Walkie-talkie
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Notas iniciais
Yutaka passara a manhã inteira ocupado com os detalhes do último show daquela tour. E a partir do domingo, o The Gazette estaria em período de férias – não que aquela palavra significasse muito para a banda, já que eles nunca paravam de trabalhar. Mas pelo menos Yutaka não teria que se preocupar com walkie-talkies.
A hora do almoço foi a primeira oportunidade de descanso para o baterista. Ele se permitiu relaxar e demorar um pouco mais na refeição. E a primeira coisa que faria ao terminar o almoço seria jogar o walkie-talkie fora. Hayato já tinha providenciado um novo par e Yutaka só continuava com o antigo porque...
Por que ele continuava com o walkie-talkie velho? Por que mantê-lo se desde a noite anterior ele tinha dito que ia se livrar daquilo?
Yutaka parou ao lado da lixeira segurando o walkie-talkie pela antena. Talvez ele não devesse jogá-lo fora... Por algum motivo, ele esperava que a garota entrasse em contato com ele novamente. Só para demonstrar que ela tinha senso e boas maneiras, claro. Que ela era como a maioria dos cidadãos japoneses e se preocupava em devolver as coisas perdidas que achava no meio da rua.
Ele devia tirar as pilhas antes de jogar o walkie-talkie fora. Não seria agradável as pessoas passarem e a lixeira começar a falar.
Yutaka virou o aparelho. Retirou devagar a tampa que protegia as pilhas. Ele colocou a ponta do dedo sobre uma das pilhas a fim de retirá-la.
- Olá, senhor! Está aí?
O moreno arfou de susto e quase deixou o walkie-talkie cair. Rapidamente repôs a tampa nas pilhas e apertou o botão lateral para responder.
- Eu estou aqui – Yutaka ainda tinha a respiração alterada.
- O senhor está bem? Espero não estar sendo inconveniente.
Yutaka riu, passando a mão pelos cabelos escuros.
- Não; na verdade, você foi muito conveniente!
- Hm, acho que tenho certo receio de perguntar por que – a garota disse em tom pensativo – Eu peço desculpas por hoje cedo, eu estava no trabalho. Agora estou em horário de almoço; imagino que o senhor também está.
- Eu acabei de almoçar, pra falar a verdade – Yutaka começou a caminhar enquanto falava.
- Ótimo! – ela respondeu muito animada – Eu pensei que, já que estamos em horário de almoço, eu poderia lhe devolver o walkie-talkie!
- Ah, bem – o moreno coçou a cabeça – É que eu não posso sair daqui.
- Oh, isso é uma pena. Mas o senhor não disse que precisava do walkie-talkie para trabalhar?
- Eu comprei outro – Yutaka disse em tom de desculpas.
- Ah, então o senhor não precisa mais desse, certo? Não irei mais lhe incomodar, neste caso. Foi um prazer!
- Não! Claro que preciso! Quero dizer – ele pigarreou – Eu gostaria muito de ter meu walkie-talkie de volta.
- Walkie-talkies são tão baratos, como o senhor é sovina...
- Não é questão de dinheiro! – Yutaka se defendeu.
- É de estimação? Eu espero que não, porque ele já sofreu algumas quedas... Tá meio arranhadinho...
Yutaka riu.
- Eu simplesmente o queria de volta, não importa em que estado, ok?
- Ok, senhor! – a garota respondeu animadamente e Yutaka sorriu. Ela soava um tanto infantil...
- Quantos anos você tem? – ele perguntou com curiosidade.
- Eh?! Por que você quer saber?
O baterista riu com o pensamento da garota, embora fosse plausível sua desconfiança.
- Quantos anos o senhor tem?? Sua voz é grossa e firme, mas sua risada parece de um menino...
Yutaka sorriu mais abertamente, evidenciando suas covinhas.
- Eu tenho 28 anos. E agora, você pode me dizer sua idade? Eu juro que não tenho intenções indecentes. Só estou curioso.
A resposta demorou um pouco a chegar; a garota devia estar avaliando a situação.
- Tenho 23 – ela respondeu por fim.
- Então você não precisa ficar me chamando de senhor, ok?
- Mas vou chamá-lo de quê se eu nem sei seu nome? Outro dia eu ouvi alguém chamando-o de “Yuk”, certo? É apelido de quê? Yukito? Yukio? Yukate... Não, Yukemana... Hã? – ela parou, como se refletisse.
O moreno gargalhou, chamando a atenção de alguns staffs que estavam por perto. Ela definitivamente não parecia ter 23 anos de idade.
- Hey, não é nada disso! Pode me chamar de Yuk, ok?
- Yuk-san?
- Apenas Yuk.
- Ok, foi você quem disse...
- Eu também preciso de um nome pelo qual chamá-la, moça – ele sorriu.
A jovem cogitou a resposta por um tempo novamente.
- Me chamo Yoko.
- É um prazer conhecê-la, Yoko.
- Mas nós não nos conhecemos.
- Sim, mas eu... – Yutaka hesitou um momento. O que ele estava dizendo? – Eu sinto como se a conhecesse agora.
- Eeh... Pode parando que eu não sou assim inocente!
Yutaka riu. Aquela garota era engraçada... Ele levantou o olhar e se deparou com Takanori chamando-o do palco.
- Eu preciso voltar ao trabalho – ele disse à Yoko.
- Tudo bem. Se esforce!
Ele sorriu mais uma vez.
– Você também – e prendeu o walkie-talkie no cinto, ao lado do novo.
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