Notas iniciais
Espero que gostem.

13/02/2016

Sábado

19:25

Marcelo

Subi as escadas, levar o professor comigo não era a melhor opção considerando que podíamos morrer e mesmo com minha morte não tinha garantia de que ele não ia caçar meus amigos, o corte na barriga do professor não parecia profundo, mas não sou médico, peguei uma blusa dele que estava no cabide e pressionei contra o corte.

— Temos que sair daqui ou vamos morrer.

Ele conseguia ficar em pé, apoiado no meu ombro nós saímos da sala, estávamos no terceiro andar, todas as portas ficavam no primeiro, exceto a escada de emergência que ficava no segundo andar, o professor conseguiria descer? Não tinha tempo para pensar nisso, ainda tinha que descobrir em qual andar ele estaria me esperando, a lógica seria no primeiro que tem o maior número de portas, mas ele não jogava assim. Quando chegamos escutei um barulho vindo de trás, com o susto quase soltei o professor, me virei o mais rápido possível. Não tinha ninguém lá.

— Estamos quase lá.

No meio da escada os pés dele acabaram ficando presos nos meus e caímos uns sete degraus. Ele gemeu de dor. Pelo menos ainda estava vivo. Bati minha cabeça na queda e minha testa começou a sangrar, mas não era nada comparado com o estado da minha camisa encharcada de sangue. Péssimo dia para usar branco. Ótimo momento para piadas. Me levantei e então percebi alguém no final do corredor. Era o assassino. Parado com seu manto preto e mascara segurando uma faca. Não ia conseguir subir as escadas com o professor, ficamos parados nos encarando o que pareceu por horas. Ele veio correndo na minha direção.

— Me desculpe. — Falei para o professor e corri de encontro ao assassino.

Não ia parar, tinha que acabar agora mesmo que tivesse que levar uma facada, no último segundo acabei me desviando, provavelmente por instinto de sobrevivência, ele desferiu um golpe que pegou no meu braço, sai correndo, a janela estava fechada e não podia parar e verificar se estava só fechada mesmo e não trancada, pulei a escada e me desequilibrei no pouso, sei uma dor no tornozelo, tinha que me preocupar com isso depois, a entrada principal tinha certeza que estava trancada o que deixava duas portas no final de cada corredor, a da direita levava ao jardim e a da esquerda ligava ao prédio do lado. Corri para direita. Estava trancada, merda. Chutei a porta e a dobradiça se mexeu um pouco. Chutei outra vez. Se moveu mais um pouco. Olhei para trás e o assassino estava vindo na minha direção com a faca levantada. Mais um chute. Outro. Outro. Senti ele atrás de mim e só pensei em me abaixar, a faca acertou a porta e ficou presa, ficamos paralisados outra vez, eu por ainda estar vivo e ele por ter errado, sai correndo. A porta da entrada principal era de vidro, peguei um extintor e joguei nela, portas não se quebram todas como nos filmes, só fez um buraco onde o extintor atingiu, mas o resto rachou, chutei e abriu um buraco grande o suficiente para eu conseguir passar, descobri da pior maneira que não era grande o suficiente, o vidro acabou cortando minhas pernas e braços em vários lugares, não olhei para trás só corri na direção do meu carro. Os pneus estavam furados, corri na direção da portaria, o guarda me viu e veio correndo na minha direção.

— O que aconteceu? — Ele parecia estar prestes a desmaiar.

— Ligue para a ambulância. — Peguei meu celular e liguei para o Detetive Kauan.

19:50

Lucas

Ana estava muito chocada para dirigir então eu me ofereci, não tinha carteira de habilitação, mas aquele não era o momento para revelar, estávamos indo ao restaurante o último lugar que tinha certeza de que Marcelo estava, no meio do trajeto o celular dela vibrou com uma mensagem.

— O que foi? — Perguntei.

— Vamos para o hospital no centro.

— O que?! O Marcelo está bem?

— Sim, eu acho, é uma mensagem dele falando para todos irem até o hospital, olha seu celular.

— Esqueci em casa.

— Quem esquece o celular?

— Desculpa se não lembrei dele depois de assistir um vídeo com várias pessoas sendo mortas.

— Só dessa vez.

— Não acredito que voltamos a essa vida de perseguição e mistérios.

— Sinto falta de quando chegava do trabalho e podia sentar no sofá, assistir uma serie sem que ninguém fosse estripado.

— Bons tempos. Chegamos.

20:11

Gustavo, Alecsandra, e Vinicius estavam na frente do hospital pareciam estar esperando a gente.

— Marcelo já chegou? — Ana perguntou.

— Ainda não. — Alecsandra respondeu, ela estava inquieta — Está tudo bem, a mensagem não falava nada demais.

— Pelo menos ele está vivo, já que mandou a mensagem, certo? — Falei.

— Bom, já foi provado que nem sempre a pessoa que manda a mensagem está viva. — Vinicius entrou na conversa.

— Cala a boca. — Alecsandra retrucou.

Um carro da polícia virou a esquina, uma ambulância vinha logo atrás, no banco da frente da viatura vimos o Detetive Kauan e Marcelo com a testa suja de sangue. Quando ele saiu do carro fiquei paralisado com a quantidade de sangue na camisa e com os cortes no braço, a calça também estava suja de sangue.

— Meu Deus. — Ana falou espantada.

Corremos até ele.

— Não se preocupem, esse sangue não é meu, bom, pelo menos não a maioria. — Marcelo falou.

— O que aconteceu? — Perguntei.

— Tive meu primeiro encontro com o mascarado.

Todos começaram a fazer várias perguntas uma por cima da outra.

— Pessoal — Kauan interrompeu as perguntas. — Temos que entrar para alguém cuidar desses cortes.

— Lá dentro eu respondo tudo, os outros ainda não chegaram?

— Ainda não. — Gustavo respondeu.

21:15

Marcelo

O médico disse que tive sorte por não ter nenhum corte profundo e não precisar se pontos, não considerava ser perseguido por um doido e sobrevivido de sorte, mas era alguma coisa. Agora que a adrenalina passou os cortes estavam ardendo, depois de responder mil perguntas eles se acalmaram, Mateus com muita sorte não estava bêbado na calçada e Ingrid que não encontrou ninguém para ficar com seus irmãos, todos estavam ali no que deveria ser um quarto apertado, mas graças aos “contatos” do Detetive Kauan fui levado para um com muito espaço.

— E agora? — Thainara perguntou.

— Agora a gente tem que se unir e acabar com isso.

— Isso é uma droga. — Gustavo falou.

— Desculpa, mais uma vez. — Encostei a cabeça no travesseiro.

— Não é sua culpa. — Lucas disse.

— Sabe o que é mais doido, o assassino está aqui nesse quarto, considerando que não é um dos dois que não estão aqui. — Thainara falou. Todos trocaram olhares.

— Eu queria falar sobre essa garota, Ingrid. — Gustavo falou.

— O que tem ela? — Perguntei.

— Até agora ela não esteve em lugar nenhum, a fazenda ou a festa, por que o assassino colocaria ela na lista se ela não está em nenhum momento?

— Não sei — Respondi — Mas agora que você falou isso é bem estranho mesmo.

— Aproveitando que a maioria está aqui — Giovane entrou na conversa — Tenho uma coisa que preciso mostrar.

— Já contei para os outros que ele sabia onde a gente estava usando as redes sociais. — Falei.

— Não é isso — Ele tirou um notebook da bolsa e abriu um site todo preto só com um vídeo no meio. — Na noite que os corpos foram achados eu recebi um e-mail, como parecia propaganda inútil eu excluía até começar a receber todo dia um e-mail da mesma pessoa, se você for uma pessoa normal vai abrir o link e ser direcionado a um site que não existe, mas eu sei um pouco de hack.

— Não acho que você devia falar que é um hacker na frente de um Policial — Mike apontando para Kauan.

— Nunca fiz nada de mal. — Ele respondeu — Só sei o básico, enfim, eu falei com uns conhecidos que também não fazem nada de mal e eles me disseram o programa para decodificar o link, e esse link leva até esse site.

— E o que tem nesse site? — Ana perguntou.

— É um site que o assassino criou, ele transmite ao vivo as perseguições e os assassinatos.

Todos ficaram em silêncio.

— Ele transmitiu o que aconteceu na faculdade? — Perguntei.

— Provavelmente, não consegui ver, só decodifiquei o site hoje e no horário que você falou que aconteceu o site estava sem nada, só quando acabou que esse vídeo apareceu, tem as outras também.

— Se tem esse site, por que ele publicou o vídeo no Youtube? — Ana perguntou.

— Esse site fica em um lugar que chamamos de Dark weeb, só quem sabe o que está procurando acha, e mesmo que você descodifique e de o link para os amigos não vão estar todos dispostos a assistir um assassinato ao vivo, tem muita gente doida na internet. O youtube é mais aberto e mais fácil de compartilhar.

— Tem algum palpite em como seu site fica preto quando ele ataca? — Kauan se aproximou do computador.

— Minha teoria é de que se ele criou toda a estrutura do site é possível bloquear determinado IP na hora que ele quiser.

— Mas para fazer isso ele precisa saber o IP de todos os computadores de todos vocês, certo?

— Sim, só que eu nunca deixo ninguém usar meu computador, o único jeito de ter o meu é entrar na minha casa durante a noite.

— Ótimo, um assassino ninja. — Alecsandra falou.

— É só uma teoria — Giovane respondeu.

— Tudo bem — Kauan se afastou do computador — Pode me mandar o Link decodificado?

— Vou mandar para todos, só por segurança.

— Agora vão todos para casa, Marcelo precisa descansar. — Detetive falou.

— Não preciso — Retruquei.

— Pode ficar acordado, o que importa é que não vai sair do hospital hoje, ordens medicas.

— São só uns cortes bobos — Tentei mover o braço, mas onde a faca acertou doeu um pouco me fazendo fazer uma cara de dor, o que acabou com meu argumento.

— Só uma noite, vou ficar de vigia.

— O policial que fica de vigia sempre morre.

— Ainda bem que sou Detetive.

Depois que todos foram embora, Bia voltou para o quarto.

— Oi — Ela falou.

— Oi, desculpa não ter conseguido falar com você mesmo quando disse que era importante, e desculpa... pelo Neto.

— Tudo bem. — Ela colocou a mão sobre a minha. — Pelas duas coisas, não foi sua culpa.

— Então, o que queria falar?

— Estou gravida.

— Isso é ótimo! Até daria uns pulinhos de alegria, mas no momento não posso, espera, ou não é ótimo?

— É ótimo sim, é que ainda não falei para ninguém.

— Nem sua mãe?

— No dia que ia contar ela recebeu a ligação sobre o Neto, estou esperando as coisas se acalmarem.

— O que eu vou falar agora vai parecer que sou ignorante ou grosso, mas você precisa escutar. Pegue suas coisas e volte para sua cidade, hoje.

— Como assim? — Ela se levantou.

— Desculpa, é que com um bebê no meio disso não vou aguentar caso alguma coisa aconteça com você, faça suas malas e se afaste daqui até pelo menos pegarmos esse infeliz.

— Mas...

— Sem, mas, só pegue suas coisas e saia da cidade, vai. Agora.

— Tudo bem. Se for menino vou colocar o nome de Marcelo.

— Não faça isso com a pobre criança. Rimos.

22:26

Guilherme

Depois de garantir que todos estavam seguros em casa resolvi passar no Mateus já que ele não retornava nenhuma das minhas ligações ou mensagens, ninguém atendeu o interfone, talvez estivesse desmaiado ou bêbado demais para atender, ainda bem que tinha uma chave, quando entrei na casa todas as luzes estavam apagadas, a porta estava aberta.

— Mateus? — Chamei quando entrei na sala.

Ele não estava no quarto, no banheiro e nem no fundo da casa onde ele costuma beber e fumar, fui até a cozinha e quando liguei a luz percebi como aquele lugar estava uma bagunça, copos quebrados no chão e tinha sangue também, liguei para o Gustavo.

— O Mateus não está aqui — Falei antes dele conseguir falar alô.

— O que?

— Vim na casa dele para chegar e ele não está aqui, a cozinha está quebrada e tem sangue no chão.

— Quebrada como se tivesse tido uma briga ou como se um bêbado bateu nas coisas e acabou se cortando.

— Não sou detetive, merda! Temos que avisar o Marcelo.

— Ele está no hospital, o Kauan também, e agora?

— Ana?

— Ana.

22:28

Ana

Meu celular tocou, com medo olhei quem era, Guilherme? Tínhamos conversado durante a semana, mas não o suficiente para ligações casuais, o que significa que era sobre o assassino.

— Alô — Falei.

— Oi, você precisa vir até a casa do Mateus. — A voz dele estava tremula.

— A cozinha está bagunçada, tem um pouco de sangue no chão e ele não está aqui.

— Bagunçada como se ele tivesse brigado com alguém?

— Por que todo mundo está me perguntando isso? Eu não sei!

— Todo mundo quem? Não ligou para o Marcelo, né?

— Não, Gustavo, ele já está a caminho, vem ou não?

— Manda o Endereço. Chego ai em dez minutos.

Passei na casa do Marcelo como Lucas não atendeu deduzi que ele estava dormindo, achei melhor não envolver mais ninguém até ter certeza de que ele foi sequestrado, quando cheguei na casa os dois estavam me esperando.

— Prontos para brincar de detetive?

A casa estava um breu, mesmo ligando as luzes muitos cantos pareciam escuros como se alguém fosse pular dali e matar você. Ninguém falava nada, só olhava os moveis esperando achar um bilhete. Meu celular tocou o que quase me matou do coração.

22:40

Vinicius

Não conseguia dormir direito desde que fui raptado, depois de me virar na cama por muito tempo resolvi me distrair, peguei meu celular para checar minhas mensagens, muitas garotas conseguiram meu número e mandavam mensagens do tipo “sei que está passando por um momento difícil, se quiser se divertir me liga ;)” achei a mensagem de Giovane, o link não abria no celular, peguei meu computador e digitei o endereço, lá estava o site com todas as mortes gravadas, senti vontade de vomitar só de pensar nos vídeos, quando estava pronto para fechar a guia o site ficou preto, igual ele falou que ficou na hora que Marcelo foi atacado. Liguei para Ana.

— Espero que seja importante, quase tive um enfarto por sua causa. — Ela falou.

— O site ficou preto.

— Isso significa o que eu acho que significa?

— Sim, alguém vai ser atacado.

— Merda. Não posso lidar com dois problemas.

— Dois?

— Você não é a melhor pessoa para falar isso, achamos que Mateus foi sequestrado, não temos certeza.

Se não estivesse sentando com certeza ia cair quando ouvi a palavra sequestrado.

— O que vamos fazer?

— Tudo bem, vamos ter que avisar o Detetive e pedir para ele não contar para o Marcelo enquanto isso você liga para todos e tenha certeza de que estão seguros em casa.

— Certo.

— Ninguém morre hoje. — Soou como uma promessa.

— Ninguém morre hoje. — Repeti.

22:54

Kauan

Estava na porta do quarto, não tinha nem um pouco de sono, a essa altura já estava irritado, primeiro não consegui impedir duas mortes e agora um deles quase morreu enquanto estava sentado de braços cruzados. Meu celular vibrou. Era Ana. Só podia ser má notícias.

— O que foi agora?

— Temos dois problemas, o Mateus sumiu, ainda não sabemos se ele foi raptado e Vinicius falou que o site ficou preto, o assassino vai fazer alguma coisa.

— Não deveria deixar o Marcelo aqui sozinho.

— Mas precisa.

— Tudo bem, estou a caminho.

23:54

Bia

Arrumei minhas malas, o que não era muita coisa, quando tentei convencer meus pais de que precisávamos ir embora eles não aceitaram, mas quando falei do bebê eles já estavam prontos em dois minutos, não falamos para ninguém que estávamos partindo, meu pai estava dirigindo, eu no banco do passageiro e minha mãe no banco de trás um pouco mais feliz por saber que teria um neto, pegamos a rodovia e tinha a impressão de que um carro estava nos seguindo por uns dois quilômetros.

— Esse cara está nos seguindo? — Perguntei para meu pai.

— Acho que não, talvez ele esteja indo para o mesmo lugar.

— Acelera e pega o primeiro retorno.

Meu pai acelerou, pegou o retorno. O carro também.

— Droga.

O carro acelerou mais e deu uma batida na nossa traseira.

— Mais rápido! —Minha mãe gritou.

— Estou indo!

— Merda, merda, merda.

Outra batida, mais forte dessa vez, nosso carro derrapou, eu e minha mãe gritamos, meu pai xingou, e conseguiu estabilizar, estávamos chegando em uma curva, se ele batesse na gente outra vez íamos virar, meu pai tentou acelerar outra vez, mas o carro era mais rápido que o nosso, no meio da curva ele bateu mais uma vez e capotamos, uma, duas, três piruetas, paramos de cabeça para baixo, meus pais tinham desmaiado, estava pensando assim porque não queria imaginar eles mortos, o carro dele parou na frente do nosso. A porta se abriu. Só conseguia ver o par de botas e o manto preto. Fingi que estava desmaiada.

Notas finais
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