Walking After You

18 Capítulo 17: Cora pt. 2


Notas iniciais
Oi gente! Demorei mas cheguei. qqq
Nossa, foi tenso escrever esse capítulo ;-; Eu tô tentando terminar desde a semana passada, mas tinha tanta coisa pra explicar que eu fiquei puta e só voltei a abrir o word esses dias. Mas ainda tô no meu prazo de duas semanas.
Bom, fico muito feliz de dizer que todos os mistérios FINALMENTE serão explicados!~
O capítulo ficou gigante, então não vou ficar falando muita coisa pra não enrolar vocês. Espero que tenha dado para entender tudinho, porque foi bem cansativo escrever esse tanto de coisa, UEHUHEUHEUE.
Ah, e o de sempre, eu revisei, mas se tiver deixado algum errinho passar, por favor, me avisem.
Boa leitura! :3

“Conversa de bar. Bebidas. Cigarros.


O dia já amanhecia, e, ali, eu assumia uma identidade nova.


Eu era Cora. Confesso que gostei do nome principalmente por causa do modo como Vicenzo o pronunciava. Soava tão bem... Que terminei por me identificar. Não me achava tão bonita como ele dizia que eu era, mas me sentia extremamente lisonjeada. Tanto que jamais quis mudar de nome, mesmo depois de tudo o que aconteceu.


Caminhávamos pela rua, à esmo, como se não ligássemos para onde iríamos parar – e não ligávamos mesmo. Eu era forte com bebida, mas Vicenzo ainda parecia estar um pouco bêbado, pois dizia coisas em italiano que eu não entendia e alguns galanteios sem noção. Acho que em qualquer outra situação, eu me incomodaria, mas não ali. Eu gostava do jeito dele, ele havia sido a única pessoa que conseguira me fazer rir em tanto tempo. E foi assim, até o último momento que passamos juntos. Foi o único homem que conseguiu me fazer feliz, em toda a minha vida. Com ele, não importava o quanto minha vida estava uma merda. Vicenzo sempre tornava tudo melhor. Era a pessoa que eu mais gostava no mundo. Naquela época, porém, eu não sabia. É claro que estava encantada com ele, e com toda aquela beleza estrangeira. Mas eu ainda não o amava. Ou, pelo menos, achava que não.


Sinceramente, acho que o amei desde a primeira vez que o vi. Talvez, por isso, eu tenha lhe contado a minha história quando ele perguntou. Nós dois, sentados na calçada, sozinhos na rua. Ele apoiava a cabeça no meu ombro, já parecia estar praticamente sóbrio. Fumávamos o mesmo cigarro. O último que eu tinha. Ora, eu tragava, ora, ele. Contei-lhe tudo o que tinha feito, sem poupar-lhe de qualquer detalhe mais “obscuro” – já estava certa de que ele iria embora assim que ouvisse tudo, achando que eu era louca. Talvez até ligasse para a polícia. Mas não o fez, para a minha surpresa. Ouviu a tudo o que eu tinha de dizer atentamente, e, no fim, perguntou:


– Você não tem medo de ir pro inferno? – Encarei o horizonte, observando o sol nascer. Ninguém nunca havia me feito uma pergunta daquele tipo, mas, estranhamente, eu sabia como respondê-la. Como se estivesse esperando esse questionamento há tempos. Os cabelos dourados de Vicenzo caíam sobre seus olhos, deixando-o com um aspecto desleixado.


Eu ri, em resposta. Nos encaramos.


– O que você acha? – Fiz uma breve pausa. – Eu vivo no inferno todos os dias. Ir para lá não seria tão ruim assim.


Ele sorriu. E, eu juro, sempre que o fazia, parecia que o mundo parava. Era a única coisa em que eu conseguia prestar atenção. Vicenzo era tão bonito que doía, às vezes.


– Eu te entendo, bella. – Aproximou-se de mim. Eu podia ver os poros de seu rosto, sentir sua respiração leve contra minha face.

– Entende?

– Sou uma pessoa tão ruim quanto você. Somos dois condenados. – Respondeu. – Mas, se quer saber, ir para o inferno não vai ser tão ruim, se eu for te ver lá.


E por que nós éramos iguais? Foi o que perguntei. Era a sua vez de contar sobre seu passado. Ele trabalhava para a máfia, atuava como detetive particular e guarda-costas de uma família. Havia matado quase tanto, talvez até mais, que eu. Era um dos membros mais importantes – considerado o braço direito do líder. Lembro-me que contei que ele tinha um trabalho bastante interessante, mas ele negou. Não gostava. Disse que não teve escolha ao entrar para a máfia, pois essa era a única maneira de se sustentar (Vicenzo havia sido abandonado quando pequeno, assim como eu – mas, diferente de mim, crescera nas ruas, pois não sentia a necessidade de ter um lar). Ele não queria continuar com aquele tipo de trabalho, embora fosse obrigado a fazê-lo. Uma vez que escolhera se tornar um membro, estaria preso lá para sempre, a não ser que quisesse morrer. Parecia de saco cheio de tudo. Notei uma leve melancolia em seu olhar; mas não pude ler sua expressão. Não parecia se sentir culpado, ou arrependido. Mas, certamente, também não estava nem um pouco contente com seus feitos. Eu o entendia, sabia exatamente como era se sentir daquele jeito.


Embora nossa história fosse parecida, era notável que nós éramos diferentes. Ele era bom. Sempre tentava ver o lado bom das coisas, também. Não havia qualquer sinal de amargura ou rancor nele. Em seus lábios, sempre havia um sorriso sincero e simpático, sempre falava coisas bonitas. Ele conseguia fazer qualquer pessoa se sentir melhor. Duvidava que uma pessoa como Vicenzo fosse para o inferno. Se fosse, Deus estaria perdendo alguém realmente valioso. Para ser honesta, eu secretamente desejava que Deus o dispensasse. Adoraria tê-lo junto comigo mesmo na eternidade. Pelo menos para mim, inferno pareceria o paraíso se ele estivesse comigo.


Depois daquele dia, soube que Vicenzo ficaria lá por quatro meses – era o tempo necessário para que a operação em que estava trabalhando fosse finalizada.


Bem, posso dizer que nós nos vimos durante todos os dias desses quatro meses. Como ele trabalhava durante a madrugada, e aproveitava as manhãs para dormir, nossos encontros duravam do início da tarde até onze e meia da noite. Embora fôssemos duas pessoas igualmente inusitadas, não fazíamos coisas inusitadas. Fazíamos programas normais, de casais. Às vezes, não fazíamos nada. Qualquer coisa estava boa para nós. Não tínhamos destino, íamos para onde achássemos conveniente, nós éramos completamente livres quando estávamos juntos. Mas, devo dizer que geralmente gostávamos de frequentar bares e teatros.


Não demorou muito para darmos o nosso primeiro beijo. Era o meu primeiro beijo... Mas provavelmente não era o dele, em vista que era um homem bastante galanteador (presumo que seja característica típica de um italiano). Foi esquisito. Mas ao mesmo tempo bom e confortante. Tinha gosto de cigarro... E de cerveja... Eu não fazia ideia do que eu estava fazendo, só sabia que era péssima naquilo. Ele ria quando eu parava para retomar o fôlego, mas dizia que gostava do meu jeito desajeitado. Deve ter sido a cena mais ridícula de toda a minha vida, daquelas típicas de filmes de comédia romântica que a gente vê por aí. Eu, tão ameaçadora... Uma verdadeira aberração... Não sabia nem mesmo dar um beijo francês! Patético, no mínimo.


Mas não era culpa minha. Vicenzo foi o meu primeiro namorado. Nos beijamos em seu quarto de hotel. Lembro-me perfeitamente de como aconteceu. O sol estava se pondo, e tocava Heroes, do David Bowie ( http://www.youtube.com/watch?v=m3SjCzA71eM ) no rádio. Estava no repeat, então a música já devia ter tocado pelo menos quinze vezes. Não me importava, nem estava prestando atenção. Só não queria que as coisas ficassem muito quietas. Eu estava encarando bela "vista" que a janela me proporcionava, e Vicenzo me observava. Nós dois sentados na beira da cama de casal gigantesca, que ocupava metade de seu quarto. Ele fumava, em silêncio, e eu me aborreci, pois estava tentando parar – pela milésima vez.


– Não sei se vou aguentar muito tempo sem fumar. Nem sei se vale a pena resistir, ainda mais com você parecendo uma chaminé do meu lado. – Resmunguei, encarando-o, um pouco irritada. Não era como se eu tivesse parado realmente, porque ainda era uma fumante passiva, graças a ele.

– Ficou ainda mais rabugenta desde que parou. – Disse em tom de brincadeira, mas eu não encarei daquela forma. Torci o nariz e voltei a observar através da janela. O silêncio pairou no ar. Vicenzo logo percebeu que eu havia me irritado, e apagou o cigarro. – Mas eu gosto de você, rabugenta ou não. – Completou.

– Ah, é? – Sorri ironicamente, fazendo pouco caso.


Nem percebi que ele havia se aproximado, de um modo que nossos rostos ficassem praticamente colados. E quando me dei conta já era um pouco tarde demais para me afastar. Eu havia sido hipnotizada pelo modo como ele me encarava, e por seu sorriso sedutor. Amaldiçoei-me mentalmente por baixar minha guarda. Ele tinha um brilho único nos olhos, que adquiriram uma coloração mais clara por causa do sol que entrava pela janela. As mechas loiras do cabelo arrumadas de um jeito desarrumado, caindo sobre sua testa. Eu estava desconcertada. Meu coração parecia querer sair pela minha boca, e batia num ritmo mais acelerado do que o de costume. Mesmo que eu levasse uma vida cheia de adrenalina, podia jurar que minhas batidas cardíacas nunca ficaram tão descompassadas quanto naquele momento. O quarto pareceu encolher. Minhas mãos suavam. Era difícil respirar.


– É, sim. – Sussurrou.

– E o que te faz pensar que eu vou acreditar nisso? – Respondi no mesmo tom de voz.


Sorriu. Eu tentei me distrair prestando atenção na música, e é claro que não deu certo. Mesmo a letra parecia se encaixar em nossa situação. Às vezes, quando repasso o momento em minha mente, lembro-me claramente do trecho que estava tocando.


And you, you can be mean

(E você, você pode ser má)

And I, I'll drink all the time

(E eu, eu vou beber o tempo todo)

'Cause we're lovers, and that is a fact

(Porque somos amantes, e isso é um fato)

Yes, we're lovers, and that is that

(Sim, somos amantes, e isso é o que é)


Tentei recuar, mas ele me beijou como se estivesse esperando por aquela oportunidade. Nossos lábios selaram, provavelmente estavam ansiando por aquele momento por muito tempo. Confesso que fiquei nervosa. Toda aquela euforia me fez sentir um enjôo tremendo, como se estivessem sambando dentro do meu estômago. Seriamente, pensei que iria vomitar. Mas não o fiz. Ainda bem. Tudo ao meu redor parecia girar, sentia-me elétrica. E confusa. Mas Vicenzo me conduzia. Suas mãos apertando minha cintura firmemente me faziam sentir um pouco mais segura. Descobri, depois, que era bem normal sentir aquilo ao beijar alguém que você gosta.

Eu não fazia ideia de onde minhas mãos deveriam ficar então preferi deixá-las soltas. O ritmo do beijo era lento, assim como a música. Quando nossas línguas se encontraram, se entrelaçaram amigavelmente (a minha se movia de forma desastrosa, mas ainda sim). Foi incrível. Um misto de sentimentos que nunca conseguirei descrever, e o mais incrível era que eu me senti daquela forma nas vezes seguintes, também. Fico feliz de ele não ter desistido de mim de primeira. Qualquer outro teria feito isso, com certeza.


Though nothing, will keep us together

(Embora nada, nos mantenha juntos)

We could steal time, just for one day

(Nós poderíamos enganar o tempo, apenas por um dia)

We can be heroes, for ever and ever

(Nós podemos ser heróis, para todo o sempre)

What d'you say?

(O que você diz? )


“Eu me senti infinita.” Li essa frase num livro uma vez, e nunca achei que poderia usá-la em algum lugar. Acho que é apropriado usá-la agora, porque foi exatamente o que se passou pela minha mente. Se algum dia houve mesmo um lugar no mundo para mim, certamente esse lugar era ao lado de Vicenzo. Eu finalmente havia me encontrado. Me senti maravilhosamente bem durante aquele beijo. Minha mente ficou em branco e eu só conseguia pensar nele. Nós dois éramos infinitos, mesmo que só por aquele momento. Tudo estava ao meu alcance. Todas as minhas dúvidas foram sanadas. E bastou só um momento para isso. Durou tão pouco que, às vezes, eu me pergunto, quantas sensações cabem em um momento? Eu não sei. Porque o que senti ali, naqueles poucos minutos, foi incontável. Imensurável. Foi único. Talvez fosse a música, talvez fosse o Vicenzo, talvez fosse o beijo... Talvez fosse a combinação de tudo aquilo junto... Mas, certamente, foi algo que eu nunca vou conseguir colocar em palavras. Quantas vezes, ao longo da nossa existência, nós somos realmente infinitos? Eu não sei te responder isso. Mas ali, naquele quarto de hotel, eu tenho certeza de que fui. Não me importo se aquele momento passou em branco para o resto da humanidade. Eu não estava nem aí para o resto da humanidade. Aquele era o meu momento.


Nossos lábios finalmente se separaram; eu estava extremamente corada e ofegante. Mas estava feliz, em êxtase. Me sentia única. Abracei-o e juro que quase chorei. Não de tristeza, é claro. Eu me sentia tão contente que queria chorar. Vicenzo me deu um beijo na testa e eu respondi lhe dando um beijo na bochecha. Estávamos em perfeita sintonia. Havia sido um beijo inocente, sem malícia da parte de nenhum de nós. Havia sido simples. E, talvez, por ter sido dessa forma, me marcou de tal forma que posso assegurar que foi o melhor beijo que dei em toda a minha vida. Claro que o primeiro beijo marca qualquer um de nós, mas... Quantas pessoas dão o primeiro beijo com o amor de sua vida? Não sei te responder isso também, mas acho que a probabilidade é pequena. Eu, felizmente, tive essa sorte. É. Alguma coisa tinha que me compensar nessa vida de merda.


Eu poderia falar, falar e falar cada vez mais de todos os momentos que passei com Vicenzo. Mas isso levaria um tempo considerável. Talvez um mês, se eu ficasse falando vinte e quatro horas sem parar para dormir ou para comer. Mas é claro que não farei isso. Só falarei das coisas que considero mais importantes. Quem sabe um dia eu não narro a nossa história por inteiro? É algo para se cogitar. História para outro dia.


Mas, enfim, continuando...


Você provavelmente já deve ter uma noção do que aconteceu depois. Nós começamos a namorar. Não era um namoro propriamente dito (nem eu, nem Vicenzo gostávamos de rótulos), mas tínhamos um relacionamento sério. E ele me dava beijos passionais com bastante frequência. Mas é claro que não ficávamos o dia inteiro nos agarrando. Até porque isso era coisa de gente desocupada ou de adolescentes excitados... E nós, definitivamente, não éramos pessoas desse tipo. Nós éramos muito mais que isso. Gostávamos de sair para passear também, e conhecer coisas novas. Conheci muitas coisas novas durante o tempo que namoramos. Não posso dizer que o ensinei tanto quanto aprendi com ele. Mas, se ele sabia diferenciar espécimes de baleias, posso dizer que foi por minha causa. Eu nunca tive muito a ensinar, sempre fui meio alheia à cultura, costumes e coisas do gênero.


Já ele... Bem... Ele me ensinou a gostar de teatro, cinema e música. Era um grande fã de arte, em geral; me ensinou boa parte do que eu sei à respeito (o que não é pouco, até porque Vicenzo era um cara extremamente inteligente). Com o tempo, também virei uma grande admiradora daquele tipo de coisa. Especialmente de peças e filmes musicais. Eu achava incrível o modo como as pessoas cantavam e dançavam, alegres e ritmadas. Toda essa admiração fazia com que Vicenzo constantemente me tirasse para dançar no meio da rua, ou começasse a cantar, com sua voz maravilhosa, as minhas músicas favoritas (que, em maioria, eram as favoritas dele também). Antes de conhecê-lo, eu não tivera a oportunidade de conhecer nenhum tipo de arte – nunca me despertou o interesse, para ser honesta –, mas ele me apresentou um mundo completamente novo. Um mundo maravilhoso que eu pensava que parecia só existir em livros de ficção. Todos os dias que passei com ele pareciam histórias de ficção, para ser honesta. Talvez, por alguns, a nossa história fosse até considerada como um conto de fadas. Mas eu era uma princesa bastante diferente. Não que isso venha ao caso, é apenas uma observação. De qualquer forma...


A maioria das lembranças que tenho dele são de nós dois cantando, às vezes, bêbados, às vezes, sóbrios. Às vezes, com música ao fundo, às vezes, só com o barulho dos grilos e dos carros passando na rua... Não importava a ocasião ou o local, contanto que estivéssemos juntos, sabíamos que estávamos seguros. Hoje vejo que foi a melhor época da minha vida, indubitavelmente. A única época em que esqueci de vez meu sofrimento. Não sentia aquela sede incontrolável por vingança, não queria ver sangue, não queria o sofrimento alheio. Eu estava feliz. Verdadeiramente feliz. Mas é claro que felicidade não dura muito quando o assunto sou eu... E, num piscar de olhos, aquele tempo todo que passamos juntos acabaria. Vicenzo anunciara que voltaria para a Itália na manhã seguinte. Nós estávamos caminhando por uma rua deserta, a luz dos postes era fraquíssima, e a maioria estava queimada. Noite fria e perigosa. Se nós estávamos preocupados? Claro que não. Eu conseguia virar um gato e Vicenzo tinha sempre uma arma em mãos. Ninguém seria louco de tentar nos abordar. Eu estava tomando um copo de limonada rosa que ele havia comprado para mim. Era a minha bebida favorita por ter um gosto delicioso. Mas depois da notícia, ficou amarga, horrível. Descia rasgando pela minha garganta. Parecia que eu estava bebendo ácido sulfúrico. Sentia vontade de chorar, mas não o faria, sempre fui orgulhosa demais para chorar na frente de alguém. Mesmo que esse alguém fosse Vicenzo. Eu finalmente me dava conta do quanto havia me tornado dependente dele. Ele se tornara a pessoa mais importante no mundo para mim. Era quem eu mais amava, também. Nunca fui uma pessoa sonhadora, e, fazer planos definitivamente não era algo do meu feitio. Mas eu conseguia ver nós dois juntos por toda a eternidade. Por mais bobo que soasse, eu conseguia... E era tudo tão bom. Não podia acabar daquela forma.


– Sabe, – Comecei, encarando o horizonte. Joguei meu copo de limonada rosa no lixo, porque não conseguiria continuar bebendo aquilo. Coloquei as mãos nos bolsos de meu sobretudo para me aquecer. – em toda a minha vida, eu estive procurando pelo meu lugar no mundo.

– Cora... – Ele tentou me interromper. Mas eu não deixei.

– E quando eu finalmente o encontro, ele desaparece. – Chutei uma pedra que estava no meu caminho. Ri de minha própria desgraça. Eu queria sentir raiva de Vicenzo, mas não conseguia. Ele parecia sentir-se tão culpado que eu só conseguia sentir pena. A raiva que eu sentia era de mim mesma, por ter me apegado. – É uma merda.

– Cora, você sabe que se eu pudesse escolher, eu ficaria com você. – Ele tentou se aproximar, mas eu me afastei.


O que fiz a seguir foi algo bastante impensado e egoísta da minha parte. Foi bom e ruim ao mesmo tempo – eu ainda estou tentando descobrir como isso é possível. As minhas intenções eram boas, mas suas consequências não foram tão boas assim. Não que eu estivesse pensando nas consequências naquela hora. Quando somos jovens, nunca pensamos. Se me perguntassem por que fiz aquilo, diria que foi porque eu não conseguia suportar aquela expressão meio catatônica, meio triste que Vicenzo demonstrava. Eu queria vê-lo feliz. Mas, mais do que tudo, eu queria ficar feliz também. E sabia que isso não seria mais possível se ele partisse. Não queria que isso acontecesse, queria que ele ficasse ao meu lado para sempre. Não queria sentir dor de novo. Eu havia melhorado tanto naqueles quatro meses, não tive necessidade de virar gata nenhuma vez (a não ser para diverti-lo, é claro)... Viver sem ele faria com que a minha vida voltasse a ser miserável. Eu não conseguiria suportar aquilo. Ele tinha que ficar lá, para o meu próprio bem. Egoísta, eu sei. Mas eu sempre fui egoísta e sem consideração mesmo, não fazia diferença. Pelo menos, não naquele momento. Se eu soubesse o impacto de minhas ações, naquela época, teria o deixado partir. Infelizmente, eu nunca tive a habilidade de prever o futuro. Nos dias de hoje, penso que as coisas poderiam ter sido diferentes. Mas já é tarde demais. Tudo o que me restou foram memórias. E muitos arrependimentos.


– Fique comigo. – Por fim, depois de um longo silêncio, fiz meu pedido. Ele pareceu um tanto surpreso. Talvez porque eu estivesse sendo direta, e isso fosse algo que eu nunca fazia. Virei-me para ele, fitando seus olhos. Queria convencê-lo, custasse o que custasse. – Você não precisa dar satisfações a eles. A gente muda de cidade... De país... Podemos fazer o que quisermos.

– Eu queria que fosse fácil assim, bella. – Ele respondeu, encarando meu rosto. Com uma de suas mãos, ajeitou uma mecha do meu cabelo, que na época, era longo, atrás de minha orelha. Em seguida, segurou minhas mãos ternamente. – Mas se eu deixasse a máfia, estaria te colocando em perigo também. E isso é algo que eu não seria capaz de fazer.

– Eu não me importo. – Insisti. Minhas mãos tremiam e havia um nó na minha garganta. Sentia minhas pernas fraquejarem. Tinha medo de que ele recusasse a minha oferta. – Nós damos conta deles, Vicenzo. Olhe só para nós, tem que ser muito louco para mexer com a gente. – Ri nervosamente, e ele nada disse.


Novamente, um silêncio devastador. Continuei a encará-lo, apertando os lábios. Segurava suas mãos com firmeza, para que não me soltasse. Ele tomou um ar pensativo, um tanto preocupado, apesar de continuar sorrindo. Talvez quisesse me acalmar, mas não estava dando certo. Eu estava entrando em desespero. Já podia sentir que as lágrimas se formavam em meus olhos. Mas eu não as deixaria cair. Pelo menos, não enquanto Vicenzo estivesse por perto. Embora isso, sabia que ele havia notado que eu estava prestes a desabar, porque me abraçou fortemente. Me deixei envolver naquele abraço caloroso, com receio de que fosse o último que daríamos. Foi maravilhoso, embora cheio de melancolia. Nós nos encarávamos o tempo inteiro. Era como se não conseguíssemos desviar o olhar.


– Lembro da primeira vez que eu te beijei. – Disse, num tom de voz baixo. – Você se lembra da música que estava tocando?

– Uh, não. – Não entendia como aquilo vinha ao caso. – Quer dizer, mais ou menos. Lembro de alguns trechos, mas não faço ideia de qual música seja.


Ele riu do modo como eu parecia confusa.


– É só que eu estava me lembrando daquele dia. – Continuou, mantendo o ar despretensioso. – Aquela música se chama Heroes, é do David Bowie. Meu cantor favorito. – Encarei-o, me perguntando a que ponto ele queria chegar com aquilo tudo. – Às vezes, penso que tudo foi predestinado.

– Tudo o quê? – Indaguei.

– Nós. – Respondeu. – Não pode ser coincidência, sabe? Eu beijei a minha pessoa favorita, ao som da minha música favorita cantada pelo meu cantor favorito.


Eu ri, embora não quisesse fazê-lo. Viu? Quando eu disse que ninguém conseguia ficar de mau humor perto de Vicenzo, eu realmente falava sério.


– Por que você nunca me disse isso antes?

– Não sei, achei que fosse irrelevante. – Depositou um beijo rápido em meus lábios. Eu corei; ainda não estava acostumada com aquele tipo de coisa.

– Nada sobre você é irrelevante para mim. – Respondi, retomando a postura.

– Eu te amo. – Disse Vicenzo. E foi a minha vez de ficar um pouco surpresa. Não estava esperando por aquilo, assim, de súbito. Não consegui responder nada, estava paralisada. Mas ele não parecia estar esperando uma resposta, pois logo continuou a falar. – Me desculpe por estar colocando a sua vida em risco.

– O que quer dizer com isso?

– Eu vou ficar com você.


Não pude deixar de esboçar o sorriso mais feliz que dei em toda a minha vida. Abracei-o com ainda mais força – se é que isso era possível –, e nós nos beijamos. Nos beijamos daquele jeito que me fazia sentir infinita novamente. Pensei que tudo ficaria bem dali em diante.


E, por algum tempo, realmente ficou.


Eu e Vicenzo fugimos para o Japão, onde vivíamos uma vida... Hm... Dizer que era “normal” seria um exagero. Mas certamente era uma vida muito mais pacata do que a que tínhamos até então. Escolhemos o Japão por ser um lugar onde havia pouca atuação da máfia italiana, em vista que os japoneses tinham sua própria máfia. Isso ajudou, mas não tanto quanto pensávamos. Fomos perseguidos por alguns anos. Nos mudamos para diversas cidades, até nos estabilizarmos em Ikebukuro, onde estaríamos potencialmente seguros. Usávamos identidades falsas e constantemente "mudávamos" nossa aparência (por meio de disfarces). Pode-se dizer que tínhamos a situação sob controle. Não precisávamos de dinheiro, Vicenzo tinha o bastante para o resto de nossas vidas em sua conta bancária. Podíamos fazer o que quiséssemos. Nada nos impedia. Mas, talvez, termos vivido uma vida cheia de adrenalina e perigo nos fez optar por algo mais “light” dali em diante. Precisávamos de algo para ocupar nosso tempo, mas, que, ao mesmo tempo, não fizesse com que fossemos descobertos. Então, entramos para os Dollars, onde passamos a usar nossos conhecimentos para o bem de forma anônima. Foi nessa época, também, que minhas habilidades evoluíram bastante e algumas “paranormalidades” começaram a se manifestar em mim – chame de sexto sentido, se quiser. Estranhamente, eu conseguia entrar na mente das pessoas. Controlá-las por algum tempo, geralmente por meio de hipnose, invadir seus pensamentos, causar sensações e coisas do gênero. Acho que isso explica a vez que eu entrei em seu sonho, e também como eu conseguia fazer com que você sentisse minha aura. Não tinha muita utilidade naquele tempo, aliás, até hoje não acho muito útil, mas penso que, talvez, no auge da minha vida como uma espécie de serial killer, aquilo pudesse ter sido de bastante ajuda. De qualquer forma, era sempre bom ter mais alguma coisa ao meu favor.


Pela primeira vez, via a minha habilidade de virar gata com algo bom. Eu conseguia fazer coisas boas pelos outros. Quer dizer, eu sempre pude, mas só pareceu realmente valer a pena nos Dollars – e por causa de Vicenzo, também, mas isso era óbvio. A maioria das pessoas dali era gente de bem, que só queria ajudar, sem pretensões, sem esperar nada em troca. E era ótimo que eu pudesse fazer algo por eles. Assim, nós passamos muito tempo envolvidos nas atividades do grupo. E nos divertindo nas horas vagas. Ah, e como nós nos divertíamos... Éramos o casal perfeito. E eu nunca me cansava dele ou de sua presença. Minha vida havia passado de um mar de desgraça para a vida que toda a garotinha fã de filmes do John Hughes sonhava em ter – talvez com um pouco mais de aventura, mas ainda sim. Era maravilhoso.


Comecei a achar que nada poderia me atingir e que eu finalmente estava no caminho certo. Parecia que todo aquele ódio que eu mantinha em meu coração ia embora, dando espaço para que sentimentos bons tomassem o seu lugar. E tudo por causa de Vicenzo.


Mas é claro que a vida tinha que insistir em me dar outro tapa na cara (já foram tantos que nem sei porque me surpreendi). Eu já deveria saber, afinal, tive experiências ruins o bastante para fazê-lo. Mas não. Eu era boba e me deixei ser enganada de novo (odeio me lembrar disso, mas acho que é um ponto essencial na história. Nunca cogitei contar para alguém, então, pode-se dizer que você é bastante sortudo).


Tiraram tudo o que eu tinha, de novo, num piscar de olhos.


E foi assim... De súbito. Sem avisos prévios, sem nem me dar chance para me preparar para o baque. Eu voltei para casa num dia qualquer e simplesmente encontrei Vicenzo estirado no chão, baleado, pálido, com uma poça de sangue em sua volta. O cheiro de sangue exalando pelo recinto era insuportável. Causava-me náuseas. E mesmo que meu coração se recusasse a acreditar, eu sabia que a máfia o havia encontrado e feito aquilo com ele. Entrei em desespero e comecei a chorar. Chorei tanto que achei que fosse morrer desidratada. Não sabia que um ser humano tinha um estoque de lágrimas tão grande. Passei a noite toda sentada ao lado dele, me debulhando sobre seu corpo sem vida. Sentada ao seu lado, fumei os últimos cigarros que encontrei em seu bolso; meu vestido branco logo aderiu um tom escarlate. Não me importava. Nunca me desfiz daquele vestido, é o último laço que tenho com Vicenzo.


Parecia que a partir do momento que eu deixasse nossa casa, iria cair a ficha de que era tudo verdade. E eu não queria encarar os fatos. Tinha a esperança de que aquilo não passasse de um sonho ruim, por isso insisti em não sair de lá. Estava devastada e com medo. Doía. Doía tanto que acho que se eu levasse uma facada naquele momento, não sentiria nada. Doía porque eu estava sozinha novamente, doía porque eu nunca sentiria sua presença de novo, doía porque aquilo era, parcialmente, culpa minha. Era horrível. Eles haviam sido tão cruéis... Não haviam nem mesmo deixado ele se despedir de mim. Foi a pior coisa que poderiam ter feito.


Eu gostaria de ter tido uma chance de dizer à ele todos os sentimentos que omiti. Gostaria de ter tido a chance de vê-lo sorrir pela última vez. Gostaria de ter tido a chance de beijá-lo pela última vez... Mas só o que pude fazer foi ficar ali, aos prantos, sem conseguir parar de chorar e me lamentar. Nenhuma dor que senti jamais chegou aos pés daquela, e garanto que nunca chegará. Saber que eu não o veria nunca mais era uma sensação assombrosa. Eu nunca tive a oportunidade de dizer a ele o quanto eu o amava. E acho que, de tudo o que aconteceu, isso é o que mais me arrependo. Porque eu o amava. E o amava muito. Ainda amo. Sempre amarei. Ele continua sendo a minha pessoa favorita no mundo. Sei que no fundo ele sabia, mas eu gostaria de ter deixado mais claro. Devo desculpas à ele por isso. E por tantas outras coisas.


Ah, meu amado Vicenzo. Perdão. Mil perdões. Lamento até hoje por sua morte, mas sei que nada o trará de volta para mim. Você foi o único que acreditou em mim. Você acreditava mais em mim do que eu mesma. Sinto muito por nunca ter podido te retribuir da mesma forma. Te devo todos os agradecimentos do mundo – e sei que ainda não serão o bastante. Obrigada por ter me dado um espaço tão grande na sua vida. Eu não sei o que seria de mim sem você. Me desculpe por ter sido tão boba e por nunca ter falado o quanto você significava pra mim. Eu nunca vou me esquecer que você, mesmo morto, continuava a sorrir e me confortar. Se eles tivessem me dado a chance de morrer no seu lugar, eu teria feito isso sem nem pensar duas vezes.


Não havia nada mais que eu pudesse fazer, mas, pelo menos eu o vinguei. Por pior que fosse o meu estado, eu o vinguei. Fui até a Itália e retalhei todos os infelizes que pude encontrar. Não sei se foi por descarrego de consciência, ou se a morte deles simplesmente me fazia sentir melhor. Mas eliminei aqueles que descobri serem responsáveis pela morte de Vicenzo. Sem culpa, sem hesitação. Como se tivesse me descontrolado de novo. Mas não era que nem antes. Porque, dessa vez, eu sabia que não haveria mais ninguém disposto a me tirar daquela vida de merda. Nunca conheceria outra pessoa como ele. Sentia raiva, sentia que poderia explodir a qualquer instante – e, por várias vezes, o fiz. Me tornei obcecada por vingança novamente. Embora não gostasse tanto quanto antes; para ser honesta, foi algo que fiz mais por ele do que por mim, por mais que tivesse a certeza de que ele não aprovaria nem um pouco as atitudes que eu estava tomando. Vicenzo sempre me dizia que vingança não trazia nada de bom. Eu não pensava daquela forma. Mas não que fizesse diferença, até porque eu já estava totalmente perdida, e mesmo se pensasse teria feito a mesma coisa. Não conseguia colocar outra coisa em minha mente. Queria compensá-lo de qualquer maneira. Era a única coisa que havia me sobrado. Foi um tempo muito ruim pra mim – o pior de todos, provavelmente. E eu até falaria mais sobre, mas, espero que entenda, não é algo que eu me orgulho de ter feito. Embora – volto a dizer – não me arrependa.


Claro que uma hora eu me cansei de tudo aquilo. Criei uma falsa expectativa de que eu ficaria bem, me agarrei firmemente àquela expectativa, e tentei seguir em frente. Mas não dava, porque havia uma coisa que ainda me deixava extremamente insatisfeita naquela situação: eu não conseguia encontrar um dos culpados.


Eu e Vicenzo éramos muito bons em nos disfarçar, e ficamos seguros por um período considerável, logo, simplesmente não tinha como nos descobrirem do nada, a não ser que houvesse alguém realmente bom em perseguir as pessoas, alguém que estivesse disposto a nos encontrar. E havia. Disso eu tinha certeza... Mas... Quem poderia ser? Não fazia a menor ideia. Passei muito tempo procurando por essa pessoa. Queria encontrá-la e dar à ela o fim que merecia. Eu estava disposta a foder com a sua vida. Foder completamente. Da mesma forma que havia acontecido comigo. Deixei que meu desejo de vingança me guiasse.


Demorou pra eu perceber, mas, quando o fiz, não tive dúvidas. Hoje penso que fui muito burra de não tê-lo cogitado antes. Izaya Orihara. O informante da cidade. Encontrei-o algumas vezes enquanto participava efetivamente do Dollars. E não gostava nem um pouco dele (algo como antipatia à primeira vista). Era um merda. A escória da humanidade. E inalcançável, também. Eu sabia disso, sabia que não poderia tentar uma abordagem direta nele, era quase tão habilidoso quanto eu, e igualmente traiçoeiro. Ele sabia tudo o que se passava por Ikebukuro, conhecia cada habitante da cidade melhor do que ninguém. Seria muito complicado apunhalá-lo. Eu teria de bolar um plano mirabolante se quisesse vê-lo comendo na palma da minha mão. Falhas não eram permitidas. Por isso, de início, eu apenas o estudava. Foi um tempo em que não fiz mais nada além disso. Abandonei meu perfil nos Dollars, a vida de criminosa a qual eu havia retornado, a tristeza pela morte de Vicenzo... Tudo. Só para que pudesse prestar total atenção nele. Passava o dia inteiro perseguindo-o, ora disfarçada de gato de rua, ora vestida como uma mulher qualquer. Estudava suas atitudes, os lugares que frequentava e seus relacionamentos. Seu comportamento era algo tão excepcional que logo me interessou. Ele nem mesmo parecia um ser humano. Nada o atingia. Nada o machucava.


Exceto você, Heiwajima Shizuo-san.


Eu via que Izaya mudava completamente quando estava com você. Sinceramente, não precisa ser uma mente brilhante para perceber que vocês estavam apaixonados. Logo notei. E para ter uma confirmação disso, bastou que eu invadisse a mente dele uma só vez – coisa que, por sinal, fiz por precaução mesmo, porque, convenhamos, era óbvio. Então, eu decidi o que teria que fazer. Tinha que arranjar algum jeito de afetá-lo, e sabia que isso só seria possível se eu te atingisse. Por isso, fiz o que fiz. Não vou mentir. No início, eu pretendia te matar, mas apenas você. Afinal, o único jeito de Izaya entender o que eu passei seria se ele perdesse alguém que realmente amava. Que vingança poderia ser melhor que aquela? Faria-o sofrer eternamente, do mesmo jeito que eu estava sofrendo. Mas tinha de fazer direito (sempre fui perfeccionista, nunca gostei de planos "meia-boca"), por isso, fazia minhas encenações teatrais e os enganava, fazendo-os acreditar que eu queria me vingar de você. Era perfeito. Estava tudo dando certo, e eu estava me saindo melhor do que esperava. Contanto que eu não deixasse Orihara saber de nenhuma fraqueza minha, ficaria tudo bem. Por isso, fui cautelosa o bastante para apagar quaisquer informações sobre mim que havia espalhadas por aí. Não foi muito difícil, já que eu era uma pessoa fechada demais pra ficar falando ao meu respeito para qualquer um. De resto, eu só tinha que mexer com as pessoas com quem você se importava. Acredite ou não, eu nunca quis matar nenhum deles. Queria que você aproveitasse seus últimos momentos com as pessoas que amava (posso ser uma vilã, mas tenho coração também). Por isso os deixei escapar. Eu poderia muito bem ter acabado com todos, mas não o fiz. Só queria provocar. Acho que te devo desculpas. Sei que te fiz passar por maus bocados, afinal de contas, meu plano sempre foi esse.


Mas algo deu errado no meio caminho. Mais especificamente, quando eu parei para prestar atenção em você. Digo, era notável que você era diferente, mas isso não me importava muito no começo. Ou pelo menos, eu achava que não. Mas estava errada (só para variar). Inconscientemente, comecei a criar certo afeto pela sua pessoa. E quando me dei por mim, já era tarde demais. Não poderia te matar, porque eu havia... Me apaixonado. Você havia se tornado alguém importante para mim. Não sei ao certo quando percebi isso, a única coisa que posso dizer é que mudou tudo. Eu simplesmente não podia mais continuar com aquele plano porque eu não conseguiria tirar sua vida. O quão irônico isso soa, vindo de mim, alguém que por tantos anos tirou a vida de milhares de pessoas sem qualquer hesitação? Era ridículo. Eu estava me sentindo ridícula, e precisava dar um jeito de reverter àquela situação. Por isso me afastei. Precisava de tempo para pensar e ver o que faria dali em diante.


Você é como eu, Heiwajima Shizuo-san. As pessoas nunca te deram chance para mostrar que você não é uma pessoa ruim. Elas não te entendem. E foi justamente por isso que me apaixonei por você. É claro que eu te acho uma pessoa muito melhor do que eu, mas a nossa natureza é a mesma. Você é como Vicenzo. E me traz uma sensação de conforto que eu não sei explicar direito, mesmo que não sorria tanto quanto ele. Sou incapaz de tirar sua vida. Porque eu gosto de você, e gosto muito. É por isso que eu resolvi te deixar ouvir a minha história. E também porque eu sei que você me entenderá. Sei que você sabe muito bem como é se sentir um monstro, quando você não é um. Você deve estar se perguntando como eu sei disso. É porque eu venho te observando desde sempre... E posso afirmar com toda a convicção do mundo que você é uma ótima pessoa, mas as pessoas têm tanto medo de você que não se aproximam. Só posso te dizer para não se importar com isso, porque você é especial, Heiwajima Shizuo-san. E quanto aos meus sentimentos, bem, eu sei que você nunca irá correspondê-los, mas eu quero que saiba que fico muito feliz por ter te conhecido. É a única coisa pela qual sou grata à Orihara. É muito boa a sensação de poder se apaixonar outra vez, mesmo que platonicamente. Sei que você muito provavelmente me odeia, mas eu não ligo para isso. Aliás, você tem toda a razão em me odiar, mas, bem, pelo menos você sente algo, não é? Eu queria que nós pudéssemos ter sido amigos, Heiwajima Shizuo-san. Seria algo muito bom. Uma pena que as circunstâncias não permitiram. Talvez em outra vida isso possa acontecer.


Nunca pensei que diria isso, mas invejo Izaya. O amor que você sente por ele é profundo e verdadeiro. E, odeio admitir, mas o que ele sente por você é verdadeiro também. Vocês parecem muito comigo e com Vicenzo, sabia?


Eu realmente gostaria de poder dizer que desejo o melhor para os dois, mas isso seria uma mentira. Só quero o melhor para você, Heiwajima Shizuo-san. Izaya não tem o direito de ser feliz. Ele é a última pessoa no mundo que merece qualquer tipo de felicidade. E, eu espero que você veja meu ponto, eu não posso permitir que ele continue vivendo, nem mesmo por você. Eu preciso acabar com ele. Mas não quero mais envolver ninguém nisso. Por isso te deixarei em paz. Não vou mais mexer com você ou com qualquer pessoa que goste, então não se preocupe. Eu já errei demais com as pessoas que gosto durante a minha vida, portanto, não farei isso novamente. Até porque não seria certo, já que única pessoa que merece morrer é o Izaya. Sinto muito por todo o mal que causei durante esse tempo; não acontecerá de novo, você pode ter certeza. Infelizmente, não posso – e nem vou – abrir mão da vida dele, por mais que você o ame. Não adianta me falar nada, porque eu não vou mudar de ideia. Só peço que acredite quando eu digo que dói mais em mim do que em você. Eu não queria que as coisas chegassem a esse ponto, não queria ter que tirar a pessoa que você mais ama de você. Mas se eu não o matar nunca vou me livrar dessa culpa. Eu nunca vou estar completamente livre. E Vicenzo nunca será compensado pelo que aconteceu. Tenho perfeita consciência da pessoa horrível que sou, mas não farei nada para mudar isso. Eu já tive a minha chance, e o seu Izaya a tirou de mim. Agora é a minha vez de dar o troco.


Não espero que você aceite minha decisão, só quero que você entenda o porquê de tudo isso. Me desculpe, Heiwajima Shizuo-san. Isso é apenas como as coisas são.”

Notas finais
Eu queria surtar, só que estou atrasada pra uma festa de aniversário e esse capítulo me deixou esgotada... UEHUEHUHE. Mas, enfim, espero que tenham gostado~
Booom, as coisas vão ficar um pouquinho apertadas pra mim de agora em diante, mas farei o possível para não ficar muito tempo sem postar. Prometo me dedicar durante o meu tempo livre, tenho que parar de ser preguiçosa. ;_;
Obrigada por estarem comigo até aqui! Amo vocês, de verdade. ♥
Um beijo :*