Wake Me Up
22 No Território Inimigo
Notas iniciais
Rebecca bateu na porta do apartamento de Aaron algumas vezes e aguardou. Era possível ouvir a voz dele e de uma garota do outro lado da porta e, pelo tom ridiculamente meloso, Rebecca supôs que a garota fosse Makayla, que, muito provavelmente, ainda estaria por lá depois de ter passado a noite com ele.
Eles discutiram sobre alguma coisa por um momento e, então Rebecca escutou os passos pesados de Aaron atravessando o apartamento. Logo depois ele abriu a porta com um largo sorriso estampado nos lábios.
– Bom dia, Bee. Dormiu bem? – perguntou encostando-se ao batente da porta.
Toda a sua vestimenta resumia-se a uma cueca boxer preta da Calvin Klein e Rebecca quase corou de vergonha ao vê-lo naquele traje. Os únicos homens que ela já tinha visto de cueca na vida eram seus irmãos e, mesmo assim, eles ainda eram crianças naquela época, então aquela experiência não contava realmente.
– Você não podia se vestir antes de abrir a porta? – Rebecca perguntou desviando o olhar do corpo de Aaron rapidamente – E que droga é essa de Bee?
Aaron riu, mas antes que pudesse responder qualquer coisa, Makayla saiu de seu quarto, prendendo seu longo cabelo loiro em um rabo de cavalo, enquanto se dirigia até o sofá para pegar sua bolsa. O tilintar de seus saltos altos e finos no piso do apartamento de Aaron era tão alto que ele e Rebecca se voltaram para a garota, observando seus movimentos pela sala.
Ao perceber que os dois a olhavam, Makayla abriu um sorriso e seguiu em direção a Aaron, intrometendo-se entre ele e Rebecca e fazendo questão de empurrá-la um pouco para trás ao passar.
– Você vai me ligar mais tarde, não é? – ela perguntou passando a mão pelo peito nu de Aaron.
– Claro que vou. – ele respondeu calmamente.
Só de ouvir seu tom de voz, Rebecca soube que ele estava mentindo, mas pela primeira vez não conseguiu sentir pena nenhuma da garota a sua frente. Isso fez com que Rebecca se perguntasse se aquilo se devia ao fato de Makayla ser aparentemente desprezível ou se era pelo fato de ela estar se tornando uma má pessoa. Preferiu a primeira opção.
Makayla pegou um batom em sua bolsa e puxou a mão de Aaron para anotar o número de seu celular na palma da mão dele. Quando terminou, passou o batom em seus próprios lábios e depois empurrou Aaron contra a parede, beijando-o de forma intensa.
A cena daquele beijo foi ainda mais desagradável que a do beijo da noite anterior e Rebecca olhou para o chão, sentindo-se constrangida com tudo aquilo, e esperou até que Makayla finalmente se afastasse de Aaron.
– Adorei conhecer seu apartamento, Aaron. – ela disse passando os dedos delicadamente pelos lábios dele para limpar os vestígios do batom que haviam ficado ali – Espero que me convide para voltar aqui mais vezes.
– Claro. Sem dúvidas. – Aaron pegou a mão dela e depositou um beijo rápido em seus dedos antes de soltá-la.
– Então... Até mais tarde, gatinho.
– Até. – disse Aaron com um leve aceno de cabeça.
Makayla ajeitou sua bolsa embaixo do braço e virou-se para Rebecca para lançar-lhe um olhar de completo desprezo antes de ir embora e, assim que a porta do elevador se fechou levando Makayla para longe dali, Rebecca se voltou para Aaron.
– Uau! Ela é um doce. – disse em um tom repleto de sarcasmo – Eu com certeza ligaria para ela se fosse você.
Aaron riu.
– Por acaso está com ciúmes, Bee?
– Não. Estou apenas enojada. – Rebecca respondeu séria – E o que diabos é esse Bee?
– Seu novo apelido. – Aaron explicou rapidamente – Sabe, todos te chamam de Becca ou, simplesmente, de Rebecca e eu não gosto de ser igual a todo mundo. Por isso, a partir de hoje, eu vou te chamar de Bee.
Ele se afastou um pouco da porta e a manteve aberta enquanto fazia um sinal para que Rebecca entrasse, mas ela permaneceu imóvel, apenas encarando-o.
– Ora, vamos lá, Bee. Você já veio até aqui, não vai desistir de entrar agora, vai? – Aaron questionou erguendo uma das sobrancelhas para ela.
Rebecca pensou um pouco a respeito. Entrar no apartamento de Aaron com certeza não era a atitude mais sensata a se tomar – partindo do princípio de que ele era um completo cafajeste e não era nada confiável –, mas ainda assim Aaron tinha razão. Ela tinha ido até ali com um propósito, afinal, e depois de chegar tão longe não podia simplesmente dar meia volta e esquecer o assunto. Precisava terminar o que havia começado. Então reuniu toda a coragem que tinha e entrou com passos lentos, porém firmes, no apartamento de dele.
A sala estava quase exatamente igual ao que era quando Rebecca a viu do apartamento de Margareth. Um tapete branco e macio se estendia pelo chão em frente a um grande sofá e uma bela estante com TV, som e outros aparelhos eletrônicos estava encostada um pouco a direita da sala. As coisas da estante pareciam ter sido compradas recentemente e a mesinha de centro, bem como alguns vasos de flores e um abajur que ela havia visto antes, já não existiam mais porque Aaron os havia destruído durante o acesso de fúria que tinha tido naquele dia.
O restante do apartamento resumia-se a outra sala, que parecia ser uma sala de estudos, pois continha uma bela mesa de mogno e algumas estantes repletas de livros. Uma cozinha bem arrumada com eletrodomésticos de última geração todos na cor preta ou inox. Dois quartos de aparência bastante confortável com camas King Size tamanho casal. Um banheiro luxuoso com hidromassagem e uma varanda bem organizada.
Aquele com certeza era um belo apartamento e também era bem diferente do que Rebecca imaginava que fosse. Em resumo, o apartamento estava limpo e não havia nenhum pôster de mulheres seminuas colado nas paredes ou, tão pouco, garrafas de bebidas espalhadas pelos cantos. Era estúpido, mas era exatamente assim que ela via o apartamento de Aaron quando tentava imaginá-lo. Não que tivesse tentando imaginá-lo muitas vezes, é claro.
– É tão ruim quanto pensou que fosse ou eu já posso começar a me gabar? – Aaron perguntou desvendando os pensamentos que haviam por trás dos olhos analisadores de Rebecca.
– Não é de todo mau. – ela respondeu dando de ombros, recusando-se a lhe fazer um elogio.
Aaron assentiu, parecendo satisfeito com aquela simples resposta e depois foi até a estante onde pegou uma agenda e uma caneta e começou a transcrever o número que Makayla havia anotado na palma de sua mão para o papel.
– Não sei por que você está anotando o número dela se não vai ligar. – disse Rebecca, lembrando-se do quanto Cadence e, com certeza, dezenas de outras garotas esperaram por um telefonema de Aaron até se cansarem e perceberem que eu não ligaria.
– Eu sempre anoto o número das garotas com quem durmo. – Aaron respondeu – Acredito que eles talvez possam ser úteis algum dia.
– Tipo, quando?
– Ah, sei lá. Quando eu precisar fazer uma despedida de solteiro talvez? – ele deu de ombros.
– Ah, claro! – Rebecca riu – Como não pensei nisso? Você realmente parece ser o tipo de cara que pretende se casar algum dia.
– Eu nunca disse que precisaria delas para a minha despedida de solteiro. – Aaron falou calmamente – Apenas cogitei a possibilidade de precisar fazer uma despedida de solteiro para um amigo ou coisa assim. Cá entre nós, eu não gosto muito de figurinhas repetidas.
Rebecca olhou pasma para ele.
– Puxa vida! Será que você pode ser mais canalha que isso? – ela perguntou indignada – Sério. Eu não acredito que você está comparando garotas a figurinhas.
– Foi mal. Isso foi um tanto rude da minha parte, não foi? Talvez eu devesse ter as comparado com sapatos ao invés de figurinhas. – Aaron sorriu – Sei que garotas adoram sapatos.
Rebecca fechou a cara para ele e Aaron guardou a agenda de volta na estante sem se importar com o olhar agressivo com o qual ela lhe encarava.
– Parabéns! – Rebecca o aplaudiu depois de um breve momento – Com essa você acaba de ganhar o prêmio de Homem Mais Idiota do Mundo.
Aaron fez uma reverência.
– Obrigado! – disse ele – Estou realmente lisonjeado com este prêmio. Aliás, você quer me ouvir fazer um discurso? Eu sou muito bom com discursos.
Rebecca bufou.
– Você é um babaca, sabia? É impossível passar cinco minutos ao seu lado sem me irritar.
– Legal você dizer isso, mas permita-me lembrá-la de que não fui eu quem foi bater na sua porta hoje de manhã. Logo, é correto afirmar que se você está se irritando é por vontade própria. – Aaron retrucou dando uma piscadela para Rebecca.
Rebecca se calou, pois sabia que Aaron estava certo – embora odiasse ter de admitir isso. Ela é quem tinha ido procurá-lo e não o contrário. Sendo assim, não tinha direito de reclamar.
– Tudo bem. – disse rendendo-se aos fatos – Ainda assim, acho uma completa sacanagem você não ligar para essas garotas. Elas quase morrem esperando por uma ligação sua.
Aaron pensou a respeito.
– Bem, talvez eu ligue para a Makayla qualquer dia desses. – concluiu ele – Ela faz coisas incríveis com a boca.
Rebecca arregalou os olhos e estendeu a palma da mão para ele pedindo, silenciosamente, para que ele se calasse.
– Eu realmente não precisava saber disso, Aaron. – ela disse sentando-se no sofá e fazendo uma careta por causa da cena grotesca que, sem permissão, passou por sua mente – Meu Deus! Sinto até nojo do que eu poderia encontrar na sua cama nesse momento.
– Ah, não se preocupe com isso. – Aaron deu de ombros – A gente passou a noite inteira no sofá.
Rebecca se colocou de pé num salto e se afastou do sofá, olhando enojada para o móvel, enquanto esfregava o corpo com as mãos como se, daquela forma, fosse conseguir se livrar de qualquer impureza que pudesse ter adquirido ao se sentar ali.
Aaron soltou uma gargalhada e pareceu nem notar a expressão assassina que tomava conta do conta do rosto de Rebecca, enquanto ele quase rolava pelo chão de tanto rir.
– Idiota! Isso não é nada engraçado. – Rebecca reclamou, avançando para cima dele e dando-lhe alguns tapas.
– Claro que é engraçado. – ele disse ainda rindo, enquanto se desvencilhava dos tapas dela – Você precisava ter visto a sua cara.
Rebecca olhou para ele com raiva.
– Você é um grande imbecil! E, pelo amor de Deus, será que você pode ir se vestir?! Te ver assim está me incomodando.
Aaron revirou os olhos para ela, mas decidiu atender ao seu pedido.
– Você é uma chata, sabia? Mal chega ao meu apartamento e já quer controlar até a forma como me visto. Assim não dá, Bee. Realmente vamos ter que discutir a nossa relação. – ele brincou enquanto se dirigia para o quarto.
Assim que ele sumiu de vista, Rebecca olhou receosa para sofá, pensando se deveria voltar a se sentar ali ou não, mas, por fim, decidiu que não gostaria de arriscar e se sentou no chão mesmo, esperando impacientemente enquanto Aaron se vestia.
O progresso dele no quesito vestimenta, no entanto, não foi muito grande, tendo em vista que ele vestiu apenas uma bermuda, mas para Rebecca, ter de vê-lo apenas sem a blusa já era bem melhor que vê-lo só de cueca, embora ela não pudesse negar que Aaron usando apenas uma cueca boxer proporcionava uma visão bastante agradável aos olhos.
– Espero que esteja satisfeita. – disse ele, abrindo os braços e depois se deixando cair no sofá, sem qualquer cerimônia – Não vou vestir nada além disso.
– Se é assim que você prefere, então, tudo bem. – Rebecca respondeu de mau humor.
– Ótimo. Então, agora podemos pular para a parte onde você me explica a que devo a honra de sua ilustre presença aqui hoje?
A raiva brotou no corpo de Rebecca quase que imediatamente quando ela se lembrou do motivo que a havia levado até ali, mas ela se obrigou a reprimir aquele acesso de fúria iminente, porque não achava que Aaron poderia lhe dar as respostas que ela desejava se estivesse se afogando no próprio sangue.
– Eu vim porque preciso te fazer algumas perguntas e, se possível, quero que as responda com sinceridade. – Rebecca disse decidida.
– Tudo bem. – Aaron assentiu – Mas antes me diga uma coisa: como foi que você descobriu o meu endereço, hein? – ele ergueu uma das sobrancelhas levemente para ela.
Antes que pudesse falar alguma besteira, Rebecca parou e pensou bem no que responder. Tinha certeza que se contasse para Aaron que o tinha visto através da janela do apartamento de Margareth, que ficava no prédio vizinho, isso lhe daria muitas informações que ele poderia usar para perturbá-la ainda mais. Então, depois de pensar um pouco, ela optou pela resposta que achou que seria mais viável naquele caso:
– Pedi o seu endereço para a Cadence. – respondeu por fim.
Aaron a encarou por um instante enquanto ponderava sobre a veracidade daquela resposta, levando em conta o tempo absurdo que Rebecca tinha demorado para responder. No fim das contas, sem conseguir encontrar algo que pudesse questionar, ele decidiu aceitar que ela estava falando a verdade e se ajeitou um pouco mais confortavelmente no sofá.
– Ok. – disse tranquilamente – Pode fazer as suas perguntas, então.
Rebecca pausou por um instante apesar de já saber exatamente quais perguntas iria fazer. Ela queria escolher melhor as palavras para que Aaron não tivesse a chance de se safar de uma resposta, apoiando-se em algo que ela poderia ter formulado errado.
Aaron era esperto e sabia mentir como ninguém e Rebecca não queria correr o risco de ter ido até seu apartamento apenas para ouvir mais mentiras e sair de lá, feito uma boba, acreditando que já sabia tudo a respeito dele. Isso transformaria todo o seu esforço em uma grande piada.
– Pois bem. – ela disse depois de um breve momento – Primeiro eu quero saber se aquele seu pedido estranho de aulas de reforço era verdade ou não.
– Sério? Essa é a sua primeira pergunta? – Aaron disse em um tom de deboche.
– É. – Rebecca disse firme – Agora, responda.
Aaron suspirou.
– Sim. – ele respondeu entediado – O pedido é verdadeiro. Eu te disse isso ontem mil vezes, Bee.
– E eu não acreditei em nenhuma delas. – Rebecca retrucou.
Aaron a encarou com impaciência.
– Ótimo. Então me diz: qual é o sentido de você vir até aqui me fazer perguntas se não vai acreditar em nenhuma das minhas respostas?
Rebecca pensou naquilo por um momento e, de fato, não havia sentido algum. Ela apenas não conseguia calar aquela voz que gritava em seu interior, alertando-a de que tudo o que Aaron dizia não passava de uma grande mentira. Ainda assim, se ela fosse deixar as coisas irem por esse caminho, sairia dali sem nenhuma resposta ainda que tivesse conseguido todas elas e aquilo seria uma perda de tempo. Então, ela resolveu dar-lhe um pequeno voto de confiança.
– Ok. Digamos que eu acredite em você. Então, porque você acha que eu seria a pessoa mais indicada para te dar aulas de reforço? – ela perguntou dando continuidade ao assunto.
– Eu também já te disse isso ontem.
– Ah! Tá bom! – ela jogou as mãos para alto – Você acha que eu poderia te ensinar alguns métodos de estudo e acha que nós poderíamos aprender muito um com o outro, mas qualquer pessoa nessa universidade poderia fazer isso por você, então, a pergunta que eu faço é: porque eu? – Rebecca insistiu.
Aaron pensou por um momento.
– Você acreditaria em mim se eu dissesse que é apenas porque tenho um grande interesse em me tornar seu amigo? – questionou.
Rebecca olhou para ele e levou alguns segundos até que suas palavras de adquirissem algum sentido aos ouvidos dela, mas quando isso finalmente aconteceu, ela começou a rir.
– Fala sério! Aaron Greed quer ser meu amigo? Foi isso mesmo o que eu ouvi?
– Acho que isso significa que você não acreditaria, mas, sinceramente, eu não estou entendendo o motivo de tanto riso.
– Não é óbvio? – Rebecca perguntou, sem fôlego – O fato de você querer ser meu amigo é uma total e completa loucura.
– Não é não. – Aaron franziu a testa – Você é uma garota linda, inteligente e divertida. Eu seria verdadeiramente um idiota se não quisesse me aproximar de você, mas... é. Você meio que tem razão. Eu não quero ser seu amigo. Quero fazer você esquecer o seu namorado.
O riso de Rebecca passou de divertido a nervoso depois disso e, mesmo tentando com todas as forças, ela não conseguia parar de rir daquela forma. As palavras de Aaron ficavam se repetindo em sua cabeça: “Você meio que tem razão. Eu não quero ser seu amigo. Quero fazer você esquecer o seu namorado.”. E, cada vez que ela pensava sobre isso, mais achava que tinha sido uma péssima ideia ir até seu apartamento naquela manhã.
– Tudo bem. – respondeu colocando-se de pé num salto – Obrigada pelas respostas e é melhor eu ir embora agora. Não quero mais tomar o seu tempo.
Ela se caminhou para a porta, mas Aaron se levantou do sofá e agarrou seu pulso, detendo-a rapidamente.
– Você disse que queria que eu fosse sincero. – disse ele – Eu fui e, agora, você está fugindo. Não acha que é muita covardia?
– Depois do que você me disse? – Rebecca o encarou nervosa – Acho que é mais autoproteção do que covardia.
– Sério? – Aaron fechou a cara para ela – Acha que eu vou fazer o que? Te agarrar contra a sua vontade? Te manter aqui, em cárcere privado? Eu nunca transei com uma garota que não quisesse estar comigo e você não vai ser a primeira, Rebecca. Então pare de agir como se eu fosse algum tipo de estuprador e me dê algum crédito, ok?
– Eu não quis dizer que você era um estuprador. – Rebecca se defendeu – Eu só...
– Senta e conversa um pouco mais comigo. – Aaron a interrompeu – Você disse que tinha perguntas e eu acho que ainda não fez todas elas.
E era verdade.
Rebecca tinha pelo menos mais uma dúzia de perguntas que gostaria de fazer e alguns sermões que gostaria de lhe dar por ele sempre se intrometer na vida dela e estragar tudo, mas agora tinha perdido toda a coragem de ficar perto dele. Não achava que Aaron fosse algum tipo de estuprador, realmente, mas também não confiava nele e, por mais que ela se sentisse uma fraca por ter ido até ali e, agora, estar fugindo daquela maneira, ainda achava que seria mais seguro assim.
– Eu preciso mesmo ir. – ela insistiu, mas ainda assim Aaron não a soltou.
– Mentirosa. – disse ele e, irritada, Rebecca pousou a mão em seu peito e o empurrou com força.
– Qual é o seu problema?! – perguntou ela – Eu disse que tenho que ir.
– É. Você disse. – Aaron finalmente a soltou e se afastou um pouco, cruzando os braços diante do peito – Se quer mesmo ir, então vá, mas saiba que não vai ter outra chance igual a essa. Hoje eu posso responder todas as suas perguntas, mas se sair por aquela porta agora, nunca mais vai ter as respostas.
– Isso é alguma espécie de ameaça? – Rebecca o encarou.
Ele deu de ombros.
– Só estou dizendo.
Dividida entre a vontade de acertá-lo com um belo soco e a vontade de bombardeá-lo com duzentas mil perguntas, apenas para provar que não tinha medo dele, Rebecca se aproximou dois passos de Aaron e o fuzilou com o olhar, mas não disse uma única palavra. E, enquanto ela decidia qual seria sua próxima ação, Aaron tomou a frente e segurou sua cintura, unindo seus lábios ao dela.
O primeiro impulso de Rebecca foi gritar e o segundo foi começar a se debater até que ele a soltasse, mas, no fim das contas, ela não conseguiu fazer nem uma coisa nem outra. Seu corpo simplesmente não a obedecia e, por algum motivo que ela não saberia explicar nem a si mesma, ao invés de exigir que Aaron a soltasse, ela se pegou retribuindo ao beijo dele.
Aaron, é claro, não viu qualquer problema nisso. Apenas apertou Rebecca um pouco mais forte entre seus braços e a imprensou contra a parede da sala, sem perder tempo.
Ele não imaginava que as coisas fossem seguir por esse rumo, quando recebeu um telefonema do recepcionista do prédio, avisando-o de que Rebecca estava lá embaixo, mas isso não importava. Ela estava ali agora e era exatamente aquilo que ele queria.
Entretanto, antes que as coisas pudessem fugir um pouco mais do controle, o celular de Rebecca começou a tocar, arrancando-a daquele momento maluco e trazendo-a de volta a realidade e, com um sobressalto, ela se soltou de Aaron e o empurrou para longe, mantendo uma mão erguida diante de si para evitar que ele voltasse a se aproximar repentinamente.
– Que diabos você...
– Ah, não, não e não! Sem essa de você. – Aaron a interrompeu – Você me beijou de volta. Você também queria, então, não vá colocar a culpa toda em cima de mim agora. Você queria esse beijo tanto quanto eu.
– Eu não... – o celular continuava tocando incessantemente dentro da bolsa de Rebecca e com um grunhido de irritação ela enfiou a mão dentro dela para pegá-lo – Quer saber, só... Cala a boca, tá legal? Não diga mais nem uma palavra. – ela sentenciou e então se desviou dele e marchou, furiosa, até a varanda para atender ao telefonema.
Seu coração martelava dentro do peito e seus pulmões praticamente imploravam por ar, enquanto ela respirava fundo e tentava recuperar o fôlego que o beijo de Aaron havia lhe roubado.
Não conseguia entender o que havia acontecido. Em um segundo estava olhando para ele e querendo matá-lo e, no próximo, já estava se derretendo completamente em seus braços. Aquilo era uma completa loucura, para não dizer assustador e vergonhoso.
Atendeu a ligação sem ao menos parar para verificar quem telefonava, mas quando ouviu a voz de Margareth só o que conseguiu foi se sentir ainda mais nervosa.
– Oi. Já conseguiu pegar um táxi? – Margareth perguntou e, mentalmente, Rebecca resmungou um pouco mais, porque parecia que tudo a sua volta estava desmoronando.
– Um táxi? Já. – ela mentiu, tentando usar o tom mais calmo que possuía – Já estou quase chegando à universidade, aliás.
– Graças a Deus. – Margareth suspirou de alívio – É que você não ligou e eu fiquei preocupada.
– Você pediu para eu ligar quando chegasse à universidade. Eu ainda não cheguei lá, Margareth.
– Eu sei. Mas você sabe como eu me preocupo com você, não é? – Margareth se explicou – Não consegui esperar.
– Tudo bem. Eu entendo. – Rebecca suspirou – Mas eu estou bem, tá? Pode ficar tranquila.
– Vou tentar. – Margareth riu.
– Bem, então, a gente se fala depois, ok? Eu te ligo quando eu terminar de fazer o meu trabalho.
– Tudo bem. Boa sorte com ele.
– Obrigada. – Rebecca agradeceu, sentindo a culpa atingi-la novamente por mentir daquela forma para Margareth – Tchau, Maggie.
– Tchau. – Margareth respondeu do outro lado da linha e Rebecca desligou.
Quando se virou para voltar para dentro do apartamento, ela deu de cara com Aaron parado logo atrás de si e quase deixou o celular cair por causa do susto.
– Quer dizer você está na universidade agora e que está fazendo um trabalho? – ele perguntou com um sorriso torto – Hum... Isso é realmente interessante.
– Sabia que é falta de educação ouvir a conversa dos outros? – Rebecca resmungou enquanto guardava o celular de volta na bolsa.
– Acho que mentir também não é uma atitude muito louvável, mas, ainda assim, você tem feito isso com certa frequência ultimamente. – ele retrucou – Não vamos entrar naquela onda do sujo falando do mal lavado, tá?
Rebecca olhou feio para ele e Aaron abriu um sorrisinho presunçoso para ela.
– O que foi? – perguntou calmamente – A verdade dói?
Rebecca cerrou os punhos para ele, sentindo a raiva se espalhar em seu corpo. Ela sabia que Aaron tinha razão, afinal nos últimos dias ela vinha mentindo para todo mundo, mas o fato de ele a estar encarando com aquele sorriso presunçoso nos lábios, a irritava.
E aquilo a irritava mais do que qualquer coisa porque, dentre todas as pessoas no mundo, Aaron era o único que ela achava que não tinha direito nenhum de julgá-la. Ele era tão mentiroso quanto ela ou qualquer outra pessoa da face terra e, ainda assim, a estava encarando como se, de alguma forma, fosse superior a ela.
Então, antes que pudesse pensar direito em suas atitudes, Rebecca empurrou Aaron com força contra a parede e apontou o dedo para ele.
– Quer saber de uma verdade que realmente dói? – ela disse, encarando-o completamente furiosa – Você não passa de um idiota tentando chamar atenção. Você age como um babaca na esperança de que as pessoas olhem para você e te achem super legal, mas deixe eu te contar uma coisa: você não é legal, Aaron! Você é apenas um veterano fracassado e carente de atenção que vive à custa dos pais e se acha o máximo porque é popular agora, mas daqui a alguns anos, todo mundo vai se formar e construir um futuro e você vai continuar na faculdade, vivendo uma vida de merda e sendo o bobo da corte de outros calouros estúpidos, até que vai chegar um dia em que você vai olhar para trás e perceber que você não é, não foi e nunca será nada! Então vá em frente. Tente me atingir com o fato de que eu tenho mentido para as pessoas, mas esteja bastante ciente de que isso não vai mudar o fato de que você é um completo fracassado!
Ao ver a expressão triste que tomou conta do rosto de Aaron, Rebecca se arrependeu imediatamente de ter lhe dito todas aquelas coisas. Ele podia ser um babaca, mas ainda era uma pessoa e tinha sentimentos e ela sentia que tinha acabado de ferir todos eles naquele momento.
Ela quis pedir desculpa por todas as suas palavras quase no mesmo instante em que acabou de falar, mas antes pudesse dizer qualquer coisa, Aaron se desviou dela e foi até a porta, abrindo-a em seguida.
– É melhor você ir embora. – ele disse calmamente – Pelo que entendi você tem um trabalho enorme para fazer, então é melhor não perder o seu precioso tempo com um fracassado como eu.
– Aaron... – Rebecca começou a se desculpar, mas ele acenou pedindo que ela se calasse.
– Não precisa dizer nada não. Eu já entendi. – disse em um tom frio – E, só para você saber, eu não sou de vidro, Rebecca. Não vou quebrar.
Rebecca olhou para ele por um momento e sentiu o coração afundar dentro do peito. Era primeira vez que ele a chamava pelo nome ao invés do apelido que tinha inventado e isso significava que ele devia estar magoado.
Já estava se preparando para começar a pedir desculpas mais uma vez quando seu celular tocou e o nome de Vlad apareceu estampado na tela, deixando-a na dúvida entre atender ou tentar consertar a burrada que havia feito com Aaron.
– Atenda. – Aaron decidiu por ela – Você já estava de saída mesmo. – ele voltou a indicar a porta e, sem saber mais o que fazer, Rebecca seguiu até lá.
Assim que estava fora do apartamento, ela se virou para dizer adeus, mas antes que conseguisse pronunciar qualquer palavra, Aaron bateu a porta em sua cara e a trancou.
Rebecca ainda permaneceu encarando a porta fechada por um instante antes de suspirar profundamente e atender a ligação de Vlad, enquanto se dirigia ao elevador. Não sabia exatamente em que momento de sua vida ela tinha se tornado alguém tão desprezível, mas não gostava nada da pessoa em que tinha se transformado.
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