WOLF Invisible Creatures
1 Capítulo 1 - O Celeiro
Notas iniciais
A noite estava fria como sempre nesse fim de mundo. Os invernos aqui são tão intensos que congelam até sua alma, caso você tenha uma. A neve cobre tudo o que os olhos podem alcançar e mais. Como eu odeio neve. Essa coisa branca e pura. Isso é o que os outros pensam. Para mim, tudo que é branco é apenas mais suscetível a se deixar impregnar pelas trevas. Quanto à pessoa que aqui vos fala, eu dormia no celeiro da propriedade na qual trabalhava quando aconteceu. Por que no celeiro? Eles me odeiam. Todos eles. Por mais que eu trabalhe, por mais que obedeça, não consigo agrada-los. É claro que já faz tempo que desisti de fazê-lo e tornei-me rebelde. Eles não podem se livrar de mim, afinal sou o único cuidador de cavalos da região. Esses bichos não são como os cavalos normais e por isso precisam de um tratamento especial, mas essa explicação fica para depois. Eu cuido dos cavalos porque eles não têm culpa dos donos que os possuem. Fora isso eu menosprezo todo o resto. Fazer com que eu durma no celeiro é uma forma de tentar me matar sem sujar as mãos. Deixar o frio fazer o trabalho sujo. Só que eu sou mais acostumado com esse clima do que eles. Posso dormir a baixas temperaturas sem nenhum cobertor. Dizem que os deuses estão ao meu favor. Besteira. Assim como todo o vilarejo, os deuses me odeiam e me desprezam e não vão me querer no outro plano nem tão cedo.
Eu faço o que é necessário para sobreviver numa terra fria e distante de outras. Quando meus pais se foram, e isso já faz bastante tempo, decidi não mais me relacionar com ninguém, para não sofrer com a perda e para não mais ter alguém dependendo de mim ou sob a minha responsabilidade. Pode parecer que estou fugindo das pessoas, mas viver assim é muito mais simples: ninguém olha por mim, entretanto sinto-me livre no meio de toda a miséria. A solidão é minha doce companheira. Não há nada que eu deseje, vivo cada dia apenas esperando o próximo, zelando apenas dos cavalos. No dia que cuidar dessas bestas não mais garantir meu lugar no celeiro e o único prato de comida que ganho por dia, pretendo ir embora para algum onde não exista nem vestígio de neve. Por hora, devo ficar por aqui, onde meu chefe, o temido Züchter da região, precisa das minhas habilidades para manter a ordem entre aquelas bestas que ele chama de cavalos. Não se engane eu gosto de animais. Apenas de animais. São melhores e mais silenciosos que gente. Eles pensam que dormir no celeiro é um castigo para mim, só que na verdade é o melhor presente que eles podem me dar. O silêncio do celeiro me tranquiliza. E os cavalos fedem menos que o resto das pessoas. Houve uma noite que um grupo de desocupados, composto pelos filhos do Züchter, resolveu me matar. Eles entraram no celeiro enquanto eu dormia, ou pelo menos eles pensavam que eu dormia. Tudo o que eu fiz foi soltar um cavalo. Apenas um. Foi o suficiente para matar dois dos cinco que entraram lá e deixar os outros três feridos. Cavalos protegem seu cuidador. Claro que eu fui castigado pelo que fiz: 50 chibatadas por cada filho morto e mais 20 por cada ferido e uma semana sem comer dormindo na neve. Eu sobrevivi de ruim que sou.
Como você já deve ter percebido a vida por aqui não é fácil. Ir embora de uma hora para outra ainda não é uma opção, pois sei que se eu for para outro lugar encontrarei coisas piores. Bestas bem piores que cavalos. Nosso vilarejo possui apenas um Züchter, que cria cavalos. Mas há regiões com mais de um Züchter e cada um cria uma espécie de fera diferente.
Os mais famosos são os tigres brancos do sul e os javalis da floresta, sendo que esses últimos não foram domesticados ainda. Para chegar ao sul é preciso passar pela floresta, se estiver com sorte e sobreviver aos javalis, pode acabar entrando em território particular e ser devorado por tigres. É necessário um planejamento, um convite de algum Züchter. Como ainda não estou interessado em ir embora e como meu chefe mantém meus talentos bem escondidos, permaneço por aqui. Deixando toda essa reflexão sobre a minha vida de lado... Cá estou eu, no celeiro, mas não consigo dormir. Há alguma coisa de errado, os cavalos estão inquietos e se continuarem assim vão escapar. Está mais frio do que o normal. A tranca da grande porta congelou. Brutus, meu cavalo favorito, e também o mais violento, era naquele momento, o mais agitado de todos. Chego perto da cela em que ele dorme, coloco o braço direito entre as grades e estendo a palma da mão bem diante dos olhos do cavalo. É assim que ele me reconhece. Quando vejo que não há perigo em tocá-lo, faço um carinho em sua cabeça e depois em sua orelha esquerda. Esse bicho orgulhoso só permite que o toquem nesses dois lugares.
- O que você está sentindo, Brutus? – pergunto sem esperar uma resposta.
Ao ouvir minha voz ele parece se acalmar um pouco. Ele faz um movimento com a cabeça como se apontasse para a porta.
- Você quer sair? Sabe que não pode.
Ele repete o mesmo movimento. Olho para a tranca congelada e dou um risinho.
- Tive uma ideia. – digo destrancando a cela de Brutus – Eu deixo você sair se conseguir derrubar aquela porta congelada.
Mas Brutus não sai. Era um fato inédito. Ele não saiu em disparada para o ar livre quando abri a porta da cela.
- O que houve? Por que não quer sair?
Os olhos do cavalo estavam vidrados na porta e ele voltou a se agitar. Estava com medo. Tranquei a cela e dei um cubo de açúcar para Brutus, que como sempre o cuspiu. Havia alguma coisa do lado de fora que queria entrar.
Com cuidado me aproximei da porta, tentei olhar pelo buraco da fechadura, mas estava tão escuro lá fora que nada pude ver. A única coisa que eu ouvia era o barulho do vento e o relinchar frenético dos cavalos. Pela primeira vez em todos esses anos de cuidador, aquelas bestas estavam me dando nos nervos. Eu passo o dia inteiro servindo pessoas medíocres que só sabem me humilhar, mas que não conseguiriam sobreviver sem mim e quando finalmente paro de olhar para a cara nojenta delas não posso dormir em paz porque os cavalos resolveram ficar nervosos. Esse celeiro é o meu oásis de tranquilidade e esses cavalos estão arruinando tudo.
- ESCUTEM AQUI! – Gritei – Acho bom todos vocês se acalmarem e irem dormir se não eu vou dar um motivo de verdade para ficarem com medo seus cavalos idiotas! – esbravejei com raiva.
Eu estava prestes a gritar qualquer outra coisa quando uma rajada muito forte de vento se chocou contra a porta do celeiro. Por um instante pensei que ela ia aguentar a pressão, mas aquele lugar estava caindo aos pedaços, então quando o vento insistiu com uma nova rajada, dessa vez mais poderosa que a anterior, a porta foi arrancada de seu lugar deixando o vento e a neve entrarem no celeiro, assustando ainda mais os cavalos. Eu estava atrás da porta e fui nocauteado junto com ela. Mais de quatro metros de madeira estavam em cima de mim e não havia ninguém que pudesse me ajudar muito menos que eu pudesse chamar. Com algum esforço eu com certeza seria capaz de retirar toda aquela madeira de cima de mim e recolar a porta no lugar antes do amanhecer, mas enquanto a porta me esmagava eu comecei a refletir se valeria a pena fazer isso. Não que eu queira morrer, mas ia acontecer de qualquer jeito uma hora ou outra, por que não agora? Então me lembrei do que a minha própria mãe me disse quando ainda vivia, ela disse que quando a minha hora de morrer chegasse, eu seria capaz de sentir e de aceitar e que iria de bom grado. Cá estou eu sendo esmagado pela porta do celeiro e acredite você se quiser, eu não estou morrendo de bom grado. Não estou nem um pouco satisfeito com isso. Grito tão alto que teria acordado o vilarejo inteiro se eles se importassem.
- Não quero morrer aqui!
- Você não vai morrer. – uma voz desconhecida profetiza.
- Tem alguém aqui?
Não obtenho resposta, mas de alguma forma todas aquelas madeiras começam a sair de cima de mim, permitindo que eu volte a respirar normalmente.
- Você não está ferido. – a mesma voz diz. É estranho, eu posso ouvir claramente, mas não consigo ver ninguém. – Perdoe-me pelo que fiz, mas eu precisava entrar.
- Como é?
- Fui eu quem derrubou a porta. Eu ia morrer de frio lá fora e precisava entrar para me aquecer. Não foi minha intenção ferir você.
- Que diabos você está falando? Apareça para que eu possa olhar para a sua cara!
- Eu estou bem aqui, de frente para você. Veja se for capaz.
- Isso é algum tipo de enigma, você está de brincadeira comigo?
- Não. Eu realmente estou na sua frente. – respondeu com serenidade.
Olho para todos os lados, nada. Fixo o olhar a minha frente. Não há ninguém. Será que morri e estou falando com algum deus brincalhão? Ou será que enlouqueci de tanto trabalhar e estou ouvindo vozes? Ou será que... Não, impossível. Eu acredito em bestas poderosas, mas isso já é demais. Prefiro acreditar que estou louco. Eu sinto a presença de outro ser comigo e não é um humano sei disso. Estico hesitante uma das mãos e esbarro em uma pelagem sedosa. Um lobo. Um gigante lobo invisível. Passo a mão por toda a sua cabeça, depois no dorso e na cauda, encontro as patas e volto para a cabeça. Estou boquiaberto.
- Uma besta invisível? Vocês são reais?!
- Só porque você não pode ver, não quer dizer que não existimos. Os seres humanos são ignorantes a muitas coisas, se deixam enganar pela visão e não tiram proveito dos outros sentidos que possuem.
Eu ouvia a besta falar, mas não conseguia assimilar nada, estava surpreso demais para isso.
- Por que você fala? – perguntei por fim.
- A pergunta certa não é essa. A certa é: por que você consegue me ouvir?
- Eu não sei.
- Claro que não sabe! Humanos não sabem de nada.
- Eu não sou um humano qualquer, sou um cuidador de bestas.
- “Cuidador de bestas”... Você pode saber alguma coisa sobre esses cavalinhos, mas não entende nada do Povo Invisível.
Senti um tom tão superior na voz daquele animal que fiquei irritado.
- Eu não sei e tampouco quero saber. Eu quase fui morto hoje e amanhã tenho que acordar cedo, então se você quer ficar aqui durante a noite, fique, mas pare de me importunar.
- Você não vai fazer nenhuma pergunta? Não quer saber como faz para me ver de fato?
- Não estou interessado, obrigado.
- Que humano sem graça.
- A curiosidade já trouxe a desgraça para muitos homens e eu não quero ser mais um. A única coisa que tenho para falar para você, besta invisível, é que se você continuar a assustar os cavalos não vai poder ficar aqui.
Não recebo resposta. Fico parado por um tempo esperando alguma coisa acontecer, mas nada se passa. Decido deixar a tarefa de reconstruir a porta para amanhã enquanto os cavalos estiverem no campo. Subo por uma escada velha até chegar a um espaço relativamente grande entre o teto e o telhado, lá é nesse momento, o lugar menos frio do celeiro e é lá que eu terei de dormir se quiser sobreviver esta noite. Deito em cima de um monte de feno e fico encarando a escuridão do céu por uma fenda no telhado, tentando entender se o que aconteceu alguns minutos atrás foi mesmo real. De repente sinto algo se deitar ao meu lado.
- Sua besta invisível, achei que você tinha ido embora.
- Eu disse que precisava me aquecer. E não me chame de besta invisível, eu tenho nome, é Khala.
- Não me importo. – respondo caindo no sono.
Naquela noite nevou o tempo todo, nevou tanto que uma grossa camada de neve se acumulou no telhado e na entrada desprotegida do celeiro. Pela primeira vez eu não senti a neve me atrapalhar. Fui aquecido por aquela criatura gigante. O calor era a única prova de que ela estava ali. Por mais que eu tentasse, não conseguia vê-la, só sentia sua respiração. Meu conhecimento sobre o Povo Invisível e suas criaturas realmente não é muito, mas o pouco que eu sei me faz questionar como aquela loba chegou aqui e qual seria a razão dela ter se afastado tanto assim de seus iguais. Esses pensamentos foram inundados por uma onda de cansaço e caí em sono profundo. Sonhei o mesmo sonho de sempre, que vinha me assombrar todas as vezes que eu conseguia dormir o suficiente para sonhar. O sonho que não me deixa esquecer a promessa que fiz há tanto tempo e que escondo atrás da minha indiferença. Sonhei com o dia em que minha mãe morreu, esmagada pelos cavalos do Züchter. O dia em que meu pai me vendeu para esse homem, dono das bestas que a massacraram. O dia em que eu decidi que aprenderia a controlar esses cavalos para no futuro ver o Züchter morto da mesma forma que a minha mãe foi. Prometi rir como ele riu da morte dela. Então e só então, eu irei embora desse lugar amaldiçoado.
Fale com o autor