Wake Me Up
46 Como Uma Família Deve Ser
Notas iniciais
— Tyler! – Benjamin foi o primeiro a se pronunciar e, com um sobressalto, Ty se retirou do colo de Mikhail e se colocou de pé, quase tropeçando por causa da pressa em se levantar.
Seus olhos se voltaram na direção da voz do pai e, quando ele o encontrou, parado a alguns passos de distância, bem em frente a porta de entrada do alojamento, acompanhado de sua mãe e de Rebecca, precisou de alguns segundos para conseguir assimilar a cena que via. Por um instante, chegou a pensar que estava tendo uma alucinação causada pelo pânico, mas a expressão de fúria no rosto do pai e o choque visível no rosto da mãe, não deixavam margem para ilusões: ele havia sido pego.
— Mãe? Pai? – Perguntou como se, mesmo diante das evidências, não pudesse acreditar no que estava acontecendo. – O que estão fazendo aqui?
— O que nós estamos fazendo aqui?! – Seu pai se adiantou, pisando duro e, praticamente, soltando fumaça pelas orelhas. – O que você estava fazendo com esse rapaz, Tyler?!
Por um instante, Rebecca quase pode ver o pai segurando seu irmão mais velho pela gola do blazer preto de seu uniforme, mas sua vontade de correr até eles, para defender o irmão da fúria evidente do pai, foi desnecessária, já que Mikhail se colocou entre os dois antes mesmo que ela conseguisse fazer suas pernas se mexerem.
Aquilo, certamente, fez com que Ty soltasse um suspiro de alívio, mas, por outro lado, só serviu para deixar seu pai ainda mais irritado com toda aquela situação.
— Quem é você?! – Ele gritou para Mikhail, encarando-o como se estivesse diante de um demônio corruptor de almas. – Saia de perto do meu filho agora mesmo!
— Senhor Andrews, eu entendo que o senhor esteja alterado agora, mas se deixar o Ty se explicar…
— Eu mandei você sair de perto do meu filho! – Benjamin rugiu, avançando para cima de Mikhail e, dessa vez, foi Ty quem se postou entre ambos, temendo que o pai fizesse uma besteira, embora ele soubesse que Mikhail era perfeitamente capaz de se defender sozinho.
— Pai, por favor, tenha calma. – Ele pediu, estendendo uma mão para manter o pai a distância. – Me deixa explicar tudo…
— Explicar? – Benjamin lançou a ele um olhar severo. – Como você poderia explicar o fato de que eu vim até aqui para encontrar o meu filho sentado no colo de outro homem, Tyler?!
— Pai, vamos resolver esse assunto em um local mais reservado. – Rebecca pediu, olhando ao redor, para todos os estudantes que haviam parado para assistir a discussão. Era simplesmente uma droga o fato de que sempre havia uma plateia a espreita quando ela ou alguém de sua família precisava resolver um problema delicado, mas ela também não podia culpá-los. Sua família sempre escolhia os piores lugares para resolver suas desavenças. – Pai, nós estamos em frente a entrada do alojamento da Trinity. Esse não é o melhor lugar para resolvermos isso.
— Mas é o melhor lugar para que seu irmão fique se expondo dessa maneira? – Benjamin questionou, nem um pouco disposto a ouvir os argumentos da filha caçula. – O que você pensa que está fazendo, Tyler? Envergonhando a mim e à sua mãe dessa forma! Atirando o nome da nossa família na lama!
— Pai, ele não teve intenção de…
— Cale-se, Rebecca! – Benjamin a encarou com austeridade e, depois, se voltou para Ty. – Nós não o criamos para isso, Tyler! Não o educamos para que nos envergonhasse com esse tipo de comportamento ultrajante. Afaste-se desse rapaz, imediatamente.
— Querido. – Samantha, finalmente recobrou a fala e decidiu intervir, mas antes que ela pudesse formular uma única frase, Ty a interrompeu:
— Você é tão hipócrita! – Ele retrucou, encarando o pai com mais raiva do que Rebecca jamais o tinha visto demonstrar. – Você não me criou, está bem? Vocês não criaram nenhum de nós! Aliás, vocês raramente estavam em casa, pai. Contratar uma governanta e pagar escolas caras para nós não é o mesmo que nos criar.
— Tyler!
— Não, mãe. – Ele se afastou um passo dos pais e se postou ao lado de Mikhail, segurando uma de suas mãos. Ao longo do pouco mais de um ano que passaram juntos, Mikhail sempre tinha sido como uma espécie de refúgio para ele. Sempre que tinha um problema, se sentia triste ou se dava mal em uma prova, Mikhail estava lá para reconfortá-lo e lhe dar apoio e, agora que precisava enfrentar os pais e confessar tudo, segurar as mãos dele o deixava mais confiante. – Eu sei que vocês podem não estar preparados para isso ainda, afinal, não é o que você esperavam de mim, mas eu sei que não estou fazendo nada de errado. – Ele olhou para Mikhail e encontrou nos olhos dele toda a segurança de que precisava para continuar. – Mesmo que vocês não entendam, mãe, eu gosto do Mikhail. Gosto dele de verdade, de uma maneira que eu jamais fui capaz de gostar de uma garota antes e isso não é motivo para eu me envergonhar. O Mikhail é uma pessoa maravilhosa, inteligente e dedicado e ele me ama e eu…
— Cale-se, Tyler! – Benjamin encerrou o discurso do filho e venceu toda a distância entre eles, segurando Ty pelo braço. – Eu não posso concordar com esse tipo de atitude. Você vai voltar para casa conosco ainda hoje!
— O que? Não! – Ty tentou se soltar das mãos do pai, mas Benjamin o puxou com mais força, obrigando Mikhail a segurá-lo pelo pulso e afastá-lo do filho, com certa violência, que só serviu para deixá-lo ainda mais irritado.
— Você vai me agredir, meu jovem? – Benjamin o fitou, furioso e indignado. – Devo chamar a polícia para resolvermos isso?
— Querido, tente se acalmar um pouco. – Samantha depositou ambas as mãos sobre os ombros do marido e Rebecca se apressou em se postar entre ele e Mikhail, antes que o pai pudesse perder a cabeça de vez.
— Pai, escute o que a minha mãe diz. Vamos nos acalmar e resolver tudo isso de uma forma pacífica.
— Você estava ciente disso, Rebecca? – Seu pai a encarou aborrecido. – Sabia da relação entre o seu irmão e este… – ele olhou para Mikhail parecendo enojado – este rapaz?
Rebecca olhou para Ty, que estava entre os braços de Mikhail, agarrado a ele como se tivesse medo de que ele desaparecesse caso o soltasse e, então, olhou para Aaron, que se mantinha um pouco mais atrás, buscando algum apoio. Como incentivo, ele acenou com a cabeça de maneira afirmativa para ela, aconselhando-a a dizer a verdade e Rebecca assentiu, respirando fundo.
— Eu sabia. – Ela respondeu de cabeça erguida, porque depois de tudo o que tinha vivido e aprendido em Oxford sentia-se muito mais segura para enfrentar seus pais e todos os seus preconceitos e julgamentos. Seu irmão merecia isso, merecia alguém que o apoiasse incondicionalmente e que ficasse ao seu lado e ela não o decepcionaria agora. – Ty me contou tudo há algum tempo. Eu já sabia sobre ele e o Mikhail.
— E você não nos contou nada? – Sua a mãe a encarou, chocada. – Rebecca, achei que a sinceridade fosse a base do nosso relacionamento, querida.
— Não cabia a mim contar. – Rebecca se defendeu. – Essa é a vida do Ty e os sentimentos dele, mãe. Se vocês não o deixaram seguro ou confortável o suficiente para se abrir, não seria eu a pessoa que iria até vocês contar o que estava acontecendo na vida dele. Aliás, eu estou de acordo com o meu irmão. – Rebecca se aproximou de Ty e tomou uma das mãos dele entre as suas, tentando transmitir todo o apoio que ela realmente tinha para lhe oferecer. – Vendo a forma como você reagiram e como o trataram, acho que o Ty fez bem em não dizer nada a vocês. Vocês não o compreendem.
— Você está de acordo com isso? – Benjamin parecia perplexo com a declaração da filha e, praticamente, traído. – Você não era assim, Rebecca. Que tipo de educação a Margareth tem dado a vocês.
— A melhor educação possível. – Rebecca saiu em defesa da tutora. – A Margareth sempre nos tratou com carinho e respeito, nos ensinou o que é certo e errado. Ela é a melhor pessoa que vocês poderiam ter contratado para cuidar de nós durante todos esses anos, mas nós somos quem nós somos, pai. Chad é um ótimo médico e um ótimo pai e esposo. Josh é um economista brilhante e, Jared, um exímio arquiteto, mas nenhum deles pensa em constituir uma família nem tão cedo, apesar do que vocês dois desejam. – Rebecca listou. – Todos nós fomos criados e educados pela Margareth e ela nos deu o melhor de si, mas nós não somos clones uns dos outros. Não gostamos das mesmas coisas ou, mesmo, pensamos da mesma forma. – Ela apertou os dedos de Ty entre os seus um pouco mais forte. – Tão pouco amamos da mesma forma.
— Querida…
— Não, mãe. – Rebecca voltou seus olhos para ela, buscando compreensão. – Nós temos feito tudo o que vocês querem. Frequentamos as escolas que vocês escolheram, participamos de atividades que vocês escolheram, até mesmo a universidade onde estudamos foi escolhida por vocês e nós nunca reclamamos disso, nunca nos rebelamos, mas vocês não podem mais controlar a nossa vida assim. Eu nunca quis estudar em escolas para garotas, nunca quis ser parte do St. Hilda's, mas eu estou aqui por vocês e tudo bem para mim. Mas o Ty… Vocês não podem escolher quem ele pode ou não amar. Essa escolha não cabe a vocês.
— Mas isso não é amor! – Benjamin retrucou, inconformado. – Isso é uma promiscuidade, uma pouca-vergonha…
— Ah, cale a boca, pai! – Ty se soltou de Mikhail e foi até ele, inspirado pela atitude segura de Rebecca. – O que você sabe sobre o amor ou sobre a mim? Você nunca se sentou dez minutos comigo e teve uma conversa que não envolvesse um monte de planos de vida que você nem se deu o trabalho de me perguntar se eu estava de acordo ou não e, agora, você quer controlar até mesmo a forma como eu me sinto? Isso não vai acontecer! Eu amo o Mikhail e eu sei que ele também me ama e, para mim, não importa mais se você nos aceita ou não. Essa é a minha vida e eu não vou deixar você se intrometer nela como sempre…
Rebecca ouviu o barulho seco do tapa, antes mesmo de assimilar o fato de que a mão de seu pai havia se movido. Foi tão rápido, que ela demorou um segundo ou dois para entender a expressão chocada no rosto da mãe e o motivo pelo qual Ty tinha levado uma das mãos até a bochecha esquerda e parecia prestes a chorar, mas quando ela finalmente entendeu, porém, não teve tempo para segurar Mikhail e impedir que ele corresse até onde Ty estava, disposto a tirar satisfação com seu pai ou, ainda pior, retribuir aquela agressão gratuita na mesma moeda.
Por sorte, Aaron foi mais rápido que ela em sua reação, mas ele não precisou se dar o trabalho de conter a fúria de Mikhail, porque Vlad o alcançou primeiro.
— Calma, cara. – Ele pediu, segurando o primo pelos ombros, impedindo-o de fazer uma besteira. Rebecca não pode deixar de notar que ele havia largado uma sacola com algumas latas de refrigerante no chão, para manter as duas mãos livres enquanto tentava segurar Mikhail, por isso, ela deduziu que Vlad devia estar com eles antes e que os tinha deixado sozinhos para poder ir comprar as bebidas. – Você não quer fazer isso, quer? Ele ainda é o pai do Ty. Fica calmo, Mike.
— Você viu o que ele fez? – Mikhail questionou, ainda com os olhos cravados em Benjamin. – Ele não merece ser chamado de pai. O Ty não fez nada para merecer aquilo.
— Olhe aqui, meu jovem, se o seu pai não lhe deu educação, isso não é um problema meu. – Benjamin apontou um dedo para ele, ainda irritado. – Mas o Tyler é meu filho e eu vou educá-lo da maneira que eu achar conveniente, começando por afastá-lo das más influências de uma aberração homossexual como você.
— Ty, não! – Aaron se apressou em segurá-lo e, por muito pouco, não foi a vez de Benjamin receber um tapa ou coisa pior.
— Ele não é uma aberração! – Ty gritou enquanto Aaron tentava, a todo custo, afastá-lo do pai. – Ele é uma pessoa maravilhosa, está bem? A única aberração aqui é você, pai! Você que é um imbecil, estúpido!
— Ty. – Rebecca se aproximou de Aaron e tentou acalmar o irmão, mas Ty parecia muito magoado e enraivecido para escutá-la.
— Eu odeio você! – Ele continuou gritando. – Você é um ser humano horrível, pai. Você não entende nada sobre o amor. Não entende nada sobre os seus próprios filhos. Não entende ninguém que não seja você mesmo e os seus planos de vida idiotas! Você é um preconceituoso de merda!
— Tira ele daqui. – Rebecca pediu a Aaron, apontando para o irmão e, em seguida, para o alojamento. – Leva ele para dentro. As coisas ficarão piores se ele continuar aqui assim.
— Tudo bem. – Aaron assentiu e segurou Ty com um pouco mais de força, ganhando um resmungo irritado dele em resposta. – Você vem comigo, cara.
— Não! – Ty tentou se soltar dele, mas Aaron não permitiu. – Eu não vou a lugar algum com você Aaron. Eu também te odeio! Tenho certeza de que foi você quem os trouxe até aqui, não foi? Você é um idiota! Eu podia te matar!
— Não fui eu quem os trouxe aqui, Ty.
— Você é um mentiroso! – Ty tentou estapeá-lo, mas Aaron o manteve firme entre seus braços. – Tudo o que sai da sua boca são mentiras e ameaças, Aaron. Você não vale nada. Me larga!
— Eu não trouxe os seus pais aqui. – Aaron garantiu, embora Ty não estivesse nem um pouco disposto a escutá-lo. – Não fui eu, Ty. Eu juro.
— Eu não acredito em você!
— Tudo bem, tudo bem. Você ão precisa acreditar em mim. E, se realmente quiser, eu deixo você me matar lá dentro, ok? Mas, agora, você vem comigo.
Sem esperar que Ty concordasse com aquilo, Aaron praticamente o arrastou para longe e, assim que eles se afastaram, Rebecca se voltou para Vlad.
— É melhor você levá-lo para dentrro também. – Ela pediu, alternando o olhar entre ele e Mikhail, que ainda encarava seu pai como se também quisesse matá-lo. – Eu cuido das coisas aqui. – Ela apontou para seus pais, que ainda observavam, boquiabertos, enquanto Aaron conduzia um Ty furioso de volta ao dormitório. – Eu resolvo tudo.
— Tem certeza? – Vlad parecia temeroso por deixá-la ali e, por um instante, Rebecca se lembrou de como ele era quando os dois se conheceram: sereno, protetor e sempre disposto a oferecer ajuda, sem nunca pedir nada em troca.
Ela ainda não entendia muito sobre relacionamentos, mas, mesmo com todos os seus altos e baixos, Rebecca tinha certeza de que seu namoro com Vlad havia sido algo bom e, até mesmo, educativo. Foi ao lado dele que ela começou a aprender um pouco mais sobre a vida, sobre um relacionamento a dois e sobre si própria, embora tenha sido apenas ao lado de Aaron que ela descobriu quem realmente era e o que realmente queria.
Sua relação com Vlad não havia terminado da melhor forma e eles não haviam conversado a respeito depois, mas ali, naquele momento, Rebecca percebeu que embora eles não tivessem funcionado como um casal, ainda havia uma grande chance de funcionarem como amigos.
— Sim. Eu tenho certeza. – Ela finalmente respondeu, tentando transmitir a ele, com um único olhar, toda a segurança que realmente sentia. – Já está na hora dos meus pais aprenderem a nos ouvir também.
Vlad assentiu e, sem mais delongas, conduziu Mikhail para dentro do alojamento, embora a expressão no rosto dele deixasse bem claro que ele não estava satisfeito com o arranjo e que ainda queria tirar satisfação com Benjamin por ter agredido o filho daquela maneira. Rebecca observou enquanto os dois subiam as escadas, discutindo entre si e, assim que os garotos sumiram porta a dentro, ela se voltou para os pais e, a forma como os encarou, teria deixado Margareth orgulhosa.
— Vou lhes dar duas opções. – Ela disse com seriedade. – Ou vocês se sentam e me escutam ou podem esquecer que eu e o Ty somos seus filhos.
— Rebecca…
— Não tem essa de Rebecca, mãe. – Ela a olhou com firmeza e fez o mesmo com o pai. – Olhem a que extremos nós chegamos aqui hoje. O senhor agrediu o Ty e o Ty quase o agrediu de volta. Não é assim que uma família deveria se comportar, então, ou nós nos sentamos e conversamos sobre isso de maneira civilizada ou vocês podem voltar para casa e nos tirar do seu testamento. Não estou brincando.
Vendo a seriedade nos olhos da filha caçula, Benjamin e Samantha Andrews não tiveram outra opção senão deixar que Rebecca os conduzisse até um banco mais afastado do alojamento, onde se sentaram, enquanto ela continuou de pé, a sua frente, com os braços cruzados e uma expressão resoluta.
— Primeiro, eu quero que saibam que nós os amamos. – Ela começou porque, de fato, apesar de todos os defeitos que seus pais possuíam, amor era a primeira coisa que passava por sua cabeça quando pensava nele. – Todos nós, sem exceção. Até mesmo o Ty apesar de tudo que ele disse hoje. – Rebecca explicou, arrancando um suspiro emocionado da mãe. – Nós nos esforçamos para agradá-los, pois sabemos que vocês também se esforçam para nos dar sempre o melhor, ainda que não fiquem presentes o tempo inteiro.
— Nós também amamos vocês, querida. – Sua mãe estendeu a mão para pegar a sua e Rebecca a segurou de bom grado, embora permanecesse com sua expressão séria.
— O que aconteceu aqui hoje foi horrível. – Ela continuou. – Eu jamais pensei que veria algo assim acontecer com a minha família, pois vocês sempre nos ensinaram a nos apoiar e a nos amar apesar de todas as nossas diferenças, mas quando vocês precisaram fazer o mesmo pelo Ty, vocês o jogaram contra uma parede e lhe apontaram um dedo. Isso não deveria acontecer.
— Rebecca, há uma diferença entre…
— Não há diferença alguma, pai. – Rebecca pousou sobre ele o seu olhar mais duro e, pela primeira vez na vida, Benjamin se calou e se dispôs a ouvir. – Vocês não os conhecem como eu conheço. Não estão aqui, diariamente, para os verem como eu os vejo. O Ty e o Mikhail são... Eles são maravilhosos. – Rebecca se permitiu sorrir ao pensar nos dois juntos. – Eles se completam, sabe? Vocês não tem ideia do quanto o Ty é feliz ao lado dele. Vocês nem imaginam como o Mikhail o faz sorrir e o incentiva a se tornar alguém cada vez melhor. Vocês não veem isso, mas eu vejo. Não há maldade no amor deles, pai. Não é uma promiscuidade ou uma aberração como você disse. É algo lindo. É puro. E você não tem o direito de transformar algo tão bonito assim em um show de horrores.
Ela olhou para os pais, esperando que algum deles retrucasse, mas só o que viu foram lágrimas nos olhos da mãe e uma expressão confusa no rosto do pai. Já imaginava que sua mãe seria a primeira a abrir seu coração para a possibilidade de aceitar Ty do jeito que ele era, mas foi uma surpresa que seu pai tivesse baixado a guarda tão rápido. Em geral, ele era sempre o que mais discutia.
— Mãe, você tem filhos maravilhosos. – Rebecca prosseguiu, apertando os dedos finos da mãe entre os seus. – Chad, Josh, Jared, Ty… todos eles são homens maravilhosos. São pessoas incríveis, cada um a sua maneira e todos eles dariam a vida por você, porque, assim como eu, eles te amam e só querem que você sinta orgulho deles. E, pai – Rebecca usou a outra mão para alcançar a de Benjamin e apertá-la –, eu sei que não era isso que você queria. Sei que acha que algumas pessoas podem apontar o dedo e te julgar por ter um filho gay, afinal, o mundo é assim mesmo e há pessoas más neles, mas você conhece o Ty. Você sabe o quanto ele é bom e o quanto o coração dele é lindo. Lembra de quando você o levou para jogar golfe pela primeira vez e ele foi péssimo, mas você disse a ele que ele não precisava se envergonhar e nem ligar para os outros garotos que riam dele, pois ele tinha muitos outros talentos e era perfeito exatamente do jeito que era?
Benjamin assentiu e, pela primeira vez, Rebecca viu uma sombra de arrependimento passar pelos olhos do pai.
— É disso que ele precisa agora, pai. Que você o aceite. Que você o abrace e olhe nos olhos dele e diga que tudo bem ele não ser como os outros porque, para você, ele sempre vai ser perfeito do jeito que ele é, entende? Pode parecer difícil de aceitar isso no início. Eu sei que você foi criado de uma maneira que deixava claro que coisas como essas eram erradas e feias, mas não são. São diferentes do habitual, sim, mas não erradas ou motivo de vergonha. Não são ultrajantes ou repulsivas, pai. É apenas amor, na sua forma mais pura e aquele é o seu filho. Alguém que te ama muito, que só quer agradar você e te dar orgulho. Alguém que faz os melhores brownies que nós já comemos… – Rebecca riu e Benjamin fez o mesmo. – Você realmente quer que ele se afaste de você, apenas porque algumas pessoas podem não entendê-lo? Realmente prefere abrir mão desse amor incondicional que o Ty sempre teve por você? Pense nisso, por favor, pai.
Benjamin olhou para a esposa que o encarou de volta, com uma expressão tão suplicante quanto a de Rebecca, que já deixava claro que, para ela, aquele assunto deveria ser encerrado ali e que ela mal via a hora de poder prender o filho em um abraço e murmurar, mil vezes, em seu ouvido o quanto o amava.
Ele também se sentia assim, apesar de estranhar a ideia de ter seu filho nos braços de outro rapaz. Aquilo não parecia correto para ele, mas Rebecca tinha razão. Dentre todos os seus quatro garotos, Ty sempre fora aquele de quem era mais próximo. Seu filho nunca se importava de passar um tempo ao seu lado, mesmo quando era adolescente e podia sair para se divertir com os amigos em vez disso. Cada vez que voltavam para casa, eram Ty e Rebecca quem corriam até a porta para recebê-los com um autêntico entusiasmo e ele não podia ignorar tudo isso. Não ignorar o amor e o carinho que o filho sempre nutrira por ele, apenas por causa de sua opção sexual. Como Rebecca havia dito, ele sempre havia ensinado os filhos a se apoiarem e se aceitarem, então, agora, ainda que ele levasse algum tempo para que se acostumasse com aquilo, compreensão e apoio era tudo o que Ty merecia dele.
— Quando foi que você se tornou tão madura e tão sábia? — Benjamin questionou, ganhando um sorriso de concordância de Samantha que aproveitou o momento de descontração para secar as lágrimas que Rebecca a tinha feito derramar.
Satisfeita com a expressão do pai, Rebecca se sentou no colo dele e o abraçou, feliz porque pelo menos parecia que os problemas relacionados a orientação sexual de Ty tinham ficado para trás.
— Eu não sei exatamente. – Ela respondeu recostando a cabeça no ombro dele, como fazia quando era criança. – Mas acho que foi quando eu conheci o Aaron.
— Aaron? O colega de quarto do seu irmão?
— Ex-colega de quarto, mãe. Mas, sim, é exatamente desse Aaron que estou falando.
A troca de olhares curiosos que aconteceu entre seus pais a fez rir e Rebecca decidiu que, já que estavam colocando tudo em pratos limpos naquele momento, não deixaria seu relacionamento com Aaron se tornar uma mentira que teriam de resolver depois.
— Tenho uma coisa muito importante para contar e que acho que vai deixá-los chocados e bravos por um minuto ou dois. – Ela revelou, colocando-se novamente de pé. – Mãe, pai… eu e o Aaron estamos namorando.
Como já esperava, seus pais realmente pareçam chocados, depois, um pouco bravos e, por fim, a curiosidade mesclada com um pouco de indignação foi o que prevaleceu.
— Como? Desde quando? – Sua mãe foi a primeira a perguntar, porque seu pai ainda parecia dividido entre propor um noivado ou puxar Aaron pelas orelhas.
— Bem, eu não sei dizer exatamente desde quando, porque, na verdade, nós estamos meio juntos faz uma semana ou duas, não sei exatamente. Mas namorando mesmo… assim, de fato… deve fazer alguns dias.
— E quando você pretendia nos contar isso, Rebecca?
— Sendo bem sincera: eu não pretendia. – Rebeca confessou, sentindo-se um tanto envergonhada. – Vocês sempre me prenderam tanto que eu pensei que, se contasse, vocês me fariam terminar tudo e me arrastariam para fora de Oxford no mesmo instante.
— Nós não a prendemos, querida. Só não queríamos que se envolvesse com as pessoas erradas.
— E por pessoas erradas acho que o senhor está se referindo a toda a população masculina mundial, não é pai?
— Ora, não é crime que um pai queira proteger a sua garotinha, é? – Benjamin cruzou os braços e a expressão revoltada no rosto dele fez Rebecca rir.
— Ah, pai. – Ela se aproximou dele e o abraçou. – Eu amo muito você e agradeço que queira me proteger, mas eu já tenho dezoito anos, não é? Acho que posso ter um namorado e eu já o escolhi.
— Mas esse garoto é bom para você? Qual o nome dos pais dele? Vocês realmente estavam na biblioteca? – Seu pai questionou desconfiado e pensar que, na verdade, ela estava deitada na cama de Aaron quando seus pais telefonaram fez com que Rebecca corasse e isso não passou despercebido a sua mãe.
— Rebecca, em que nível o seu relacionamento com esse garoto está? – Ela perguntou, assumindo a mesma expressão que Margareth tantas vezes havia usado para lhe explicar sobre a biologia humana.
— Temos mesmo que falar sobre isso agora? – Rebecca perguntou envergonhada e Samantha arregalou os olhos para ela, ao passo que Benjamin se voltou para a porta de entrada do alojamento da Trinity, já pensando em todas as formas de assassinar o atual genro.
— Pelo amor de Deus, diga-me que você tomou os devidos cuidados.
— Mãe! – Aquela altura Rebecca já estava mais vermelha que um tomate, mas agora que tinha começado a falar e que seus pais haviam deduzido o resto, ela não tinha para onde correr. – Oh, meu Deus, sim. Nós tomamos os devidos cuidados, mãe. Oh céus, eu realmente não quero ter de falar sobre isso.
— Mas nós precisamos falar sobre isso. Como você… – Samantha olhou para o marido e os olhos dele refletiram o mesmo questionamento que havia nos seus. – A Margareth sabe sobre isso?
— Sobre isso o que?
— Sobre você e esse rapaz. E sobre vocês dois…
— Ah, meu Deus, pai. Não fale. Não fale sobre isso, por favor! A Margareth sabe sobre o namoro, mas não sobre… a outra coisa. Por Deus, não me façam desmaiar de vergonha agora. Esse tipo de coisa a gente não discute com os pais. Por favor, parem.
Diante do olhar suplicante em seus olhos, tanto Samantha quanto Benjamin decidiram deixar aquele assunto para outro momento, mas ambos ainda tinham muitas perguntas para fazer e não deixariam que aquilo fosse esquecido. Eram muitas novidades para uma única tarde e até mesmo eles estavam mentalmente esgotados depois de tantas revelações, então, o melhor era deixar aquela conversa para outra hora.
— Eu ainda quero conversar com esse garoto e saber das intenções dele. – Benjamin estipulou – Não ache que isso vai terminar aqui, mocinha.
— Longe de mim nutrir tantas esperanças, pai.
— Acha que ainda devemos sair para comer? – Samantha questionou, olhando para o alojamento onde Ty, muito provavelmente, ainda devia estar discutindo com Aaron e o acusando.
— Depois de tudo isso? – Rebecca suspirou. – Eu acho que todos nós já perdemos o apetite e, sinceramente, eu acho melhor vocês voltarem para casa e dar um tempinho para o meu irmão se acalmar, antes de tentarem falar com ele de novo. Tenho certeza de que ele vai escutá-los e aceitar suas desculpas, mas não hoje.
— Talvez fosse melhor voltarmos para o apartamento da Margareth. – Samantha propôs. – Podemos cancelar os compromissos de amanhã e, então, tentar falar com o Ty.
— Não, mãe. – Rebecca fez careta. – Mais tempo. Muito mais tempo.
— Quando, então? Na próxima semana?
— Que tal no próximo mês?
— No próximo mês? – Benjamin franziu o cenho.
— É. Sabe, o espírito natalino… essas coisas… Eu vou conversar com o Ty e explicar tudo o que falamos aqui hoje e acho que ele vai entender, mas é sempre bom dar um tempinho para ele digerir tudo isso. Também me parece um ótimo momento para que vocês possam convidar o Mikhail para passar o Natal conosco e conhecê-lo um pouco melhor.
— Convidá-lo para o Natal?
— A Becca tem razão, querido. – Samantha sorriu para a filha e passou os braços em volta dos ombros do marido. – Se vamos fazer isso, precisamos conhecê-lo e o Natal é uma época maravilhosa.
— Super maravilhosa. – Rebecca concordou.
Benjamin não pareceu muito convencido no início, mas, por fim, se deu por vencido e assentiu.
— Tudo bem. Acho que o Natal será um bom momento para conhecer o… Mikhail? – Ele questionou, sem saber se havia pronunciado certo e Rebecca concordou com um aceno.
— Fico felizes que tenhamos resolvido isso. – Ela abraçou os dois ao mesmo tempo e deu um beijo no rosto de cada um deles.
— Acho que você deveria convidar o Aaron para passar o Natal conosco também. – Sua mãe propôs. – Se vamos conhecer o companheiro do Ty, seria ótimo conhecer o seu também, não acha?
Sim. Rebecca achava e, de fato, ela pretendia apresentar Aaron aos pais, formalmente, em algum momento, mas não no Natal. Depois de todo o conflito familiar que tinha presenciado entre seus pais e seu irmão, ela percebeu que aquilo não era algo pelo qual uma família deveria passar. As famílias deveriam ficar unidas, resolver seus problemas e se apoiarem e era exatamente isso que ela planejava fazer, mas, naquele momento, não por seus pais.
— Não passarei esse Natal com vocês esse ano. – Ela respondeu confiante. – Prometi ao irmão do Aaron que passaríamos o Natal na casa da mãe dele.
— Então, você passará o Natal com os seus sogros?
— Pode-se dizer que sim, mãe. – Rebecca assentiu.
Agora, ela só precisava convencer Aaron a fazer o mesmo.
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