W.O.M.E.N
5 W.O.M.E.N 01x04 - The one with Red, all day long
Notas iniciais
Então… Onde eu tinha parado mesmo? Ah é... Violet.
Eu não entendi da onde tinha surgido aquela foto, e estava muito sonolenta pra raciocinar, mas provavelmente era algum tipo de trote.
Eu larguei a foto em cima da mesinha da sala e fui pra cozinha preparar um cereal. Peguei o leite, o sucrilhos e misturei os dois em uma tigela improvisada. Cacei uma colher e me joguei no sofá. Estava passando tom e jerry, desenho que eu adoro, e a tv não estava mais chuviscada.
Eu estava bem satisfeita naquele momento de paz, gargalhando com tom e jerry e me deliciando com meu cereal, quando eu ouvi um barulho. Parecia vir de dentro do armário de trás do sofá. Mas eu ignorei.
Novamente um barulho.
“Aff... Nem posso comer meu cereal em paz?”
Fui em direção ao barulho. Vinha do armário atrás do sofá.
“Estranho... Não mexemos nesse armário ainda... Será um rato? Argh!!!”
Me aproximei e abri a porta do armário devagar.
Um barulho estrondoso me assustou:
– Aaaaah!!! – gritei saltando pra trás
Um livro preto caiu no chão, aos meus pés. Em letras vermelho sangue pude ler “Guia prático de exorcismo – fantasmas e demônios/casa e corpo”
Um calafrio percorreu meu corpo e achei melhor acordar a Aline. Tremendo como vara verde fui até o quarto dela e chamei.
– Aline.
Nada.
– Aline.
Nada.
– Aline!
– Não é Aline!!!
– Red???
– SIM!!!
Ela estava furiosa. Red odeia que a acordem. Mas... O que diabos Red está fazendo aqui???
– C-Cadê a Aline? Eu r-realmente precisava falar com ela...
– Eu que vou saber? Me deixa dormir em paz!!!
E virou para o lado, caindo no reino dos sonhos novamente.
Eu achei melhor deixá-la dormir e tentei me distrair com um de meus livros, mas eu estava nervosa por conta da situação. Red nunca aparecera daquele jeito. Sem contar aquele livro suspeito na sala.
Eu estava pensativa e folhava o livro sem ler nada, de fato, quando o telefone tocou.
– Alô?
– Aline? Oi é a Enny!!! – ela falava tão alto do outro lado da linha que meu ouvido começou a arder. – Eu tenho que falar rapidinho porque estou dirigindo! Só liguei pra avisar que vou buscar você e a outra Aline para almoçarmos juntas! E passear pela cidade! Agora tenho que desligar! – e desligou sem me deixar falar nenhuma palavra.
Uma hora e meia depois...
Ouvi batidas na porta e larguei meu livro, indo em direção à porta.
– Olá flor!
– Oi Enny! – sorri para ela – Aline ainda está dormindo.
– Acorde ela e se arrumem que vou esperar no carro. – e saiu correndo pelo corredor.
– Que menina esquisita. – falei comigo mesma, rindo. — Acordar Aline... Certo! – dei um soco no ar e andei até o quarto, mas parei na porta. O que faria se fosse a Red novamente? Estava claro que eu não sabia o que Red queria. Muito menos quem era ela de fato. Mas nada disso importava, pois eu sabia que uma parte de Aline era ela, e eu tinha que descobrir qual. Red era um mistério e agora nada mais importava, eu seria Sherlock Holmes.
Me senti inspirada com a última frase e, num jato de coragem, fui acordá-la, sem saber se eu veria minha amiga ou parte dela.
Pensei demais e a coragem acabou. Eu a chamei pelo nome:
– Aline.
– Aline. – sem resposta.
– Red.
– Ahm? – Ela abriu os olhos e, pela expressão, achei que não estava dormindo afinal.
– Enny veio nos buscar para almoçar. Ela vai nos levar para o centro.
– Centro? Interessante. Me visto em 10 minutos.
Eu fui até o guarda-roupa e escolhi um jeans surrado, uma camiseta do Batman que havia ganhado da Aline, e minha jaqueta preta de couro. Com all star claro!
Eu estava passando rímel quando ouvi:
– Alineeee!!! — quase furei o olho de susto, com o grito de Red.
Eu corri para o quarto para ver o que havia acontecido, e lá estava Red, maquiada e de lingerie.
– Red! Por que não está vestida ainda? – perguntei meio envergonhada com a visão de minha amiga tão pouco vestida – Põe logo uma roupa!
– Eu bem que gostaria, mas essa Aline... Vou te contar! Não serve nem para comprar uma roupa decente! Cadê minhas roupas? Eu comprei uns vestidos lindos!
– Depois você procura. Toma. – ofereci um jeans que estava no topo da pilha, que Red pegou fazendo beiço. – Se você não gosta das roupas dela, posso te emprestar alguma coisa.
– Você está falando sério? Sua ingenuidade me comove. – ela riu da minha cara.
– Por que?
– Seu estilo não combina comigo, garota. – disse ela num tom levemente zombeteiro, analisando minhas roupas.
Eu me limitei a ir até minha pilha de roupas e peguei um sobretudo preto, impecável . Joguei na direção dela.
– Veste isso e vamos logo.
Para minha surpresa, Red pegou o sobretudo e o vestiu. Ela arrumou os cabelos e andou em direção à porta, sem dizer uma palavra.
E, como minha surpresa tinha me paralisado, ela me olhou e disse sorrindo:
– Let’s go sugar! (Vamos açúcar!)
“Nossa! Como foi leve aquele sorriso! Como julguei mal Red! Ela é apenas uma garota que gosta de se divertir.”
Eu voltei a realidade, sorri em resposta, e a segui até a porta.
***
Um almoço muito gostoso depois...
– E aí meninas? O que vocês querem fazer? Hoje vou levá-las onde quiserem.
– Ei! Eu nem comi sobremesa ainda! – exclamou Red.
– Já sei! Como Aline está ávida por doces...
– Red! – Red interrompeu Enny.
–... Vou levá-las a uma doceria maravilhosa.
– Vamos! — me animei com a proposta.
– Mas por sua conta! – Red exclamou irritada por Enny tê-la chamado de Aline, durante toda conversa, e foi até o carro pisando firme.
– Por que ela fica pedindo para chamá-la de Red?
– É uma longa história... Mas faça isso antes que ela se irrite ainda mais com você.
– Menina estranha, essa sua amiga, hein?
– Você não faz ideia. – falei rindo comigo mesma.
Enny até parecia outra pessoa quando não estava nervosa e irritada. Ela era divertida e extremamente falante. Mesmo sem pedir, Red e eu ouvimos fofoca de todos os moradores do prédio. Já que ela é a monitora do prédio, muitas informações podem vir a calhar. Ela nos disse que aquelas nojentinhas do 201 já foram pegas com drogas e um prostituto dentro do apê! E muitas outras coisas que quase ninguém sabia.
Lembra daquela tal de Júlia? A mal humorada que me emprestou fósforos... Então, Enny disse que ela arranjava briga com todos, ainda mais quando falam mal do Josh. Um ator que ela ama.
– Ela já trocou cinco vezes de república...
– Cinco vezes???
–... Em apenas dois anos.
– Chega de papo, gracinhas. Vamos comer chocolate!
Era a segunda vez que via Red sorrir daquele jeito, sem malicia ou ironia. Um simples sorriso de quem está se divertindo, feliz. E era incrível! Todo esse tempo eu estive totalmente errada sobre Red. Ela não se resumia a uma dançarina de boate! Nem pensar! Red era uma garota divertida aproveitando sua vida ao máximo.
Enny estacionou na frente de uma pequena lojinha de doces. Sweet Tea dizia a placa. A loja era linda e os preços horrorosos.
Red ralhou com Enny:
– Que caro! Esses doces são de ouro por acaso?
– São importados. – respondeu Enny andando em direção à seção de chocolates e pegando uma barra de chocolate belga.
Eu estava vidrada nos doces, assim como Red, que chegou perto de mim e disse:
– Qual doce você quer?
– Nenhum! São muito caros!
– Vamos Aline, escolhe um doce.
– Mas...
– Aline! Carpe Diem! Viva o momento.
– Ok, ok! Aquele chocolate amargo com nozes e morango.
– Boa escolha. Sofisticada. Agora pega um que vou pegar outro.
– Mas o que...?
– Só faça o que estou falando.
Se Red planejava roubar aqueles doces eu não poderia impedi-la, mas também não ajudaria. Dois roubos em uma semana? Não queria me tornar uma Winona Rider da vida.
Red pegou o chocolate da minha mão e andou até o caixa. Aqueles chocolates custavam mais de cem dólares e eu não fazia ideia do que Red pretendia. Não se mostra o que está roubando antes de roubar, certo? Eu estava confusa e ansiosa. Então eu vi.
Um rapaz alto, de cabelos negros e olhos verdíssimos. Ele era um dos vendedores.
Red se aproximou dele e quando vi seus olhos de Capitu, soube suas intenções. Eu nunca tinha visto Red usar seus superpoderes de conquista e sedução, essa era a primeira vez, e bem que desejei uma poltrona e um pote cheio de pipoca naquele momento.
Eu não pude ouvir o que ela sussurrava no ouvido do rapaz, mas pelo sorriso dele, dava para ter uma ideia. Ela mantinha a postura poderosa, inabalável e sedutora.
Em menos de dez minutos o rapaz embrulhou os chocolates e ainda colocou um pacote de marshmallows e outro de ursinhos de gelatina na sacola.
Red escreveu o número dela na palma da mão dele e veio em minha direção com um sorriso de satisfação:
– Vamos?
Ela me puxou pelo braço ao ver minha expressão incrédula. Eu estava chocada. Mas, não se engane caro leitor. Eu não estava chocada pelo que Red fez. Eu sabia muito bem que enquanto houvesse homens no mundo ela conseguiria tudo que quisesse. O que me chocou de fato foi quando percebi o quanto Red era real. Como qualquer outra garota que paquera um garoto com um objetivo em mente.
Eu finalmente começara a entendê-la e isso me alegrou.
Sherlock 00001 X 99999 Mistérios
E onde estava Enny nesse meio tempo, você me pergunta. Barganhando pelo preço do chocolate, mas ao invés de darem a ela o chocolate, como aconteceu com Red, cobraram uma taxa extra por quebrar o vidrinho de bombons do caixa.
Red e eu estávamos nos entendendo e rindo quando vimos Enny correndo na nossa direção:
– Entrem no carro!
E foi assim que nos tornamos Winona Hood (Winona Rider + Robin Hood), roubando dos ricos para dar aos pobres... Nós!
***
Na verdade o que aconteceu foi...
Enquanto Red e eu estávamos de um lado da loja, Enny estava do outro:
– Setenta dólares? Setenta dólares uma barra de chocolate? – gritou Enny com sua voz estridente – Que roubo! A última vez que vim aqui vocês eram mais honestos! Eu paguei quarenta dólares em DUAS barras! – disse dando ênfase no “duas”.
– Esse é o preço. O chocolate é importado. Se não quer comprar não compra! Tem uma lojinha de 1,99 na esquina. Quem sabe lá você encontra um chocolate ao seu gosto.
– Que rude! Chama seu gerente!
– Eu sou a gerente.
–Então eu deveria falar pra você contratar outro gerente! – a voz da Enny estava mais esganiçada que filhote de águia. Ela estava nervosa e irritada reclamando do preço do chocolate e da péssima qualidade dos funcionários, que acabou esbarrando na caixinha de bombons que estava sobre o balcão.
Foi uma imensa bagunça. Alguns chocolates caíram sobre a máquina de cartão de crédito, melecando tudo, e outros se misturaram ao vidro no chão. Mas todos tiveram o mesmo fim. Lixo.
– Epa.
– Olha o que você fez!!! Você vai ter que pagar os danos!
Enny largou os setenta reais lá, pegou o chocolate e saiu correndo.
Aí você já sabe o resto.
– Entrem no carro!
Enny saiu correndo de dentro da loja com o chocolate nas mãos.
– Segure-a! – a gerente gritou para aquele rapaz que estava atendendo Red.
Ele correu até o carro. E, enquanto Enny dava a partida, Red entrou em ação. Deu uma piscada e disse:
– E já sabe, né?! Quando quiser uma aventura é só me ligar. – disse mandando beijinhos no ar.
O garoto ficou babando enquanto nós íamos embora no carro.
***
Nós nos divertimos muito naquela tarde. Fomos a lojas de roupas caras e tiramos fotos com elas nos espelhos dos provadores. E não compramos nada! Passeamos em um parque e Red se jogou dentro de um lago. Ela convenceu a mim e a Enny, e pulamos no lago também. Mas a festa não durou muito, pois um guarda veio nos repreender.
Tomamos um sorvete e fomos para casa exaustas. Caímos na cama e só acordei no dia seguinte às onze horas da manhã.
Aline/Red ainda não tinha levantado, então fui até a cozinha comer meu cereal, como de costume.
Quando ouvi um barulho vindo do armário.
“Mas de novo esse armário? Deve ser uma pegadinha dos veteranos.”
Eu larguei a tigela em cima do sofá e levantei sorrateiramente, andando em direção ao armário. Eu peguei uma vassoura que estava encostada na parede, e me senti fortemente armada. Devagar abri as portas e imagina minha suspeita/aflição quando o que saiu de lá pulou em cima de mim e se enrolou no meu pescoço? Era o gato vampiro!!!
– ALINEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!! ALINE! ALINEE! SOCORROOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!
Aline apareceu de pijama, toda descabelada, na sala.
– O QUE FOI???
Ela nem esperou minha resposta. Eu estava correndo de um lado pro outro e depois comecei a rolar no chão desesperada, mas o gato parecia estar grudado no meu pescoço. Aline viu a vassoura que eu tinha pegado, e depois largado, no chão, e se apressou em pegá-la.
– Tira de mim! Tiraaaaaa!
– Então para de se mexer! – disse ela disparando vassouradas para todos os lados e me acertando ao invés do gato.
– Ah!!!!! Tira essa coisa de mim logo!!!
– Estou tentando, mas você não para quieta!
– Tem um gato vampiro no meu pescoço e você quer que eu esteja calma???
Aline não acertou o gato, mas acertou na mosca euzinha! Eu cai pra trás e, antes de atingir o chão, o gato soltou meu pescoço e pulou para janela, sumindo mais uma vez.
– Aiiii! – eu estava sentindo um galo crescer na minha testa.
– Desculpa aliada!!! Eu vou pegar gelo... – mas parou no meio do caminho rindo.
– Você está rindo do que? Não é engraçado!
– Não resisto! Você está muito engraçada! Preciso tirar uma foto disso.
E, antes que eu pudesse protestar, Aline pegou o celular e tirou uma foto minha.
Descabelada, com um galo na testa, pijama rasgado, braços arranhados e pescoço com mordida de gato-vampiro sangrando.
Melhores amigas. Pra que mais servem senão registrar os piores momentos da sua vida?!
No momento que eu me levantei pra xingar Aline e roubar o celular dela, me vi refletida no espelho atrás dela. E não resisti. Comecei a rir com ela. Rimos até chorar.
Foi assim que nossas novas colegas de quarto nos conheceram. Duas loucas de pijama rindo sem parar. Uma segurando uma vassoura, completamente descabelada, e a outra toda arranhada, com a roupa rasgada.
Fale com o autor