Wake Me Up
56 Momentos Singelos
Notas iniciais
Dois dias após a confirmação da morte de Andrew Hamilton, a cidade ainda estava em choque. Era quase impossível ligar a TV e não se deparar com alguma notícia sobre o caso e, mesmo nas ruas, era difícil encontrar alguém que não estivesse comentando a respeito. Tanto o falecimento do reitor, em si, quanto os detalhes ultrajantes que vieram à tona junto com ele deixaram a todos escandalizados e, quando o conselho da universidade divulgou uma nota de pesar e anunciou que o velório do reitor seria realizado na Christ Church Cathedral— a maior igreja de Oxford –, foi possível notar que as pessoas se dividiram em dois grupos.
De um lado havia aqueles que ficaram indignados com a notícia, pois achavam um absurdo realizar uma cerimônia tão grandiosa para se despedir de um homem que havia se revelado não apenas um adúltero, mas, também, um pedófilo e assassino e, do outro, havia aqueles que achavam que, apesar dos erros cometidos por Andrew, em sua vida pessoal, ele havia feito um bom trabalho como reitor e, como tal, merecia uma despedida adequada do campus. Rebecca, por sua vez, ainda não sabia a qual dos dois grupos pertencia.
Para ela, todo o acontecimento era surreal demais. Era difícil absorver o fato de que, alguns meses antes, ela estava sentada no gabinete do reitor, recebendo uma bronca dele por ter brigado com Cadence no dormitório e, agora, estava se arrumando para ir ao seu velório. Aliás, não apenas isso, pois não era como se o reitor tivesse simplesmente morrido em um trágico acidente de carro que pegou a todos de surpresa. Não. Ele estava sendo acusado de assassinar um jovem pouco mais velho que ela, com quem mantinha um caso desde que o garoto era um adolescente e, não bastasse todo o horror da situação, ele ainda havia cometido suicídio depois e deixado uma carta terrível, que foi divulgada pela imprensa e que fez Rebecca ter pesadelos por duas noites seguidas. Era simplesmente demais para digerir e, todas as vezes que ela pensava a respeito, se sentia bem perto de vomitar. Ela era, simplesmente, fraca demais para esse tipo de coisa.
— Tudo bem? – Aaron ergueu seu queixo com delicadeza, fazendo-a olhar em seus olhos. Rebecca havia se oferecido para ajudá-lo com o nó da gravata, mas nem percebeu que sua mente havia viajado para longe no meio da tarefa até Aaron chamar sua atenção.
— Sim. Me desculpe. – Ela sacudiu a cabeça, tentando bloquear todos aqueles pensamentos ruins e voltou a focar sua atenção no tecido azul marinho e sedoso que tinha entre os dedos, mas precisou interromper seu trabalho, novamente, quando Aaron colocou suas mãos sobre as dela, impedindo-a de continuar.
— Sabe que não precisa ir se não quiser, certo? – Ele perguntou, buscando os olhos dela com os seus. – O conselho disse que a presença dos estudantes não é obrigatória, então, se não estiver se sentindo bem com isso, pode ficar aqui ou com a Margareth. Não tem problema não comparecer, Bee.
— Eu sei. – Rebecca suspirou, cansada. – O problema não é o velório, em si, é a situação como um todo. Eu sei que a investigação ainda não foi concluída e sei que não cabe a nós julgar ninguém, mas... eu também não sei se consigo rezar pela alma de um homem que destruiu a vida de um garoto de dezenove anos, entende? E não sei se é certo entrar numa igreja com o meu coração desse jeito, tão cheio de revolta.
Aaron apertou as mãos dela um pouco mais forte entre as suas e beijou o topo de sua cabeça.
— Eu entendo, amor. E, como disse antes, se isso faz com que se sinta mal, você não precisa se forçar a ir.
— Mas eu quero ir. – Rebecca concluiu, meio chorosa. – Não por ele, pois ele era um ser humano horrível, mas porque sua mãe e o Christopher estarão lá e eu queria vê-los.
— Então, é melhor você ficar em casa. – Joseph comentou, adentrando na sala com seu costumeiro andar silencioso. Ele havia substituído suas roupas casuais por um terno preto elegante e uma gravata de seda da mesma cor e havia penteado os longos cabelos para trás, o que deixou seus frios olhos azuis em maior evidência.
Rebecca notou que, vestido daquela maneira, Joseph se parecia muito com o pai, exceto por alguns traços que ele, provavelmente, havia herdado da mãe, como o nariz mais afilado e os lábios cheios, sobre os quais repousava um piercing de cor prata.
— Pensei ter ouvido você dizer que não iria ao velório. – Aaron retrucou ao vê-lo já arrumado e pronto para sair.
— Eu mudei de ideia. – Joseph deu de ombros, despreocupado. A verdade é que ele não tinha mesmo qualquer intenção de comparecer àquela cerimônia até receber um telefonema de Erick, no dia anterior, e perceber que seu pai havia ficado muito satisfeito com sua ausência. – E, caso você não tenham se dado conta disso ainda, para o meu pai, a última vez que eu e você nos vimos foi há sete anos, logo, eu não conheço a sua namorada e ela também não me conhece. – Joseph meneou a cabeça na direção de Rebecca. – O mesmo vale para o Christopher, já que o meu pai não faz ideia de que ele esteve em Oxford ou que vocês passaram o Natal conosco, em Londres. Então, se estão pensando em ir até aquela igreja hoje e agir como uma grande família feliz, é melhor repensarem.
Joseph terminou de abotoar seu blazer e deu uma ultima olhada em seu reflexo no espelho no corredor, parecendo satisfeito com o resultado.
— Vejo vocês em breve. – Ele se despediu e saiu do apartamento sem olhar para trás.
— Ah, meu Deus! – Rebecca se afastou de Aaron e se recostou no sofá, passando as mãos pelo cabelo de maneira nervosa. – Ele tem razão, eu quase coloquei tudo a perder. Achei que poderia chegar lá e abraçar o Christopher e a sua mãe, mas me esqueci complemente de que o seu padrasto também estaria lá hoje, observando tudo. É o velório do irmão ele, afinal. Não sei o que eu tinha na cabeça!
— Está tudo bem, Bee. Eu também não tinha pensado sobre isso.
— Acho que é melhor eu ficar em casa mesmo. – Rebecca suspirou. – Não quero correr o risco de cometer um deslize e colocar todo mundo em uma enrascada. Sou uma péssima mentirosa, Aaron, eu ficaria nervosa perto do seu padrasto.
— Você não precisa se aproximar dele, Bee. E eu também não acho que o Erick fará muita questão de se aproximar de nós. Ele me odeia, você sabe. Aposto que fará o possível para me manter bem longe da minha mãe e do Christopher.
— Mas isso é tão errado! – Rebecca protestou. – Eles são sua família, esse homem não deveria afastá-los de você.
— Eu sei, mas em breve ele terá o que merece. – Aaron concluiu. – Só precisamos jogar conforme as regras dele por mais alguns dias.
— E você tem certeza de que eu deveria comparecer ao velório hoje? Eu realmente não quero estragar as coisas, Aaron.
— Você não vai. E, mesmo que não possa falar com o Christopher, vai ser bom para ele te ver lá. Ele gosta muito de você. – Aaron acariciou a bochecha de Rebecca, fazendo um pequeno sorriso se instalar nos lábios dela.
— Também gosto muito dele.
— Então, é melhor terminamos de nos arrumar. Não queremos chegar atrasados na igreja, certo?
— Certo. – Rebecca finalizou o nó na gravata dele e saiu à procura de um sapato que combinasse com seu vestido preto.
***
A Christ Church Cathedral estava ornamentada com flores brancas e lilases e as diversas coroas fúnebres, dispostas ao longo do altar, traziam mensagens de saudade e de sinceras condolências, que fizeram Joseph revirar os olhos. Ele havia assistido a uma parte do funeral de Luke – o rapaz com quem seu tio se relacionara – e não vira nem metade de toda a pompa que Andrew Hamilton, o pedófilo e suposto assassino do garoto estava recebendo agora. O velório de Luke havia sido bem mais simples, em uma capela menor e contando apenas com a presença de familiares, amigos e de alguns repórteres com permissão para transmitirem a cerimônia, já o velório de seu tio, parecia mais um evento oficial, como a abertura das olimpíadas. Havia, literalmente, centenas de pessoas ali e dezenas de emissoras de TV cobrindo cada parte da catedral e Joseph tinha certeza que, a maior parte do público, não estava ali para prestar suas homenagens ao reitor e, sim, para ter o que comentar em sua rodinha de fofocas mais tarde. Eram todos patéticos, realmente.
— É engraçado que nunca tenhamos visto essas pessoas nos aniversários dele, não é? – Joseph comentou ao se colocar ao lado de seu pai, que estava de pé, na primeira fileira de bancos da catedral, no espaço reservado à família do reitor.
— O que faz aqui? – Erick encarou o filho, sem se preocupar em disfarçar sua insatisfação ao vê-lo.
— Achei que era óbvio. – Joseph indicou, com a cabeça, o caixão fechado sobre o altar e, depois, se voltou para o pai. – Não é por isso que está aqui?
— Eu pensei ter dito que a sua presença não era necessária, Joseph.
— E você realmente achou que eu ficaria em Boars Hill, fingindo que não existo, para que você pudesse se exibir com a sua família perfeita aqui em Oxford? – Os olhos azuis de Joseph relancearam para Christopher e Brianna, que estavam um pouco mais a frente, conversando com sua tia Greta e com alguns primos. – Sem chance, papai.
— Você não perde a oportunidade de me envergonhar, não é mesmo?
— Talvez o senhor devesse se acostumar com a minha presença. – Joseph retrucou, acenando distraidamente para Brianna quando ela o reconheceu a distância. – Se tudo der errado com o Christopher, em breve eu serei o único filho que você terá para exibir.
Erick cerrou os punhos diante daquela insinuação, mas respirou fundo e se virou para Joseph, deslizando as mãos suavemente por seus ombros até chegar à lapela de seu terno.
— Pelo menos finja estar triste. – Ele resmungou, ajeitando o terno do filho com um pouco mais de força que o necessário. – Isso é um funeral e há repórteres aqui.
— Pareço triste o suficiente? – Joseph o encarou com a mesma expressão desanimada e perdida que via em alguns rostos ali. – Posso derramar algumas lágrimas também, se quiser. Sou bom nisso.
— Porque não deixa o seu sarcasmo de lado e vai cumprimentar a sua tia Greta? E, lembre-se, Joseph, seja educado.
— Como queira, papai.
Joseph se afastou de Erick e se aproximou do altar onde uma parte de sua família estava reunida. Christopher foi o primeiro a notar sua aproximação, sorrindo para ele como já era de seu costume.
— Achei que você não viria. – O garoto tentou cumprimentá-lo com um meio abraço do qual Joseph se desviou da maneira mais graciosa possível. – Papai disse que você estava ocupado.
— Consegui arranjar tempo. – Joseph deu de ombros e, então, retirou sua atenção do irmão caçula e se concentrou em sua tia Greta, que estendia os braços para ele como se também esperasse por um abraço caloroso. Joseph simplesmente odiava essas coisas, mas para manter as aparências, se aproximou e deixou que a mulher o abraçasse.
— Oh, Joseph querido, você cresceu tanto! – Sua tia evidenciou, afastando-o de si apenas o suficiente para poder olhá-lo melhor. – Se tornou um homem tão bonito, deve ter feito muito sucesso com as garotas de Amsterdã.
— De onde? – Joseph perguntou sem ter certeza de que havia escutado direito. Ele nunca havia saído do Reino Unido, logo, não fazia ideia do porque sua aparência importaria para qualquer garota holandesa.
— Amsterdã. – Sua tia repetiu, gentilmente. – Seu pai nos contou que você passou os últimos anos estudando fora do país. Espero que tenha aproveitado muito bem sua experiência no exterior.
— Ah. – Joseph relanceou os olhos para o pai, que o observava a distância, como se quisesse se certificar de que ele não lhe causaria problemas. – De fato, foi uma experiência extraordinária. – Ele mentiu. – Sete anos muito proveitosos.
— Que ótimo, querido. E estou feliz pelo seu retorno, mas preferiria que estivéssemos nos encontrando em uma hora melhor. – Ela olhou com pesar para o caixão do marido e deu leves batidinhas nas costas das mãos de Joseph. – Seu tio teria adorado vê-lo, ele gostava muito de você.
— Ah, sim. Muito. – Joseph concordou com um leve aceno. – É realmente uma pena que eu não tenha tido a oportunidade de vê-lo ainda com vida.
***
Rebecca e Aaron chegaram alguns minutos antes do inicio da cerimônia e encontraram um lugar nos bancos mais ao fundo da igreja, na parte reservada aos estudantes e ao público em geral. De onde estavam, eles podiam ver muito pouco do que acontecia nos primeiros bancos, mas Rebecca ficou satisfeita por ter pego um vislumbre de Christopher e Brianna e por perceber que, apesar da situação, Christopher parecia bem.
O funeral do reitor transcorreu sem grandes emoções, apesar de alguns manifestantes terem sido obrigados a se retirar da Catedral por proferirem palavras nada educadas para os membros do conselho durante seus discursos. Rebecca, por sua vez, não prestou muita atenção a isso, apenas se concentrou em segurar a mão de Aaron, em busca de conforto, enquanto rezava, não por Andrew Hamilton, mas por Luke, o garoto que havia perdido sua vida de uma maneira tão brutal e, ainda por cima, tão jovem.
Rebecca se entristecia por ele. Em todas as fotos que a mídia havia divulgado, o rapaz estava sempre sorridente e, até onde ela sabia, parecia ter um grande futuro como bailarino. Ela lera, em algum lugar, que Luke era apaixonado por dança contemporânea e seu coração doía por saber que o rapaz nunca mais dançaria de novo. Rebecca podia apenas imaginar como a família dele devia se sentir naquele momento, pois, se fosse um de seus irmãos no lugar de Luke, ela certamente estaria devastada agora. Para ela, Andrew Hamilton merecia apodrecer no inferno.
Quando a solenidade finalmente terminou, os amigos e familiares do reitor foram convidados a se dirigirem ao cemitério Holywell, no extremo norte da cidade, para acompanharem o sepultamento e as demais pessoas que estiveram presentes durante o funeral foram liberadas, mas Aaron e Rebecca ainda permaneceram por mais algum tempo na igreja, esperando por uma oportunidade de falarem com Christopher sem que Erick os notasse.
Aquilo, no entanto, se mostrou uma tarefa impossível. Erick era como um morcego, pairando sobre eles sem lhes dar nenhum espaço e, quando Christopher finalmente reparou que Aaron e Rebecca estavam do outro lado da Catedral, foi preciso que Joseph praticamente o puxasse pelo braço, para impedi-lo de correr até eles. Por um instante, Christopher o encarou como se Joseph tivesse roubado seu doce favorito, mas seja lá o que o mais velho cochichou em seu ouvido depois, o fez assentir e olhar para Aaron e Rebecca como se lhes pedisse desculpas. Os dois, porém, não o culpavam. Eles sabiam que, com Erick logo ali ao lado, seria impossível interagir com Christopher sem levantar suspeitas, então, apenas sorriram para o garoto, demonstrando sem palavras que estavam felizes por vê-lo.
— Queria poder abraçá-los. – Christopher confidenciou, recebendo, de Joseph, um revirar de olhos desinteressado.
— Fale menos e se mova mais. – Joseph determinou, empurrando o garoto em direção à porta de saída da Catedral, mas ambos precisaram parar quando Cadence, vinda de sei lá onde, intrometeu-se em seu caminho.
— Sinto muito pelo seu tio, Chris. – Ela enlaçou o pescoço de Christopher em um abraço caloroso e, logo mais adiante, Erick interrompeu a conversa que estava tendo com Brianna e deu meia volta, observando toda a cena com curiosidade.
Joseph praticamente praguejou diante disso, mas agiu rápido e segurou Cadence pelo braço, empurrando-a para longe do irmão caçula sem qualquer delicadeza.
— Ai! Qual é o seu problema, hein seu idiota?! – Cadence o encarou, pronta para começar uma briga, mas se assustou quando sentiu a mão pesada de Erick pousar em seu ombro um segundo depois.
— Tudo bem por aqui?
— Tudo! – Christopher acenou energicamente com a cabeça e correu para segurar a mão do pai, quase o arrastando para longe dali devido ao seu desespero em contornar a situação. – Ela só veio me desejar os pêsames. – Ele explicou. – Deve ter percebido que sou da família, mas o Joseph não gostou muito da invasão de espaço.
— Ele fez bem. – Erick acariciou os cabelos negros de Christopher e passou um braço por seus ombros estreitos, puxando-o para mais perto. – Você é herdeiro de uma das maiores companhias do país, Christopher, algumas pessoas podem se aproximar de você com más intenções.
— Vou ficar mais atento. – Christopher prometeu e, com o canto do olho, Erick notou que Aaron os observava de longe, mas não fez questão de reconhecer a presença do enteado. Simplesmente, conduziu o filho em direção ao estacionamento, sem se preocupar com o fato de que estava deixando seu outro filho para trás.
— Que merda foi essa? – Cadence esbravejou ao ver o garoto se afastar sem sequer cumprimentá-la. – Ele acabou de fingir que não me conhece?
— Você sabe como ser inconveniente, não é? – Joseph a encarou, irritado. – É melhor você ficar fora do meu caminho!
— Do seu caminho?! – Cadence cerrou os punhos, fervendo de raiva e Joseph se aproximou mais um passo, como se a desafiasse a fazer algo a respeito.
Por sorte, Aaron e Rebecca estavam próximos o bastante para correr até os dois e impedir que uma grande confusão começasse.
— Talvez você devesse ir atrás do seu pai antes que ele vá embora daqui sem você. – Aaron o alertou, enquanto Rebecca segurava os ombros de Cadence para evitar que ela partisse para cima de Joseph e o agredisse bem ali, no meio da igreja.
— E talvez você devesse manter esse lixo afastado dos nossos negócios, antes que ela cause problemas para todos nós. – Joseph retrucou, lançando um último olhar enraivecido para Cadence, antes de seguir seu caminho para fora da Catedral.
— Lixo? – Cadence vociferou, obrigando Rebecca a segurá-la com um pouco mais de firmeza. – Quem esse idiota pensa que é para me chamar de lixo?! E qual é o problema do seu irmão? – Ela se voltou para Aaron. – Ele simplesmente me ignorou!
— É uma longa história.
— E, infelizmente, não dá para explicar agora. – Rebecca completou, ganhando um olhar nada contente da amiga.
— Sinceramente, eu cheguei à conclusão de que vocês são todos loucos.
— É mais ou menos isso mesmo. – Aaron concordou e, sem nada mais a dizer, ele e Rebecca acompanharam Cadence de volta ao seu dormitório no St. Hilda’s, enquanto ela reclamava de toda aquela situação.
***
Christopher estava exausto. Odiava funerais e, para completar, sua dor de cabeça havia retornado com força total, o que fazia qualquer ruído soar ensurdecedor. Ele só queria ir para casa descansar, mas seus pais tinham decidido retornar à Londres apenas na manhã seguinte e, naquele momento, ele se encontrava na sala de estar de sua tia Greta, cercado por parentes dos quais nem se lembrava, enquanto ouvia histórias sobre seu tio Andrew que, em sua opinião, já não condiziam com a realidade.
Era fato que, quando era mais novo, Christopher gostava muito do tio e sempre ficava animado com suas visitas – principalmente porque ele lhe dava os melhores presentes de aniversário –, mas, conforme foi crescendo e vendo a diferença com que Aaron era tratado, passou a não apreciar mais tanto assim os gestos bondosos do tio. Na época, Christopher sempre se perguntava o porquê de seu irmão não receber presentes legais como os seus ou o porquê dele nunca ser convidado para os passeios em família e, quando descobriu que tudo aquilo era apenas porque Aaron tinha outro pai, ficou confuso. Ele se lembrava de ter perguntado para Brianna, alguns dias após sua descoberta, porque seu pai não podia fingir que Aaron era seu filho também – afinal, o pai de seu irmão nunca aparecia em seus aniversários ou para levá-lo para passear –, mas sua mãe havia lhe dito que as coisas eram complicadas e que ele ainda era muito pequeno para entendê-las.
Aquilo havia acontecido há quase uma década, mas, mesmo agora, prestes a completar seus quinze anos, seus pais ainda o tratavam como uma criança boba e ainda achavam que ele não era capaz de compreender certas coisas, como o fato de que seu tio havia sido um verdadeiro canalha. Christopher sabia muito bem o que a palavra pedófilo significava e, por mais que as reportagens que leu a respeito da morte do tio não utilizassem abertamente essa expressão para descrevê-lo – provavelmente para evitar sofrerem algum processo –, ele sabia o que as entrelinhas contavam. Seu tio não havia sido o homem que aquelas pessoas pranteavam agora e, por mais que respeitasse a dor de sua tia e de seus primos, sempre que ouvia alguém elogiar Andrew Hamilton por suas realizações profissionais e familiares, tinha vontade de gritar para que todos calassem suas bocas.
A única coisa que realmente tinha valido a pena em todo aquele dia, foi ter encontrado Aaron e Rebecca na igreja, mas Christopher teria se sentido melhor se pudesse ter falado com eles e os abraçado. Também teria se sentido melhor se pudesse ter falado direito com Cadence, pois a achava muito bonita e agradável, mas ele arranjaria um jeito de se desculpar com ela depois, nem que para isso precisasse fazer outra viagem clandestina para Oxford. Detestava ser grosseiro com as pessoas.
— Você se importa de dormir no quarto do Sean essa noite, querido? – Sua tia Greta perguntou, tirando-o de seus devaneios.
Sean era o filho caçula de seus tios, mas, ainda assim, era três anos mais velho que Christopher e, agora, eles já não tinham mais tanto em comum, embora costumassem brincar juntos na infância. Seus outros primos, Franklin e Elise, nunca foram muito próximos dele, talvez porque fossem um pouco mais velhos e já não tivessem tanta paciência para lidar com crianças, então, Christopher não via problema em dividir o quarto com Sean naquela noite.
— Ótimo. – Sua tia sorriu quando ele acenou, concordando. – Seus pais ficarão no quarto de hóspedes e Elise dormirá comigo essa noite, para ceder o quarto dela para o Joseph, já que Franklin está acompanhado da esposa.
— Sem problemas. – Christopher assentiu e ficou satisfeito quando sua mãe pediu que Sean lhe emprestasse algumas roupas e o mandou para o banho. Tudo o que Christopher queria era um pouco de paz.
Seu desejo, no entanto, não pode ser realizado porque o primo se revelou o ser mais barulhento que já havia caminhado sobre a terra. Como não estava com sono, Sean havia decidido assistir a um filme ao mesmo tempo em que conversava com a namorada pelo celular e relatava, em detalhes, tudo o que havia acontecido naquele dia. Pelo que Christopher conseguiu apreender da conversa, seu primo estava em um relacionamento à distância, com alguma garota que ele havia conhecido na internet e, como era apenas uma visita ali, Christopher não se sentiu a vontade para pedir que ele falasse mais baixo ou que pelo menos desligasse a TV.
Sem muitas opções, ele saiu do quarto e ficou perambulando pelo corredor, perdido nos próprios pensamentos até se dar por vencido e ir implorar por abrigo no quarto de Joseph, mesmo sabendo que as chances de ele deixá-lo ficar eram quase nulas.
— O que você quer? – Joseph perguntou assim que abriu a porta e deu de cara com Christopher. Pelas suas contas, o moleque já deveria estar no décimo sono, a julgar pela hora em que Brianna o havia mandado para a cama, mas, em vez disso, ele estava parado diante de sua porta, descalço e usando um pijama que ficava muito grande para seu tamanho.
— Não consigo dormir. O Sean está conversando com a namorada e a luminosidade da TV do quarto dele me incomoda.
— E eu com isso? – Joseph o encarou sem qualquer interesse e Christopher estampou em seu rosto sua melhor carinha de cachorro sem lar.
— Pensei que eu poderia dormir com você essa noite.
— Sem chance.
— Por favor.
— Vá pedir abrigo aos seus pais. Eles estão bem no final do corredor.
— Não consigo dormir no quarto deles também. – Christopher praticamente choramingou. – Meu pai ronca muito alto.
— E o que te faz pensar que eu não ronco?
— Você dorme no quarto ao lado do meu há quase um ano e eu nunca ouvi você roncar.
— Isso não quer dizer nada.
— Quer, sim. Eu ouço o meu pai roncar um andar acima. – Christopher retrucou e Joseph não teve opção além de concordar. De fato, era possível ouvir o ronco de seu pai mesmo a distância, ele nem sabia como Brianna o aguentava.
— Então, vá dormir na sala. – Disse. – Eu até te empresto um cobertor, se quiser.
— Não quero dormir na sala. – Christopher lamuriou-se. – O tio Andrew morava aqui e eu tenho medo.
— Medo de que?
— De ele aparecer à noite e me assustar.
— Tá falando sério? – Joseph o encarou como se ele fosse idiota. – Você tem quatorze anos e ainda tem medo de fantasmas?
— Por favor. – Christopher voltou a implorar, mas Joseph apenas revirou os olhos e se preparou para fechar a porta em sua cara. – Te pago dez libras. – Ele ofereceu e Joseph pensou um pouco a respeito.
— Quero cinquenta.
— Cinquenta? Eu não tenho cinquenta libras aqui.
— Seu pai com certeza tem.
— Mas ele não vai me dar se eu pedir agora. – Christopher reclamou e Joseph deu de ombros.
— O problema é todo seu. – Ele começou a fechar a porta novamente, mas Christopher colocou o pé no caminho, impedindo-o de concluir a ação.
— Tenho cinquenta libras em casa. Se me deixar ficar, eu te pago assim que a gente chegar em Londres.
— É melhor não estar mentindo. – Joseph abriu a porta e fez sinal para que ele entrasse. – Você sabe que eu vou cobrar.
— Não estou mentindo. – Christopher sorriu, agradecido por poder passar a noite ali.
O quarto de Elise era bonito e aconchegante e parecia ser maior que o de Sean, apesar de toda a parafernália feminina que havia ali. Ela tinha, literalmente, uma dezena de prateleiras repletas de ursinhos de pelúcia, uma penteadeira com pelo menos uma centena de produtos de beleza e uma verdadeira coleção de porta retratos com fotos de família, de si mesma e de seus amigos. Christopher achou até engraçada a forma como a personalidade de Joseph contrastava com aquela atmosfera cheia de coisas cor de rosa e realmente riu quando o irmão mais velho atirou no chão, sem qualquer delicadeza, a colcha cheia de fru-fru que cobria a cama de Elise.
— O que é tão engraçado? – Joseph parou o que estava fazendo e olhou para ele com uma expressão questionadora.
— Nada. – Christopher engoliu o riso e passou a analisar os bibelôs do quarto enquanto Joseph terminava de arrumar a cama. – Acho que seria legal ter uma irmã, não é? – Comentou, recebendo nada além de um resmungo mal-humorado em resposta. – Mas, pelo menos, eu tenho a Rebecca. Ela é quase minha irmã mais velha, sabia?
— Ela é sua cunhada, não sua irmã.
— Mas quando as pessoas se casam, os sogros costumam dizer que ganharam uma nova filha quando falam sobre a nora, então, eu posso dizer que vou ganhar uma irmã quando o Aaron se casar com ela.
— Que seja.
— E ela pode ser sua irmã também, apesar do Aaron não ser seu irmão de verdade.
— Tanto faz.
— E, se um dia eu me casar, eu deixo você chamar a minha esposa de irmãzinha, já que ela será mais nova que você. Ou não, né? Talvez eu namore alguém mais velha, nunca se sabe.
Joseph apenas revirou os olhos, Christopher parecia uma matraca naquela noite.
— Você acha que tem alguma chance de você se casar algum dia?
— Não.
— E de namorar? Ou você já namora?
— Não. E não.
— Você não namoraria nem a sua psicóloga? – O garoto questionou, curioso. – Ela até que é bem bonita e, o mais importante, ela já entende você.
— Está tentando me irritar?
— Não. – Christopher negou com veemência. – É que a gente nunca conversa quando está em casa.
— E eu prefiro que as coisas continuem assim.
— Por quê?
— Porque você é irritante.
— Não sou, não.
— Você é, sim.
— Todo mundo diz que eu sou legal.
— Então, todo mundo está mentindo.
— Não acho. – Christopher discordou, chateado. Ele gostava que as pessoas o considerassem legal, aquela era uma das suas principais qualidades e ele tinha muito orgulho dela. – Porque você acha que eu sou irritante?
— Ah, pelo amor de Deus! – Joseph largou o cobertor que estava desdobrando e se virou para encará-lo, irritado. – Você não tem um botão de desliga, não?
Divertindo-se com seu pequeno ataque de fúria, Christopher apenas sorriu e levou o indicador até a ponta do próprio nariz, pressionando-a levemente.
— O que? – Joseph perguntou sem entender o gesto e isso fez o mais novo sorrir ainda mais.
— Esse é o meu botão de desliga. – Ele pressionou a ponta do nariz de novo. – Aqui, tenta.
— Fala sério...
— Ah, qual é, Joe. Entra na brincadeira. – Christopher segurou uma das mãos dele e a guiou até seu nariz, incentivando-o a pressioná-lo da mesma forma que ele havia feito antes.
— Quando eu penso que não tem como você ficar mais idiota, você vem e me surpreende. – Joseph puxou sua mão para longe dele, mas isso não impediu que Christopher fingisse que havia sido “desligado” e que se jogasse na cama como um peso morto. – Sai daqui, esse é o meu lado.
— Porque eu não posso dormir virado para esse lado também?
— Porque não. Agora, se manda. – Joseph ordenou e, desanimado, Christopher se deitou do lado contrário ao da cabeceira, agarrando um dos travesseiros fofos de Elise no processo.
— Você é o pior irmão da história.
— Meio-irmão. – Joseph o corrigiu, mas Christopher fingiu não escutá-lo.
Com tudo pronto para dormirem, Joseph apagou a luz e se deitou, dando um leve chute nas costelas de Christopher para que ele se afastasse de seu espaço. O garoto resmungou um pouco, reclamando sobre como Joseph seria um péssimo colega de quarto caso fosse para a faculdade algum dia, mas Joseph não deu à mínima. Simplesmente fechou os olhos e adormeceu quase no mesmo instante.
Christopher queria ter conseguido fazer o mesmo, afinal, sentia-se realmente cansado, mas todo o estresse do dia e a dor de cabeça que não se findava, o impediram de ter uma boa noite de sono. Ele passou quase uma hora se remexendo na cama antes de finalmente adormecer e, quando isso aconteceu, sua mente foi tomada por pesadelos que acabaram por fazê-lo despertar não muito tempo depois.
Sentou-se na cama e deu uma boa olhada no quarto, fracamente iluminado pelas luzes do jardim, contemplando a maneira serena como Joseph dormia e invejando-o por isso. Era como se Joseph não se preocupasse com nada e Christopher queria dormir feito uma pedra, da mesma forma que ele dormia agora, mas já fazia semanas que não dormia bem. Havia tantas coisas passando por sua cabeça, tantas preocupações e dúvidas... Às vezes ele só queria poder colocar todas elas para fora, mas era sempre muito difícil fazer isso quando sentia que a força das pessoas a sua volta dependia tanto da sua própria.
Sem saber muito bem o porquê, Christopher mudou sua posição na cama e se deitou do mesmo lado que Joseph, passando os braços ao redor do irmão – ou meio-irmão, como ele não se cansava de lembrá-lo – em um abraço apertado. Sabia que levaria uma bronca na manhã seguinte, porque Joseph simplesmente odiava esse tipo de contato, mas achava que valia a pena. Ele só queria alguém para abraçar naquela noite, para ver se, assim, conseguia dormir um pouco melhor e aquilo realmente funcionou, por uns dez minutos, até Joseph acordar e, praticamente, empurrá-lo para longe.
— Mas que merda você pensa que está fazendo?! – Ele perguntou irritadiço, embora ainda estivesse meio grogue de sono.
— Me deixa dormir desse lado. – Christopher pediu, voltando a tentar abraçá-lo e recebendo outro empurrão em resposta.
— Se encostar em mim de novo, eu vou te jogar por aquela janela.
— É só por essa noite, Joseph. Por favor.
— Eu não sou o Aaron, Christopher. Não vou bancar o seu ursinho de abraços.
— Eu sei que não. – Christopher o encarou, triste. – Você deixaria eu te abraçar se eu pagasse?
— Não.
— Por que não?
— Porque você me incomoda.
— Você realmente me odeia tanto assim?
— Eu não te odeio – Joseph ajeitou seu travesseiro e virou as costas para ele –, mas também não gosto de você.
Christopher assentiu, deprimido com a declaração do mais velho, porém não surpreso, ele sabia que Joseph não era capaz de se afeiçoar a ninguém dada a sua condição psicológica.
— Mesmo que não goste de mim, eu gosto de você. Você é meu irmão.
— Meio irmão. – Joseph voltou a corrigi-lo, mas Christopher deu de ombros.
— A nomenclatura não importa.
— Só cala a boca, tá legal?
— Posso te fazer só mais uma pergunta? – Christopher questionou. Já tinha sido chutado mesmo, um golpe a mais não faria diferença.
— Se eu disser que sim, você me deixa dormir?
— Deixo.
— Então, faça a sua pergunta. – Joseph voltou a se virar em sua direção, esperando.
— Você acha que eu vou morrer?
— Acho. – Ele respondeu sem rodeios e, mais uma vez, o menor assentiu, olhando ao redor com uma expressão tristonha. – Era isso que queria ouvir?
— Ninguém quer ouvir esse tipo coisa, Joseph.
— Então, porque você perguntou?
— Porque você é a única pessoa capaz de me responder com sinceridade. Se eu perguntasse algo assim para a minha mãe ou para o Aaron ou, até mesmo, para o meu pai, eles me diriam o que eu quero ouvir e não o que realmente pensam e, depois, começariam com um discurso de que eu devo pensar positivo e ter fé. Provavelmente, iriam chorar escondidos quando eu não estivesse por perto e isso é uma droga. – Christopher explicou. – Eu estou com medo, mas não posso falar sobre essas coisas com eles sem deixá-los arrasados. Não suporto a maneira triste como olham para mim sempre que pensam que não estou vendo.
— E você sente que pode desabafar comigo sobre isso porque eu não importo se você viver ou morrer?
— Você não se importa com nada, é por isso que sempre fala o que pensa.
— Mas e quanto a você? Você acha que vai morrer naquela cirurgia?
— Eu não quero morrer. – Christopher fechou os olhos com força, repudiando a ideia.
— Não foi isso que eu perguntei.
— Eu não sei, tá legal? – Ele passou as mãos pelo rosto, suspirando pesadamente. – É um procedimento complicado, então, talvez eu morra naquela droga de cirurgia ou talvez eu seja um maldito sortudo, mas eu não quero morrer. Não quero.
— Então, você já tem a sua resposta, pirralho. O que eu acho ou deixo de achar não interessa. Eu não sou médico, afinal de contas.
— Você está tentado me animar?
— Tenho cara de bom samaritano? – Joseph o olhou de canto. – Estou tentando te fazer calar a boca para que eu possa dormir porque toda essa falação está me incomodando.
— Tudo bem. – Christopher riu, apesar de todas as preocupações que inundavam seu interior. – Eu vou me calar agora. Eu prometi, não é?
— Ótimo. – Joseph se ajeitou melhor na cama e fechou os olhos.
— Mas você não se importa se eu continuar dormindo desse lado, certo?
— Ah, pelo amor de Deus! – Joseph o agarrou pela gola do pijama e o puxou de volta para seu peito, deixando que ele repousasse a cabeça ali. – Agora, por favor, durma antes que eu dê o meu próprio jeito de te apagar essa noite.
Christopher não conseguiu esconder o sorriso.
— Valeu.
— Cala a boca. – Joseph sentenciou e o garoto se aconchegou um pouco mais em seu peito, feliz por ter um momento de irmão com o mais velho pela primeira em sua vida.
Ele não demorou muito para dormir depois disso, mas ainda acordou algumas vezes por causa dos pesadelos. No entanto, sempre que isso acontecia, ele se aproximava um pouquinho mais de Joseph e, embora o mais velho tenha resmungado de maneira inconsciente durante o sono, não voltou a empurrá-lo para longe naquela noite.
Christopher se perguntava se Joseph poderia gostar dele como seu irmão caçula, caso não fosse por sua condição psicológica. Ele, por sua vez, tinha certeza de que os dois poderiam forma uma boa dupla ou, talvez, um bom trio se as circunstâncias em suas vidas fossem diferentes e Aaron também decidisse se juntar a eles. Na verdade, Christopher ainda sonhava com o dia em que sua família deixaria de lado todas as brigas e com o dia em que seus irmãos deixariam de odiar um ao outro, mas, mesmo que soubesse que aquilo não passava de um sonho bobo e impossível, foi esse pensamento que o embalou pelo restante da noite e o ajudou a dormir.
***
Brianna ficou confusa quando acordou na manhã seguinte e não encontrou Christopher no quarto de Sean como havia sido combinado. Ela se perguntou se o filho teria acordado antes de todo mundo, mas após procura-lo em cada cômodo possível da casa de sua cunhada, decidiu procura-lo naquele que seria o lugar mais improvável: o quarto de Joseph.
Ela sabia que o enteado não gostava de companhia e duvidava que Christopher tivesse se arriscado a despertar a ira do meio-irmão, pedindo abrigo ali, mas se surpreendeu quando abriu a porta do quarto silenciosamente e deu de cara com os dois abraçados, imersos em um sono profundo.
Aquilo era a coisa mais estranha que já tinha visto na vida e, por um instante, ela até se perguntou se devia mesmo acordá-los, pois estava encantada com o fato de Joseph – que sempre era tão frio e distante – estar abraçado a Christopher daquela maneira, mas eles precisavam voltar para Londres e Erick queria todos prontos para sair em meia hora.
Ainda um tanto embasbacada, Brianna entrou no quarto com passos leves e se aproximou da cama, sacudindo o corpo de Christopher com delicadeza. Seu filho não acordou, mas Joseph abriu os olhos e a encarou como se não soubesse porque diabos ela havia invadido seu quarto aquela hora da manhã, o que fez Brianna se afastar um passo, pois o olhar de indignação do rapaz a assustava um pouco.
— Seu pai me pediu para acordá-los. – Ela explicou, usando seu tom mais suave. Por algum motivo, sempre que se dirigia a ele, Brianna usava esse tom e falava pausadamente, quase como se não quisesse que Joseph a entendesse errado e ela se perguntava se o rapaz percebia tal coisa. – Nós vamos sair em meia hora. Você vai para casa conosco ou vai voltar para Boars Hill?
— Não vou para casa. – Joseph respondeu, firme, e Brianna assentiu.
— O que ele faz aqui? – Ela apontou para Christopher que ainda estava adormecido.
Os olhos de Joseph relancearam para o garoto apoiado sobre seu peito e ele o afastou dali, sem muito cuidado, sentando-se na cama logo em seguida, enquanto Christopher despertou sem saber o que estava acontecendo.
Joseph não se preocupou em responder a pergunta feita por Brianna, simplesmente se colocou de pé e saiu do quarto sem olhar para trás.
— Já está na hora de ir? – Christopher perguntou, esfregando os olhos para se livrar do sono.
— Já, sim. – Brianna beijou o topo de sua cabeça e acariciou sua bochecha. – Desça para tomar café, seu pai está esperando.
— E o Joseph? – Christopher olhou ao redor, dando pela falta do irmão.
— Ele não vai conosco. Vai voltar para Boars Hill.
— Por que?
— Não sei. – Brianna deu ombros. – O Joseph não costuma dar muitas explicações, amor.
Christopher assentiu. Perguntava-se se veria o meio-irmão de novo antes de sua cirurgia ou se Joseph não voltaria para casa até lá. De qualquer forma, ele estava feliz porque, mesmo que tudo desse errado em seu procedimento, pelo menos tinha passado um bom Natal ao lado de Aaron e Rebecca e uma boa noite ao lado de Joseph.
E para ele, aqueles pequenos momentos de felicidade após todos os anos terríveis pelos quais sua família havia passado, eram o suficiente.
Fale com o autor