Notas iniciais
Olá, Eu demorei uma eternidade para postar esse capítulo, mas eu estava em uma situação que, quando eu tinha tempo não tinha inspiração e quando tinha inspiração não tinha tempo. De qualquer forma, espero que gostem desse capítulo. Boa leitura.

Quando o despertador de Rebecca tocou na manhã seguinte, o apartamento de Margareth estava tomado pelo cheiro de Waffles sendo preparados, mas, apesar do cheiro doce e maravilhoso que emanava da cozinha ser contagiante, Rebecca não estava com fome. Levantou-se e deu uma olhada em seu reflexo no espelho, deixando que um resmungo baixo escapasse por seus lábios assim que viu o estado em que se encontrava. Aquilo era um pesadelo.

Apesar de Margareth ter cuidado de seus hematomas com pomadas e uma bolsa de gelo, seu rosto ainda possuía algumas manchinhas roxas espalhadas pelos lugares em que Cadence a estapeara, na noite anterior, e seu lábio inferior ainda estava um pouco inchado e dolorido, de modo que, sempre que mexia a boca, Rebecca sentia uma fisgada de dor. Daria para resolver o problema dos hematomas com maquiagem, mas aquele corte no lábio seria impossível de esconder.

Seguiu para o chuveiro e tomou um banho rápido, pois ainda tinha que ir para a universidade naquela manhã e, se demorasse muito, chegaria atrasada à primeira aula, algo que queria evitar porque, em pouco mais de dois meses, ela já tinha faltado às aulas mais vezes do que em todos os três anos que passara no colegial juntos e, ainda por cima, tinha levado uma advertência do reitor por causa da briga que tivera com Cadence no dormitório. Seus pais teriam um infarto quando vissem seu histórico e, quanto menos ela complicasse sua situação acadêmica de agora em diante, melhor.

Vestiu o uniforme, penteou os cabelos, cobriu o rosto com uma leve camada de base e conferiu o relógio, praguejando ao notar que havia demorado muito para se arrumar e que, agora, tinha apenas vinte minutos para chegar à universidade. Pegou seus materiais e praticamente correu para fora do quarto, mas antes que pudesse sair do apartamento, Margareth saiu da cozinha e a interceptou.

– Aonde a senhorita pensa que vai sem tomar o café da manhã? – ela perguntou com um tom sério que Rebecca raramente ouvia e, instantaneamente, Rebecca parou de correr e se voltou para ela – Vá para a cozinha agora. – Margareth apontou para o corredor – Você não vai sair desse apartamento sem comer.

Rebecca fez uma pequena careta, mas o movimento fez o corte em seu lábio latejar e ela descontraiu o rosto rapidamente.

– Será que dá para embalar para a viagem? – perguntou – Minha aula começa em vinte minutos e eu ainda tenho que pegar um táxi.

– Então, quanto antes você voltar para a cozinha e tomar o seu café da manhã, mais rápido poderá ir para a sua aula. – Margareth encerrou o assunto – Agora vá.

Rebecca respirou fundo e revirou os olhos, mas jogou a mochila em cima do sofá e seguiu para a cozinha, onde se sentou e serviu-se de dois waffles e uma xícara de leite, para os quais fez um amplo gesto de demonstração quando Margareth entrou na cozinha.

– Para alguém que está tão encrencada, você está muito cheia de si esta manhã. – Margareth a encarou com seriedade e a pequena centelha de rebeldia que Rebeca tinha acesa dentro de si se apagou instantaneamente.

Como havia prometido que nunca mais voltaria a mentir, Rebecca tinha contado à Margareth, na noite anterior, todos os detalhes a respeito dos últimos incidentes que ocorreram em sua vida, desde a noite que passara no apartamento de Aaron, até a briga que tivera com Cadence, mas tudo isso tinha deixado Margareth tão excessivamente apreensiva, irritada e desapontada que Rebecca se arrependeu quase imediatamente de ter prometido não mentir mais.

O sermão que Margareth lhe dera depois de ter contado à ela todos os fatos, tinha sido ainda maior que o sermão que recebera no segundo ano do colegial, quando roubou umas das garrafas de vinho da adega de seus pais para beber com as amigas de escola em uma festa do pijama que havia dado em sua casa. Naquela circunstância, Rebecca havia agido mais por influência que por vontade própria e tudo o que tinha acontecido de ruim foi um bando de adolescente ter acordado de ressaca na manhã seguinte, mas dessa vez ela tinha dormido no apartamento de um garoto – que, por sinal, estava caindo de tão bêbado –, depois tinha passado o dia inteiro sem dar notícias e, por último, tinha brigado com sua colega de quarto, levado uma surra e uma advertência e sido, praticamente, expulsa do dormitório.

Rebecca nunca tinha visto Magareth tão brava quanto naquela noite e também nunca tinha recebido um castigo tão longo quanto o que recebera, mas pelo menos Margareth não tinha telefonado para seus pais, algo que ainda poderia acontecer caso ela não se comportasse, então, bancar a rebelde – ainda que aquilo nem pudesse ser considerado realmente um ato de rebeldia – não iria ajudá-la em nada.

Continuou comendo em silêncio e o mais rápido que conseguiu sem engasgar e, quando finalmente terminou, pegou a mochila e correu para encontrar um táxi, mas não conseguiu não chegar atrasada a primeira aula. Felizmente, para ela, sua professora de Desenvolvimento Interpessoal não era uma pessoa rígida e ela não precisou dar uma voltinha na direção do curso. A visita ao reitor, na noite anterior, já tinha sido ruim o suficiente.

A aula prosseguiu tão calma quanto costumava ser e Rebecca se deixou envolver pela maneira simples como sua professora lecionava e pelas dinâmicas de grupo que ela sempre passava ao fim de cada aula e, quando o sinal finalmente tocou, anunciando o fim do primeiro período, Rebecca recolheu suas coisas e saiu da sala.

Por um instante, quase pensou em ir até o dormitório guardar sua mochila, mas rapidamente se lembrou de que Cadence também poderia estar lá, então, decidiu continuar com a mochila nas costas mesmo. Estava quase no final do estreito caminho de concreto que atravessava o gramado bem cuidado do St. Hildas, quando ouviu alguém chamar seu nome e, ao se virar, deu de cara com Aaron caminhando apressado em sua direção.

– Caramba. – ele sorriu ao se aproximar dela – Agora entendi porque você se dava tão bem na equipe de atletismo da sua antiga escola. Você é bem rápida, hein. Está indo ao seu dormitório?

Rebecca olhou para ele, que continuava a encará-la com um sorriso nos lábios, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o olhar dele recaiu para o corte em sua boca e uma expressão preocupada se apoderou de sua face.

– Me diz que você escorregou e caiu de cara no chão, antes que eu dê meia volta e arrebente o seu namorado. – ele pediu e, no mesmo instante, os olhos de Rebecca se arregalaram e ela tocou o lábio machucado.

Não havia passado por sua cabeça que, depois da briga terrível que tivera com Vlad em frente ao dormitório, muitas pessoas desinformadas poderiam estar olhando para ela agora e pensando que Vlad a agredira, mas o comentário de Aaron a fez pensar nessa possibilidade e, automaticamente, ela se sentiu envergonhada. Sua briga com Cadence tinha animado a noite de muitas garotas no St. Hildas e ela tinha certeza que, a essa altura, a fofoca já devia estar se espalhando, mas não dava para saber se algumas pessoas não estavam apenas olhando para ela agora e imaginando que ela tinha levado uma surra do namorado furioso.

– Ah, que droga. – Rebecca resmungou, olhando ao redor constrangida. Ninguém além de Aaron a estava observando, mas isso não impediu que suas bochechas corassem – Olha, isso não foi culpa do Vlad, tá? Sei que ele estava nervoso ontem, mas ele não é esse tipo de cara e ele não me agrediu. Isso foi... outra coisa.

– Você bateu a cara em um poste? – Aaron supôs e quando Rebecca olhou para ele, franzindo as sobrancelhas, ele deu de ombros e completou: – Você é meio distraída às vezes, isso não seria uma grande surpresa.

– É melhor você calar a boca enquanto pode. – ela o repreendeu de mau humor – O que está fazendo aqui?

Dessa vez foi Aaron quem franziu as sobrancelhas.

– A gente ia almoçar, lembra? Eu te liguei ontem e você disse que tudo bem.

– Ah, caramba! – Rebecca deu um tapa na própria testa e Aaron a encarou como se ela tivesse enlouquecido – Merda, merda, merda! Eu não te mandei a mensagem, não é?

– Ahn... Não. – ele balançou a cabeça tentando se lembrar – Mas eu ainda estou impressionado com a quantidade de vezes que você disse a palavra “merda” em única frase. Sério, eu acho que esse deve ser o seu recorde.

Rebecca ignorou o comentário e se concentrou apenas no fato de que ela não havia mandado uma mensagem a ele, cancelando o almoço daquela tarde. Tinha ficado realmente contente ao receber seu telefonema na noite anterior e nem tinha pensado duas vezes antes de aceitar o convite, mas depois de tudo que tinha acontecido e do sermão terrível que tinha levado de Margareth, achou que seria melhor ficar longe de Aaron por um tempo e até tinha digitado a mensagem que enviaria para ele cancelando o compromisso, mas, pelo visto, tinha adormecido antes de enviá-la e a manhã fora tão corrida que ela nem sequer tinha pensado em checar suas mensagens ou os rascunhos que fizera. Agora tinha um impasse nas mãos.

– Você está com aquela cara de quem está pensando em me dizer que já almoçou, mas eu sei que é mentira, porque eu te vi saindo do St. Hildas agora. – Aaron estreitou os olhos para ela – Você não vai me dizer que repensou o lance do almoço, vai?

Rebecca passou as mãos pelo rosto e suspirou.

– Bem, na verdade eu não ia dizer isso...

– Caralho. – Aaron a interrompeu e se afastou um passo – Eu não acredito que você vai mesmo me dar um fora. Eu nunca levei um fora. Isso seria uma merda.

Rebecca olhou para ele, indignada e revirou os olhos.

– Oh, puxa vida. Aposto que isso abalaria muito o seu emocional, não é?

– Bastante. Então, por favor, não destrua os meus sentimentos e diga que nós ainda vamos almoçar. – Aaron segurou a mão dela e abriu um sorrisinho suplicante – Vai, diz que sim. É só um almoço. Não custa nada. A gente vai em um restaurante aqui perto. Por favorzinho?

– Ah, por Deus, você é tão dramático. – Rebecca reclamou, mas não conseguiu conter o riso.

Provavelmente Margareth montaria um acampamento na porta do St. Hildas só para poder vigiá-la se soubesse que Rebecca estava prestes a concordar em almoçar com Aaron logo depois de ela tê-la advertido sobre o quão perigosa era toda essa proximidade entre os dois, mas o que os olhos não viam, o coração não tinha como sentir, não é mesmo?

– Tudo bem, tudo bem. A gente pode ir almoçar. – Rebecca concordou, olhando ao redor como qualquer pessoa que tem algo esconder faria –Mas não pode ser muito longe daqui e você tem que me trazer de volta antes de a segunda aula começar, entendeu? Nem um minuto de atraso, Aaron.

– Tudo bem. – Aaron deu de ombros – Eu posso fazer isso.

– Ótimo.

– É. Ótimo. Agora vamos almoçar. – Aaron a puxou pela mão de volta pelo caminho de concreto que atravessava o gramado e a levou ao estacionamento onde havia deixado seu carro.

Dez minutos depois eles estavam acomodados em uma mesa no Port Mahon, enquanto aguardavam seus pedidos e Rebecca tentava não olhar para os lados a cada dois minutos a procura de algum conhecido que pudesse delatá-la. Margareth não tinha dito, especificamente, que ela não deveria almoçar com Aaron, mas ela havia dito que Rebecca deveria ir direto para o apartamento depois das aulas e aquilo devia significar que ela não queria vê-la perto de Aaron de modo algum.

– Então, você caiu ou o que? – Aaron perguntou apontando para o corte em seu lábio, tirando Rebecca de seus devaneios.

Mais uma vez ela levou a mão ao lábio machucado, num gesto quase inconsciente, enquanto travava uma batalha interna perguntando-se se deveria ou não contar a verdade a ele. Por fim, decidiu que não tinha nada demais em dizer que havia se machucado ao entrar em uma briga com Cadence, mas ainda não tinha certeza se seria vergonhoso demais admitir que o motivo da briga tinha sido o próprio Aaron. Provavelmente, isso só serviria para inflar ainda mais o ego dele que já era grande o suficiente para um único garoto.

– Briguei com a Cadence. Coisa de menina. Você não entenderia. Então, não vamos mais falar sobre isso. – respondeu, optando por dizer apenas meias verdades e encerrar o assunto ali mesmo.

– Okay. – Aaron a encarou, não muito convencido, mas não insistiu – Acho que você devia treinar?

– Treinar o que?

– Defesa pessoal, sabe? Para o caso de precisar arrebentar a cara de alguém.

– Eu não quero arrebentar a cara de ninguém.

– Não é questão de querer, Bee. É questão de necessidade. – ele explicou, enquanto tomava um gole do copo de água que o garçom havia depositado sobre a mesa mais cedo – Hoje foi a Cadence quem te deu um soco ou dois, mas quem pode garantir que amanhã não vai aparecer um cara com o dobro do seu tamanho querendo te fazer mal? Defesa pessoal é algo que toda garota deveria aprender.

– Ah, que bom você dizer isso. – Rebecca respondeu sarcástica – Tudo o que eu precisava hoje era saber que eu tenho a obrigação de aprender a me defender porque as pessoas do seu sexo não conseguem resistir ao instinto primitivo de tentar me estuprar.

– Eu não disse que você tem obrigação de aprender algo. E, eu sei que é uma droga admitir que há um monte de otários por aí que acham que podem fazer mal a uma garota pelo simples fato de que são homens, mas infelizmente essa é a realidade, Bee. Seria ótimo se eu pudesse chegar aqui e dizer: “você pode ir aonde você quiser, vestindo o que quiser, a hora que quiser, que nada vai te acontecer”, mas a gente sabe que não é assim. – ele a encarou – Tem pessoas muito ruins lá fora e eu nem estou falando só sobre estupradores. Estou falando de assaltantes, assassinos, agressores, namorados abusivos ou até mesmo mulheres que podem querer te fazer mal pelo simples fato de que conseguem e você sabe que eu não estou sendo machista. Não adianta ficar jogando algo na minha cara como se a culpa do mundo ser uma merda fosse minha.

– É. Eu sei. Foi mal. – Rebecca segurou a mão dele sobre a mesa, reconhecendo seu erro. Seria realmente lindo se as pessoas pudessem fazer o que quisessem, quando quisessem e como quisessem, mas o mundo não era assim e Aaron tinha razão. Talvez ela devesse mesmo aprender a se defender, porque brigar com Cadence tinha sido fácil, mas poderia haver um momento em que ela teria problemas maiores com os quais lidar – Você me desculpa?

– Vou pensar a respeito. – Aaron respondeu brincalhão e Rebecca deu um tapinha na mão dele, soltando-a quando o garçom apareceu e depositou seus pedidos sobre a mesa.

Ainda era engraçado e, até mesmo, estranho para ela estar se dando tão bem com ele agora quando, apenas alguns dias atrás, ela mal suportava saber que respirava o mesmo oxigênio que ele, mas estava feliz por aquela convivência repentina estar se mostrando algo agradável e interessante, ao invés de uma briga sem fim, regada a ódio e desgosto.

O almoço transcorreu de maneira tranquila, sendo interrompido apenas por conversas casuais e amenas que, para a felicidade de Rebecca, não envolviam nem Vlad, nem Cadence, nem qualquer coisa relacionada à possibilidade de futuras agressões e, quando eles terminaram de comer, Aaron pagou a conta e a conduziu de volta para o St. Hildas.

– Obrigada. – Rebecca disse assim que ele estacionou o carro em frente ao prédio da faculdade – Foi uma refeição muito agradável. Talvez a gente possa repetir a dose um dia desses. Eu pago.

– Seria legal. – Aaron consentiu – E você ainda estava pensando em me dar um fora essa tarde, hein? Ainda bem que mudou de ideia, ia perder um momento maravilhoso se não tivesse ido almoçar comigo.

– Menos, Aaron, por favor. – Rebecca riu, mas no fundo ela até que concordava – Então, é isso. Tenha uma ótima tarde e a gente se fala de novo outro dia. – ela levou a mão à maçaneta da porta, mas antes que pudesse abri-la Aaron agarrou sua mão.

– Sem beijo de despedida? – ela perguntou e, instantaneamente, o interior de Rebeca se revirou com a lembrança do beijo que Aaron havia lhe dado em seu apartamento, mas ela afastou sua mão da dele e abriu a porta do carro.

– Olha, a gente não... – ela não sabia bem o que iria dizer.

A gente não está saindo junto dessa forma? A gente não vai ficar junto de forma alguma? A gente não vai ficar junto porque eu tenho um namorado – ou, pelo menos, ela esperava que ainda tivesse? Mas, no fim, nenhuma palavra foi necessária porque Aaron abriu um sorriso e ergueu as palmas da mãos para ela.

– Estou brincando. – ele disse tranquilamente – Não vai ficar com raiva por causa disso, né?

Rebecca olhou para ele e não soube dizer se ele estava realmente brincando ou se tinha dito aquilo apenas por causa de sua reação, mas não quis retrucar. Desceu do carro e antes de fechar a porta abriu um pequeno sorriso para ele.

– Não vou ficar com raiva. – assegurou – Acho que já me acostumei com suas brincadeiras inadequadas.

– Acho que é a primeira vez que alguém usa a expressão “brincadeiras inadequadas” para falar comigo. Geralmente dizem que são brincadeiras idiotas. Você é muito culta, Bee.

– Eu sou mesmo, não é? Talvez eu te ensine algumas palavras novas. – Rebecca brincou – Você bem que precisa de um repertório melhor.

Ela fechou a porta do carro e se afastou, mas não chegou a dar três passos em direção a saída do estacionamento da faculdade, quando Aaron desceu do carro e a chamou, fazendo-a parar e se virar para ele.

– Você ainda tem meia hora. – ele disse dando a volta no carro e encostando-se tranquilamente ao capô – O que acha de aprender alguns golpes de defesa pessoal ao invés de ficar vagando pelos corredores.

– Você quer me ensinar defesa pessoal? – Rebecca olhou para ele, confusa – Agora?

– Você tem algo melhor para fazer?

– Não, mas... Só falta meia hora para as aulas começarem. Eu não posso sair daqui agora.

– E quem foi que falou em sair? – Aaron fez um gesto para os jardins ao redor – Temos um campo de treinamento perfeito bem aqui.

– Você está brincando, não está? – Rebecca olhou ao redor rapidamente – Não dá para fazer isso aqui.

– Porque não? – Aaron se afastou do carro e caminhou até ela – Você tem meia hora livre antes de a sua aula começar e os jardins estão cheios de grama verde e macia que é perfeita para amortecer uma queda. O que está faltando?

– O que está faltando? Ah, qual é! – Rebecca olhou para ele sem conseguir segurar o riso nervoso que escapava por seus lábios – Eu não vou... Brincar de lutinha com você no meio do jardim da faculdade. Isso seria... ridículo, Aaron. Para dizer o mínimo.

– Seria mesmo. – ele concordou – Mas, para a sua sorte, não vamos brincar de lutinha. Vamos treinar um pouco de defesa pessoal. Então, está tudo bem. – Aaron a agarrou pela mão e a puxou em direção ao jardim – Vemm, deixa eu te ensinar a chutar alguns traseiros.

No inicio Rebecca tentou protestar enquanto ele a arrastava até o jardim, mas percebeu que quanto mais lutava para se soltar dele, enquanto ria sem entender o motivo, mais as garotas que estavam ao seu redor, aproveitando o tempo livre para tomar um pouco de sol ou para ver seus namorados antes de aula de começar, a olhavam como se ela fosse louca, então, simplesmente parou de lutar e deixou que Aaron a conduzisse até a sombra de uma das grandes árvores do jardim.

– Legal. – ele disse juntando batendo as palmas uma vez, parecendo genuinamente animado com aquilo – Tire a mochila e a deixe encostada num canto. Não vamos precisar dela.

Rebecca revirou os olhos e inspirou profundamente, mas retirou a mochila e a encostou no troco da árvore.

– Só me explique porque eu estou concordando com isso ao invés de simplesmente ter dar um chute. – pediu.

Aaron a segurou pelos ombros e a posicionou de costas para ele a uma distância de um braço.

– É bem simples. – explicou – Você esta fazendo isso porque não conseguiria me dar bom um chute sem antes aprender direito como se faz.

– Ah, maravilha. – Rebecca sorriu e esfregou as mãos uma na outra – Quer dizer que, depois de hoje, vou conseguir te chutar sempre que eu quiser?

– Ahn... É. Mais ou menos. Mas eu preferiria que você não me chutasse.

– Não posso prometer nada. – ela cantarolou numa falsa demonstração de inocência e Aaron sorriu.

– Tudo bem. – ele retirou as mãos dos ombros dela – Lição um: digamos que alguém ataque pelas costas. O que você faz?

– Chuto a pessoa. – Rebecca respondeu convicta – De preferência na canela. Já me chutaram lá uma vez e eu sei que dói para caramba.

– É. – Aaron assentiu – Provavelmente isso daria certo numa briga do pré-escolar, mas nessa situação seria impossível e, devo dizer, também seria uma reação idiota e inútil.

– Ah, é? – Rebecca colocou as mãos na cintura e virou o rosto para ele – Me diz o que eu devo fazer então, Sr. Sabe Tudo.

– Primeiro – Aaron se aproximou dela e segurou seus pulsos, envolvendo os braços ao redor de seu corpo com força e imobilizando-a –, você precisa saber como o seu oponente age e que armas você consegue usar com ele.

– Isso é meio assustador. – Rebecca comentou, enquanto tentava acalmar as batidas de seu coração que, de repente, havia se acelerado e tentava se lembrar de como é que se respirava.

– Eu sei. E, pense nisso, nós estamos em um jardim e você sabe que sou eu quem estou te segurando. Agora, imagine como seria ruim se você estivesse em um beco escuro, sendo atacada por alguém que você não conhece. – ele respondeu, mas Rebecca não conseguiu imaginar.

A respiração de Aaron fazia carícias em sua orelha cada dez que ele falava e ela podia sentir cada parte do corpo quente dele encostado às costas do seu e aquilo dificultava muito sua concentração.

– O que você faz agora? – Aaron perguntou e, mais uma vez, o calor do hálito dele percorreu o pescoço de Rebecca, impedindo-a de pensar em qualquer coisa.

Estava começando a suar frio e a sentir suas pernas fraquejando e já estava a ponto de dizer que se a situação fosse real ela provavelmente só desmaiaria nos braços da pessoa, quando Ty pareceu brotar do chão bem ao lado deles.

– Que porra está acontecendo aqui? – ele perguntou irritado e, rapidamente, Rebecca recobrou a consciência e começou a debater nos braços de Aaron, que a soltou e deixou que ela se afastasse – Que merda é essa?

– Não é o que você está pensando. – Rebecca começou a se explicar, mas Ty a calou com um olhar e se voltou para Aaron.

– Achei que eu tinha dito para você ficar longe da minha irmã.

– E eu achei que você já soubesse que eu nunca escuto o que você diz. – Aaron deu de ombros, mas Ty cerrou os punhos e deu um passo furioso em sua direção, forçando-o se afastar – É melhor ficar calmo, Andrews. Não estou a fim de te dar uma surra na frente da sua irmã.

– Ah, não? – Ty o encarou com seriedade – Então, essa é a sua tática? Você decidiu que vai bancar o bonzinho? Acha que vai conquistar a minha irmã se fazendo de bom moço, Aaron?

– Ty, fica calmo. – Rebecca interveio – Ele não estava fazendo nada demais. Só estava me ensinando defesa pessoal.

– Foi isso que ele disse? – Ty se voltou para ela – E quanto tempo você acha que demoraria para ele te encostar nessa árvore e te agarrar, Rebecca? Você não percebe que ele só está brincando com você? Ele não quer te ensinar defesa pessoal, ele só quer arranjar um jeito de transar com você.

– Você nem sabe o que está dizendo. – Aaron resmungou e Ty se voltou novamente para ele.

– Então, você vai negar? – ele fuzilou Aaron com o olhar – Para quantas garotas você já ensinou defesa pessoal, hein Aaron? Aposto que, se eu perguntar por aí, vou encontrar uma dúzia de outras supostas alunas, então, vê se fica longe da minha irmã. – Ty se afastou dele e se aproximou de Rebecca, segurando-a pela mão – Vem, a gente precisa conversar.

– E se eu não quiser ir? – Rebecca soltou-se da mão dele e se afastou um passo – Eu odeio quando você me arrasta dessa forma, Ty. Você não é o meu dono.

– É. Eu não sou o seu dono, mas porque você não pode simplesmente me ouvir, Rebecca? Eu disse para você ficar longe desse cara e olha a merda que você está fazendo.

– Você não manda em mim e acho que eu posso muito bem me cuidar sozinha.

– Pode? – Ty a encarou – Você acha mesmo isso? Você nem sabe com quem está lidando, Rebecca. O Aaron faz meia dúzia de coisas gentis e você já acha que ele é a melhor pessoa do mundo. Você é ingênua demais.

– Talvez eu seja mesmo. – Rebecca retrucou irritada – Mas pelo menos eu ainda tenho um coração. Ainda não perdi a capacidade de esperar o melhor da pessoas. Você, por outro lado, só consegue ver o lado ruim das coisas. Porque não dá uma chance para as pessoas provarem que podem ser melhores, hein?

– Você acha que ele pode ser melhor? – Ty apontou para Aaron – Acha mesmo que esse desgraçado tem algo de bom para oferecer?

– Quer saber? – Rebecca cruzou os braços diante do peito e ergueu a cabeça – Eu acho que tem alguma coisa boa nele, sim. Talvez mais do que tem em você nesse momento.

Ty olhou para ela boquiaberto e Rebecca sustentou seu olhar com determinação. Aaron podia não ser a melhor pessoa do mundo, mas até aquele momento ela não tinha sobre o que reclamar dele, diferente do que estava acontecendo com Ty, a quem ela podia acusar de ser insensível, controlador e até um pouco mal educado. Estava na hora de mostrar para ele que ela não era uma criança e que podia fazer suas próprias escolhas.

– Beleza. – Ty disse após um longo momento de enfrentamento silencioso – Eu vim aqui para conversar com você em particular, mas já que estamos todos aqui reunidos e já que você acha que sabe tudo sobre a alma do Aaron, vamos aproveitar o momento para colocar toda a situação em pratos limpos.

– O que você quer dizer com isso?

– Quero dizer, irmãzinha, que talvez o Aaron possa te explicar o quão bondoso ele tem sido ao me chantagear há mais de um ano para fazer os trabalhos dele e servir de cúmplice em todas as merdas que ele tem apontado na universidade. – Ty se voltou para Aaron, enraivecido – Quer fazer as honras ou mesmo posso arrancar essa falsa máscara de bondade da sua cara, seu desgraçado?

Notas finais
E é agora que o bicho pega! Espero que tenha gostado e espero que estejam ansiosos pelo próximo. Obrigada por acompanharem e eu vejo vocês em breve, se a inspiração ajudar. Beijos e até o próximo capítulo.