Poncho

:- Eugênio é um cara legal, ele brinca comigo. Ele é noivo da minha mãe sabia? – ele me falou de boca cheia por comer seu sanduiche enquanto falava.

:- Sabia. Seu pai parece ser um cara legal. – Comentei analisando o menino, vi Enzo desviar o olhar enquanto mastigava.

:- Ricardo esse é o seu nome, não é? – ele terminou de engoli e falou com mais clareza.

:- Sim.

:- E você é amigo da minha mãe, não é? – me perguntou desconfiado, e eu pensei como falar de uma forma que sua desconfiança sumisse.

:- Sou, Enzo. Eu fiz faculdade com sua mãe, mas depois que eu terminei eu viajei durante muito tempo, depois eu voltei para cá. Saudade de casa, sabe? – o menino assentiu e eu via algo de familiar. – Mas, eu perdi o contato com muita gente, soube que Angelique teve um filho, mas nem cheguei a te conhecer antes, por isso estou fazendo todas essas perguntas.

:- Ah entendi! – o rastro de desconfiança desapareceu dos olhos claros do menino. – Então não tem problema eu te contar um segredo, não é, Ricardo!

Levantei a sobrancelha Enzo me contaria algo novo, ao menos isso.

:- Pode confiar em mim.

:- Eugênio, não é meu pai. – fiquei muito interessado. – Mamãe, me contou faz algum tempo isso. Mas, não pode dizer isso para o Eugênio por que ele ficaria triste, e é segredo meu e da mamãe.

:- Não contarei a ele. – Fui firme para que ele me contasse mais, algo que fosse aproveitável. Só que eu tinha que ter tato, estava lidando com uma criança, que muitas das vezes percebem uma mentira muito antes de um adulto. – Mas, se o Eugênio não é seu pai, quem é então?

:- Ah, eu não sei. – ele me olhou e eu vi sinceridade nele. – Minha mãe não me contou e eu nem quis saber de um pai que não me quer.

O sinal tocou.

:- Ahh agora eu tenho que ir para aula, Ricardo!

:- Ok, Enzo, vá antes que se atrase para sua aula.

Ele pegou sua lancheira e se despediu com um aceno de mim.

Há dias eu estava com uma sensação estranha, de que algo tinha que se encaixar na minha cabeça, e eu detesto isso. Para resolver eu vim atrás de Enzo em seu colégio o melhor lugar para conversar com ele sem que ninguém suspeito me visse. Não tive problemas em entrar aqui, fingir ser um professor substituto e só tive que esperar a melhor oportunidade para abordar Enzo.

Fui feliz por que ele não se lembrou que já tinha me visto do parque. Só que Enzo só confirmou algo que eu já sabia, Engênio não era o pai dele.

Sai do colégio decidido a me arriscar de alguma forma, suspirei olhando a hora, eu deveria está na agência. Porém, não trabalharia até ter uma pista mais certa para seguir, perto do colégio do garoto tinha uma livraria e lá eu dei uma volta comprei alguns livros, fui até o fundo onde tinha uma lanchonete, e peguei um café.

A espera seria de algumas horas e eu tinha muitos livros para frente.

‘●’

Ele abriu a capa dura do livro, tinha algo que fazia com que o tempo passasse e exercitasse o cérebro dele. Os livros. Não importava o assunto que eles tratavam, o que ele queria era ler e ler e ler.

Entretanto, naquele momento quando começaria a ler, uma gritaria começou e estranhou por que não eram falas comuns que estava acostumado a escutar.

“E aí gatinha? Venho fazer o que aqui?”

“Delícia.”

“Nossa que gostosa vem aqui na minha sela vem para eu te mostrar algo.”

:- Vão para o inferno! – Exclamou uma voz feminina embolada, e ele piscou lentamente os olhos e balançou a cabeça ligeiramente por que ele devia está fantasiando, só podia ser.

“Já estou no inferno, mas se você entrar aqui que eu te mostro o paraíso!”

A voz do preso era arrogante, e carregada de um desejo repugnante, ele sabia do que aqueles presos eram capazes. Foi então que ela apareceu no seu campo de visão, e novamente ele piscou os olhos lentamente vendo algo surreal. Não era fantasia. Era real.

:- Alfonso. – escutou a voz de novo e ignorou as implicações dos outros presos, o livro foi esquecido e ele se levantou desacreditado da cadeira.

:- Angelique?

Não teve tempo para nada ela entrou na sela dele, ficou ligeiramente agradecido por Alicate não está ali.

:- O que faz aqui? – perguntou rude.

:- Eu vim te ver.

Alfonso cruzou os braços não só para colocar respeito e afastamento dela, mas também como uma forma de defesa.

:- A piada só vai ter graça quando o Eugênio aparecer, assim rimos os três juntos. – foi irônico, e se lembrou do julgamento de como ela agiu com ele, sem dó.

:- Não fale no nome dele. – ela falou de uma forma que ele se deu conta do que estava acontecendo.

Ela estava bêbada! Ele concluiu olhando mais atentamente, era um jeito dela de tomar atitudes depois de se embriagar, era fácil colocava a culpa na bebida, já usou essa tática com ele antes, agora usava de novo. Só que não era ele que sofreria as consequências.

:- O que aconteceu? Brigou com Eugênio e teve um lapso de piedade e veio me ver, enxergar o quanto eu fui tolo.

O descaso que ele viu no olhar dela quando os policiais o levaram para o inferno que foi o cárcere privado, teve tempo suficiente ali para alimentar um ódio por aquela mulher sem igual. No último livro que leu, tratava desse assunto, do ódio e do amor que são facetas de uma só moeda. Se Poncho jogasse a moeda para cima ela com certeza cairia do lado do ódio naquele instante.

:- Talvez eu mereça se tratada dessa forma, eu não agi certo com você, o fim do nosso namoro foi conturbado e meu envolvimento com Eugênio, o meu amor por ele. – ela o olhou e viu uma expressão nada agradável no rosto dele. – Ok. Não vou falar de Eugênio, com você, nem pretendo. Eu só queria que me perdoasse pelos erros que cometi.

A única coisa que martelava na cabeça de Poncho era o número 8, esse era o número de anos que ele tinha passado na prisão, e era nisso que se concentrava, não nas reações que sentia ao ver Angelique na sua frente, a vontade de machucá-la. E era isso que ele faria.

:- Não consegue dormi a noite de remorso? O seu arrependimento tardou oito anos a chegar, Angelique, o que pensou antes de entrar aqui, que eu cairia aos seus pés e lhe perdoaria?

Angelique ficou acanhada, fora um erro ela ter ido ali. Notou como Poncho estava diferente, estava mais sombrio. Ele não era mais o rapaz que um dia ela namorou, como ela fora tola, ele tinha matado Felipe.

Alfonso deduziu que ela iria embora, então mudou de expressão e de postura, ela estava no seu habitat e só sairia quando ele quisesse, ele avançou a distância que tinham mesmo sendo perigoso até para ele.

:- Você brigou com Eugênio! – falou sério, só que não se comparava com antes.

:- Já disse para não falar dele. – ela revidou incomodada.

E Alfonso se deu conta. Ela não estava ali por ele e sim para se vingar de Eugênio, e então ele entraria no jogo sentindo o prazer por que dessa vez iriam até o fim. Os dois estavam brigados e ela veio me procurar para ferir o ego de Eugênio sabia que ele ainda odiava a Alfonso, tanto quanto ele. E como já tinha visto esse teatro antes, se tudo der errado para Angelique ela colocaria culpa na bebida.

:- Tudo bem, não vamos falar dele, não vamos falar mais nada.

Foi à última coisa a ser dita realmente, ele a puxou para o fundo da sela e abriu uma espécie de porta que dava acesso para um quarto bem simples, porém era um luxo para quem estava preso. Deitou Angelique e a beijou e foi correspondido.

Seria nesse sexo que Alfonso sentiria o sabor da vingança, não a de Angelique, e sim a dele, ter a mulher de seu inimigo em seus braços não tinha preço. Ele foi rude, violento até, mas ela não parecia se importar, ele queria marcar de alguma forma ela, e foi com chupões.

Tudo foi rápido. Ele a viu chegar num orgasmo e tudo acabou, não precisava sair satisfeito. O prazer real seria jogar isso na cara de Eugênio quando ele saísse daquele lugar.

‘●’

Terminei o meu quinto café naquela manhã, começo de tarde, e afastei essa lembrança, foi à única vez que Angelique me visitou.

As datas batiam. Porém, apesar de reconhecer algo extremamente familiar no menino Enzo, um sentido meu me dizia que tinha algo errado. Enzo, não podia ser meu filho. Precisava descobrir a paternidade de Enzo o quanto antes, e tinha que ir direto à fonte.

Sai da livraria no horário certo, vi o carro dela estacionar, Angelique tinha uma rotina pelo que tinha descoberto e nos dia de semana sempre buscava o filho no colégio o levava para casa almoçava por lá. Ela chegou adiantada, perfeito para nossa conversa séria.

Sorri atravessando a rua e indo ao seu encontro.

:- Ora, ora, ora o que temos por aqui? Bom dia flor do dia. – Forcei uma voz cordial e usei uma das formas como me referia a ela, no passado. Tudo já valeu a pena pela forma assustada e intimidada como ela me olhou.

:- Poncho é você. – Não podia dizer que foi alivio que escutei, por que o desprezo estava presente, porém ela sabia que se não se assustou com o monstro, pelo menos teria medo do bicho papão.

:- Sim, estava na livraria vendo alguns livros para comprar, sabe que eu sempre gostei muito de livros, ainda mais quando tinha tempo livre na cadeia. – sorri fazendo ela se lembrar da única vez que foi me visitar e ainda que deixei minha leitura de lado por ela. – Mas, e você o que faz por aqui?

Ela desviou o olhar e se virou de costas para a escola do filho, indicando exatamente o que queria esconder eu quase tive vontade de rir.

:- Isso não interessa a você. – falou rude.

:- Ok, tudo bem, não precisa ser grossa. – levantei as duas mãos em sinal de redenção, falsa é claro. – Quer tomar um café comigo? — dessa vez eu ri por que a cara de você é louco que ela fez foi hilária.

:- Você só pode ter batido a cabeça. – e ela começou a andar na direção da escola do filho, porém não foi para a entrada, talvez quisesse me despistar. E eu engoli meu sorriso e resolvi deixar o sarcasmo de lado e voltar ao meu lado calculista.

:- Se não quer é só dizer não, eu não vou te morder, Angelique. – disse atrás dela que parecia não me dar ouvidos continuava andando. – Vou direto ao ponto, tenho algumas perguntas para você. – mudei meu tom de voz.

Ela se virou e me olhou com os olhos apertados, desconfiada pela mudança de minha atitude.

:- Finalmente o “verdadeiro” Alfonso apareceu. – ela fez aspas com os dedos de uma forma esnobe, fingindo desinteresse.

:- Você não “conhece” o verdadeiro Alfonso, assim como eu não “conheço” a verdadeira Angelique. – ela sentiu a alfinetada.

:- Não vou conversar com você e menos responder perguntas suas.

Era tola, ela já estava conversando comigo e responderia de uma forma ou outra minhas perguntas, por bem ou por mal.

:- Droga! Vou ter que perguntar para Eugênio quem é o pai de Enzo ou até mesmo para o garoto, por que não? Estamos tão perto da escola dele. – apesar da ironia ela não sentiu que estava brincando, viu que ela responderia minhas perguntas, mesmo que ela mentisse pra mim. – Cuidado! – disse sério evitando algum tipo de ataque dela. – Cuidado com qual atitude vai tomar.

Olhou para os lados, vendo que mesmo que estivéssemos na rua, não tinha muitas pessoas na calçada, ninguém escutava nossa conversa, menos se ela fizesse algum escândalo.

:- Não envolva meu filho nessa história. – se aproximou pedindo com calma apesar de está brava.

:- Não quero envolve-lo, apenas o pai dele. Por que vamos fazer uma conta juntos? Ele é um garoto novo, você e Eugênio sempre brigavam e voltavam, e num desses rompimentos você foi me visitar se lembra? Não é preciso ser gênio para saber que as datas se encaixam. — eu apontei com os dedos os números. – Só que tem uma peça que não se encaixa nesse quebra cabeça, sabe por que, ele não pode ser meu filho. Não é?

Pela primeira vez Angelique tinha um rosto inexpressivo, não se movia, não expressava nada e não conseguia tirar nada dela, isso era muito estranho.

:- O que aconteceu com você? Como seu coração pode congelar de tal forma que não enxergar o que está na sua vista, Poncho?

Angelique invés de professora se tornou comediante, aquilo era uma piada, ou ela estava fugindo da minha pergunta de um jeito audacioso por que comparar o Poncho que ela namorou com o que ela via na sua frente.

:- Não mudei por que quis. Segundo você sempre fui um monstro, se lembra das suas falas no tribunal? A cada palavra você matou aquele Poncho. – me aproximei por que queria que ela se sentisse mal, e mesmo assim não chegaria nem perto do que eu senti no passado. – Como é que você quer comparar o agora e o antes, depois de tudo que você fez.

O medo nos olhos dela surgiu tanto que a reação dos olhos azuis foi lacrimejar. E eu fui fraco por que foi meu momento de comparar a Angelique na minha frente e a garota que foi minha namorada.

:- Eu teria dado o mundo para você. – e vi um sinal de confusão por minha mudança de discurso, não me importei. – Eu teria me casado com você, poderíamos ter filhos, mas você me trocou por ele. – tranquei meus dentes, querendo esquecer por um momento que Eugênio existia.

:- Esse é o Poncho que eu conhecia. – falou numa voz calma e não olhei para ela, isso era humilhante, se Dulce estivesse aqui riria de mim. – Vejo que ele não morreu como você disse.

:- Você quer comprovar isso? Quer ter a noção do que meu amor por você se transformou? Vou descrever algum dos meus pensamentos á você. – Voltei a falar com um tom pesado. – Eu desejo te machucar. Eu quero ver você sofrer, quero que sua família sofra, até mesmo seu filho.

:- Você não teria coragem de fazer mal a Enzo, você não pode. – a forma como ela falou me desarmou de novo.

Aquele menino não podia ser meu filho.

Ficamos nos olhando, eu desacreditado e ela novamente sem expressão, mais uma vez eu não conseguia arrancar uma confissão dela. Nesse tempo pude me lembrar de quando éramos jovens, ela continuava a mesma feiticeira que me hipnotizava e me confundia os sentidos, essas mulheres são as mais perigosas. Angelique era perigosa.

O sinal do colégio de Enzo tocou fazendo-nos acordar do transe em que estávamos e eu voltei a minha pose séria assim como ela. Éramos inimigos.

:- Isso não muda absolutamente nada.

:- Você não vai fazer mal ao meu filho. – ela me respondeu no mesmo tom ameaçador e sombrio que o meu. E começou a andar em direção a entrada do colégio.

Como seu coração pode congelar de tal forma que não enxergar o que está na sua vista aquele garoto era meu filho. Voltei a andar agora com as mãos no bolso, para que me impedisse fazer alguma bobagem, por um momento parei de caminhar e olhei para trás.

Vi Angelique abraçar Enzo enquanto ele provavelmente lhe contava como foi seu dia, talvez até conte que um velho amigo dela da faculdade veio visitar ele, e mesmo que ela soubesse que esse amigo era eu. Isso não tinha importância. Não tinha importância por que tanto eu quanto ela, sabemos que esse garoto ser meu filho, não muda absolutamente nada.

A vingança continua.

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