Wake Me Up

61 Todos Os Fantasmas Saem Para Brincar


Notas iniciais
Olá, adivinha quem voltou depois de todos esses meses? Sim, a autora mais perdida desse site. Desculpa, galera. Eu tento atualizar essa fica direito, mas sou uma negação. Então, obrigada por ainda não terem desistido de mim, mesmo após todos esses anos rsrs vocês são muito guerreiros! Agora vamos ao capítulo, porque esse ano se Deus quiser eu concluo essa fic KKK Ah, e tem uma curiosidade: esse capítulo foi inspirado na música "Shake It Out" do Florence + The Machine (e na verdade essa foi a música que me inspirou a criar o Joseph de um modo geral). Caso não tenham escutado ainda, deixarei o link no fim do capítulo para vocês. E vale a pena ouvir, viu? A música é ótima. Boa leitura! ps: meu notebook quebrou, então escrevi esse capítulo todo pelo celular. Eu revisei, mas caso encontrem erros, por favor, me avisem. O corretor as vezes me prega peças.

Sem muito entusiasmo, Joseph observou enquanto sua acompanhante retirava o casaco e o depositava sobre a cama. Ela já não lhe parecia tão interessante agora, parada sob a luz daquele quarto barato de motel, quanto aparentava ser na boate onde haviam se conhecido. Ali, Joseph podia ver todos os defeitos nos quais não havia reparado enquanto flertavam no bar e aquilo lhe decepcionava. Ele deveria ter escolhido melhor.

— Tire a maquiagem – ele pediu quando a garota se aproximou para beija-lo. Ela o encarou como se não tivesse entendido, então, abriu um leve sorriso e se afastou um pouco.

— Acho que ainda não chegamos nesse nível de intimidade, gatinho. Uma mulher sem maquiagem é como um livro aberto.

Joseph ignorou o comentário. Simplesmente pegou sua carteira e retirou dela algumas notas de cem, depositando-as calmamente sobre o casaco da garota.

— Tire a maquiagem – repetiu e, dessa vez, ela o encarou com certa indignação.

— Só porque eu quis abrir as minhas pernas para você depois de uma boa conversa e duas doses de tequila, não significa que eu seja uma prostituta – protestou, mas seu tom afiado não impediu que Joseph reparasse como os olhos dela se desviaram sutilmente para as notas de cem jogadas ao lado.

— Deixa eu te explicar como isso vai funcionar, ok? Você pode retirar a sua maquiagem e sair desse quarto, depois de uma boa foda, com algumas centenas de libras a mais no seu bolso ou pode pegar as suas coisas e sair agora mesmo. Você decide.

A garota não respondeu imediatamente. Seus olhos relancearam de Joseph para o dinheiro algumas vezes antes de ela engolir seu orgulho, pegar toda a quantia jogada ali e, então, rumar para o pequeno banheiro do quarto.

Quando ela saiu de lá, alguns minutos depois, Joseph achou que ela parecia bem melhor, sem qualquer resquício da maquiagem pesada em volta de seus olhos ou do batom vermelho vibrante que coloria seus lábios. Ele também reparou que ela possuía sardas no nariz e no alto das maçãs do rosto. Ele gostava de sardas, achava-as charmosas, mas naquele momento o detalhe não o agradou. Rebecca não possuía sardas, ele constatou. O castanho dos olhos dela também não era tão escuro quanto o daquela garota e, embora ambas possuíssem o mesmo tom acastanhado em seus cabelos, o de Rebecca não era tão longo. Seus seios também não eram tão fartos, Joseph observou. Havia semelhança entre as duas, é claro, mas quando olhava para aquela garota ele sentia como se estivesse comprando o produto genérico. E ele não queria o genérico.

— Você não serve – ele disse simplesmente.

O rosto da garota se converteu em uma careta.

— O que foi que disse?

— Eu disse que você não serve – Joseph agarrou sua carteira e a colocou de volta no bolso, virando as costas para ela.

— Você é um maldito pervertido? – Ela reclamou, cruzando os braços diante dos seios grandes demais. — É por isso que eu não sirvo? Porque não sou uma garotinha ridícula do colegial?

Joseph não respondeu. Apenas saiu do quarto e deixou a garota surtando lá dentro, xingando-o de todos os nomes que conhecia. Ele não lhe devia explicações. Não tinha que contar a ela toda a história da sua vida ou dizer-lhe o quanto a maldita namorada de seu irmão postiço o interessava apenas porque ele não podia tê-la. Na verdade, ele nem queria tê-la – Rebecca era tão atraente aos seus olhos quanto um sapato velho largado na beira da estrada –, mas saber que ela se achava boa demais para ele, com todo aquele seu moralismo de merda e sua filantropia idiota, o irritava. Ela não era melhor que ele! E também não deveria olha-lo como se não pudesse decidir se sentia mais pena ou repulsa.

— Vadia estúpida – Joseph resmungou chutando os latões de lixo que ele encontrou no beco atrás do motel. Se houvesse um morador de rua ou um cachorro ali ele os teria chutado também, teria chutado sua própria mãe naquele instante, mas, infelizmente, nenhum deles era Rebecca.

Insatisfeito, Joseph voltou para a boate de onde havia saído mais cedo e seguiu direto para o bar. Várias garotas – e também alguns garotos – o seguiram com o olhar enquanto ele atravessava o clube, mas ele não se importou. A noite já havia perdido a graça e não fazia sentido tentar encontrar outra Rebecca-genérica perdida na multidão, ele sabia que só se satisfaria com a original.

— Vodca com soda e gelo – ele pediu ao barman. – Pode deixar a garrafa aqui.


***

Pouco depois das três da manhã e quase uma garrafa de vodca mais tarde, Joseph ainda se sentia sóbrio o bastante para caminhar pelas ruas de Londres sem cambalear. Ele não entendia porque as pessoas não podiam simplesmente beber até cair em um dia de semana. Os bares tinham mesmo que fechar tão cedo?

Resmungando, Joseph digitou a senha do alarme da casa de seu pai e entrou. Erick não devia saber que ele já havia descoberto a nova senha de acesso, caso contrário, já teria pedido a empresa de segurança para muda-la de novo, mas Joseph não se importava com isso. Ele sempre dava um jeito de descobri-las depois.,

Entediado ele atirou seu casaco e a mochila em um canto da sala e agarrou a primeira garrafa de bebida que encontrou na adega, antes de rumar para a cozinha. Preferia a boa e velha cerveja às bebidas caras e amargas que seu pai comprava, mas àquela altura qualquer coisa com álcool servia.

Já estava quase na metade da segunda dose quando a luz da cozinha se acendeu e Erick entrou ali, vestindo um de seus robes caros e feios.

— O que faz aqui? – Ele perguntou sem nem mesmo cumprimenta-lo, o que não foi nenhuma novidade para Joseph.

— Eu moro aqui.

— Eu não te comprei um chalé tão caro e afastado de Londres para que você continuasse morando aqui.

— Ah, eu sei. Você o comprou para que fosse mais fácil fingir que eu não existo, mas o que posso dizer? – Joseph deu de ombros despreocupado. – Às vezes, eu sinto saudades de casa, pai.

Erick estreitou os olhos para ele.

— No que se meteu dessa vez, Joseph?

— Por que acha que eu me meti em alguma coisa?

— Porque você invadiu a minha casa às quatro da manhã e eu duvido que tenha feito isso para me trazer boas notícias.

Joseph esboçou um sorriso.

— Sempre esperando o melhor de mim, hum? Mas sinto por frustrar suas tão baixas expectativas, pai, dessa vez eu não me meti em nada.

— Então, o que faz aqui?

— Não posso te visitar?

Ericka apenas tomou o copo de bebida das mãos de Joseph e o arremessou do outro lado da cozinha, sem se importar com a sujeira ou barulho que isso causou.

— Não tente me fazer de palhaço, Joseph. Eu não tenho tempo para isso. Diga logo porque veio.

— Pois bem – Joseph observou o copo estilhaçado por um instante, então, se levantou e se aproximou do pai devagar. – Eu vim porque estava entediado. Ficar naquele chalé sozinho não é divertido. Além disso, essa casa está tão cheia de boas lembranças... Por exemplo – ele apontou para o espaço vazio entre a lava-louças e a geladeira e abriu um sorriso felino –, recebi o meu primeiro boquete bem ali. Talvez você se lembre dela, a loira gostosa que cuidava do Christopher quando ele tinha uns dois anos. Acho até que você deve ter comido ela também, afinal, você comia todas as empregadas da casa, não é? Fico me perguntando se a Brianna não fazia o mesmo com todos os motoristas porque seria um clichê muito...

Demorou cerca de dois segundos para que o cérebro alcoolizado de Joseph registrasse o fato de que seu pai havia acabado de lhe dar um soco, mas isso não impediu que seu corpo despencasse ao longo do balcão, derrubando todos os objetos que ali estavam enquanto ele tentava, sem sucesso, se equilibrar.

— Você acha mesmo que pode me desrespeitar dentro da minha própria casa, seu merdinha? – Erick eliminou toda a distância entre eles e agarrou os fios negros de Joseph, forçando-o a se levantar. – Você pode assustar as pessoas lá fora, mas aqui dentro você não passa de um fracassado que carrega o meu sobrenome. Precisa crescer muito antes de achar que pode me enfrentar assim, entendeu?

Joseph não respondeu nada, então Erick puxou seus cabelos com um pouco mais de força, obrigando-o a olha-lo nos olhos.

— Perguntei se me entendeu, Joseph.

— Pai – a voz cansada de Christopher ressoou de algum lugar atrás deles e Erick largou o cabelo de Joseph, voltando-se para olhar o filho mais novo.

— Chris, o que faz fora da cama? Está tarde.

— Fiquei com sede – Christopher mostrou a ele o copo de vidro vazio que segurava e olhou rapidamente para Joseph, que permanecia imóvel no lugar onde Erick o soltara. – Vocês estavam brigando?

— Não – Erick mentiu, aproximando-se do caçula e o segurando carinhosamente pelos ombros. – Seu irmão bebeu demais e quebrou um copo. Só isso.

— Ah – Christopher não pareceu convencido, mas não questionou.

— Deixe-me encher isso para você – Erick pediu, mas Christopher desviou-se dele.

— Tudo bem, eu encho. Vou procurar algo pra comer também.

— Assim tão tarde?

— Eu comi pouco no jantar – Christopher deu de ombros. – Volto para a cama em seguida, prometo.

Erick não pareceu muito satisfeito, mas não discutiu. Apenas lançou a Joseph um olhar de aviso, depois sorriu para o filho mais novo, despenteando seus cabelos com a mão.

— Não coma demais, está bem? – Depositou um beijo em sua testa. – E tenha cuidado com onde pisa, o outro lado está cheio de cacos. Joseph vai cata-los depois.

— Entendi – Christopher sorriu de volta para o pai, que saiu da cozinha em seguida.

Ele esperou até que os passos de Erick sumissem escada acima, então, fez seu caminho até a geladeira e apanhou uma jarra de agua, olhando para Joseph de esguelha.

— Você não está bêbado o suficiente para quebrar um copo assim, está? – Perguntou ao meio irmão.

— Não me lembro da última vez que fiquei bêbado o bastante para fazer esse tipo de merda.

Christopher riu.

— Bom, eu me lembro. Você tinha uns treze, eu acho. Foi o acontecimento do ano nessa casa.

— Ah, é – Joseph pegou outro copo do armário e se sentou. – Seu pai ficou furioso naquele dia.

— Nosso pai – Christopher o corrigiu. – Ele é seu pai também, lembra?

— Depende do ponto de vista.

— Ele não é tão ruim, Joseph. Talvez se você não se empenhasse tanto em provoca-lo...

— Eu não o provoco.

— Provoca, sim – Christopher o encarou. – Sempre que vê uma chance de irrita-lo, você a agarra.

— Que curioso, é o mesmo que eu estava dizendo sobre ele e as suas babás – Joseph abriu um sorrisinho. – Coincidência, não?

— Viu? É exatamente disso que eu estou falando. Você é terrível.

— Que nada – Joseph virou uma última dose e se levantou, espreguiçando-se um pouco. – E você ainda me deve cinquenta libras. Nem pense que vai morrer sem me pagar.

Então ele saiu da cozinha e seguiu para seu antigo quarto, sem dizer boa noite e sem se preocupar em recolher os cacos que Erick o havia mandado limpar. Christopher apenas riu. Não tinha a menor intenção de lhe pagar as cinquenta libras, mas duvidava que seu meio irmão já não soubesse disso.

***

Joseph acordou cedo na manhã seguinte apesar de seu corpo implorar para que ele continuasse na cama. A surra que Aaron havia lhe dado, na noite anterior, não tinha sido grande coisa, mas a ressaca que estava sentindo, por outro lado, quase o fazia desejar a morte. Ele culpava o uísque horrível de seu pai por isso. Nunca tivera tal problema bebendo cerveja ou mesmo vodca barata, mas seu organismo não estava acostumado com essas bebidas de velhos ricos, megalomaníacos e esnobes.

Praguejando, Joseph praticamente se arrastou até o banheiro para tomar um banho frio e escovar os dentes e, então, desceu para tomar o café da manhã. Como era costume, a mesa já estava posta, recheada com pães, queijo, cereais e sucos e Joseph não estranhou que, àquele horário, apenas Brianna estivesse ali, afinal, seu pai sempre acordava um pouco mais tarde quando estava de folga. Da mesma forma, Brianna também não pareceu surpresa em vê-lo. Ela havia escutado sua discussão com Erick durante a madrugada, por isso, já esperava encontrá-lo em algum momento.

— Bom dia – Brianna o cumprimentou quando ele se sentou do outro lado da mesa, mas Joseph não respondeu. Apenas apanhou uma torrada do cesto e se concentrou em passar um pouco de geleia pela mesma, ignorando a presença da madrasta.

Brianna não desistiu.

— Você dormiu bem? – Ela tentou iniciar uma conversa, afinal, era estranho se sentar sob o olhar afiado de Joseph e permanecer naquele silêncio desconfortável.

— Dormi o suficiente – Joseph respondeu sem muita cortesia. – Não que você realmente se importe.

— É claro que eu me importo, Joseph. Podemos não ser tão próximos, mas ainda somos uma família.

— Ah, sim – Joseph riu. – Uma família.

Brianna olhou bem para ele. Desde que Joseph havia sido liberado da clínica psiquiatra, cerca de um ano antes, ela já tivera que lidar com o rapaz em vários humores diferentes. No geral, ele era sempre meio distante e reservado, mas havia momentos em que se tornava um pouco mais receptivo aos diálogos e momentos em que se fechava completamente. E, entre esses dois estados de espíritos, havia os momentos em que Joseph parecia disposto a atacar qualquer um que cruzasse seu caminho, fosse fisicamente ou com palavras. Aquele parecia um deles.

— Tem visto a sua psicóloga?

Joseph ergueu os olhos frios para ela.

— Quer mesmo que eu acredite que a Dra. Simpson ainda não telefonou para avisar que faltei às nossas três últimas sessões?

— Não, mas imagino que você não precise que qualquer um de nós te diga o quanto é importante que você compareça às suas consultas regularmente, certo?

— Não, eu não preciso.

— Então, porque tem faltado aos encontros? – Brianna insistiu. – A Dra. Simpson se mostrou bastante preocupada com a sua ausência nas últimas semanas.

— Aquela vaca? Eu sou apenas mais um número na agenda dela – Joseph retrucou. – Se a porra do meu nome não estivesse escrito no alto de uma ficha, duvido que ela sequer se lembraria dele.

— Não precisa usar esse linguajar, Joseph. Estamos tendo uma conversa amigável aqui.

— Oh, isso é uma conversa? – Joseph fingiu surpresa. — Desculpe, achei que era um interrogatório. Pareceu um para mim, sabe?

— Porque está sendo tão agressivo?

— Porque, de repente, você acha que pode falar comigo como se fosse a minha mãe?

— Eu não sou nada como a sua mãe, Joseph. Se eu fosse, não me preocuparia com as suas faltas ao psicólogo. Você sabe bem que, desde que veio morar conosco, sua mãe sequer se preocupa em lhe desejar um feliz aniversário.

— Tem razão – Joseph abriu um sorriso felino para ela. – Você não é nada como a minha mãe, Brianna. Você é uma mãe exemplar. Deve ser por isso que deixou o meu pai espancar o seu filho durante anos e quando achou que ele não aguentaria mais, simplesmente o mandou para longe. Você nunca o defendeu, nunca abriu sua boca para protestar, mas tudo bem, não é? Você deve ter mandado um cartão de Natal para ele todos os anos. Aposto que ele guardou todos com muito carinho – Joseph pausou – ou então os atirou no lixo antes mesmo de ler. O que você escolhe?

Brianna baixou os olhos para a xícara diante de si, atingida pelas palavras duras – porém verdadeiras – que Joseph havia atirado sobre ela. De fato, ela não tinha o direito de julgar Celine por ser uma péssima mãe. Ela própria não tinha sido uma mãe de verdade para Aaron durante anos, mas pelo menos estava tentando mudar. Celine não.

— Eu não quis ferir você – Brianna se desculpou. – Por mais erros que tenha cometido, Celine ainda é sua mãe e não tenho o direito de falar sobre ela dessa maneira, principalmente com você. Eu sei que não fui uma mãe exemplar, Joseph. Não posso mudar o que fiz ou o que deixei de fazer naquele tempo, mas posso tentar ser melhor agora e estou tentando. Espero que no futuro eu possa me tornar alguém de quem o meu filho se orgulhe e, quem sabe, alguém com quem você também possa contar.

— Não preciso de nada que venha de você.

— Eu não duvido, mas espero que saiba que não tem que lidar com tudo sozinho, ok? Se algum dia precisar, estarei aqui.

— Sobre o que está falando?

— Nada – Brianna deu de ombros. – Apenas sinto que você está lidando com algumas coisas importantes agora e que isso tem te perturbado, então, se você precisar, sei lá, conversar ou algo assim e não quiser fazer isso em um divã com sua psicóloga, estou aqui.

Joseph a encarou por um tempo. Brianna sentiu como se os olhos dele estivessem mapeando seu rosto em busca de qualquer micro expressão que traísse todo aquele discurso e isso a deixou inquieta. Por fim, Joseph disse:

— Você sabe, não é?

Elan não respondeu. Isso fez Joseph suspirar e soltar os talheres, recostando-se na cadeira com uma postura irritada.

— Se vai jogar toda essa merda pra cima de mim, pelo menos seja sincera quanto aos motivos – ele reclamou. – Eu sei que você sabe o que aconteceu. Posso ver nos seus olhos.

Brianna engoliu em seco. No recanto mais profundo de seu ser, ela realmente achou que se não falasse abertamente sobre o assunto, poderia ignorar a culpa que sentia e apenas ajudar Joseph a lidar com aquilo da melhor forma possível, mas é claro que essa estratégia não funcionaria com ele. Seu enteado era esperto e observador demais.

— Eu não tinha certeza na época – Brianna revelou finalmente. – Lembro de estranhar a maneira como ele olhava pra você ou a forma como te tocava às vezes, mas eu não... – ela se interrompeu e, depois de respirar fundo, voltou a falar: – Eu não queria acreditar, na verdade. Esse não é o tipo de coisa com a qual a gente espera ter de se preocupar, sabe? Eu achei que estava vendo coisas, maliciando um relacionamento familiar bonito, afinal, o Andrew era seu tio e ele sempre se mostrou um homem tão correto, inteligente e educado. Eu só... eu só percebi que não deveria ter ignorado todos aqueles sinais quando vi a matéria na TV – Brianna concluiu. – Não posso imaginar o que você sofreu, Joseph. Sinto muito por não ter tomado uma atitude quando deveria.

Joseph manteve seu olhar sobre ela. Não imaginava que a madrasta tivesse notado as más intenções de seu tio na época, mas saber disso agora não mudava nada. Não apagava todas as coisas perversas as quais Andrew o havia submetido.

— Não importa – Joseph finalmente disse. – Não havia nada que você pudesse ter feito, de qualquer forma.

— É claro que havia – Brianna o encarou com pesar. – Se seu pai soubesse...

— Meu pai? – Joseph quase riu. – Você realmente acha que ele não sabia?

— Sei que o Erick pode ser um pouco difícil de lidar as vezes, mas ele jamais acobertaria algo assim, Joseph. Tenho certeza que se ele soubesse...

— Ele sabia – Joseph garantiu. – Eu contei a ele quando tinha onze anos. Ele não acreditou em mim. Achou que eu estava... como ele disse mesmo? Ah é, tentando chamar atenção porque eu tinha ciúmes do Christopher e estava com raiva por não ser mais filho único ou qualquer merda dessas. Acho que ele só percebeu que deveria ter me levado um pouco mais a sério anos depois.

— Quando ele teve que te internar porque você surtou?

— Ah, você se lembra, não é? Você deve ter arquivado esse dia na sua memória como o dia em que eu, cruelmente, dei uma surra no seu filho e matei o cachorrinho dele, mas posso te contar um segredo?

— Já que estamos sendo sinceros – Brianna concedeu.

— Na verdade, eu não queria ter matado o cachorro.

— Então, porque matou?

— Foi um deslize – Joseph deu de ombros. – Eu queria machucar o A.J. e acabei me empolgando. Demorei pra perceber que o Screapy não estava mais se mexendo.

— Bem, você não me parece muito arrependido agora.

— Não falei que estou arrependido. Só disse que não estava nos meus planos. Foi um erro de cálculo.

— Ah, sim. Apenas um efeito colateral das suas tentativas de ferir o meu filho – Brianna pontuou. – Isso deveria soar melhor, Joseph?

— Não me importo com como isso soa.

— Vejo que não mesmo, mas posso saber porque você queria feri-lo? O Aaron nunca te fez nada. Na verdade, se havia alguém aqui dentro que poderia entender como você se sentia, esse alguém era ele. Vocês dois sofr...

— Não ouse concluir essa frase – Joseph ameaçou. – Não ouse me comparar com aquele merda.

— Me dói dizer isso, pois eu sou a mãe dele e deveria tê-lo protegido melhor, mas ele sofreu tanto quanto você nesta casa, Joseph.

— É o que você acha? Porque, da forma como eu vejo, o A.J. sempre foi um imbecil fraco que só sabia se arrastar pelos cantos e chorar porque a vida dele era tão injusta – Joseph debochou. – Ele nunca valorizou o que tinha.

— E o que ele tinha?

— Você – Joseph respondeu, sério. – Ele tinha você, Brianna. Tinha o Christopher e até aquela droga de cachorro para orbitar em volta dele como se ele fosse o próprio Sol. E, sim, me irritava que ele tivesse tudo isso e ainda ficasse se martirizando pelos cantos. Quer dizer, ele agia como se fosse o maior coitado dessa casa e porquê? Por que o meu pai batia nele? Por que o pai dele tinha enfiado uma bala no meio do cérebro? Ou por que você não podia mais dar atenção pra ele quando o meu pai estava em casa? E daí?! O meu pai também me batia. Muito. E ele não estava morto, mas me ignorava com tanta dedicação que era como se eu estivesse. E acho que eu nem preciso falar da minha mãe, certo? Você mesma disse que, desde que me deixou na porta dessa casa, ela não se importou muito com a minha existência. Ainda assim, o A.J. achava que ele era o único aqui que tinha problemas?! Vá se foder! Ele sequer sabe o que é isso!

— Joseph – Brianna tentou acalma-lo quando ele se levantou da mesa, mas Joseph não pareceu escuta-la.

Ela nunca tinha visto o rapaz tão alterado e não entendeu bem o que estava acontecendo. Quando Joseph foi liberado da clínica, um ano antes, ela e o marido haviam ido até lá buscá-lo e foram alertados pelos médicos de que Joseph sofria de um transtorno psicossocial e, portanto, não era capaz de sentir as coisas como as pessoas normais sentiam. Eles até mesmo os avisaram que quaisquer demonstrações de tristeza, raiva, culpa ou afeto vindos do garoto seriam apenas uma espécie de encenação e que, embora eles devessem tentar ajudá-lo em sua rotina, não deveriam se deixar levar por tais coisas, pois Joseph não era realmente capaz de senti-las. O garoto que ela via agora, no entanto, parecia verdadeiramente ferido e transtornado. Era difícil de acreditar que tudo aquilo era apenas uma atuação. Joseph parecia fora de si, como um vulcão adormecido que finalmente acordara, e aquilo era intimidador.

— Ele nunca vai saber o que é ter medo dos feriados em família como eu tive! – Joseph continuou, alterado. – Nunca vai saber como era não dormir a noite porque eu estava preocupado demais que aquele velho nojento se esgueirasse para a minha cama e me tocasse. E, não, ele nunca vai saber como eu me sentia imundo depois ou como me sentia envergonhado, nem como aquele homem me assustava tanto que eu sequer conseguia me mexer ou chorar! Então, o que ele sabia sobre ter problemas, Brianna?! O que ele sabia?!

— Joe! – Dessa vez foi Christopher quem gritou seu nome e, como se tivesse sido arrancado de uma hipnose, Joseph parou e olhou para o garoto que estava de pé na entrada cozinha.

Ele não o enxergava muito bem, a imagem Christopher parecia meio borrada devido a cortina de ódio que nublava seus olhos naquele momento, mas Joseph tentou se concentrar nele e nas palavras que escapavam de seus lábios e pareciam se perder antes de chegar aos seus ouvidos, tentando ao máximo absorve-las.

— Solta a faca – Christopher pediu baixinho e, só então, depois de muito esforço, foi que Joseph percebeu que havia encurralado Brianna contra a parede e que segurava uma das facas de mesa com tanta força que os nós de seus dedos estavam pálidos. Ele não se lembrava de ter pegado o objeto, sequer se lembrava de ter se levantado. – Está tudo bem – Christopher continuou de maneira doce. – Você está bem, ok? Ninguém se machucou, então, porque não me dá isso, irmão?

O garoto se aproximou devagar, ignorando os protestos silenciosos de Brianna, que ainda estava encurralada contra a parede, e estendeu a mão para envolver a de Joseph carinhosamente.

— Tudo bem – repetiu. – Está tudo bem, Joe. Pode soltar.

Joseph soltou a faca, deixando-a cair nas mãos do irmão mais novo, sem realmente se dar conta do que estava fazendo. Tudo parecia tão distante, como se ele estivesse observando as coisas através de um espelho d’água e demorou algum tempo para que ele percebesse que aquilo acontecia porque haviam lágrimas se acumulando em seus olhos. Isso o assustou. Joseph não chorava desde... Desde que sua mãe o deixara ali? Ele não tinha certeza. Só sabia que havia tanto tempo que quase não reconhecera a sensação.

Suas mãos pousaram em seus olhos, limpando as lágrimas dali e ele olhou para a umidade brilhante em seus dedos com certo assombro. Porque estava chorando, afinal? Ele não chorava. Porque seu corpo o estava traindo justo agora?

Confuso, Joseph simplesmente se afastou dos dois e, praticamente, correu escada acima, de volta para o quarto. Queria pegar suas coisas e sair o quanto antes daquela casa. Não tinha sido uma boa ideia voltar, não quando os fantasmas ali dentro queriam cerca-lo e fazê-lo perder o controle daquela forma. Ele tinha um objetivo, tinha um plano. Não podia se dar ao luxo de arruinar tudo agora. Era mais esperto que isso, certo? Não era uma montanha russa emocional como Aaron. Não podia ser uma montanha russa emocional como ele!

— Joseph! – Christopher não hesitou em ir atrás do irmão, largando a faca de qualquer maneira sobre a mesa e subindo as escadas de dois em dois degraus, esforçando-se para ignorar a ardência em seus pulmões por causa do esforço e a pontada de dor de cabeça que o incomodava dia após dia.

Ele estava fraco, sair da cama havia se tornado um desafio diário, mas ele não se importava em gastar as últimas energias que tinha correndo atrás do irmão mais velho. Quando sua família entrou em colapso anos atrás e Aaron foi embora e Joseph foi mandado para uma clínica psiquiátrica, Christopher ainda era muito novo para entender o que estava acontecendo e fazer algo a respeito, mas agora ele tinha idade suficiente para tomar uma atitude e fazer as coisas darem certo. Não deixaria a oportunidade passar. Não quando aquela poderia ser a última coisa boa que ele faria antes de morrer.

— Eu enxergo você – ele declarou ao adentrar o quarto de Joseph, escancarando a porta que o mais velho tinha batido apenas um segundo antes.

— Sai do meu quarto.

— Não. Espera, só... só para um segundo e me escuta – Christopher se aproximou, tentando recuperar um pouco do fôlego. – Eu enxergo você, tá ok? Eu enxergo, Joe. O bom e o ruim.

— Eu disse pra sair! – Joseph o empurrou, mas Christopher resistiu e voltou a se aproximar, tentando arrancar a mochila das mãos dele.

— Eu me importo com você! Sei que está quebrado e sei que ninguém nunca vai poder consertar o que se partiu aí dentro, mas você é meu irmão, Joseph. Eu não vou parar de tentar. Eu amo você, entendeu? Mesmo com todos os defeitos e sombras que você carrega. Eu me importo!

— Sai, Christopher!

— Porque você não ouve nada do que eu digo?!

— Eu ouvi! Cada palavra, Christopher. Eu ouvi.

— Então, porque você não se importa? – Christopher o encarou com pesar. – Porque você só me afasta, Joseph? Essa pode ser a última vez que nos vemos, pode ser que eu morra amanhã e você não liga.

— Chantagem emocional não funciona comigo – Joseph lhe virou as costas. – Guarda isso para o seu irmão.

— Você também é meu irmão. Eu amo vocês dois igual.

— Só sai do meu quarto, tá bom?

— Porque não diz isso olhando pra mim? – Christopher o intimou. Algo estava errado com Joseph, ele sentia. Não sabia o que era, mas podia sentir.

— Não posso.

— Porquê não?

— Porque não.

— Joe – Christopher se aproximou e tentou toca-lo no ombro, mas Joseph se afastou.

— Preciso que saia, Christopher. Não tenho condições de lidar com você agora.

O garoto hesitou, seu corpo magro ainda indeciso entre obedecer ou tentar alcançar o irmão de novo, mas Brianna o agarrou pelo pulso e o puxou calmamente para fora do quarto.

— Dê um tempo a ele – ela aconselhou quando o sentiu resistir um pouco.

— Ele precisa de ajuda, mãe.

— Agora ele precisa de espaço. Dê isso a ele, amor – Brianna concluiu e conduziu Christopher pelo corredor, parando quando viu sua governanta subir as escadas praticamente correndo e com cara de quem havia acabado de ver um fantasma. – Hannah, o que houve?

— Senhora, eu tive que deixa-los entrar. Eles tinham um mandado.

— Quem? – Brianna apressou o passo até chegar a escada e se assustou ao ver um oficial de justiça e alguns policiais parados no hall de entrada. – Christopher, vá para o seu quarto.

— Porque? – O garoto se adiantou para ver o que a mãe encarava lá embaixo, mas Brianna o puxou para longe.

— Obedeça. Vá para o seu quarto.

— O que está havendo nessa casa? – Erick surgiu no corredor com seus cabelos perfeitamente arrumados, enquanto dobrava as mangas de sua camisa social até os cotovelos. – É só o Joseph aparecer nessa porta que ninguém tem mais um único segundo de paz?

Ele parou junto de Brianna no topo da escada e seguiu os olhos da esposa até o hall, suspirando de maneira cansada.

— Ótimo! O que ele aprontou dessa vez? – Erick desceu as escadas, indo de encontro aos policiais lá embaixo com um sorriso ensaiado nos lábios. – Senhores, bom dia.

— Erick Hamilton? – O oficial de justiça questionou.

— Sim. E seja lá o que meu filho tenha feito, tenho certeza que podemos resolver sem muito alarde, não é? Ele possui uma deficiência e eu não gostaria que isso viesse a público assim.

— Não viemos pelo seu filho, senhor.

— Então, o que os traz aqui?

— Temos um mandado de prisão expedido em seu nome, senhor.

— Em meu nome? – Erick se sobressaltou. – Sob qual acusação?

— Homicídio.

— Homicídio?! Isso é ridículo. Quem a polícia acha que eu matei?

— Andrew Hamilton. Peço que nos acompanhe por favor.

— Isso não pode ser sério. – Erick protestou. – Porque eu mataria o meu próprio irmão?

— É o que precisamos descobrir, senhor. Por favor, nos acompanhe.

— Tire as suas mãos de mim – Erick afastou o policial que tentou conduzi-lo para fora da casa com um empurrão e a partir daí tudo se tornou uma bagunça.

Os outros policiais presentes se apressaram em ajudar o companheiro e o oficial de justiça leu os Direitos de Miranda de Erick enquanto ele era algemado e levado a força para dentro do camburão.

— Ligue para o meu advogado – Erick gritou para Brianna que estava completamente enquanto o marido era levado pela polícia daquela forma. – Diga a ele pra me encontrar na delegacia. Isso é um engano. Eu vou processar todos vocês!

— Mãe? — Christopher surgiu ao lado dela no alto da escada, com seus grandes olhos azuis observando toda aquela cena sem entender nada. – Tio Andrew não tinha cometido suicídio?

— Volte para o quarto, Christopher. Eu falo com você depois. – Ela se afastou. – Hannah por favor, acompanhe ele até lá.

— Eu não vou para o quarto, mãe! Não sou mais uma criança, pare de me tratar como uma.

— Eu não posso lidar com você agora, Christopher.

— Porque todo mundo me diz isso?

— Será que você pode me obedecer? O seu pai acabou de ser preso!

— Bom, talvez ele mereça.

— Christopher! – Brianna o repreendeu. – Ele é seu pai.

— E isso quer dizer alguma coisa? Porque eu ouvi a sua conversa com o Joseph, mãe. Toda ela. E alguém que é capaz de deixar o próprio filho passar por tudo aquilo sem fazer nada, é perfeitamente capaz de fazer qualquer coisa.

— Seu pai não é um assassino, Christopher.

— Será que não?

Brianna o encarou. Não sabia o que dizer.

— Defende-lo não te faz uma esposa melhor, mãe. Isso só te faz ser alguém pior que ele. Achei que tinha aprendido isso depois de quase perder o amor do Aaron pra sempre.

— Chris...

— Não. Sou eu quem não pode lidar com você agora – ele deu as costas para ela e voltou para o quarto de Joseph, só para encontrá-lo sentado no divã em frente a janela, encarando a paisagem lá fora.

— Eu disse para você sair.

— Eu sei – Christopher respirou fundo e uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha –, mas eu não tenho mais para onde ir.

Joseph se virou, mas engoliu o palavrão que estava prestes a dizer quando viu o quanto o garoto estava pálido. Ele se colocou de pé.

— Desculpa – foi tudo o Christopher disse antes de apagar e Joseph precisar estender os braços para segura-lo, antes que o garoto despencasse com tudo no chão.

Notas finais
Então, minha gente, o que acharam do capítulo? Aliás, qual vocês acham que é a verdade sobre o Joseph, hein? Ele é mesmo um psicopata e esse "showzinho" é puro fingimento ou vocês acham que ele realmente tem um problema por causa de todos os traumas que passou com o tio, mas que esse negócio de psicopatia é só mais uma das coisas horríveis forjadas pelo Erick, hum? (Música de suspense). Essa autora está deixando vocês loucos? Porque se estou, essa é exatamente a intenção KKK E o nosso Christopher, hein? Melhor pessoa dessa família, né? Pena que o bichinho sofre tanto! Bem, espero que tenham gostado do capítulo. Volto em breve com o próximo. Até lá! *** Shake It Out - Florence + The Machine (Legendado): https://youtu.be/qd5mQo32YN0