coisas maldosas que fizera por todos aqueles anos. Não o culparia se não conseguisse resgatá-lo. Ele nunca tinha culpa de nada, embora fizesse de tudo para pensar/provar o contrário. Era a pessoa mais pura e inocente que conhecia. E a mais incrível também.
Era estranho porque durante todo o tempo em que a vida do loiro estava em perigo, Orihara tentou fazer de tudo para impedir que Cora o tocasse. Mas, agora que sabia que na verdade o problema da mulher era com ele, já não se importava mais com o rumo que as coisas tomariam. Havia entrado numa espécie de estado de conformidade. Se não fosse ela que o matasse, mais cedo ou mais tarde, outra pessoa o faria. Não era muito “querido” pelos cidadãos de Ikebukuro. Ou de Shinjuku. Ou do Japão, em geral. Gostava de pensar que era intocável, mas sabia que não era. Era frágil como vidro. Extremamente vulnerável, mas havia aprendido a se fazer de forte desde muito cedo, justamente para disfarçar esse fato. As pessoas temiam um Izaya Orihara que simplesmente não existia. Algo que ele havia inventado para se proteger, para que não se quebrasse. Não queria que ninguém descobrisse o quanto ele era incapaz. E, nesse ponto, era como Cora. Tinha medo. Se lhe perguntassem se tinha algum arrependimento sobre as coisas ruins que fizera ao longo de sua vida, também diria que não. Os humanos passaram a ser vistos como simples peças de tabuleiro para ele. E, não tinha como se sentir mal por machucar peças. Tornara-se assim. De certa forma, monstruoso. Mas conseguiu conter esse monstro ao lado de Shizuo. Cora não conseguiu fazer o mesmo quando Vicenzo partiu. E ele provavelmente não conseguiria sem o loiro. Era muito parecido com a mulher. Ambos mereciam a morte, eram igualmente desprezíveis.
- Cora... – Começou a falar. Não tinha a intenção de fazê-lo sem que ela se pronunciasse primeiro, mas não conseguira se conter. – Você pode ir um pouco mais rápido com isso? – Deu uma risadinha cínica. – O que te prende? Não quer me matar logo?
- Nada me prende, meu querido Izaya-kun. – Respondeu num tom dócil. – Apenas não quero que aconteça agora.
- E que horas quer que aconteça?
- Sabe, Izaya-kun, sei que Shizuo lhe contou minha história com Vicenzo. – Não respondera a pergunta, lógico. Nunca dava respostas precisas logo de primeira. – E sei que omiti algumas coisas, também, embora provavelmente tenham ficado implícitas de alguma forma. Como, por exemplo, o fato de ele querer casar comigo. – Fez uma breve pausa. Sua voz ia ficando mais alta, o que fez Orihara deduzir que ela estava se aproximando. – E já estávamos até marcando algumas coisas, antes dele partir. Como... O local.
- Ah, é? E onde seria?
- Numa bela e grande Igreja. – Exclamou, batendo algumas palmas. – Toda ornamentada com rosas! Imagine só, quão lindo seria? Vermelhas como sangue. – Falava de modo um tanto psicótico. Era incrível como se tornava outra pessoa quando estava prestes a cometer alguma atrocidade. – Você não adora sangue, Orihara Izaya-kun?
O informante temeu em responder, mas não pôde, pois ela continuou, interrompendo qualquer linha de pensamento que este pensasse em criar:
- E começaria às sete. Seria numa noite de lua minguante, minha preferida. Seria maravilhoso!~ – Izaya sentiu as mãos frias de Cora tocarem sua face e lhe acariciarem ternamente por algum tempo, para, em seguida, ter suas bochechas fincadas pelo que acreditava serem suas garras. Mordeu o lábio inferior para abafar um gemido sôfrego. – Mas não vai acontecer. E sabe por quê? Porque você estragou tudo.
Ela desceu um pouco mais as mãos, para o abdome do moreno. Cravou as unhas afiadas por lá com ainda mais força do que havia feito em sua face, rasgando sua blusa e entrando em contato direto com a pele pálida do mesmo. Riu baixo, se deliciando com a cena, ao imaginar a dor sentida por Orihara. Repetiu o gesto mais algumas vezes para saciar-se. Sua raiva parecia aumentar a cada arranhão. Estes, por sua vez, ficavam ainda mais dolorosos e profundos com o passar do tempo. Orihara sentia o aroma de seu próprio sangue invadir suas narinas. Quis gritar de dor. Mas não se entregaria. Não daria a CN a oportunidade de vê-lo sendo humilhado de tal forma, por pior que fossem as circunstâncias. Esforçou-se para sorrir sarcasticamente em meio à dor aguda que sentia. A mulher deveria querer apreciar cada momento do sofrimento do rapaz antes de matá-lo, sádica como era. Infelizmente, Izaya não lhe daria essa satisfação. Uma pena.
- Pra quê tanto rancor, Cora-san? – Atiçou-a, e riu num tom igualmente provocativo. – Eu só estava fazendo o meu trabalho como informante.
- Como é atrevido... – Murmurou, mais para ela mesma do que para Izaya.
- Além do mais, a culpa foi sua. – Afirmou, em resposta. – Se não tivesse insistido para que ele ficasse com você, nada disso teria acontecido.
O moreno não podia ver a expressão de Cora naquele momento, mas, se pudesse, veria que havia uma pitada de melancolia ali. Sim, ela tinha perfeita convicção de que era sua culpa. Mas não aceitaria que alguém como ele lhe dizendo tais coisas. E, mesmo que aceitasse, estava demasiado fora de si para se sentir ofendida. A mulher que estava ali não era a Chat Noir usual, era a sua personalidade maníaca que havia assumido o controle. E tudo o que saía da boca de Orihara não lhe entristecia, sequer aumentava seu remorso. Apenas lhe deixava mais possessa. Nada lhe afetava. Nada mais entrava em sua mente. A única coisa que conseguia pensar era que o homem à sua frente era o culpado de tudo. Que era ele quem lhe trouxera toda a sua infelicidade e a de Vicenzo, e, por isso, deveria morrer. Mas não de imediato. Queria prolongar seu sofrimento para depois acabar com ele de uma vez por todas. Queria vê-lo na miséria, assim como havia a deixado. Vingaria Vicenzo, por fim. E se livraria de toda aquela culpa, toda a sua sujeira seria lavada no último suspiro do moreno. Tinha de ser assim. Era a única coisa que lhe restava fazer, então tinha de ser o único jeito. Aproximara-se ainda mais do moreno. Sacou o canivete que estava guardando no bolso – parecia que a hora de usá-lo se aproximava. E, em seguida, deu-lhe um tapa no rosto, com força com a mão que estava livre.
- Não, não, não. – Ela negou. Com os olhos ferinos marejados, um sorriso desolado, ainda que repleto de insanidade, estampado em seus lábios. Completamente irada. E um tanto demoníaca. – Cale a boca, estúpido... Você... Você não tem o direito de falar de mim! – Desferiu-lhe outro tapa no mesmo lugar de antes. Havia aumentado o tom de uma hora para outra, já deixando em evidência o aparente descontrole. Era assustadora. Lágrimas frias escorrendo sobre sua face, ela agradecia por Orihara não poder vê-la num estado tão vergonhoso.
Este, por sua vez, começou a pensar nas outras vítimas dela... Quão aterrorizadas deveriam ter se sentido numa hora dessas. Mas ele não era como os outros. Não estava com medo. Riu da própria dor – quiçá da desgraça da mulher. Não importava o quanto ela berrasse, o quanto lhe machucasse ou o quanto enlouquecesse. Não o veria em desespero. Se tinha uma coisa que havia aprendido a fazer muito bem ao longo de sua vida era manipular a consciência das pessoas (afinal, isso é algo essencial para quem quer ter controle). Não importava quão boa ela fosse, ficava invalidada naquele estado, e as táticas do moreno eram infalíveis.
- Não tenho? – Indagou. – Mas eu sou igual a você, Cora-san.
- O que está falando? Ficou louco?! – Sua voz estava trêmula, assim como a mão que segurava o canivete, com a lâmina já exposta. Ela ria desgostosa, por entre suas lágrimas amarguradas.
- Você acha que é igual ao Shizuo, mas não é. – Queria afetá-la, mas o ar irônico havia simplesmente sumido, dando espaço a uma seriedade praticamente inacreditável para alguém como Orihara. E ele, de fato, estava sério. Havia chegado a hora de falar a verdade e desiludir a "pobre" Cora. Ah... Como havia esperado por aquele dia. – O Shizu-chan é bom. Você é detestável, assim como eu. E só quer se livrar do fardo de carregar a culpa, passando-a pra mim. Quão baixa você é, Cora-san?
- Calado... Calado... – Implorava, posicionando-se para atacá-lo novamente. – Pare com isso... Não sabe o que fala.
- E ainda consegue ser pior do que eu. – Ignorou a voz da mulher aos prantos. – Porque eu, pelo menos, assumo meus erros. Que vergonhoso da sua parte. Não acha?
- Cale a boca.
- Porque eu nunca faria alguém ficar comigo só pelo meu medo de ficar sozinho. Mas você não é assim. – Izaya tinha perfeita noção de como falar aquele tipo de coisa poderia, e bem provável que iria, mudar totalmente o desenrolar dos fatos (para algo pior, que fique bem claro), mas ele já nem se importava mais. Estava claro que não lhe restava muito tempo, então, queria ao menos aproveitar o que ainda tinha. Era justo, não? – Você é fraca.
- Eu não sou fraca! Retire o que disse! – Berrou. Desceu a lâmina afiada até a barriga do informante com toda a sua agressividade, fazendo um corte fundo no local onde acertara. O moreno até tentou não esboçar qualquer tipo de reação, mas aquilo havia ido um pouco além do que esperava que acontecesse. O que, apesar de ser uma prova de que ela já não tinha mais noção do que estava fazendo, também era ruim para ele. A partir dali, tudo o que se seguiria provavelmente não seria como o plano inicial de Cora. Ele havia conseguido tirá-la completamente do sério. E corria um risco enorme por causa disso.
Contorceu seu corpo involuntariamente, embora com dificuldade, devido às amarras. O gemido sôfrego ecoou pelo recinto, talvez ainda mais intenso do que normalmente seria, pois estava sendo contido há alguns golpes. CN agora desamarrava a faixa que invalidava sua visão, permitindo que visse onde se encontrava. Sorriu. Deveria saber que seria ali. E tinha de confessar que estava um pouco desapontado pelo fato de ter deduzido exatamente para onde ela o levaria. Finalmente, chegara a uma conclusão. Quando Cora se transformava em uma psicótica qualquer, a seu ver, também virava uma humana qualquer. Manipulável, estúpida, ingênua. Fácil de se ler. Sem nenhuma surpresa ou reviravolta a ser esperada. Era ótima bolando estratégias, executando planos e seguindo o roteiro que ela mesma inventava. Mas isso só quando estava sã. Bastava que perdesse o controle para que todas essas habilidades que a tornavam tão perigosa se tornassem inúteis, afinal, não conseguia usá-las quando ficava nervosa. Não podia. Porque, ao se tornar aquela besta, suas atitudes eram igualmente animalescas e irracionais. Encarou-a. Sorriu em triunfo ao ver que havia conseguido fazê-la chorar. Significava que seu protótipo de plano – protótipo porque ele não fazia a mínima ideia de onde aquilo iria dar, e porque ele só estava querendo se divertir um pouco com a “garota-gata” – havia funcionado.
Era uma pena que ela só havia mostrado sua verdadeira face tão tardiamente (uma pena para o informante, porque era bem provável que Cora tivesse previsto algo do tipo, por isso demorou tanto). Se fossem outras circunstâncias, Izaya a faria se arrepender de tê-lo escolhido como oponente. Se soubesse que as coisas viriam a ser desse jeito (seu erro havia sido achar que CN era sempre calma e controlada), teria se programado para que as coisas acontecessem de outro jeito também. Mas, por achar que não teria chance, deixou estar. Portanto, naquele momento, ela ainda tinha total vantagem. Havia conseguido imobilizá-lo e deixá-lo sem seu celular, ou sua switchblade. Poderia fazer o que quisesse com ele. E, ele sabia, que ela não hesitaria quanto a isso. Havia cometido um equívoco tão grande que se sentia patético. “É, acho que pode se dizer que estou perdendo um pouco do jeito”, pensou. Os olhos felinos da moça mostravam o quanto ela estava raivosa e na defensiva. Parecia o momento perfeito para que Orihara se pronunciasse novamente, agora podendo encará-la de forma direta. Mas fôra impedido. As mãos de Cora voaram em seu pescoço de súbito, pressionando a área e tirando, vagarosamente, o fôlego do moreno.
Um sorriso glorioso esboçou-se na face da mulher, como se estivesse esperando há tempos por aquele momento.
- Ah, Orihara, eu vou te mandar pro inferno... – Sussurrava dócil, como se aquelas fossem palavras ditas em uma declaração de amor ou algo do gênero. – Já está mais do que na hora do diabo ter você de volta.
Notas finais
Espero não estar muito enferrujada ;o; queria poder surtar, mas tenho que ir dormir porque amanhã eu tenho aula ;o; q
Enfim, queria pedir desculpas mais uma vez pela demora, né. 3 E dizer que agora eu estou de volta pra valer.
Boa noite ;o; amo vocês ♥
E AH, EU ESQUECI DE DIZER QUE A FANFIC JÁ TEM 1 ANO, Ó QUE LINDAAAA ;A; ~ÇSADÇLD Obrigada por estarem comigo faz um ano. E o próximo capítulo vai ser MIL TRETAS.
Beijos :*
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