Wake Me Up
16 Segredos Inconfessáveis
Notas iniciais
Oxford amanheceu fria naquela manhã de segunda-feira. O outono parecia finalmente estar assumindo seu posto e uma ventania incessante sacudia as árvores dos diversos jardins da universidade, arrancando suas folhas secas e fazendo-as voarem para lá e para cá pelo campus.
Aquele era um dia propício para fazer muitos estudantes dormirem além da conta e chegarem atrasados em suas aulas, mas essa regra não se aplicava à Rebecca, que estava de pé antes mesmo que seu despertador ou o de Cadence – que era dez minutos adiantado – tivessem tocado.
Toda a briga que presenciara no apartamento de Aaron não saía de sua cabeça e ela havia perdido, praticamente, toda a sua noite de sono pensando no que fazer a respeito. Teve um monte de ideias malucas, mas nenhuma lhe pareceu boa o bastante, principalmente a ideia tola de abordar Aaron pessoalmente e lhe perguntar tudo o que queria saber. Essa era a pior!
Como já sabia que não conseguiria dormir estando com a mente inquieta daquele jeito, Rebecca tomou seu banho, se arrumou e pegou suas coisas, dirigindo-se em seguida ao bistrô próximo ao St. Hilda’s. Ainda faltava pouco mais de uma hora para sua primeira aula da semana começar, mas ela tinha certeza que a essa hora as lanchonetes do campus já estariam abertas, então aproveitaria o tempo para tomar o café da manhã com calma e tentar pensar em um plano melhor para descobrir mais sobre Aaron.
Estava na metade de seu sanduíche de peito de peru e cream cheese quando percebeu que havia uma fonte de informações muito importante sobre Aaron que ela estava deixando passar. Essa fonte era Ty.
Ty era colega de quarto de Aaron há quase dois anos e, com certeza, deveria saber muita coisa sobre ele. Não que ele e Aaron fossem amigos e confidentes – longe disso –, mas seria quase impossível que eles dormissem no mesmo quarto por quase dois anos e não soubessem de nada um do outro.
Assim, quando terminou seu café da manhã e se dirigiu ao St. Hilda’s, Rebecca já tinha todo um plano em mente e ele consistia em dois passos bastante simples – pelo menos na teoria. O primeiro deles era ligar para Ty e convidá-lo para almoçar e o segundo era extrair dele, discretamente, algumas informações sobre Aaron em uma falsa conversa casual.
O plano não lhe era exatamente agradável, pois exigiria uma pequena mentira de sua parte, algo que Rebecca não gostava de fazer e com o qual também não tinha muita experiência. Em geral era sempre muito sincera, mas essa era uma exceção. Antes de falar para alguém qualquer coisa sobre o que tinha visto no apartamento de Aaron ela precisava ter mais informações, afinal, não ia expor a vida do garoto daquela forma sem entender o que estava acontecendo.
Então, ao sair da aula de Desenvolvimento Interpessoal Rebecca pegou seu celular e telefonou para Ty, torcendo para que ele não tivesse nenhum compromisso marcado para a hora do almoço. As duas primeiras chamadas caíram na caixa de mensagem, mas na terceira tentativa Ty atendeu sorridente.
– Olá, Senhora Zhirkov. – disse ele, pegando Rebecca de surpresa e fazendo todo o discurso que ela havia preparado lhe fugir da cabeça na mesma hora.
– Me chamou de que? – perguntou ela sem entender o termo que Ty havia usado.
Já estava imaginando se aquilo seria algum termo chulo contemporâneo que Ty havia aprendido recentemente, porque às vezes ele costumava fazer isso. Ouvia uma palavra e saía repetindo-a sem saber o significado, o que muitas vezes o colocava em algumas enrascadas depois.
– Te chamei de Senhora Zhirkov. – Ty repetiu – Zhirkov é o sobrenome do Vlad.
– Ah! – Rebecca exclamou finalmente compreendendo a intenção do irmão e envergonhando-se um segundo depois, ao saber que ele já estava a par de seu namoro – Ele já te contou, é?
– Na verdade não. Ele contou para o Mikhail e o Mikhail contou para mim.
– E ainda dizem que as mulheres é que são fofoqueiras. – Rebecca resmungou, arrancando uma pequena risada de Ty.
– Isso não é fofoca, Becca. É uma simples uma troca de informações entre os seres do sexo masculino. E, por falar nisso, quando você pretendia me contar essa novidade, hein? Não me diga que ia esconder isso do seu próprio irmão.
– Eu não ia esconder. – Rebecca disse rapidamente – Apenas queria encontrar a melhor forma de te contar.
– Falando assim as pessoas vão achar que eu sou aquele tipo de irmão grudento e chato.
– Bem, de fato você é chato. – Rebecca riu.
– Como pode dizer isso? Eu estou acobertando o seu namoro. – Ty se defendeu, mas a risada que pairava em sua voz denunciava que ele não estava realmente ofendido.
– Ok. Vou lhe dar um desconto por isso, mas não se acostume. – Rebecca respondeu brincalhona.
– Tudo bem, mas se você não me ligou para contar sobre o seu namoro com o Vlad, então para que me ligou? – perguntou Ty mudando de assunto.
Rebecca parou e pensou um pouco. Com toda a conversa sobre ela e Vlad, quase se esqueceu do motivo pelo qual havia telefonado para Ty. Repassou rapidamente em sua cabeça tudo o que havia ensaiado e então voltou a falar, tentando controlar o nervosismo em sua voz, que sempre costumava denunciá-la quando mentia.
– Eu só queria te convidar para almoçar comigo hoje. – disse por fim.
– Eu? – Ty surpreendeu-se – Você não deveria convidar o Vlad?
– Bem, sim. Mas é que já faz tanto tempo que nós dois não temos um tempo de irmãos que senti saudade.
Ela tentou manter a voz no tom mais calmo possível e rezou para ter sido bem convincente.
– Sentiu saudade? – Ty sorriu do outro lado da linha – Isso é sério?
– Claro que é sério.
– Mas eu te vi na sexta... – disse Ty descrente.
– Você quer ir almoçar comigo ou não? – Rebecca perguntou já irritada – Não entendo porque eu tenho que ter uma ótima razão para te convidar para almoçar. Você nem foi para casa nas férias, a gente mal se encontra aqui em Oxford e a última vez que você me viu foi na sexta-feira, numa festa na qual eu mal fiquei por vinte minutos e você ainda acha estranho eu te convidar para almoçar comigo pelo menos uma vez e dizer que sinto saudade? Mas que droga, Ty!
– Ei! Fique calma. – ele sorriu – Desculpe, ok? Eu só achei meio suspeito, afinal você nunca me chama para almoçar.
– Estou te chamando hoje!
– Tudo bem, tudo bem. Foi falha minha. Vamos esquecer isso. Onde te encontro?
– Eu vou até você. – Rebecca disse respirando fundo – Apenas me espere no seu dormitório, ok?
– Ok. – disse Ty – Nos vemos daqui a pouco então, senhorita estressadinha.
– Eu não sou estressada! – Rebecca gritou para ele antes de desligar.
E de fato ela não era, mas mentir a deixava com os nervos a flor da pele. Precisaria controlar melhor esses ataques de estresse se quisesse fazer seu plano dar certo.
Rebecca passou rapidamente em seu dormitório, apenas para guardar seus materiais e deixar um bilhete para Cadence e se dirigiu para o alojamento da Trinity College, onde Ty a aguardava. Apenas quando parou em frente à porta do quarto de Ty foi que se lembrou que poderia encontrar Aaron no dormitório também e sentiu-se imediatamente incomodada com essa grande possibilidade.
Depois do que presenciara em seu apartamento não saberia como se portar perto de Aaron sem demonstrar que sabia o que tinha acontecido com ele. Não é que, de repente, todo o seu conceito sobre ele tivesse mudado por causa do que tinha visto no domingo, mas ela também não conseguia mais olhá-lo como antes agora que sabia que havia um pouco de sentimento em seu coração. Entretanto, não podia mais voltar atrás agora que já estava ali, então apenas respirou fundo e bateu na porta duas vezes.
– Olá, Senhora Zhirkov. – disse Ty, assim que abriu a porta.
– Isso é sério? – Rebecca perguntou, fechando a cara para ele – Até quando vai fazer a mesma piada?
– Até o dia em que eu cansar. Mas esse dia não é hoje, maninha.
Rebecca mostrou-lhe a língua e Ty abriu um sorriso para ela.
– Às vezes você é tão boba, Rebecca.
– E às vezes você é tão sem graça. – ela retrucou de mau humor.
Sem conseguir se conter, Rebecca deu uma rápida olhada para dentro do dormitório para certificar-se de que Aaron não estava ali e sua atitude não passou despercebida por Ty, que também olhou para o interior do dormitório, avaliando-o e depois se voltou para ela com uma expressão questionadora.
– Procurando alguma coisa? – perguntou.
– Não. – Rebecca abriu um grande sorriso para ele – Vamos almoçar?
Ty a olhou desconfiado por um breve instante. Conhecia muito bem a irmã para saber que havia algo errado em sua atitude, mas como não conseguiu descobrir o que era, apenas assentiu e fechou a porta de seu quarto.
– Onde você quer almoçar? – perguntou ele, passando os braços ao redor dos ombros dela e seguindo pelo corredor.
– Pode ser no The Grand Café mesmo. – disse Rebecca, optando pelo restaurante mais próximo para não perder um só segundo do seu precioso tempo de interrogatório.
– Tudo bem. Vamos lá. – disse Ty e os dois seguiram em direção ao restaurante.
O The Grand Café estava movimentado aquela tarde e Rebecca escolheu uma mesa mais ao fundo do restaurante para que eles pudessem se sentar. Não tinha a melhor vista, mas pelo menos era mais reservada que as demais e era disso que ela precisava para conversar com Ty.
Eles fizeram seus pedidos e, enquanto aguardavam, Rebecca decidiu colocar seu plano em ação.
– E então, como foi seu fim de semana? – perguntou ela com mais calma do que realmente sentia naquele momento.
Ty olhou para ela com uma expressão de tédio e deu de ombros.
– Foi normal. – disse apenas.
A verdade é que ele havia planejado passar o fim de semana com Mikhail em uma pequena pousada em Oxfordshire, mas por causa dos milhares de trabalhos que Mikhail tivera de fazer no fim de semana, o programa dos dois tinha sido cancelado e Ty teve de se contentar em apenas observá-lo resolver diversas equações matemáticas extremamente exaustivas.
– Hum... Que bom. – disse Rebecca sem realmente saber se aquela era coisa certa a dizer – Ontem eu fui visitar a Margareth no novo apartamento dela.
– Sério? Devia ter me chamado. Faz um tempo que não a vejo.
– Me esqueci completamente disso, mas prometo que da próxima vez que eu for visitá-la vou me lembrar de chamar você, ok? – Rebecca abriu um pequeno sorriso para ele.
– Ok. – Ty concordou.
Rebecca se espreguiçou um pouco em sua cadeira para aliviar o nervosismo crescente que começava a se apoderar dela e depois continuou a falar:
– O apartamento da Margareth é bem legal, sabe? Ela mora num bairro chamado Belbroughton Road e, por um instante, pensei ter visto alguém muito parecido com o Aaron por lá.
– Provavelmente era ele mesmo. – Ty confirmou fazendo uma careta de desagrado – Ele tem um apartamento por lá, mas você tem que ser muito azarada para encontrar o Aaron até fora da universidade. Isso é quase como encontrar um Serial Killer num beco escuro.
– O Aaron não é um Serial Killer. – Rebecca descartou a comparação com breve aceno de mão.
– Isso não significa que encontrá-lo seja mais agradável.
– Está me dizendo que encontrar o Aaron fora da faculdade é tão ruim quanto ser esquartejado por um serial killer em um beco escuro?
– Francamente, com o Aaron a morte deve ser bem mais lenta e dolorosa. –Ty riu.
Rebecca riu também, apenas para não deixá-lo constrangido, mas depois do que tinha visto, já não tinha tanta certeza que Aaron fosse tão ruim assim. Isso, porém, era algo que ela não iria comentar ainda.
– Você e o Aaron são colegas de quarto desde que você veio para Oxford? – ela perguntou em um tom falsamente despreocupado, assim que o garçom se aproximou de sua mesa com os pedidos.
– Infelizmente sim. São quase dois anos de tortura. – Ty respondeu, afastando para o lado o porta guardanapos que havia sobre a mesa para que o garçom pudesse depositar os pratos sobre ela.
Eles agradeceram com um sorriso silencioso e depois que o garçom se afastou Rebecca continuou com seu interrogatório.
– Nesses dois anos ele foi sempre tão ruim? – ela perguntou comendo um pouco de seu risoto.
– Sim... Não... Quero dizer... Mais ou menos. – Ty balançou a cabeça – Digamos que ele sempre foi muito... fechado, sabe? Ele nunca trocou mais de duas palavras comigo antes, mas depois de algum tempo ele acabou ficando mais rude e menos suportável e, agora, ele me odeia e eu também o odeio. Então... é. Acho que ele sempre foi ruim.
Rebecca engoliu em seco por um breve instante, tentando imaginar como seria ter um colega de quarto como Aaron. Ele nunca tinha sequer tentado ser gentil com Ty e Rebecca se perguntava se ele agia dessa forma com todo mundo ou se seu irmão – e agora ela própria – era o único alvo de sua ira.
– Isso é... terrível. – ela disse por fim – Mas você nunca se perguntou o motivo de ele ser tão ruim com você?
– Eu nunca fiz nada para ele. – Ty apressou-se em dizer – No primeiro semestre até tentei me aproximar e criar uma amizade, mas cada vez que eu tentava ele fazia mais questão de me ignorar ou de me insultar, então, eu desisti e decidi que o ódio seria recíproco.
– Mas ele sempre foi assim? Quero dizer, não é possível que ele te odeie apenas pelo fato de você existir. Isso seria loucura, não é?
Ty franziu o cenho e tomou um gole de seu guaraná.
– Está tentando insinuar que eu possa ter feito algo para irritá-lo? Porque eu já disse, Becca: eu não fiz nada. Ele simplesmente odeia todo mundo.
– Como assim ele simplesmente odeia todo mundo? – Rebecca questionou sem entender.
– Exatamente assim. – Ty suspirou – As únicas pessoas com quem o Aaron se relaciona são os dois amigos idiotas dele e a parte feminina dessa universidade, isso se você considerar como relacionamento o fato de ele transar com elas uma vez e depois dispensá-las como lixo, mas o restante das pessoas daqui ele simplesmente ignora ou insulta e ninguém entende porque ele é um babaca. Ele apenas é.
Rebecca pensou naquilo por instante e, como a futura psicóloga que seria, tentou traçar um perfil. Talvez Aaron sofresse de algum transtorno de personalidade como a sociopatia. Isso explicaria porque ele não sentia remorso por fazer mal as pessoas e, até mesmo, porque não tinha se importado em jogar Edmond da ponte e assistir enquanto o garoto se afogava. Por outro lado, todos os sentimentos que Aaron havia demonstrado após ser agredido por aquele homem, em seu apartamento, no domingo, não condiziam com a personalidade de um sociopata.
– Ele deve ter algum problema. – Rebecca concluiu – Quando as pessoas são assim elas, geralmente, tem algum segredo sombrio. Talvez o Aaron tenha um também.
Ty a encarou como se ela fosse louca.
– Que tipo de filmes você tem assistido, hein? – ele perguntou com uma pequena careta – O Aaron não é o Batman, ok?
– Eu nunca disse que ele era o Batman. – Rebecca retrucou ríspida – Só estou dizendo que deve haver um motivo para ele ser como é. Francamente Ty, ninguém pode ser tão mau assim sem ter um motivo.
Ty largou os talheres sobre seu prato e olhou para Rebecca, avaliando-a.
– Desembuche. – disse ele.
– Desembuchar o que? – Rebecca o encarou, tentando manter a expressão em seu rosto o mais inocente possível.
– Não faça essa cara para mim. – Ty fez um gesto abrangendo o rosto dela – Sei que está armando alguma coisa. Então diga logo: o que você quer com o Aaron?
Rebecca começou a tremer no mesmo instante e teve de soltar os talheres também e depositar as mãos sobre o colo, para evitar que Ty visse seu nervosismo diante da acusação.
– Eu não quero nada com o Aaron, ora essa! – ela tentou soar convincente, mas um leve tremor em sua voz a entregou e ela praguejou mentalmente por ser uma negação para mentir.
– Rebecca, assim você ofende a minha inteligência. – disse Ty – Acha que não notei que está agindo de uma forma muito estranha hoje? Primeiro me chamou para almoçar – e embora eu goste muito de você e você de mim, ambos sabemos que a gente nunca almoça juntos. E, agora, você não para de falar do Aaron e de fazer suposições sobre ele. Então, vamos fingir que você não tentou enganar seu próprio irmão e vamos para a parte onde você me conta o que está acontecendo, ok?
Rebecca respirou fundo e olhou para ele envergonhada. Nem precisava inventar outra desculpa, já estava ciente de que Ty não acreditaria.
– Desculpe. Eu não quis mentir para você. – disse ela – Apenas não posso te contar nada.
– O Aaron fez alguma coisa com você? – Ty olhou preocupado para ela – Se for isso, acho bom você me falar.
Rebecca olhou para ele, sentindo que ruborizava um pouco mais a cada segundo. Era quase possível ver o que Ty imaginava que havia acontecido entre ela e Aaron e não era nada agradável decifrar os pensamentos dele.
– Ele não fez nada comigo, está bem? – Rebecca desviou o olhar do dele para amenizar o desconforto que sentia com a ideia de que Ty pudesse pensar aquele tipo de coisa sobre ela – Eu só queria entendê-lo melhor.
– Entendê-lo melhor? – perguntou Ty como se aquela fosse a coisa mais absurda que alguém pudesse dizer – Porque quer fazer isso?
– Porque esse fim de semana eu vi... – Rebecca começou, mas se interrompeu no meio da frase. Seria bem mais fácil contar tudo para Ty. Sendo colega de quarto de Aaron ele poderia ajudá-la muito mais se soubesse do assunto que a levara até ali, mas ela não achava certo de sua parte expor os acontecimentos de domingo – Acho que o Aaron está com problemas. – disse por fim – É só isso que posso dizer, por enquanto.
– Que tipo de problema? – Ty se inclinou para ela, parecendo muito interessado no assunto – O que você viu, Becca?
– Não posso dizer. – ela suspirou – O que importa é que eu vi algo e que seria de grande ajuda se você me contasse o que sabe sobre o Aaron.
– Rebecca, por favor, me diga o que você viu. – Ty insistiu.
Sua mente trabalhava a mil por hora para processar todas as possibilidades que aquela simples informação poderia lhe proporcionar. Descobrir um segredo de Aaron era uma grande oportunidade para acabar de vez com suas chantagens. Um segredo por outro. Seria um ótimo trato!
– Eu já disse que não posso contar, Ty. Não agora, pelo menos.
– Fala sério?! – Ty jogou as mãos para o alto – Você sabe um segredo do Aaron e não vai me contar?
– Nem eu deveria saber, tá legal? Foi apenas uma infeliz coincidência eu ter visto e acho que o Aaron não precisa que ninguém mais saiba do que aconteceu.
– Rebecca... – Ty recomeçou, mas ela levantou a palma da mão para ele.
– Não insista. – pediu – Se tem algo para me contar sobre ele, diga. Se não, finalizamos essa conversa aqui.
Ty olhou para ela decepcionado, mas logo depois um brilho esperançoso cruzou seu olhar. Estava mais que na cara que Rebecca não lhe diria nada se ele continuasse insistindo, mas achou que talvez ela acabasse por revelar alguma coisa ao longo de uma conversa. Então apenas assentiu brevemente, decidido a arrancar da irmã mesmo a menor informação que ela pudesse ter.
Não gostava do fato de ter que enganar Rebecca daquela forma, mas aquela era uma exceção. Ele precisava saber o que Aaron escondia para poder jogar de igual para igual com ele.
– Tudo bem. – disse ele erguendo as mãos um pouco, fingindo concordar com os termos de Rebecca. – O que quer saber sobre o Aaron?
– Tudo o que puder me contar. – disse Rebecca, voltando a comer.
– Ok, vejamos. – Ty remexeu um pouco em seu prato – Sei que ele tem vinte e dois anos e que está cursando o quarto semestre de Direito, embora já tenha quatro anos que estude em Oxford.
– Quatro anos? – Rebecca se surpreendeu.
– O Aaron não gosta muito de estudar. Acho que já notou isso, não é?
– Sim. – Rebecca assentiu – Já notei. O que mais você sabe?
– Sei que ele tem um apartamento na Belbroughton Road e que morava com a mãe e o padrasto antes disso...
– Padrasto? – perguntou Rebecca interrompendo-o mais uma vez
Não era nada estranho que alguém tivesse um padrasto, mas ainda assim ela decidiu se focar naquela informação. Seu sexto sentido lhe dizia que aquilo era importante e ela resolveu confiar nesse pressentimento.
– Sim. Padrasto. – Ty confirmou – Mas eu nunca o vi. Só sei disso porque um dia ouvi o Aaron discutir com alguém pelo telefone e eles falaram sobre isso.
– Hum... – disse Rebecca pensativa – E sobre o pai dele? Você sabe alguma coisa?
– Não. – Ty deu de ombros – Eu não sei quase nada sobre o Aaron, na verdade. Somo eu disse antes, ele não costuma falar muito. As coisa que sei eu descobri por acaso, assim como você.
– Você já viu a mãe dele alguma vez? – Rebecca questionou.
Ty fez que não com a cabeça.
– É muito difícil você ver os pais dos alunos na universidade. A maioria nunca vem aqui.
– Sim. Eu sei, mas o Aaron não tem nenhuma foto deles ou algo assim?
– Não que eu tenha visto. – Ty respondeu e Rebecca assentiu, ainda divagando sobre aquilo.
As pessoas sempre tinham ao menos uma foto dos pais. Ela própria tinha um porta retrato com toda sua família – incluindo Margareth – sobre o criado mudo em seu dormitório e até mesmo Cadence, que vivia reclamando dos pais, tinha uma foto deles colada em seu espelho. Não era normal que Aaron não tivesse nenhuma foto e isso só a fez pensar que havia algum grande problema de família por trás de tudo. Era a única coisa que explicaria aquilo.
– O segredo tem haver com a família dele, não é? – Ty questionou com os olhos praticamente brilhando de curiosidade, tirando Rebecca de seus devaneios.
– Você se mete muito no que não é da sua conta. – ela bronqueou.
– Olha quem fala. Foi você quem inventou um almoço e me arrastou até aqui só para investigar a vida do cara. – Ty retrucou e Rebecca sentiu uma pontada de culpa.
De fato, ela estava sendo uma grande intrometida naquela história, afinal nada daquilo lhe dizia respeito. O que realmente deveria fazer era fingir que não tinha visto nada e continuar com sua vida, mas era impossível. Depois de ver Aaron chorar daquela forma, sua curiosidade falava mais alto que tudo e já não tinha como parar. Precisava descobrir mais sobre ele.
– Tá legal. Culpada! – disse ela levantando uma das mãos, assim como alguém faria em um julgamento – Mas eu tenho um bom motivo. Eu quero ajudá-lo.
– Eu também. – Ty mentiu.
– É mesmo? – Rebecca o encarou.
– Claro que é. – disse ele tentando parecer o mais verdadeiro possível – Ninguém tem mais interesse que eu em fazer o Aaron se tornar uma pessoa melhor. Acredite. Eu o aturo todos os dias, há dois anos e não é nada agradável.
– Ótimo! – Rebecca sorriu – Então temos o mesmo interesse.
– Então, você vai me contar o que viu? – ele perguntou esperançoso.
– Claro que não. Apenas quero que me ajude a descobrir um pouco mais. Vocês dividem o mesmo quarto, afinal de contas.
Ty bufou.
– Fala sério!
– É sério. – disse ela – Você tem mais chances de descobrir algo sobre ele que eu. Então, me conte o que descobrir e eu encontro um jeito de ajudar o Aaron, ok?
– Não! – disse Ty já sem paciência – Me conte o segredo dele e aí a gente conversa.
Rebecca semicerrou os olhos para ele.
– Você só quer saber para fazer fofoca, não é?
– Eu não quero fazer fofoca.
– Então porque está tão interessado em saber? – Rebecca indagou.
Ty olhou para ela sem saber o que dizer.
Seus motivos eram muito mais nobres que fazer uma simples fofoca. Ele queria se livrar das chantagens de Aaron, mas explicar isso à Rebecca implicaria em muitas outras explicações. Explicações que ele não poderia dar a ela naquele momento.
– Eu só quero ajudá-lo. Eu me preocupo com as pessoas, ok? – disse ele, fingindo se concentrar em seu almoço, mas a verdade é que já tinha perdido o apetite depois de toda aquela conversa.
– Então me ajude, Ty. – Rebecca pediu – Me diga tudo o que sabe sobre o Aaron.
– Não sei mais nada. – Ty respondeu de mau humor – Não sei mais droga nenhuma sobre o Aaron.
– Em dois anos de convivência isso é tudo o que sabe sobre ele?
– Sim, isso é tudo! – Ty jogou o garfo sobre o prato – Se não está satisfeita tente procurar no Google.
Ele se colocou de pé e chamou o garçom. Sua paciência havia acabado e estava mais que na cara que Rebecca não iria lhe contar coisa alguma, então não tinha mais nada para fazer ali.
– Aonde você vai? – Rebecca perguntou colocando-se de pé também.
– Vou voltar para a universidade e cuidar da minha vida, algo que você também deveria fazer ao invés de ficar bancando a boa samaritana com quem não merece.
O garçom trouxe a conta e Ty efetuou o pagamento e depois se retirou do restaurante, sendo prontamente seguido por Rebecca, que ainda não conseguia entender o motivo de ele ter se irritado daquela maneira.
– Qual é o seu problema? – ela perguntou assim que se afastaram do restaurante o suficiente para que ninguém pudesse vê-los discutir – Porque ficou tão bravo de repente?
Ty soltou uma gargalhada irônica.
– Eu não estou bravo. – disse ele – Estou furioso.
– Por quê? Só porque eu não quero te contar o que vi?
– Exatamente por isso!
– Eu não posso expor a vida do Aaron assim, Ty! – Rebecca exclamou nervosa.
– Você pode sim. – Ty gritou para ela – O problema é que você não quer.
– Eu não quero porque isso não é certo.
– Ah, meu Deus, Rebecca! – Ty gritou furioso – Não se trata de fazer a coisa certa e, sim, o que é necessário. O Aaron não ia pensar duas vezes antes de expor um segredo seu se soubesse de algum.
– Mas eu não sou como o Aaron. – Rebecca retrucou – Eu não quero destruí-lo, eu só quero ajudá-lo, Ty!
– Ele não merece ajuda!
– Você mesmo disse que queria ajudá-lo também.
– Só que eu menti. – Ty gritou, virando-se para encará-la – Eu quero mesmo é que o Aaron morra!
Suas palavras pegaram Rebecca de surpresa e ela estacou horrorizada com o que acabara de ouvir.
– Como pode dizer isso? Você sabe o quanto é errado desejar a morte de alguém assim?
Ty a encarou com raiva.
– Não comece com essa droga de sermão para cima de mim! – disse ele apontando o dedo para Rebecca – Quem você acha que é? A Madre Tereza?
– Ty! – Rebecca exclamou chocada com sua atitude – Porque está falando assim comigo?
– Porque você precisa parar de agir como uma idiota! – disse ele – Ainda mais com um demônio como Aaron Greed.
Rebecca o encarou com raiva por um instante, mas no segundo seguinte estava chorando, magoada com tudo o que Ty havia lhe dito.
– Então é isso que pensa de mim? – perguntou ela – Que eu sou apenas uma idiota? Quer saber, você não é tão diferente do Aaron afinal. Você também é tão falso e perverso quanto ele.
Ty soltou um suspiro pesado. Já estava arrependido de tudo que falou, mas não tinha como apagar o que tinha dito.
– Olha, Rebecca, eu não quis...
– Não precisa dizer mais nada. – Rebecca retrucou ofendida – Só espero que consiga conviver com a pessoa horrível que você se tornou desde que veio para cá.
Ela lançou um ultimo olhar enraivecido para o irmão e virou-se, correndo em direção à universidade. Ty pensou em segui-la, mas mudou de ideia rapidamente. Já tinha feito muita besteira por um dia e era melhor não dar ao seu azar a oportunidade de fazer mais alguma.
Chutou uma pequena pedra que estava em seu caminho e praguejou mentalmente. Mesmo sem estar presente, Aaron era sempre o motivo de seus problemas, mas não permitiria que ele fosse por muito mais tempo. Daria um jeito de descobrir o segredo que Rebecca sabia nem que fosse a ultima coisa que fizesse na vida e daria o troco em Aaron. Da pior forma possível.
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