Vítima do Oblívio
1 Pilot
Notas iniciais
–Srta. Baker. Essa é você?
–Sim.
Estávamos em uma sala fria, a umidade pairando no ar. Eu poderia pedir que desligassem o ar-condicionado, mas não me atrevia a falar qualquer coisa que não fosse perguntada. A figura à minha frente era negra e tinha longos cabelos cacheados presos em tranças. Já havia percebido que ela tinha o hábito de tamborilar os dedos sobre a superfície oca da mesa enquanto lia os papéis.
–Certo. Eu me chamo Janet Widow. Se você se comportar, nos daremos muito bem. –Ela manteve a expressão séria durante todo o tempo. Falava as palavras tão automaticamente que logo deduzi que era um discurso ensaiado.
–Hum.
–Tenho algumas perguntas, Srta. Baker. Não vai demorar nada. –Ela tirou os óculos de armação branca, me olhando fixamente. –Primeiramente, onde você encontrou o corpo?
Empertiguei-me na cadeira, movendo meus lábios sem conseguir emitir nenhum som. A mulher ergueu uma sobrancelha e eu limpei a garganta, falando com uma voz arranhada:
–No armário do zelador, na escola.
–Muito bem... O que faziam lá à noite? –Sua voz era calma.
–É Halloween. Nós pensamos que seria legal levar algumas pessoas até lá e assustá-las.
–Como conseguiram entrar? Arrombaram? –Ela permanecia impassível.
Neguei veemente com a cabeça, feliz por poder dar uma boa explicação àquela pergunta.
–O Jensen abriu o portão. O pai dele é coordenador da equipe de limpeza, então ele roubou as chaves extras.
–Ah, o Sr. Youngblood. Ele está sendo entrevistado na outra sala. –Ela meneou com a cabeça, relevando.
–É.
Janet vasculhou os papéis novamente, parando em um e o estendendo para que eu analisasse.
–O seu colégio tem três armários de limpeza. Foi nesse que entraram, certo? Acho que as chaves do Jensen devem explicar como fizeram...
Encarei a foto, sentindo o calafrio que me tomava a espinha. A porta de madeira clara era o esconderijo perfeito para a podridão que se escondia logo atrás.
–Sim, é esse mesmo.
–E esse... esse é o corpo. –A mulher puxou uma outra foto de trás da primeira.
Dessa vez eu fechei os olhos, mas não rápido o bastante. A imagem continuava impressa atrás das minhas pálpebras, o rosto deformado encarando o vazio. Os cabelos curtos e castanhos, a pele pálida e opaca... eu me recusava a acreditar que era a mesma pessoa que conheci. Abri os olhos após alguns segundos, mirando a parede bege da sala.
–Desculpa. Você ainda está sensível, imagino. –Ela puxou os arquivos, deslizando a cadeira de rodas para trás.
Me mantive estática, sem encará-la. A Sra. Widow deu um suspiro pesado enquanto se levantava.
–Está liberada, Srta. Baker. Ainda teremos alguns interrogatórios, mas o que é mais preocupante no seu caso foi a invasão à propriedade privada.
Meneei com a cabeça, não conseguindo sair do lugar.
–Ah, só mais uma coisa! –Ela se virou repentinamente. –O que foram fazer no armário?
Finalmente movi o rosto, sentindo cada centímetro da minha pele corar.
–Eu e o Jensen... nós íamos ter a primeira vez e precisávamos nos esconder do resto do grupo. –Me atropelei com as palavras.
Ela ergueu as sobrancelhas, totalmente surpresa.
–Você não era namorada do... ah, entendo. –Ela se deteve, contendo também a repulsa no rosto.
É, trair o namorado que foi assassinado era demais até para uma mulher treinada para se manter impassível. Comecei a me levantar da cadeira, sentindo o peso na consciência aumentando a cada passo que se seguiu.
–Chame o próximo para entrar. –A mulher falou, como se fosse uma consulta no dentista.
Flash back off
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