Wake Me Up

14 Castelo de Vidro


Notas iniciais
Olá, O bug com os travessões do texto foi corrigido ontem pelos staff's do Nyah, mas tive um pequeno problema pessoa e não pude postar esse capítulo ontem. Entretanto, aqui estou agora e espero que gostem desse capítulo. Acho que vocês devem se lembrar muito bem dele ^^ Boa leitura!

Aaron acordou com os raios do sol batendo em seu rosto no domingo pela manhã. Levantou-se devagar e se espreguiçou um pouco, enquanto se dirigia até as grandes janelas de vidro de seu apartamento para fechar melhor as cortinas. Sempre achou as janelas de vidro muito bonitas, pois elas lhe permitiam ter uma ótima vista da cidade abaixo de si, mas não podia negar que elas também eram um incomodo, principalmente pelo fato de ele nunca se lembrar de fechar as malditas cortinas.

Aaron escovou os dentes, penteou o cabelo, trocou seu roupão por uma camiseta branca simples e uma bermuda preta e seguiu para a cozinha, passando antes na sala para pegar o que havia restado de seu jantar e jogar no lixo.

Cogitou a ideia de se dirigir à padaria mais próxima para comprar pães frescos e outros alimentos para o café da manhã, mas logo desistiu e optou por uma refeição típica dos americanos: cereal e leite.

Pegou, então, a única caixa de cereal que havia no armário e uma garrafa de leite em sua geladeira e sentou-se à mesa, despejando tudo em uma grande tigela.

Após o café da manhã, lavou a tigela e a colher que havia usado, guardou o restante do cereal e do leite e se dirigiu a varanda de seu apartamento, onde se sentou em uma das poltronas confortáveis que havia ali.

O clima estava bastante agradável e, apesar de já estarem perto do outono, não estava frio. O sol brilhava no céu, um pouco encoberto pelas nuvens e uma brisa fresca soprava para todos os lados.

O apartamento de Aaron ficava no 4º andar de seu prédio – que ao todo tinha dez andares – e, de onde estava, ele podia ter uma bela visão da cidade abaixo de si. Não era uma visão completa, afinal o prédio não era tão alto, mas ainda assim era de um alcance relativamente amplo e ele permaneceu ali por um longo tempo, apenas apreciando a paisagem.

Muitas pessoas odiariam passar uma bela manhã de domingo apenas olhando a paisagem pela janela de um apartamento, mas esse não era o caso de Aaron. Boa parte de sua vida ele havia passado exatamente daquela forma e já estava acostumado. Apenas agradecia por, agora, ter uma bela paisagem para contemplar, coisa que não tinha antes, quando morava na casa de Erick.

Lembrou-se, então, que seu celular ainda estava desligado e foi até o quarto buscá-lo, ligando-o em seguida e encontrando mais uma vez uma enorme quantidade de chamadas não atendidas, algumas mensagens de texto e três recados de voz.

Excluiu, sem nem mesmo ler, as mensagens de texto e não retornou a nenhuma das ligações que, em sua grande maioria, pertenciam a sua mãe e a Erick, mas decidiu ouvir os recados de voz apenas por curiosidade.

Dois deles eram de sua mãe pedindo que ele atendesse às ligações ou, que pelo menos, lhe desse alguma notícia e o último era de Erick dizendo apenas que já havia conversado com Andrew Hamilton.

Não havia nenhuma outra informação além dessa. Nenhum detalhe sobre a conversa que Erick tivera com o irmão ou qualquer decisão que eles pudessem ter tomado em relação a isso, mas ainda assim Aaron se retesou e atirou o celular sobre sua cama, praguejando em voz baixa.

Desejou não ter sido tão curioso, pois assim não teria escutado a voz irritante de Erick, mas agora era tarde demais. Para tentar esquecer um pouco tudo isso, Aaron decidiu se divertir com os jogos eletrônicos que não jogava já fazia tempo. Era útil descontar todas as suas frustrações em algum jogo violento e foi exatamente o que fez.

Voltou para a sala, ligou seu vídeo game e jogou por um longo tempo, até se cansar, surpreendendo-se depois ao olhar em seu relógio e ver que já eram quase duas da tarde. Então desligou o vídeo game e percorreu o apartamento a procura de uma lista telefônica, para que pudesse ligar para um restaurante próximo e pedir algo para comer, pois dessa vez queria algo mais que comida congelada.

Ainda estava folheando a lista quando alguém bateu em sua porta. Levantou-se e seguiu até lá devagar.

– Quem é? – perguntou ao aproximar-se da porta.

– Sou eu. – Erick respondeu do outro lado, fazendo-o congelar – Abra a porta.

Aaron parou segurando a maçaneta da porta, enquanto seu coração disparava, sem sua permissão, por um instante. Imaginava que em algum momento teria de encarar Erick depois da briga que tivera com Andrew Hamilton na reitoria, mas não imaginava que seria tão cedo.

– Abra logo essa porta, Aaron. – Erick gritou batendo na porta mais uma vez – Eu não estou com paciência para esperar por sua boa vontade.

Aaron respirou fundo e abriu a porta, encarando Erick. Fazia alguns anos que não via seu padrasto, mas ele não havia mudado nada desde então. Ainda tinha os mesmo olhos negros e duros, usava ternos caros e escuros, penteava perfeitamente os cabelos lisos e negros para trás e mantinha sua expressão séria bem conservada.

Para o mundo, Erick Hamilton era um respeitável e bem sucedido homem de negócios, para Aaron, ele era apenas alguém desprezível envolto e um terno caro da Giorgio Armani.

Erick olhou para Aaron de cima a abaixo, parando no hematoma arroxeado que havia em seu olho esquerdo e abriu um pequeno sorriso.

– Ora, ora. A quem eu devo essa enorme satisfação? – perguntou com um tom de deboche.

Aaron olhou furioso para ele, mas Erick apenas o empurrou para o lado, para abrir caminho e entrou no apartamento, correndo os olhos rapidamente pelo lugar.

– Você por acaso é um vampiro para ficar se escondendo do Sol? – perguntou ele seguindo até as cortinas que Aaron havia fechado mais cedo e abrindo-as.

A claridade repentina que invadiu o cômodo incomodou os olhos de Aaron que já havia se acostumado com a penumbra que havia na sala e ele desviou o olhar por um instante.

– Ou talvez você esteja usando drogas e por isso não aguente ficar em locais claros. – Erick continuou – Adoraria contar essa novidade para a sua mãe.

– Porque você apenas não vai para o inferno? – disse Aaron fechando a porta com raiva e virando-se para encará-lo.

– Acha que suas palavras rudes me atingem, Aaron? – Erick olhou para ele com uma expressão séria – Ao contrário do Andrew, essa sua cara de marginal de quinta categoria não me intimida nenhum pouco. Então, sente-se aí e vamos conversar.

Aaron o encarou por mais alguns instantes e depois se sentou, de má vontade, em seu sofá, concentrando-se na parede do edifício vizinho, que era visível pela enorme janela da sala.

– Eu serei bastante breve. – disse Erick, mantendo-se de pé em frente a Aaron – Tenho apenas uma coisa para dizer e acho bom você me ouvir.

Aaron permaneceu calado, então Erick continuou:

– Eu não gosto de você e não quero, de forma alguma, ter notícias suas porque a simples menção ao seu nome me dá náuseas. Você sabe muito bem que quando te mandei para cá, foi para me livrar de você e não para ter de largar as minhas coisas e vir até essa universidade resolver problemas seus. – ele disse sem rodeios – Então, você pode fazer o que quiser dessa droga que você chama de vida. Pode infernizar qualquer estudante idiota daquela universidade ou qualquer infeliz dessa cidade, mas se eu tiver que pegar um avião e vir até aqui de novo, eu não virei para conversar. Você me entendeu?

– Claro, milorde. – disse Aaron, sarcástico.

Por fora, sua expressão nada revelava, mas por dentro a raiva tomava conta de cada célula de seu corpo.

– Não perca seu tempo tentando me atingir, Aaron. Já disse que não me intimida. Você não passa de um bebê chorão se escondendo atrás de uma pose falha de bad boy. – disse Erick – Sua atitude chega a ser ridícula.

Aaron olhou para ele furioso e isso fez Erick rir

– Eu toquei o seu calcanhar de Aquiles? – perguntou debochado – Ah, não. Me desculpe. Esqueci que o seu calcanhar de Aquiles é o seu pai. E sabia que vocês dois se parecem bastante. Assim como ele, você também é um idiota, fracassado e vulnerável. Talvez você até acabe se suicidando como ele.

Aaron se colocou de pé, tremendo de raiva.

– Cale a boca. – disse apenas.

– Vamos lá, Aaron. – Erick se aproximou dois passos dele – Você não é o cara mau? Faça eu me calar, então.

Como Aaron não se moveu, Erick o segurou pela gola da camiseta, com força:

– Você é mesmo um grande inútil, não é? Onde está toda a sua pose agora? – disse ele – Você não passa de um lixo que fui obrigado a aceitar em minha vida por causa da sua mãe. Faça um favor ao mundo, Aaron, e se mate como o seu pai fez!

Aaron se soltou dele e se afastou alguns passos.

– Pare de falar do meu pai! – gritou enraivecido.

Erick aproximou-se dele mais uma vez e o encarou por um instante, com um pequeno sorriso torto nos lábios antes de dar um grande tapa no rosto de Aaron, sem nenhum aviso.

– Me obrigue a parar de falar. – ele exigiu dando outro grande tapa em sua face, pegando Aaron de surpresa novamente.

Ia repetir o gesto pela terceira vez, mas Aaron segurou sua mão com força e o encarou de forma intensa. Seus olhos brilhavam de fúria.

– Não ouse encostar em mim novamente, Erick. – disse entre dentes – Eu não sou mais aquela criança que você podia maltratar sempre que quisesse.

– Está enganado. – Erick respondeu, afastando-se dele e seguindo até a porta – Você ainda é a mesma criança idiota que sempre foi, Aaron, só está maior. E eu já disse o que tinha para dizer. Não me faça ter que voltar aqui porque você vai se arrepender. E, apenas para que não interprete mal as minhas palavras, tenha certeza de que isso é uma ameaça.

Erick se retirou do apartamento, batendo a porta ao passar e Aaron permaneceu encarando-a sem reação por alguns instantes.

Ainda tremia, mas agora não saberia dizer se era de raiva, medo ou nervosismo. Sentiu uma lágrima escorrer por seus olhos e, se não estivesse em um estado tão deplorável, teria começado a rir por descobri que depois de tantos anos sem derramar uma única lágrima, ainda podia chorar.

Achou que já tinha superado tudo de ruim que Erick havia lhe feito, mas descobriu que estava enganado. Não importava quantos anos se passassem, nem quão distante pudesse estar de casa, sempre teria medo.

Reprimiu o quanto pode as lágrimas irritantemente insistentes que ousavam brotar em seus olhos, pois havia prometido a si mesmo que não choraria mais e que não seria fraco de novo, mas já estava esgotado. Então apenas deixou que todos os sentimentos viessem à tona.

Todas as tristezas, medos e mágoas... Toda a raiva, revolta e desespero... Deixou que tudo finalmente se libertasse e o inundasse da mesma forma que uma represa que se rompe inunda toda uma cidade e, antes que pudesse se conter começou a quebrar tudo o que havia à sua frente, até que restassem apenas cacos e pedaços de objetos jogados por cada canto de sua sala. Algo que era apenas um reflexo de como se sentia por dentro.

Aaron parou ofegante e olhou para toda a destruição que havia causado em seu apartamento perguntando-se o que estava fazendo. Aquela pergunta, entretanto, não dizia respeito apenas a tudo que havia quebrado naquele momento, mas a tudo o que havia feito ao longo dos anos, pois há muito tempo não via sentido em nada.

Dirigiu-se até a varanda e subiu no parapeito, olhando para a cidade que se estendia logo abaixo de si. Não se importava com nada ali, assim como não se importava com nada que pudesse haver em qualquer outro lugar do mundo. Já fazia muitos anos que não estava realmente vivendo e seria muito mais fácil para ele apenas fechar os olhos para tudo e dar um passo em direção ao nada...

Mas Aaron não gostava de coisas fáceis.

Por isso, desceu do parapeito e voltou para dentro do apartamento, trancando a porta depois para evitar que voltasse a sentir essa terrível vontade de acabar com a própria vida, porque repudiava esse tipo de coisa.

Sempre amou o pai e o amaria eternamente, mas jamais o perdoaria por ter escolhido o caminho mais fácil, sem se preocupar com quem estava deixando para trás. Jamais o perdoaria por não ter pensado nele e em tudo em que seu suicídio poderia resultar e não queria ser como ele e ter a mesma atitude fraca, por mais que o amasse incondicionalmente.

Então, simplesmente enxugou as poucas lágrimas que ainda restavam em seus olhos, voltou para a sala e começou a tentar arrumar toda a bagunça que havia feito, como se Erick nunca tivesse estado ali e como se nada tivesse realmente acontecido.

Apenas respirou fundo e voltou a assumir a expressão fria e indiferente que havia adotado desde os treze anos de idade. Havia tido um momento de fraqueza, mas aquilo não voltaria a acontecer.

Jamais permitiria que alguém atravessasse sua muralha de novo. Jamais permitira que alguém despedaçasse sua armadura novamente, pois jamais permitiria que alguém pudesse tocá-lo.

Sua vida até ali tinha sido apenas um enorme castelo de vidro que se despedaçava, cada vez mais, ao longo dos anos, mas isso mudaria. Agora ele transformaria aquele castelo de vidro em um castelo feito de rochas e espinhos e não permitiria que ninguém, jamais, voltasse a machucá-lo como Erick e sua mãe haviam feito.

Notas finais
Gente, eu AMO esse capítulo. Vocês também? Assim como o "Por Trás da Máscara", esse capítulo começa nos mostrar um pouco da vida do Aaron e de todos os sentimentos que ele esconde abaixo do estereótipo de bad boy rebelde que ele ostenta. Novos leitores, espero que tenham gostado e, leitores antigos, espero que tenham relembrado e matado a saudade desses acontecimentos. Beijos e até o próximo.