Vítimas Das Decisões
5 In Memoriam
Notas iniciais
19/02/2021
Sexta-feira
13:15
Mateus
Por alguma coincidência sádica do destino, a televisão estava no canal de notícias. Foi assim que descobri sobre a morte de Alecsandra. As ligações de Marcelo eram por esse motivo. Meu corpo começou a tremer, estava em perigo, não, me convenci. Infelizmente por experiência própria, tinhamos um tempo antes da contagem de corpos começar. E de acordo com o detetive eles não tinham certeza de que era outro assassino. Peguei meu celular, abri o contato de Marcelo, desisti e fui para a cozinha procurar algo para beber.
13:41
Luiza
Giovana me falou sobre a morte de Alecsandra antes mesmo de anunciarem oficialmente, havia começado a trabalhar com ela não fazia nem um ano, mas acabos virando amigas. Estávamos no ateliê depois de assistir o anúncio na televisão.
— O que fazemos agora? — Perguntei.
— Esperamos. — Giovana respondeu.
— Esperamos o quê?
— Você sabe o que.
Claro que sabia da possibilidade, todos sabiam, porém era algo pouco provável e agora que estava acontecendo a idéia parecia mais absurda.
— Não… — Comecei a falar.
— Eu sei, — Giovana me interrompeu. — Você não viu o corpo, Luiza.
Queria chorar, mas ainda não podíamos confirmar nada. Me apeguei a essa possibilidade e engoli o choro.
21/02/2021
Domingo
10:30
Marcelo
Decidi ir sozinho para o velório de Alecsandra, iria encontrar os outros lá. Originalmente o corpo seria liberado no sábado, mas a pedido de Kauan o legista verificou o corpo mais uma vez para ter total certeza. Mateus visualizou a mensagem com o horário do velório e não respondeu.
Antes de chegar no local, já conseguia ver os carros de reportagem. Quando me viram chegando os flashes começaram sem parar, Kauan garantiu que nós teríamos local para estacionar dentro do prédio para evitar reportes. O velório era fechado para família e amigos. Os fãs e curiosos ficaram do lado de fora gritando, chorando ou fazendo os dois. Lucas estava me esperando, vestindo um terno preto que parecia caro e com um corte de cabelo diferente da última vez que o vi.
— Oi. — Falei.
— Consegue acreditar? — Ele falou animado. — Velório fechado para amigos e família, somos igual os famosos quando morrem.
Por um segundo não consegui acreditar que Lucas havia falado aquilo.
— Sério? — Entrei no prédio, deixando ele para trás.
— Desculpa! — Ele gritou.
10:45
Igor
Marcelo entrou na sala e ficou parado em choque quando viu o caixão ali no meio. Devido aos ferimentos o caixão estava fechado, ninguém foi até ele assim que chegou, todos silenciosamente decidimos deixá-lo digerir aquilo sozinho. Ele caminhou até os pais de Alecsandra e os abraçou, estavam longe o suficiente para não conseguir ouvir o que estavam falando, mas consegui ler os lábios de Marcelo pedindo desculpas. Depois de abraçar algumas pessoas ele veio se sentar comigo e os meninos.
— Tudo bem? — Perguntei.
Ele não respondeu e não precisava.
— Alguém viu Mateus? — Ele perguntou depois de algum tempo em silêncio.
— Não apareceu ainda. — Roberto respondeu.
— Hm. — Foi tudo o que ele respondeu e voltou a encarar o caixão.
10:45
Mariana
Não esperava ser convidada para o velório, conhecia mais Marcelo que ela, por educação comprimentei a família dela e fui sentar com Luiza e Giovana, as duas estavam chorando. Quando Marcelo chegou, toda o ambiente mudou. Ninguém precisa falar nada para saber que alguns membros da família de Alecsandra o culpavam por isso. Marcelo ficou sentado encarando o caixão por um longo tempo, não me viu alí. Por volta das onze da manhã, Natália apareceu e eu achei que estava ali para me apoiar em um lugar que não conhecia ninguém.
12:00
Marcelo
Tirando três primas de Alecsandra que pediram uma selfie, nada de estranho havia acontecido. Eu tinha certeza de que ele ligaria durante o velório ou o enterro. Meu celular estava no volume alto por causa disso, o que assustou algumas pessoas quando duas mensagens chegaram. Nenhuma era ele. Os responsáveis por colocar o caixão no carro entraram na sala. A mãe dela começou a chorar desesperadamente pedindo para a filha levantar e como tudo aquilo era uma grande piada doentia. Seguimos em silêncio até o cemitério e antes do caixão ser colocado na terra o padre perguntou se alguém queria dizer alguma coisa. Todos olharam para mim. Olhei para Lucas em desespero que estava movendo a cabeça indicando que deveria falar.
— Oi. — Foi a única coisa que veio na minha cabeça.
— Eu não sei o que falar agora, todos acham que terão esse discurso pronto para um velório, principalmente alguém como eu que já passou por vários deles.
Alguém riu.
— Mas eu não tenho. Só quero dizer que conhecia Alecsandra desde pequeno e que a amava muito. Vamos sentir sua falta.
Alguém começou a bater palmas, não de comemoração, estavam sem ritmo e com sons diferentes. Procurei de onde estavam vindo e achei. Era Mateus.
— Parabéns, Marcelo. — Ele falou, claramente bêbado.
— Mateus. — Comecei a caminhar na direção dele, tentando evitar uma cena alí.
— Belo discurso para alguém responsável pela morte dela. — A essa altura, Lucas e Roberto já estavam segurando Mateus pelo braço para tirar ele dali.
— Mateus. — Falei outra vez. Em um tom de tristeza, sabia o que ele estava sentindo.
— Me solta! — Ele gritou enquanto se soltava de Lucas e Roberto. — Todo mundo aqui sabe que ele é o culpado. E ela foi só a primeira, querem um conselho? Saiam de perto o mais rápido possível se não quiserem ser o próximo no caixão.
Finalmente cheguei até ele, o cheiro de álcool era forte, Roberto levou ele até meu carro, ele reclamou, mas no fim acabou deitando no banco de trás. Roberto foi comigo para garantir que ele não fizesse nenhuma besteira enquanto dirigia.
12:10
Igor
Depois do pequeno show, o enterro seguiu como planejado. Luan e Rodrigo saíram para fumar, Wesley estava com Isa em um canto. Esperei um pouco antes de sair dali, encontrei os dois na calçada.
— Como foi? — Rodrigo perguntou.
— Normal, eu acho. — Respondi e peguei um cigarro também.
— Esse é o primeiro enterro que vou. — Luan fala depois de soltar a fumaça do cigarro.
— Sério? — Pergunto, procurando o isqueiro.
— Sim, meu avô morreu quando eu era pequeno, mas não deixaram as crianças irem.
— O que estão falando? — Wesley perguntou enquanto chegava, estava de mãos dadas com Isa.
— Nada importante. — Respondi.
— Acham que Marcelo vai ficar bem com Mateus? — Isa pergunta.
— Sim. O Roberto está com ele.
12:20
Mariana
Somos uma das últimas pessoas a saírem do local, no caminho para o carro vejo os meninos na calçada fumando, tento fazer contato visual com algum para comprimentar, mas nenhum olha. Pergunto se Giovana está bem o suficiente para dirigir e ela responde que sim e também vai levar Luiza para a casa dela.
— Se cuida. — Eu falo me despedindo delas.
— Sempre me cuido. — Gio responde e entra no carro.
Natália sofreu um pequeno acidente com o carro e me ofereço para levar até sua casa.
— Obrigada. — Eu falo no meio do caminho.
— Pelo o que? — Ela está realmente surpresa.
— Por ter vindo só para me dar apoio moral.
— Como assim? A mãe da Alecsandra me ligou pedindo para comparecer.
— Que estranho. Ela também me ligou. — Respondo.
— Acho que a mãe dela deve ter ligado para todos no celular dela.
— Provavelmente.
12:20
Lucas
Toda a situação foi horrível, Kauan não apareceu, Victor precisou falar com os responsáveis pelo roteiro para tentar mudar a situação. Acabei sendo um imbecil com Marcelo assim que o encontrei e não queria ficar perto dos amigos dele depois daquela discussão. Fiquei esperando do lado de fora até o caixão ser levado. Quando Mateus apareceu a situação piorou, fiz o máximo para afastar qualquer fotógrafo de revista de fofoca, mas era impossível nenhuma foto vasar e entrar em uma reportagem com manchete horrível até o final da tarde. Meu celular tocou, era Victor.
— Como foi? — Perguntei.
— Nada bom. Eles estão pensando em cancelar tudo agora com esse novo assassino não é uma boa coisa para a indústria.
— Merda.
18:33
Marcelo
Mateus acabou dormindo nos primeiros cinco minutos alí, Roberto não falou nada o caminho todo e eu também não. Colocamos Mateus na cama do quarto de visitas, e ficamos esperando ele acordar. Em algum momento acabei caindo no sono, fui acordado pelo barulho de Roberto derrubando alguma coisa na cozinha.
— Desculpa, procurando uma caneca para colocar chá. Quer um pouco?
— Não, obrigado. Mateus?
— Acordou para vomitar e dormiu outra vez.
— Hm.
— Você sabe que não é sua culpa, nada disso. — Roberto começa a falar.
— Meio que é. — É impossível não rir daquilo.
— Não, Daniel e Giovane eram loucos, vocês só foram os bonecos de teste dele.
Mesmo com as mil adaptações, nenhuma passava corretamente como tudo poderia ter sido diferente, como arrastei pessoas para a morte, pessoas que mal conhecia. Ingrid era a principal. Nenhuma adaptação mostrava como Ana se sacrificou para que eu sobrevivesse. Minha teimosia tirou Guilherme do hospital para morrer carbonizado. Aquela culpa só piorava com cada filme e livo onde no fim eu conseguia acabar a carnificina com outros quatro sobreviventes. Cinco, foi tudo o que restou depois que Daniel e Giovane transformaram minha vida em um inferno. E agora, quatro.
— É, você tem razão. — Respondi e isso foi o suficiente para acabar a conversa.
20:44
Mariana
O que Natália havia dito não saía da minha cabeça, talvez fosse uma coisa normal e eu estava ficando paranóica. Mas precisava garantir. Quando comecei a trabalhar com Marcelo, copiei todos os contatos dos amigos dele para o meu celular caso precisasse.
Cliquei no número do Roberto.
"Oi, Mariana aqui. Posso te perguntar uma coisa?"
Enviei, depois de alguns minutos ele respondeu.
"Oi, pode."
"Quem te convidou para o velório de Alecsandra?"
"A mãe dela me ligou. Porque?"
"Marcelo está aí?"
"Está. Mateus acabou de acordar."
"Não quero falar nada para ele antes de ter certeza, mas acho que não foi a mãe de Alecsandra que nos ligou."
"Como assim?"
"Vou verificar com os outros, mas acho que alguém nos queria lá. Todos juntos."
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