Notas iniciais
Olá, Olha quem finalmente veio dar às caras por aqui depois de quanto tempo mesmo? Um mês? Mais de um mês? Peço desculpas pela demora em atualizar, mas entre sofrer de uma tendinite, atualizar minhas leituras e séries e ter um bloqueio criativo monstruoso, não consegui cumprir prazo nenhum. No entanto, espero que ainda estejam por aqui e que gostem desse novo capítulo. Boa leitura.

Conforme Rebecca havia previsto, a noite pareceu durar uma eternidade. Aaron a levou até o quarto de Christopher uma vez para que ela pudesse vê-lo e Rebecca fez o possível para reprimir as lágrimas que ameaçaram brotar em seus olhos quando viu o garoto deitado naquela cama hospitalar, parecendo tão frágil com todos aqueles aparelhos conectados ao corpo. Aliás, saber que Christopher tinha um tumor no cérebro não a ajudou muito em sua tentativa de manter a calma e parecer forte, por isso, quando deixou o quarto, Rebecca teve que pedir licença por um instante para ir ao banheiro, onde se trancou e simplesmente chorou por todos os acontecimentos.

Era estranho pensar que as coisas tinham mudado tão depressa assim. Na noite anterior, Christopher parecia bem e ela tinha vivido o momento mais incrível de sua vida ao lado de Aaron e, agora, tudo parecia um grande pesadelo. Christopher estava doente, Aaron e a mãe tinham brigado de novo e pareciam ainda mais distantes e ainda havia a presença incômoda de Joseph.

Joseph.

No instante em que se lembrou dele, Rebecca engoliu o choro e passou um pouco de água no rosto para se livrar dos resquícios das lágrimas, antes de secá-lo com uma toalha de papel e voltar para o saguão do hospital. A mãe de Aaron havia assumido o lugar deles no quarto de Christopher assim que saíram, há cerca de dez minutos, e confiar que Aaron e Joseph não iriam se matar enquanto ela chorava, trancada no banheiro, não era uma atitude muito inteligente.

Por sorte, quando Rebecca voltou para o saguão do hospital parecia que tudo estava em paz ou, pelo menos, sob controle. Aaron estava sentado num canto, encarando Joseph com um olhar assassino, mas Joseph estava muito concentrado em seu celular para notar isso.

— Tudo bem com você? – Rebecca se sentou na cadeira ao lado dele e logo se inclinou para passar os braços ao redor de seu pescoço, não apenas para poder abraçá-lo, mas também para conter qualquer impulso homicida que ele pudesse ter em relação a Joseph.

Aaron assentiu, mas seus olhos não se desgrudaram do moreno distraído do outro lado do saguão.

— Ele já deveria ter ido embora. – comentou – Minha mãe disse que ele não ficaria aqui por muito tempo.

— Talvez ele tenha decidido passar a noite no hospital, sabe? Para não ter de procurar por um hotel assim tão tarde.

— Quero que ele vá embora. A presença dele me incomoda.

Rebecca lançou um rápido olhar para Joseph, cujo rosto estava meio escondido por trás dos cabelos negros e, depois, se voltou para Aaron.

— Tente ignorá-lo. – aconselhou – Ele está na dele por enquanto, então, deixe assim. Não precisa brigar se ele não provocar você.

Aaron não respondeu então ela saiu de sua cadeira e se sentou no colo dele, segurando seu rosto entre as mãos.

— Olhe para mim. – pediu – Eu estou aqui com você, ok? Não vou deixar nada nem ninguém te atingir, Aaron. Apenas se concentre em mim, está bem?

Os olhos verdes de Aaron se fixaram nos dela e um esboço de sorriso permeou os lábios dele antes que ele a puxasse para mais perto e depositasse um breve beijo em sua boca.

— Obrigado por ficar aqui comigo, Bee.

— Eu que agradeço por me deixar conhecê-lo o suficiente para eu querer ficar. – ela retrucou e, então, se aconchegou junto ao peito dele e fechou os olhos, sentindo o cheiro natural de seu corpo.

Era engraçado pensar no quanto havia se apegado a esses detalhes em tão pouco tempo. Não apenas ao cheiro dele, como também ao ritmo de sua respiração e das batidas de seu coração. Talvez fosse por estar muito cansada ou talvez fosse apenas porque estar nos braços de Aaron a fazia se sentir em paz, mas Rebecca acabou adormecendo e, quando acordou, as luzes fluorescentes do saguão haviam sido substituídas pelos raios do sol.

Pega de surpresa, Rebecca se empertigou em sua cadeira, sentindo um músculo de seu pescoço protestar pela mudança repentina de posição e uma leve careta de dor se instalou em seu rosto.

— Você está bem? – ela sentiu os braços de Aaron se apertarem ao seu redor e, quando a névoa de confusão causada pelo sono começou a se dissipar, percebeu que ainda estava sentada no colo dele.

— Estou bem. – respondeu massageando o pescoço enquanto tentava tirar do rosto uma mecha de cabelo que havia grudado em sua bochecha. – Por quanto tempo eu dormi?

— Só por duas horas. – Aaron estendeu a mão e retirou o cabelo de seu rosto, depositando-o atrás de sua orelha já que ela parecia estar com dificuldade para fazer isso.

— Obrigada. – Rebecca sorriu para ele, mas logo fechou a boca porque percebeu que devia estar com um hálito horrível após passar a noite no hospital. Precisava urgentemente ir até o banheiro para lavar o rosto – Como está o Christopher?

— Ainda dormindo por causa do sedativo, pelo que eu soube. Eu estava esperando você acordar para poder entrar lá e dar uma olhada nele.

— Você dormiu?

Aaron sacudiu a cabeça de maneira negativa, mas Rebecca já imaginava isso. O rosto cansado dele não deixava dúvidas de que ele não havia fechado os olhos por um segundo sequer naquela noite.

— É melhor você entrar e ver como o seu irmão está. – disse saindo do colo dele – Vou dar uma passadinha no banheiro para lavar o rosto e, depois, vou ver se pego um café.

— Tudo bem. – Aaron se levantou e se espreguiçou um pouco – Pode pegar um café para mim também? De preferência puro e sem açúcar.

— Pego sim. – Rebecca beijou sua bochecha levemente e então rumou para o sanitário mais próximo.

Descobrir que estava parecendo um zumbi não a surpreendeu muito. Depois de uma noite no saguão de um hospital, tendo dormido apenas por duas horas, aconchegada no colo de Aaron, não era de se estranhar que sua aparência não estivesse em sua melhor fase naquela manhã.

Com certa dificuldade, Rebecca desembaraçou um pouco dos nós em seu cabelo com os dedos e o prendeu em um rabo de cavalo, depois lavou o rosto e enxaguou a boca três ou quatro vezes com o enxaguante bucal que carregava na bolsa, já que não tinha trago escova de dentes ou creme dental. Em algum momento teria que ir para casa tomar um banho e escovar os dentes direito, mas isso poderia esperar pelo menos até o meio dia. Ela só precisava tomar um café no momento.

Saiu do banheiro e percorreu os corredores do hospital à procura de uma máquina de café, que conseguiu encontrar com certa facilidade graças a uma jovem enfermeira que lhe indicou o caminho. Pegou algumas libras na bolsa e depositou na máquina escolhendo para si um Latte de caramelo e, para Aaron, o café puro que ele havia pedido, então, tapou os copos com suas devidas tampas de plástico, para poder carregá-los com maior segurança até o saguão, mas isso não fez qualquer diferença porque ela deixou que ambos escorregassem de suas mãos quando se virou e deu de cara com Joseph, parado atrás de si, a pouco mais de um passo de distância.

— Ah, meu Deus, Joseph. Você me assustou. – Rebecca pousou a mão sobre o peito e olhou para a poça de café que havia acabado de se formar a seus pés, perguntando-se como ia limpar toda aquela bagunça.

O relógio digital na parede atrás da máquina de café indicava que eram pouco mais de sete da manhã e o corredor, a exceção de Joseph e de si própria, estava completamente vazio, mas ela podia ouvir algumas conversas distantes que, provavelmente, pertenciam aos parentes de outros pacientes e aos enfermeiros de plantão. Infelizmente, não havia nenhum funcionário da equipe de limpeza por perto e o pacote de guardanapos que havia ao lado da máquina de café não serviria para nada além de piorar a bagunça no chão caso ela tentasse usá-lo.

— Há quanto tempo está parado aí? – ela perguntou voltando-se para Joseph, que apenas se afastou um pouco mais para trás para impedir que o café sujasse suas botas.

Rebecca não havia escutado os passos dele se aproximando e um cara do tamanho dele, usando botas como aquelas deveria fazer certo barulho ao caminhar pelo corredor vazio de um hospital.

— Isso importa? – Joseph passou os dentes levemente pelo piercing em seu lábio, olhando ao redor como se a pergunta o entediasse.

— É que eu não ouvi você chegar.

— Então, talvez você devesse prestar mais atenção. – seus olhos azuis-claros fitaram os dela, mas Rebecca não soube dizer se ele estava zombando de sua distração, a ameaçando ou simplesmente encarando-a. Joseph era uma pessoa difícil de ler.

— Acho que vou procurar alguém que possa limpar essa bagunça. – ela anunciou e se desviou dele para sair do canto do corredor onde ficava a máquina de café.

O garoto era simplesmente estranho. Eles nem tinham sido apresentados, mas Joseph sequer se importou em cumprimentá-la ou perguntar seu nome, apesar de ela saber o dele. Qualquer pessoa teria, pelo menos, lhe oferecido alguma ajuda ou feito algum comentário sobre o café, ainda que fosse para debochar do fato de ela o ter derrubado, mas Joseph não. Ele apenas a encarou por um segundo enquanto ela se afastava pelo corredor e, depois, contornou a poça de café no chão para chegar até a máquina e fazer seu próprio pedido. Ele nem ao menos lhe disse oi.

Sentindo um arrepio percorrer os pelos de sua nuca, Rebecca não perdeu tempo e saiu do corredor o mais rápido que conseguiu sem correr. Margareth uma vez lhe dissera que os cães ferozes podiam sentir o cheiro do medo e que, geralmente, atacavam se a pessoa corresse ou demonstrasse estar nervosa. Joseph não era um cão, embora certamente parecesse feroz, mas Rebecca tinha a impressão de que ele agiria da mesma forma que os cães sobre os quais Margareth lhe falara. Então, por via das dúvidas, Rebecca decidiu que o melhor a fazer seria manter a calma perto dele e não o olhar diretamente nos olhos.

Ela encontrou um dos funcionários responsável pela limpeza do hospital alguns corredores adiante, mas não teve coragem de voltar para pegar outro café, então, apenas o informou sobre a sujeira que havia feito e voltou para o mesmo banco onde estava sentada antes. Talvez, quando Joseph retornasse para sua própria cadeira ou quando ele, finalmente, fosse embora de vez, ela se sentisse mais à vontade para ir até a máquina de café e comprar tudo novamente, mas enquanto ele estivesse lá e ela corresse o risco de encontrá-lo pelos corredores, ficaria bem ali, onde se sentia segura.

Sua estratégia de enfrentamento, no entanto, se mostrou algo inútil porque, quando Joseph voltou para o saguão, em vez de se sentar em seu lugar de sempre, ele se sentou na cadeira ao seu lado e Rebecca não conseguiu evitar de se virar para encará-lo, sem saber se estava mais confusa, assustada ou incomodada com sua presença. Provavelmente as três coisas.

— Café? – Joseph estendeu um copo para ela, antes mesmo que ela pudesse dizer qualquer coisa e, rapidamente, Rebecca reconheceu o cheiro adocicado do Latte de caramelo que havia escolhido para si antes.

Ela parou, encarando o copo que Joseph estendia em sua direção e se perguntando se aquilo era algum tipo de brincadeira de mau gosto ou se ele realmente estava lhe oferecendo o café. Independentemente da resposta, ela também se perguntava se o café estaria envenenado ao algo assim. Podia até parecer bobagem pensar que Joseph tentaria assassiná-la dentro de um hospital com tantas testemunhas para denunciá-lo, mas ela esperava qualquer coisa vinda de alguém que havia sido tão cruel ao ponto de matar um ser tão inocente e indefeso quanto um cachorrinho.

— Olha, eu não vou ficar segurando esse copo a manhã inteira. Se não quiser o café, diga e eu vou jogá-lo fora.

Rebecca continuou encarando-o, sem mover um único músculo para pegar o copo.

— Está me dizendo que comprou esse café para mim?

— Pra você? Não. Claro que não. Eu o comprei para a Rainha Elizabeth. – Joseph revirou os olhos mau humorado – É claro que foi para você. Porque outro motivo eu estaria te oferecendo?

— Como é que eu vou saber?

— Tá falando sério mesmo? – Joseph a encarou e Rebecca engoliu em seco, sentindo as mãos suarem. Não parecia uma boa ideia enfrentá-lo, então, ela respirou e recomeçou com um tom de voz mais brando.

— Só o que estou dizendo é que você nem me conhece. – ajeitou-se melhor na cadeira, tentando não olhar para ele já que ele a amedrontava – Não entendo porque se deu o trabalho de me trazer um café.

— Do que você está falando? Eu te conheço, sim. Seu nome é Rebecca, você é americana, tem dezoito anos, namora o A.J., estuda em Oxford e é caloura. Alguma informação que deixei passar?

Rebecca sentiu o coração parar por um segundo e arregalou os olhos, voltando-se novamente para ele.

— Como sabe tudo isso? Você também andou investigando a minha vida?

— Também? – Joseph franziu as sobrancelhas e esboçou um sorriso – Na verdade, não. Eu sei que seu nome é Rebecca porque ouvi você e sua tutora conversando. Sei que é americana por causa do seu sotaque. Sei que tem dezoito anos porque sua tutora comentou isso com a Briana. Sei que namora o A.J. porque já vi vocês juntos. Sei que é estudante porque 90% das pessoas que moram em Oxford são estudantes e, já que você ainda não adquiriu nem um pouco do sotaque britânico, eu suponho que você seja caloura. – ele cravou os olhos nos dela e se inclinou um pouco mais para perto – Respondi às suas perguntas?

Rebecca o encarou sem conseguir pronunciar uma única palavra e Joseph recuou de volta para seu canto.

— Acredite, eu não perco o meu tempo nem investigando a vida de quem me interessa, imagina se eu iria perdê-lo investigando a sua. – ele lhe estendeu o copo de café novamente – Vai querer?

— O que você está fazendo aqui?! – a voz de Aaron se fez ouvir no saguão e Rebecca desviou seus olhos assustados de Joseph para olhar para ele, que caminhava em direção aos dois como se estivesse disposto a matar alguém.

Ter um cara com a estrutura física de Aaron Greed vindo em sua direção com tamanha fúria trovejando em seus olhos, certamente assustaria uma grande parte da comunidade masculina mundial, mas Joseph, no entanto, não pareceu afetado.

— Ah, novamente essa pergunta? – ele questionou entendiado – Achei que eu já tinha respondido ontem, A.J..

— Saia de perto da minha namorada! – Aaron ordenou e Rebecca se colocou de pé para interceptá-lo, antes que ele pudesse saltar sobre Joseph e começar uma confusão.

— Fique calmo, está bem? Ele não fez nada e já estava de saída. – ela lançou um olhar significativo para Joseph, mas foi como tentar fazer acordo com uma parede e, como já esperado das paredes, ele não se moveu um milímetro sequer. – Joseph. – ela resmungou entre dentes, ainda na esperança de que ele a ouvisse, mas Aaron a segurou pelos ombros e a colocou atrás de si.

— Dê o fora. – ele exigiu, encarando o mais alto com uma expressão que deixava claro que não estava para brincadeiras e, finalmente, Joseph se colocou de pé, mas, como Rebecca temia, não foi para obedecer à ordem.

— Ou o que, A.J.? – ele o desafiou dando um passo em sua direção.

Rebecca quase pode sentir o soco que acompanharia a resposta de Aaron, mas suspirou de alívio quando ouviu a voz de Briana ecoar atrás de si, chamando a atenção de todos por um instante crucial.

— O que está havendo aqui? – ela perguntou aproximando-se dos dois rapazes, como se já pressentisse que eles estavam a um segundo de começar uma confusão. Provavelmente, os seguranças de plantão ali também pressentiram isso, porque não chegaram a se aproximar, mas mantiveram a atenção concentrada nos dois – Eu disse que não queria brigas.

— Eu não estou brigando. – Joseph ergueu as mãos e se afastou de Aaron – Hoje estou tão pacífico quanto a Suíça.

— Vá para o inferno.

— Já estou nele.

— Ei! – Briana lançou um olhar sério aos dois – Não quero saber dessa discussão. Parem agora. E, Aaron, o Christopher acordou. – ela fez uma pausa, esperando que ele absorvesse a informação – Ele quer te ver.

Parecia que um peso havia sido retirado das costas de Aaron quando ele ouviu as palavras da mãe. Rebecca pode notar isso pela forma como sua postura passou rapidamente de agressiva a aliviada, mas o alívio foi substituído por determinação tão rapidamente quanto a mudança de postura anterior.

— Vou entrar para falar com ele. – ele anunciou – Você vem comigo. – sua mão segurou a de Rebecca, mas seus olhos encararam os de Joseph como se o desafiasse a protestar ou a fazer qualquer comentário sarcástico. Como não houve protestos, Aaron lhe deu as costas e rumou para a entrada da ala de internação, parando antes para segurar o braço da mãe – É melhor você mandar o seu garoto de volta para casa. – ele a advertiu – Se eu sair daquele quarto e o Joseph ainda estiver aqui, faço o corpo dele voltar para Londres em três malas diferentes. – então a soltou e seguiu para o quarto de Christopher.

Se sua mãe levou seu aviso a sério ou não, Rebecca não teve tempo de descobrir, mas toda a confusão foi arrancada de seus pensamentos quando Aaron fechou a porta do quarto e ela encontrou os olhos verdes de Christopher olhando para eles.

— Chris. – o sorriso que se instalou nos lábios de Rebecca foi uma mistura de alívio e contentamento e ela se aproximou da cama dele para poder acariciar suas bochechas e seu cabelo – Como você está se sentindo, garoto? Você nos deu um baita susto.

Christopher abriu um sorriso fraco.

— Eu sei. Me desculpe. – ele disse com a voz ainda um tanto embargada pela quantidade de tempo que permaneceu desacordado – Não queria assustar vocês.

— Tudo bem. Não importa. Só o que importa é que você está melhor.

— Bem melhor. – o garoto assentiu e, então, seus olhos se desviaram para Aaron que o encarava à distância. Havia amor e alegria nos olhos do mais velho, mas, sob a superfície, Rebecca também conseguia divisar coisas como tristeza, mágoa e o medo de perder o irmão – Bee, será que eu posso falar a sós com o Aaron por um instante? – ela sentiu a mão de Christopher apertar a sua.

Depois de todas as revelações da noite anterior, era óbvio que os dois precisavam de um momento para conversar e, mesmo sem querer voltar para o saguão onde Joseph, provavelmente, ainda estava, ela não pode deixar de assentir.

— Vou sair e dar um tempinho no corredor. – acariciou os cabelos negros e lisos dele novamente – Cuide-se, ok? Preciso do meu instrutor de videogames saudável.

— Pode deixar. – Christopher piscou para ela e ela se dirigiu à porta, dando um breve tapinha no ombro de Aaron para lhe dar algum apoio moral.

Assim que a porta se fechou, Christopher deu dois tapinhas em seu colchão e fez sinal para que Aaron se aproximasse.

— Venha cá, seu bobo. Não vou me quebrar se você chegar um pouco mais perto.

— Eu sei que não. – Aaron se aproximou, mas, por dentro, ainda tinha a impressão de que Christopher se quebraria se ele não fosse cuidadoso e se não ficasse atento.

— Mamãe te contou, não foi? – Aaron não respondeu nada, mas Christopher não precisou de palavras para saber que aquilo havia gerado mais discórdia entre os dois – Não fique bravo com ela. – ele pediu – Fui eu quem falou para ela não te contar. Eu não queria preocupar você.

— Bem, parece que a sua estratégia não deu muito certo afinal de contas.

— Você é tão ranzinza.

— Você devia ter me contado. Não pode ficar doente assim e esconder isso de mim, Christopher. Eu sou seu irmão. Isso não é justo.

— Você já tem muito com o que se preocupar. Não quero ser mais uma coisa nessa lista.

— Você nunca seria “uma coisa numa lista”. – Aaron também acariciou seus cabelos – Você é meu irmão. Eu tenho o direito de me preocupar com você.

— E você é o meu irmão. Tenho o direito de não querer que você se preocupe comigo.

Aaron bufou.

— Não vou discutir isso com você.

— Ótimo. Porque eu sempre ganho as discussões. – Christopher sorriu.

— Como está se sentindo?

— Sinceramente? Estou com fome. Queria pizza e refrigerante.

— Fala sério. Você só pensa em comida mesmo?

— Em noventa por cento do tempo. Nos outros dez por cento eu penso em games. Já discutimos isso antes, não é?

— Porque veio me visitar? – Aaron finalmente perguntou e Christopher pausou por um instante, pesando as palavras.

— Vim porque eu precisava te ver. – ele admitiu – Não sabia se você algum dia voltaria para casa e também não sabia se eu teria tempo suficiente para esperar por isso. Então, simplesmente, agarrei a chance quando ela apareceu.

Aaron engoliu em seco.

— Odeio quando fala assim, sabia?

— Eu sei. Também foi por isso que não te contei que estava doente quando cheguei à Oxford. Não queria que me tratasse diferente. Você fica superprotetor quando se preocupa. Eu só queria aproveitar o tempo com o meu irmão sem me sentir sob a supervisão constante de um enfermeiro. Tive supervisão suficiente nos últimos meses, Aaron.

— Não sei se foi suficiente. Você conseguiu enganar todo mundo e vir para cá sozinho.

— Não foi sozinho. Quer dizer, eu tive a ideia e viajei sozinho, mas o Joseph me ajudou com algumas coisas.

Aquilo fez Aaron parar.

— Como assim o Joseph te ajudou com algumas coisas?

Christopher fez uma pequena careta, pois já sabia que o irmão reclamaria.

— Bem, eu deveria guardar segredo sobre isso, mas foi o Joseph quem telefonou para a minha escola, fingindo ser o meu pai e disse que eu não iria mais para a viagem à França. Também foi ele quem me ajudou a comprar as passagens, porque eu sou menor de idade e não podia comprar sozinho e ele também me levou até a rodoviária.

— O Joseph?! – Aaron o encarou com um misto de desconfiança e irritação crescente – O que você tinha na cabeça para aceitar a ajuda daquele...

— Ok. Eu sei o que vai dizer. – Christopher o interrompeu – O Joseph é a reencarnação de Satã, ele matou o Screapy, não tinha como eu saber se ele me ajudaria mesmo ou se apenas me mataria e jogaria o meu corpo em uma vala qualquer e eu concordo com isso, tá? O Joseph não é uma boa pessoa e o que ele fez a você e ao Screapy foi imperdoável, mas ele está bem melhor desde que saiu da clínica.

— Clínica?

— Você não soube, não é? Depois que você foi morar com a nossa avó, a mamãe disse que não queria mais o Joseph na nossa casa. Ela disse ao meu pai que ele estava criando um... Como foi mesmo que ela o descreveu? Ah, sim, um “projeto de serial killer”. Então o meu pai despachou o Joseph para uma clínica psiquiátrica dois dias depois. Ele saiu de lá no início do ano.

Aaron tentou processar aquela informação.

— Está me dizendo que o Joseph passou os últimos seis anos em um hospício?

— Clínica psiquiátrica. – Christopher o corrigiu – O médico dele disse que não é bom para o paciente nos referirmos ao hospital nesses termos, mas, sim, ele passou os últimos seis anos lá. Agora toma alguns medicamentos e faz acompanhamento semanal com um psicólogo, mas está sob controle.

— Sob controle?

— Sim. De certa forma.

— E qual é o problema dele?

Christopher revirou os olhos para o irmão e o encarou como se a resposta fosse óbvia.

— Olhe bem para o Joseph, Aaron. Qual você acha que é o problema dele?

— Como é que eu vou saber? Há dois minutos eu nem fazia ideia de que ele tinha um problema mesmo. Sempre achei que ele fosse apenas sádico ou que estivesse possuído pelo demônio. Nunca se sabe.

Christopher revirou os olhos novamente.

— O Joseph é um psicopata. Esse é o problema dele.

Aaron arregalou os olhos.

— Ele é um psicopata? Com laudo médico e tudo mais?

— Sim.

— E a nossa mãe sabe disso?

— Claro que sabe.

Os punhos do mais velhos se fecharam.

— Ela sabe que ele é um psicopata e ainda assim ela o deixa viver sob o mesmo teto que vocês como se ele fosse um ser humano normal?!

Christopher suspirou.

— Olha, eu sei que parece assustador. Dizer que alguém é um psicopata geralmente nos remete a Jack O Estripador ou Hannibal Lecter, mas é bem mais complexo que isso. O Joseph é um ser humano normal. Não é como se ele fosse um E.T. ou tivesse sido picado por uma aranha radioativa e desenvolvido poderes que decidiu usar para o mal. Ele apenas tem um transtorno psicológico. Isso é uma doença e...

Aaron ergueu a mão para silenciá-lo.

— Eu nem sei porque nós estamos falando sobre isso. Você está doente, teve uma convulsão. Deveria estar descansando e, não, defendendo o Joseph.

— Eu estou bem melhor, Aaron. Sério. Já tive uma convulsão ou duas nos últimos meses.

— Saber disso não me deixa mais aliviado, Christopher.

— Eu sei. Só estou dizendo que isso não é nem um bicho de sete cabeças. Pessoas epiléticas têm convulsões frequentemente e podem levar uma vida quase normal. Quero dizer, eu tenho um tumor no cérebro, esse é o grande problema, não as convulsões.

— Você pode parar de falar isso?

— O que? Que tenho um tumor no cérebro? – Christopher questionou – Ei, eu sei que é ruim, tá? Mas eu também sei que não sou a primeira pessoa no mundo que passa por isso. Muita gente já enfrentou o mesmo problema que eu e ainda está por aí para contar a história. Sei que precisarei fazer uma cirurgia agora, mas confio na medicina e em seus avanços tecnológicos. Vou ficar bem, Aaron.

— Promete?

— Prometo se você prometer que vai me pagar uma pizza depois.

— Sabe que se prometer te pago até vinte pizzas.

Christopher abriu um sorriso e lhe estendeu a mão.

— Eu prometo.

— Espero que consiga comer vinte pizzas. – Aaron ignorou sua mão estendida e se inclinou para abraçá-lo, tomando cuidado para não esbarrar na fina mangueira de soro presa ao braço do irmão mais novo.

— Vai ficar tudo bem. Você vai ver. – Christopher o consolou – Vou viver o suficiente para conhecer os seus netos.

— Os meus netos?

— Sim. Os seus netos. Filhos dos seus filhos com a Bee,

— Ah, meus filhos. – Aaron riu – Okay. Você é um visionário. Agora descanse e mais tarde nós conversamos sobre esse seu dom de prever o futuro, está bem?

— Está ótimo. Mas é melhor você seguir seu próprio conselho e ir descansar também. – Christopher agitou a mão em frente ao seu rosto – Sua cara está péssima. É sério. Parece que estou conversando com um dos zumbis de The Walking Dead. A Bee vai te largar se tiver que olhar para essa sua cara feia o dia todo.

— Cala essa boca. – Aaron deu um tapinha em seu ombro e se afastou – Te vejo mais tarde.

— Eu estarei bem aqui. – Christopher apontou para a cama – Sabe onde me encontrar.

— Se cuida. – Aaron se dirigiu para a porta, mas antes que pudesse sair do quarto, Christopher o chamou de novo.

— Converse com a Bee. – ele pediu – Sobre o problema do Joseph. Ela estuda psicologia, não é? Vai saber te explicar tudo sobre ele.

Aaron assentiu, mas não chegou a prometer nada. Falar sobre Joseph como se o fato dele ter assassinado seu cachorro fosse apenas culpa de uma doença, como se ele tivesse pegado um novo tipo de resfriado cujo principal sintoma era o assassinato de bichinhos de estimação, não o agradava. Ainda assim, talvez mais tarde ele perguntasse a Rebecca sobre isso. Não estava nem um pouco disposto a perdoar Joseph ou relevar suas ações, mas conhecer o inimigo era sempre bom.

Notas finais
Então, meus amores e amoras, Christopher está no hospital, mas não está tão mal quanto Briana Hamilton (mamãe) os fez sofrer no capítulo anterior. Ele está confiante na medicina e nós também, não é? Vamos todos cruzar nossos dedinhos. E para quem se perguntou, a alguns capítulos atrás, como o Joseph pode ter coragem de matar um cachorrinho, eis a resposta: o Joseph é realmente DOIDO! Espero que tenham gostado do capítulo e, mais uma vez, me perdoem pela demora em atualizar. Aliás, me perdoem também pelo nome do capítulo kkk juro que tentei pensar em um título melhor, mas isso foi exigir demais do meu pobre cérebro hoje. Beijos e até o próximo.