Vítima.

14 Resolvendo Alguns Problemas...


Maria de Fátima estava sozinha no aparthotel que Arnaldo havia alugado para ela, ela estava com ódio de Carolina, mas ela tinha um problema maior para lidar agora. Com o tumulto todo da festa, Carlos havia concordado em aguardar mais alguns dias para que Fátima arrumasse o dinheiro para ele, porém ela estava em desespero, ela não havia arrumado o dinheiro e teria que resolver esse problema de outra forma, e ela já havia bolado essa forma. Ela havia marcado um encontro com ele, dizendo-lhe que entregaria o dinheiro a ele, porém o que ela havia arrumado era um revólver, ela pretendia dar um susto em Carlos para que ele não a importunasse mais.

Era muito cedo, havia acabado de amanhecer e Arnaldo já havia ido para casa se arrumar para o trabalho, pois desde a morte de Ângela, a revista inteira cai sobre as costas dele e de Branca, mas como Branca estava hospitalizada, ele deveria assumir sozinho por hora, e Carlos recebeu o sinal para pegar Fátima. Ele veio com um carro preto discreto e Fátima deu-lhe um endereço de uma construção abandonada afastada da cidade. Quando os dois chegaram lá, eles entraram, Carlos foi na frente enquanto Fátima pegava a maleta preta no banco de trás onde, presumidamente, havia o dinheiro. Quando os dois chegaram no segundo andar, Carlos se manifestou.

— por isso que eu gosto de fazer negócio com você, você atrasa mas nunca desaponta meu amor – ele sorriu com deboche para Fátima.

— mas tem uma condição Carlos – ela sorriu de uma forma sedutora para Carlos – eu quero relembrar os velhos tempos, aqui mesmo, nesse ambiente pra gente lembrar de quando a gente era pobre. Quer dizer, pobre você ainda é, mas você entendeu né, você é um delicioso.

— não precisa pedir de novo – Carlos investiu em direção a Fátima e ela o beijou.

Fátima beijou Carlos e abriu a cinta e a braguilha de Carlos.

— apressadinha a essa hora da manhã já? Teu marido não tem mata as vontades?

Fátima apenas sorriu e começou a agachar, olhando nos olhos de Carlos, então em um momento de desatenção dele, ela pegou um tijolo que havia no chão próximo aos pés de Carlos e levantou-se rapidamente, golpeando-o com toda força que ela tinha e Carlos caiu desacordado no chão.

Quando ele acordou alguns instantes depois, ele estava com sangue escorrendo do rosto, ele se debateu, porém ele estava amarrado na cadeira em que estava sentado.

— você está louca sua pu…

Antes que ele terminasse a frase, Fátima encostou o revólver calibre trinta e oito na bochecha de Carlos.

— pensa bem no que você vai dizer docinho, eu espero do fundo do meu coração que suas últimas palavras sejam doces.

— você ficou louca Fátima, desde quando você é assassina?

— olha, eu consegui conviver carregando a morte da minha mãe nas costas, você acha que vai fazer diferença? — Fátima gargalhou – vamos direto ao ponto Carlos, meu amigo Carlinhos. Eu vou te soltar dessa cadeira e você vai desaparecer da minha vida, ou eu juro que eu vou te colocar dentro de uma casa e explodir você! Ou eu te meto uma bala no meio da cara agora mesmo.

— Fátima, me solta, por favor, meu braço está doendo demais, me solta que eu desapareço!

— isso é só pra você ter um gostinho do que eu sou capaz. Ou você desaparece, ou você vai se arrepender!

Ele assentiu com a cabeça, então ela colocou o revólver no bolso e começou a desamarrar Carlos, assim que ele sentiu as mãos soltas, ele investiu contra Fátima, antes que ela pudesse sacar o revólver para se defender, Carlos pegou Fátima pelo pescoço e os dois caíram naquele chão imundo, Fátima caiu por baixo e deu um urro de dor e Carlos começou a apertar seu pescoço, ela se debatia para tentar de soltar.

— você achou o que sua cadela? Você não é mulher pra me matar mas eu sou homem o suficiente pra te mandar pro inferno! — ele apertou com mais força ainda e Fátima começou a ficar com o rosto cada vez mais vermelho – quando chegar no inferno, não esquece de avisar pro Diabo que fui eu quem te mandou pra lá!

Fátima em um último golpe para tentar se defender, acertou uma joelhada no pênis de Carlos, que o fez ficar com dor, mas ainda não soltou seu pescoço e ela o fez de novo. Depois da terceira joelhada, Fátima conseguiu se virar e pegar o revólver.

— eu vou te mostrar quem é que vai mandar quem pro inferno aqui seu canalha – Fátima gritou e acertou um tiro no ombro de Carlos fazendo-o gritar de dor e cair de costas no chão.

Fátima se levantou, respirou e olhou fixamente para Carlos, se contorcendo de dor ali no chão e apontou o revólver para ele.

— isso não era pra acabar assim, seu filho da puta, mas no fim das contas, todo mundo vai adorar a história de como eu sobrevivi ao maluco que me sequestrou, me trouxe pra um lugar nojento desses para me estuprar e como eu consegui acabar com a sua vida e me salvar – ela gargalhou alto – isso mesmo querido, eu vou me livrar de você e ainda vou destruir a sua reputação.

— Fátima, pensa melhor – disse Carlos, cuspindo sangue – não faz isso, eu sumo! A polícia vai investigar ver que a gente teve um caso e você não vai se livrar tão fácil assim.

— é incrível como essa sociedade machista cria homens que não aceitam o fim dos relacionamentos e se tornam doentes que perseguem suas ex mulheres né? — a expressão de Fátima mudou para ódio total – faço minhas as suas palavras meu querido. Saudações ao capeta quando você chegar no inferno. Maria de Fátima disparou o segundo tiro que atingiu o rosto de Carlos, deformando-o.

Ela pegou o celular, ligou para a polícia e para Arnaldo que logo chegaram ali, mas no fim das contas, acabou dando melhor do que ela imaginou que daria a situação toda. Do lado de fora da construção abandonada, os policiais já contavam aos jornalistas que se aglomeravam que Fátima havia atirado em legítima defesa contra o ex-namorado que a perseguia por não aceitar o fim do relacionamento e os fotógrafos amavam a cena, Arnaldo perplexo abraçando aquela pobre Maria de Fátima, a vítima chorando sobre seu peito. Ela havia virado a vítima perfeita para casar-se com Arnaldo.

***

Marcela recebeu uma ligação de um colega jornalista contando sobre o ocorrido e ela ficou chocada, algo a dizia que aquilo tudo era uma jogada. Mesmo sem ninguém ter descoberto a identidade do tal “estuprador”, mas ela sabia que era Carlos, o convidado misterioso da festa de Ângela, ela ficou alvoroçada, ela pegou sua bolsa para sair, porém a campainha tocou, ela ficou intrigada, quem seria àquela hora sem se anunciar.

— você aqui, o que você quer? — Marcela disse ao abrir a porta...

***

Era meio de tarde, o horário que Carolina havia marcado com Marcela, então ela foi até o endereço que Marcela havia lhe passado, era um café discreto no centro da cidade, então Carolina sentou e aguardou, ela aguardou por mais de duas horas e nem sinal de Marcela chegar, ela ficou com ódio de Marcela que havia lhe dado um bolo e não se deu ao trabalho de avisar, ela ligou na redação do jornal e pediu por Marcela e a resposta foi a mais chocante possível. A atendente do jornal lhe disse, com uma voz chorosa que Marcela estava em coma no hospital. Ela havia sido ataca por alguém em sua casa naquela manhã e levada às pressas para o hospital morta, mas como quase em um milagre ela havia sido ressuscitada no hospital. Carolina desligou, perplexa sem saber o que fazer. A pessoa que matou sua mãe havia atacado novamente, ela tinha certeza. Sua primeira ação foi ligar para Fabrício, ela não tinha mais a quem recorrer.

— mas Carolina, você acha que quem matou sua mãe fez isso também? — Fabrício havia chegado o mais rápido possível ao café onde ela estava.

— só pode ser isso Fabrício, mas o que mais esse assassino vai fazer? — Carolina chorava – temos que proteger a Marcela, se ela morrer, a única pessoa que sabe alguma coisa leva pro caixão.

Fabrício não havia contato para Branca que iria se encontrar com Carolina, ele ia lidar com isso depois, mas agora ele ajudaria a mulher que ele amava a desvendar o crime. Ele aproveitou da influência de seu sobrenome naquela cidade e contratou um segurança para ficar dentro do quarto de Marcela vinte e quatro horas por dia até que ela acordasse e havia movimentado alguns contatos dentro da polícia para que ficassem alerta.

— eu odeio ter que te pedir isso, mas venha pra casa comigo? — Carolina secava as lágrimas do rosto – com toda a novela da vagabunda da Fátima, minha casa está pior que a faixa de Gaza hoje.

— pois é, eu até ia comentar sobre isso, mas outra hora falamos, que loucura né? Mas você não acha melhor ir pro meu apartamento então? — disse Fabrício.

— isso é armação da Fátima, tenho certeza, não me assustaria nenhum pouco se la fosse a assassina da minha mãe, mas ela vai apodrecer, mas espera Fabrício, você disse “meu apartamento”?

— sim, depois daquele dia da sua briga com a minha mãe eu e ela tivemos um desentendimento horrível sabe, veja bem Carolina, nunca eu vou apoiar ou ficar do lado de quem espancou minha mãe, mas eu conheço ela, eu sei como ela faz a gente perder a cabeça e por isso nos desentendemos, e francamente, não tem mais sentido eu na minha idade, com uma carreira continuar morando na casa da minha mãe por intransigência dela.

Carolina ficou surpresa, finalmente uma notícia boa em meio a tantas desgraças. Os dois foram para o apartamento de Fabrício e o celular de Carolina não parava de tocar. Os dois estavam na sala e ela pediu se havia algum lugar em que ela poderia ter um pouco de privacidade, pois era seu pai. Fabrício apontou a ela a direção de seu escritório e disse que ela poderia fechar a porta e ficar à vontade. Ela então o fez, ela fechou a porta e retornou a ligação a seu pai que pedia muito que ela voltasse para casa, ele precisava do apoio dela com toda a situação em casa, ela deixou bem claro que não faria isso por Fátima, mas sim por ele, mas não essa noite. Ela disse que iria para casa na manhã seguinte bem cedo, mas hoje ela precisava descansar devido a seus problemas. Quando ela desligou o telefone ela foi novamente até a sala.

— era o meu pai, ele quer que eu vá ajudar ele em casa com toda aquela…

Ela parou de falar e ficou chocada com a cena que viu.

— finalmente, todos os convidados chegaram a festa – disse Laura, com o revólver em mãos apontado para a cabeça de Fabrício – venha minha amiga, sente-se conosco – ela sorriu.

Carolina sentou-se no sofá ao lado de Fabrício e ficou calada, ela não sabia o que dizer, não tinha o que dizer nesse momento.

— qual é gente, todo mundo tão calado, vamos colocar uma música. Fabrício, coloca uma música – porém ele não se moveu – vai seu retardado, está surdo? — ela gritou, então Fabrício foi até o rádio e o ligou – eu não vou fazer muitos rodeios, eu vim aqui pra matar vocês dois e fim, simples assim.

— Laura, você é minha amiga, pra quê isso, olha o rolo! O que você vai dizer pra polícia? — tentou Carolina, em vão, fazer Laura refletir.

— Sabe que a Turquia não tem acordos de extradição com o Brasil, então, eu meu voo está agendado pra daqui a uma hora e meia.

— Laura ao menos me dê um motivo pelo qual você está fazendo isso – disse Fabrício.

— quer um motivo, um motivo bom? — Laura virou-se e apontou o revólver para Fabrício – você nunca foi o motivo, você nunca foi importante pra mim, eu vou meter uma bala nessa sua cara maldita porque você sempre foi uma ameaça pra mim, seu desgraçado! — Laura gritou e deu um tiro para o alto – eu vou ir direto ao ponto, eu nunca amei você, seu idiota metido a besta – ela voltou o revólver para Carolina e lançou sobre ela um olhar psicótico – eu amo e sempre amei você Carolina, você é o amor da minha vida! Eu queria te separar desse playboyzinho aí porque ele ia tirar você de mim. Eu te amo Carolina, sempre te amei, e agora eu vou acabar com o único motivo que pode nos separar – ela apontou novamente o revólver para Fabrício.

— mas Laura, pensa, se você matar ele e tiver que fugir, nos estaremos separadas pra sempre de qualquer forma! — Carolina ainda tentava fazer Laura ponderar.

— mas Carol, a gente já está separada. Você nunca vai ser minha e eu já aceitei isso, sou louca mas não sou burra. Eu vou embora, mas eu vou com a alma lavada. Eu comecei errando, mas agora eu vou acertar agora. Eu não fico com a Carolina, mas você também não.

Carolina notou que Laura iria puxar o gatilho e então em uma medida desesperada ela atacou Laura pelas costas, ela levantou-se rápido e empurrou Laura para frente, que disparou, porém o tiro passou perto de Fabrício mas não o acertou. Laura caiu com o empurrão e Fabrício pegou o revólver, nesse momento todos se levantaram e Carolina correu para trás de Fabrício.

— então é isso né? — Laura olhou com tamanho ódio nos olhos, tamanho ódio que nenhum dos dois ali já tivesse visto – o casal perfeito vai triunfar sobre a vilã é? Como vocês dois são cafonas – Laura virou-se em direção a porta da sacada que estava aberta e de onde corria uma brisa que levantava as cortinas da porta.

— vilã porquê você quis se colocar nesse lugar Laura. Você era minha melhor amiga mas resolveu fazer tudo isso – Carolina estava triste, ela não conseguia sentir outro sentimento nesse momento por Laura se não tristeza – você era minha irmã, minha amiga.

— posso te pedir um último abraço? — Laura virou-se para ela.

— você está louca Laura? — disse Fabrício ainda apontando o revólver para ela.

— claro que sim minha amiga, eu quero ajudar você, quero te ajudar a ficar melhor – disse Carolina abrindo os braços.

Laura veio até ela, deu-lhe um abraço apertado e começou a chorar, então ela afastou-se, olhou para Carolina, começou a secar as lágrimas do rosto e sorriu, caminhando de costas para a porta, mas em direção a ela.

— o que você está fazendo Laura? — Carolina perguntou — Laura, não faz isso, a gente vai conseguir ajuda pra você, você vai ficar bem.

— eu sou médico, eu posso te ajudar Laura – completou Fabrício abaixando a arma.

— olha amiga, eu vou voar! — Laura deu uma gargalhada alta e então ela encostou no parapeito da sacada e começou a subir nele – olha amiga, eu vou realizar o meu sonho, eu vou voar!

E com uma expressão de alegria profunda ela sorriu e largou as mãos do parapeito deixando seu corpo despencar da sacada do sétimo andar do prédio onde Fabrício morava. O grito de Carolina ecoou nos corredores do prédio.