WOLF Invisible Creatures
2 Capítulo 2 - Os Cavalos
Notas iniciais
Não se sabe quando elas apareceram, nem de onde vieram. O que se fala é que nos tempos antigos os humanos conviviam apenas com animais normais, usados para fins domésticos e alimentação e essas criaturas, ditas mágicas possuíam seu próprio território e de lá jamais saiam. Alguma coisa aconteceu, provavelmente por nossa culpa já que passamos a nos reproduzir tanto quanto coelhos e elas perderam esse espaço, começaram a se mostrar para os homens e a consequentemente destruir tudo o que encontravam pelo caminho. Você também ficaria com raiva se seu lar tivesse sido destruído por seres tão inferiores... Mesmo assim é difícil para nós humanos entendermos o que aconteceu e o porquê dessas criaturas continuarem aparecendo cada vez maiores e em maior quantidade. Um decreto oficial do Rei da época passou a oferecer uma quantia mensal de ouro para qualquer um quer fosse capaz de conter essas criaturas e foi aí que surgiram os primeiros Züchter. Eles possuíam as técnicas de cuidador de bestas e eram cidadãos extremamente respeitados. Com o passar do tempo e com o aumento dessas criaturas entre nós, homens sem nenhuma honra ou habilidade decidiram apenas pelo ouro se tornar Züchter e foi aí que a figura do criador de animais se separou da do cuidador de bestas. Um Züchter passou a ser aquele que possui os animais/bestas e que recebe todo ouro e crédito e o cuidador aquele que torna isso possível, controlando as bestas. O grande golpe dado por um grupo de Züchter do Leste há 100 anos derrubou o Rei, deixando o poder nas mãos de quem tivesse força o suficiente para toma-lo. Então há um ou dois, no máximo três Züchter por região e cada território uma lei diferente. É claro que a população continuou a pagar o ouro para os criadores afinal poder sem riqueza não existe.
Os cavalos do norte são três vezes maiores que qualquer outro cavalo. São negros como a noite mais sombria e possuem os olhos vermelho escarlate. Eles apareceram na nossa região 60 anos atrás e causaram muito alvoroço quando o fizeram. Todo vilarejo ou cidade possui um Ancião, ou seja, um velho decrépito que todos dizem ser um sábio imortal. Para mim ele é um cadáver ambulante que esqueceram de enterrar. O Ancião sempre disse que criaturas negras de olhos vermelhos estavam diretamente ligadas com os deuses das trevas e que a única coisa que podiam trazer era o caos. Tanto que aparição dos cavalos não se deu da mesma forma que a das demais criaturas. Contam que era um belo dia de primavera e que de repente tudo ficou escuro e o sol transformou-se em uma bola de fogo, não foi possível enxergar nada durante alguns minutos e quando a situação voltou ao normal, eles estavam lá. Normalmente as criaturas atraem os humanos por sua beleza, mas a única coisa que qualquer um foi capaz de sentir em relação aos cavalos foi medo. Naquele dia, muitos pensaram que o vilarejo seria destruído. Desesperada a população do vilarejo se armou para tentar matar os cavalos, mas nunca ninguém conseguiu nem ferir nenhuma criatura desse tipo, devido à magia que habita dentro delas. Os cavalos, porém não atacaram ninguém, apenas se defenderam como se quisessem que os capturassem. E foi o que fizeram. Na verdade foi o que ele fez, meu pai. Ele tinha a minha idade quando aconteceu, foi o único capaz de manter os cavalos no celeiro e quando tudo se acalmou ele os entregou para o prefeito do vilarejo que por sua vez permitiu que meu pai desposasse sua filha, minha mãe.
Os cavalos permaneceram em silêncio no celeiro por bastante tempo, então os serviços de meu pai foram dispensados. Ele partiu para o extremo norte com minha mãe onde se tornou Züchter de suas próprias criaturas, as águias gigantes de rapina. Enquanto eles viviam tranquilamente afastados do vilarejo, um forasteiro chamado Rhur apareceu não se sabe de onde, matou o prefeito e tomou os cavalos para si. Ele passou a provocar as criaturas, irritá-las para que ficassem violentas para dessa forma matar qualquer um que se opusesse a ele ou que tentasse manda-lo embora. Algo que ele percebeu e que ninguém mais tinha se dado conta foi que os cavalos em si não representavam nenhum mal, mas com a influência certa, eles podiam causar uma grande destruição. Durante muitos anos o Züchter usou a força dos cavalos a seu favor, sem imaginar que quanto mais ele atiçava os cavalos mais trevas ele despertava. Até finalmente chegar o dia que Rhur admitiu precisar de um cuidador para os cavalos. Ele pensava em ampliar seus domínios para o sul e precisava controlar plenamente as criaturas. O único homem capaz de cuidar dos cavalos era meu pai, mas ele jamais se uniria a Rhur e este sabia disso. Depois de muito pensar a solução veio quando ele descobriu que havia uma criança com os mesmos talentos do pai, eu. O primeiro contato foi amistoso, ele convidou meus pais para um banquete em sua majestosa casa e ofereceu uma quantia irrecusável de ouro por mim, porém meus pais se ofenderam com a oferta e juraram nunca mais pisar naquele lugar. A segunda tentativa foi mais ofensiva, Rhur planejava destruir as águias. Ele soltou três cavalos perto do ninho e pensou que resolveria o problema. Nós possuíamos 50 águias na época, logo se vê que o plano dele não deu certo.
A última tentativa se deu em uma noite mais escura que as outras. Eu ainda muito pequeno dormia entre meus pais, na enorme cama de casal quando um barulho muito grande e muita fumaça acordaram a todos nós. Rhur montava Magnus, a maior de todas as criaturas e gritava que se não saíssemos de casa, ele tocaria fogo em tudo. Quando saímos ele voltou a fazer a primeira oferta, dobrando a quantidade de ouro para cobrir os danos que causou a nossa propriedade. Meus pais mais uma vez recusaram e ameaçaram soltar as águias, porém não seria possível. A anormalidade da escuridão se dava devido a enorme quantidade de cavalos que estavam a nossa volta. Rhur havia trazido todos os que possuía e eram mais do que podíamos imaginar na época. Mesmo sendo muito novo eu me recordo daquele dia, do pavor que senti e de um outro sentimento que no momento não soube identificar. Estávamos cercados e nossa propriedade estava em chamas. Minha mãe se colocou a minha frente e disse a Rhur que ele só me levaria depois de enfrenta-la. Foi quando ele permitiu que dois cavalos avançassem na direção dela. Eles a pisotearam até restar apenas uma massa disforme de carne, ossos quebrados e muito sangue. Meu pai entrou em desespero, mas não fez nada contra Rhur, não se armou, nem tentou impedir os cavalos. Ele assistiu a morte de minha mãe com lágrimas escorrendo freneticamente pelo seu rosto, sem mover nenhum músculo para salvá-la. Eu gritava de pavor. Depois disso meu pai entregou-me sem dizer nenhuma palavra, pegando um grande saco de ouro em troca. Hoje eu sei que o sentimento que não fui capaz de reconhecer naquele dia era o ódio. Ódio que sinto até hoje por Rhur e pelo meu pai.
O que as pessoas do vilarejo ficaram sabendo foi uma versão distorcida do acontecido algo como meus pais perderem o controle das águias, sendo mortos por elas e Rhur me salvando bravamente e me mantendo em sob seus cuidados por pena. Como nunca mostrei muita gratidão a ele e no começo mal falava ou trabalhava a antipatia de todos para comigo só cresceu e ao longo do tempo passei a dar reais motivos para eles não gostarem de mim. Passei a fazer o meu trabalho sem nunca dirigir nem o olhar aos outros. Quando Rhur fala comigo e isso quase nunca acontece, respondo em monossílabos, de modo que ele acha que eu sou um débil mental que só os cavalos entendem. Realmente, os cavalos me entendem e de certa forma até gostam de mim. A primeira grande conquista foi conseguir ficar do lado dessas criaturas sem despertar o desejo delas de arrancarem a minha cabeça. Depois ficou mais difícil, eu tive que aprender onde podia tocá-las. Cada uma delas. Perdi parte do meu dedo anelar esquerdo e ganhei várias mordidas durante esse processo. Por último e com certeza a tarefa mais complicada foi ganhar a confiança dos cavalos e isso significa conseguir montá-los. Devo admitir que não obtive êxito com todos, são criaturas ainda muito selvagens, apenas dez o permitiram. Felizmente eu não preciso de todos os cavalos para matar Rhur e para destruir o vilarejo não é necessário a confiança ou respeito de todos eles, basta apenas atiça-los. Tudo o que eu preciso é esperar o momento certo chegar. E está próximo, eu sinto nas minhas entranhas e sinto a destruição dessas pessoas nojentas. O que farei depois ainda não sei bem. Ir para o sul é meu destino final, só que isso não me impede de fazer uma parada em um lugar especial antes. Acho que vou apresentar Brutus ao meu pai. Sim, aquele velho ainda está vivo... Por enquanto.
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