Vítima.

5 Branca: Vítima do Passado, parte 1.


1986, a ditadura militar no Brasil havia acabado a pouco menos de um ano, a censura também não vigorava com tanta rigidez como antigamente, quem tivesse os contatos certos no governo Sarney conseguia fazer o que quisesse no âmbito editorial, e se alguém nesse país tinha os contatos certos, esse alguém era Guilhermina.

Guilhermina Marchèer era uma fashionista que morava no Brasil a pouco mais de 3 anos, ela era oriunda de uma família francesa abastada que sempre lhe proporcionou estudo nas melhores escolas da Europa e sua formação acadêmica no ramo da moda foi feito na França e ela tinha adoração pelo Brasil, adoração pelo povo brasileiro, admirava demais o modo como os brasileiros lutavam contra o governo tirano que vigorou aqui durante a ditadura militar, então ela uniu suas duas maiores paixões, fundou uma revista de moda no Brasil, a Fama.

A revista havia sido fundada em 1984 e em dois anos ela havia conseguido uma legião de fãs muito grande, pois Guilhermina havia se cercado dos melhores editores e modelos do país, incluindo duas jovens que ela considerava serem tão visionárias quanto ela, as recém-formadas na mesma faculdade de moda parisiense que ela, Ângela e Branca, e ela queria deixar umas delas como editora-chefe da revista em seu lugar quando ela se aposentasse ou optasse por um cargo mais burocrático na revista, então desde sempre elas duas tiveram liberdade criativa dentro da revista, mas Branca queria ficar sozinha como protegida de Guilhermina e por isso havia planejado um dos ensaios mais polêmicos da história editorial do país, ela colocaria modelos nuas em um editorial inspirado em arte sacra. Ela queria colocar mulheres nuas dentro de uma igreja.

— você é completamente louca – gritava Ângela – um país careta como o Brasil, imagina o alvoroço que vai ser esse editorial, isso vai destruir a revista!

— você nunca foi careta Ângela – Branca respondia do outro lado da mesa, toda a direção criativa da revista que estava junto estava em choque.

— não sou careta, mas não sou burra. Eu não sou careta, careta é o resto do país.

— chega vocês duas – Guilhermina interveio antes que aquilo virasse uma briga feia – quero ouvir a ideia da Branca. Você sabe dos perigos dessa publicação, digamos que eu publique essa ideia, mas você sabe que se der alguma coisa ruim eu caio de pé, pode até dar merda pro lado da minha revista, mas você leva a culpa por tudo e sua carreira está acabada Você está disposta a isso?

— não – disse Branca olhando nos olhos de Guilhermina – eu não estou disposta a isso, eu estou disposta ao sucesso que isso vai trazer ao meu nome, o prestígio que vai trazer a mim esse editoral bombástico que vai mudar a história desse país, vamos ser vistas como iconoclastas que daqui a vinte anos as pessoas vão fazer editoriais inspirados em nós e nos chamar de visionárias. É pra isso que estou pronta, pra mudar a história editorial deste país.

— considere feito – disse Guilhermina sorrindo para Branca – você me convenceu.

— mas isso é loucura Guilhermina, a comunidade desse país é metida a ter moral de mais pra apoiar uma loucura dessas – Ângela estava inconformada, ela temia que a uma decisão arriscada dessa pudesse acabar com a revista. — Ângela voltou-se para Branca – a edição do mês que vem já está pronta, então você tem um mês pra pensar no seu editorial, você tem quinze dias pra programar e contratar o pessoal e outros dez pra fazer tudo, os outros cinco ficam pra impressão e pros meus vetos – Guilhermina era implacável, nunca na história da revista havia sido publicado um editorial sem vetos dela – mas prometo ser branda dessa vez, estou adorando a ideia.

— eu sempre gostei do risco minha querida Ângela, vamos dar uma chacoalhada nesse país hipócrita que todo mundo adora ficar pelado mas todo mundo critica a nudez alheia.

“Essas duas estão completamente loucas!” pensou Ângela “vou acabar com essa palhaçada antes que essa ideia absurda saia do papel”.

Como combinado, Branca havia começado a escalar suas modelos e chamou Letícia, uma de suas favoritas, além de ela considerá-la uma amiga, porém Letícia tinha problemas com drogas e promiscuidade, ela tinha o péssimo “habito” de drogar-se e transar com os estranhos em festas, porém Branca gostava dela e queria muito ajudá-la a livrar-se de tudo isso, mas querer ter Letícia por perto seria um dos maiores erros da vida de Branca, porém essa não era a única preocupação no momento.

Branca namorava com Antenor, um jovem proveniente de uma família rica que estudava administração para dar continuidade ao trabalho do pai na direção da empresa, porém ele era um bom-vivant que não dava muita bola para os negócios, ele queria saber de festa e tinha Branca como uma mulher modelo, pois ela era famosa, linda e rica… E Branca estava desesperada para dar um jeito de casar-se com aquele homem, então ela vinha a tempo tentando casar-se com ele.

Na noite anterior ao dia da sessão de fotos, Branca e o pessoal da revista foi a uma discoteca e Ângela já sabia como ia fazer para impedir a sessão de fotos… Durante a noite, ela percebeu que Letícia estava completamente alterada, como de costume em festas, e Ângela usaria disso.

— mas você reparou como ele é lindo né? — dizia Ângela sorrindo em direção a Branca, as duas estavam em um canto mais reservado da festa – e eu acho que ele está te dando muita condição hein – ela gargalhou apontando para Antenor.

— mas eu conheço ele de algum lugar, mas não me lembro de onde – Letícia estava tão alterada que nem conseguia lembra-se de onde conhecia aquele homem, não se lembrou que tratava-se do namorado de Branca – mas então ele que me aguarde – ela deu risada, tomou mais um gole do seu drink e foi em direção a Antenor. Ângela ficou tranquila, pois ela sabia que fidelidade não era o ponto forte de Antenor. Ela ficou por volta de uns cinco minutos Antenar já falava alguma coisa no ouvido de Letícia, que sorria em direção a ele e em menos de dez minutos, os dois foram para um “lugar mais reservado” e Branca estava tão ocupada sendo bajulada por todos por seu editorial que nem se deu conta da ausência de Antenor. Um dos objetivos de Ângela havia sido concluídos, agora ela só precisava aguardar para o segundo.

Ela foi sentar-se com o pessoal que cercava e ficou apenas observando, certa hora da noite eles decidiram ir dançar antes de irem embora e esse era o momento perfeito de Ângela agir novamente, ela observou bem qual era o copo de Branca e disse para eles irem na frente que ela iria ao banheiro e os alcançaria, e assim fizeram, todos foram, Ângela colocou um pó e dissolveu no drink de Branca e foi dançar junto com os demais. Alguns minutos depois todo mundo entrou em acordo que, devido ao fato de a sessão de fotos começar às 9h, o pessoal decidiu ir embora e Branca concordou.

— fico feliz em saber que você vai me ajudar Ângela – disse Branca – sei que você é visionária como eu e entenderia – ela pegou seu copo e o ergueu – um brinde a essa sociedade careta que vai ser chacoalhada quando revista chegar às bancas.

Ângela apenas deleitou-se com a cena de Branca tomando o drink batizado, ela sabia que ia dar tudo certo o que ela havia planejado.