Mesmo que nenhum dos dois falasse nada eles estavam pensando o mesmo, talvez fosse uma intuição de policiais, um faro profissional. Um tipo de sexto sentido que levavam os dois a resolverem os casos mais complicados afinal eles eram detetives, esse era o trabalho deles.

O pensamento que eles dividiam era o qual, tudo estava ligado de alguma forma ou de outra, era um quebra-cabeça que faltavam peças para desvendar o mistério da morte do professor universitário.

:- Tudo é inacreditável. – ela disse depois do tempo em silêncio que eles passaram – Todos estão interligados, de uma forma ou de outra, todos inclusive você. – eles se entreolharam.

Ele sabia que ela estava certa não só por que ele mesmo tinha revelado o seu passado a ela, na investigação como também na história que ele havia acabado de contar.

:- Eu sei disso, mas tudo ás vezes parece surreal, eu pelo menos solucionei uns sete casos contando de cabeça agora, onde ele está diretamente ou indiretamente envolvido. As descrições nunca batiam, nunca ninguém conseguiu formar um retrato falado dele e agora eu sei quem ele é. – ele suspirou pesado irritado passando a mão nos cabelos.

Há alguns anos, poucos, mas ainda assim anos, alguns casos que Dalton resolvia relacionado a drogas e mortes misteriosas de uma forma ou de outra o Príncipe estava envolvido, um misterioso homem e maior traficante do país. Dalton tinha uma história antiga com ele mesmo, tinha prometido para si que encontraria Príncipe e seria o policial a colocá-lo atrás das grades.

E agora graças a ajuda de Poncho descobriu a verdadeira identidade do impiedoso Príncipe. Era o próprio irmão do seu parceiro, se não fosse realidade ele julgaria que alguém estivesse brincando com todos eles, foi se encontrar com Andréa e lhe contar de sua descoberta ela sabia há quanto tempo que ele estava na procura de Príncipe.

:- Você me disse que está na busca dele?

:- Sim, tanto eu quanto Poncho. É uma vingança particular dele, nunca se deu bem com o irmão mais velho tanto ele quanto eu desejamos Gonzalo preso e condenado por todos os seus crimes.

A conversa foi interrompida pela batida na porta.

:- Sim policial?

:- Ela chegou detetive.

:- Traga ela até aqui.

O policial apenas abaixou a cabeça com o pedido da detetive acatando a ordem e saiu da sala, Andréa então olhou para Dalton e tomou uma decisão ela mais uma vez sairia do protocolo, mas o que era quebrar as regras por causa de Dalton? Não seria a primeira vez e nem a última.

:- Tony, por favor eu quero que fique e escute esse depoimento.

:- Eu? Por quê? – ele ficou intrigado com o pedido de Andréa.

:- Tudo está ligado, meu caro amigo. – ela disse antes de se sentar em frente a sua mesa e tomar sua postura profissional. – E esse depoimento vai te interessar tanto quanto a mim.

Ele só entendeu as palavras dela quando finalmente o policial voltou e trouxe a próxima pessoa a dar o seu depoimento. Angelique Boyer. Ele ficou surpreso não só pela presença da mulher como também com a atitude da detetive, ela estava arriscando alto. Ele tinha sido afastado desse caso e ela estava o colocando de volta numa forma mais explícita logo entendeu que melhor seria se os dois trabalhassem juntos.

:- Senhorita Boyer, que prazer eu tenho em vê-la aqui uma pena que tenha demorado a aparecer realmente. – Andréa sorriu sendo sarcástica com Angelique mostrando que estava irritada. Ela poderia dar uma punição a professora Angelique, afinal ela tinha fugido de seu depoimento já marcado.

:- Eu peço minhas desculpas policial, sei que deveria ter aparecido antes, mas eu tive que fazer uma viagem a trabalho como palestrante e depois tive problemas de saúde. – Essa foi à justificativa dela perante a policial.

:- Dependendo do que me contar aqui, Angelique, eu considero ou não as suas desculpas saiba que faltar num depoimento policial é algo grave quando se é intimada perante a lei. Sabe das suas obrigações e direitos como cidadã melhor do que eu talvez.

Angelique nada disse diante das palavras que continham ameaça embutida da detetive, ela tinha fugido de seu depoimento como o diabo da cruz e sabia disso, mas existem fatos inevitáveis na vida e esse era um deles.

:- Sente senhorita Boyer, vamos começar de uma vez por todas. Esse ali parado nos olhando é o meu consultor, o detetive Tony Dalton ele escutará comigo o seu depoimento. – Andréa indicou onde o policial estava presenciando tudo calado.

Angelique apenas olhou para trás e não disse nada, sequer conhecia aquele homem, estava mais incomodada com a mulher que estava na sua frente que teve a certeza de que não pegaria leve.

:- Para o começo de tudo, vou esclarecer alguns acontecimentos para que reflita bem antes de iniciar o seu depoimento. Num dos depoimentos que eu fiz, uma pessoa garantiu que a senhorita Angelique, mentiu no seu depoimento no passado alegando que estava em sua casa e que houve uma discussão com o seu pai. Diferente da última vez, como esse fato surgiu apenas agora, eu fui colher o depoimento de Don Giovanni que contradiz o que você afirmou. Você mentiu. – ela deu um olhar mais duro a Angelique – Conta-me agora a verdade.

A morena engoliu saliva por que como suspeitava da policial ela a colocaria na parede a qualquer momento, só não imaginava que seria assim logo de cara. Se lembrou de um dos motivos que ela encontrou uma forma de fugir desse depoimento, estava apreensiva mesmo que soubesse que uma hora não poderia se esconder, descobririam a verdade.

:- Exatamente na noite do assassinato, eu vivia uma das piores e melhores fases da minha vida, eu estava com um cara que eu amava que eu acabei me apaixonando perdidamente e ao mesmo tempo para viver esse amor aconteceram coisas inevitáveis, como trair o meu ex-namorado, na época, Poncho e também perder a amizade da minha melhor amiga na época Dulce.

:- O que isso tinha a ver com o assassinato exatamente?

:- Acontece que na noite da morte de Felipe, era um dia normal da semana numa quarta feira, nessa noite era a aula de ética e de última hora Felipe tinha pedido para Poncho e eu apresentássemos um trabalho e o fizéssemos juntos, eu fiquei um tempo com Poncho para elaborarmos o trabalho Eugênio ficou bravo comigo por conta disso ele estava saturado da nossa situação. O trabalho com Poncho foi complicado de ser realizado, nós não nos falávamos e quando abríamos a boca era para trocar ofensas. Ainda mais por que eu estava pensando em Eugênio que estava bravo comigo.

Dalton assim como Andréa escutava com atenção o que Angelique dizia, mas Tony com mais atenção especialmente por ela está falando sobre Poncho.

:- Poncho notando da minha relação tensa com Eugênio se aproveitou para provocar e piorar tudo o que levou a uma discussão por conta dos ciúmes de Eugênio.

:- Onde Dulce estava nesse dia? – Andréa perguntou sentindo falta da ruiva na história.

:- Ela não assistiu aula naquele dia, mas estava na universidade.

:- Entendo, continue contando sua versão dos fatos.

Angelique respirou fundo antes de continuar.

:- Eu fiquei extremamente irritada com Poncho, muito ao ponto de quando terminou aula eu o procurei para tirar satisfações, mas ele fugiu. Então decidi falar primeiro com Eugênio mesmo com ele querendo distância de mim. Nós discutimos feio ele estava furioso assim como eu estava alterada com tudo isso, foi em minha casa eu não sei se papai estava lá ou não.

:- Não estava pelo o que eu andei averiguando. – Andréa disse. – Mas, parece que Eugênio deixou explicito a raiva que tinha de você.

Angelique engoliu saliva antes de voltar a falar.

:- Eu não estava lá nesse momento, mas soube um tempo depois que Eugênio estava bêbado gritando coisas sem sentido em frente a minha casa, até jogar a sua garrafa de bebida em minha janela. – ela contou se lembrando das histórias de vizinhos, nem mesmo o seu pai soube daquele fato.

:- Se não estava lá, onde estava? — Dalton que até então estava calado perguntou, ele não saberia se tinha essa permissão de falar diretamente com a testemunha, mas como Andréa não se pronunciou, não teve problema.

Algo que fez Angelique estremecer quando entrou na sala para o seu depoimento, foi justamente a presença de Dalton, a forma como ele a olhava a fazia ter pânico e até medo de respirar sem se sentir culpada. E ela sabia que Dalton, tinha notado essa reação que ele causava nela.

:- Eu precisava espairecer, necessitava fugir de tudo aquilo, daquele peso nas costas. – Angelique começou contando vagamente, sem olhar para o detetive. – eu precisava ir para o meu mundo de refúgio.

:- Que lugar é esse a que se refere? — perguntou à investigadora.

:- Ao contrário dos outros eu nunca tive orgulho de dizer, ou melhor, confessar o que eu fazia. Por que era vergonhoso, mesmo que eu fosse adepta ao lema do “viver intensamente”. Eu quando mais nova frequentava muitas raves e lá é normal usar drogas, eu experimentei, no começo usava apenas nas raves, mas depois quando estava na Universidade o fato de ser popular fazia com o que eu conhecesse muitas pessoas, e frequentava as festas.

Dalton começou a se interessar ainda mais pelo o que a professora contava, ainda mais por ele julgar que ela conhecia o Príncipe.

:- Algumas festas eram muitas vezes promovidas para o consumo de drogas, como pequenas raves, mesmo nas classes mais altas, como vocês policiais devem saber. Enfim, no dia do assassinato de Felipe eu fui atrás de drogas, porém nenhuma das pessoas que eu conhecia eu encontrei. Então eu fui para um bar, chamado Country, hoje ele não existe mais. E lá eu encontrei uma das pessoas que eu não queria.

:- Quem você encontrou?

:- Poncho. – ela falou baixo e de uma forma nervosa, por que isso ela não tinha dito em seu outro depoimento.

E Andréa olhou para Dalton mostrando com o olhar que Angelique finalmente daria uma informação nova. Angelique não percebeu essa troca de olhares estava com a absorvida nas lembranças que ela não desenterrava a muito tempo.

:- Lembro que eu cheguei e comecei a beber sozinha, eu detestava ficar sozinha e o vi lá jogando sinuca sozinho também, estava descontrolado por que tacava violentamente a bola para acertar uma na outra. O bar estava extremamente vazio e logo ele se deu conta da minha presença, claro que veio provocar e eu não deixei por menos, e ficamos discutindo por muito tempo. Estávamos alterados queríamos nos machucar com palavras e foi isso que fizemos. Até que eu cansei daquilo tudo e sai do bar deixando ele lá falando sozinho.

:- Na primeira versão do seu depoimento, você não disse isso, e ainda alegou ser mentira de Poncho quando ele mencionou esse fato. – a investigadora comentou, olhando justamente para a cópia que ela tinha do depoimento mais velho, mesmo que fosse longo, ela sabia justamente onde estava essa negação, tinha lido inúmeras vezes.

:- No meu primeiro depoimento eu estava com raiva de Poncho por tudo o que aconteceu e..

:- Então está dizendo que mentiu para incriminar Alfonso? — Dalton interrompeu.

:- Não! Não! Não, foi isso que disse não me deixou continuar – Angelique logo se defendeu, ela tinha que usar as palavras direito, ainda mais como professora tinha que abusar desse dom. – no meu primeiro depoimento, eu não tinha total segurança dos fatos desse momento por que eu assim que sair do bar encontrei, um conhecido distante que vendia drogas.

:- Então você se drogou?!

:- Sim, por que estava desesperada para esquecer de tudo o que eu sentia, queria afogar as lembranças na bebida quando entrei no bar, mas Alfonso logo se encarregou de me lembrar tudo. Eu tinha que me livrar daquele tormento. Usei a droga que ele tinha lá, hoje já não me lembro qual, demorou entretanto a droga fez efeito e eu fiquei por ali mesmo sentido todo o efeito.

:- Certo, Senhorita Boyer, muito interessante, mas eu quero algo mais detalhado, que horas isso aconteceu? Foi antes ou depois do assassinato de Felipe?

:- Eu estou sento totalmente honesta em dizer que eu não sei. Era a noite, lembro disso, antes de entrar no bar, mas as drogas te levam para onde você quer, e eu queria ir para bem longe, fui para um mundo bem distante. E enquanto estive nele, eu não sei o que era realidade ou não.

:- Você viu Alfonso sair daquele bar?

:- Sim. Eu até cruzei com ele no estacionamento, depois daí eu não posso afirmar nada com clareza.

:- Por que não contou isso em seu depoimento?

:- Como se falar algo assim? Eu sempre tive vergonha disso, não me orgulho em dizer nada dessa parte do meu passado. No meu depoimento eu disse o que aconteceu comigo e que eu tive certeza, o que eu não tive, não poderia afirmar nada.

:- Mas, também não negou! – A investigadora exclamou irritada. – Poncho em seu depoimento diz que quando saiu do bar te encontrou no estacionamento e você estava fora de si, não falava nada com sentido, e que era início da madrugada. Ou seja, o assassinato já tinha acontecido.

:- Essa é a palavra dele. – Angelique ficou séria de repente, a verdade é que mesmo agindo impulsivamente no passado quando acusou Alfonso sem culpa alguma, ela sabia que não foi por acaso que ele foi preso tudo indicava que ele era o assassino. Ela não deveria contar esse fato descartável. Ainda que algo dentro de si, sabia que ela não tinha certeza de nada aquela noite depois que se drogou.

:- Ok, vamos continuar, o que aconteceu depois que você se drogou?

:- Eu tinha bastante dinheiro, então comprei muitas drogas. – Angelique perdeu a seriedade e voltou a ficar com vergonha por revelar o seu passado negro. – Então provavelmente passei horas me drogando, eu só tive uma lembrança de consciência quando era aproximadamente quatro da manhã e estava num bairro desconhecido até então, quando consegui me encontrar eu peguei um ônibus e voltei para casa, quando cheguei ainda estava escuro, ninguém deve ter me visto.

:- Como fez para esconder durante tanto tempo que usava drogas?

:- Eu não usava com tanta frequência, sempre deixei em último caso ou quando eu tinha alguma crise de existência muito forte. Ainda assim quando eu usava qualquer tipo de droga, depois eu usava Leveza.

:- Crise de existência?

:- Como todos já tiveram um dia, quem nunca se perguntou quem era, se algo que estava fazendo era certo ou errado, quem nunca teve uma pressão para fazer algo tão grande que você quer larga tudo e simplesmente desaparecer? – um leve lacrimejar surgiu nos olhos de Angelique ao se lembrar de como sentia antes. – O que acontece é a solidão e a fragilidade que muitas pessoas possam sentir, algo que não mostram na frente dos outros que sentem a necessidade de tapar esse buraco ou vazio que sentem, eu tapava com as drogas. E pessoas assim são encontradas em grande porcentagem num lugar como Elite Way. Eu era uma delas.

:- Você ainda usa drogas?

:- Não. – ela negou fielmente, sentindo quase nojo do seu passado. – Eu parei assim que descobrir estar grávida de Enzo e até hoje nunca mais usei. Nunca mais tive algum tipo de crise existencial, por que eu sei quem eu sou. Sou mãe do Enzo. – terminou totalmente segura.

:- Senhorita Boyer. – Dalton falou diretamente com ela, estava exatamente atrás dela. – Tenho uma curiosidade que não quer calar, se era usuária de drogas então devia conhecer quem era os traficantes de drogas de sua universidade, estou certo?

Angelique abaixou o olhar perdendo a sua segurança ao falar do filho anteriormente e Andréa na sua frente levantou a sobrancelha como forma de desconfiança, a professora estava totalmente desconfortável com a pergunta.

:- Sim. Alguns.

:- Quem eram eles?

:- No começo as pessoas que traziam a droga pra mim. Então eu não conheço muitos, Laura era uma das mulheres. – ela parou de falar como se fosse suficiente.

:- Continue. – quase ríspida o jeito que o investigador falou.

Ela ponderou antes de falar o que pensava, mas rapidamente colocou tudo em uma balança e decidiu o que era prioridade no momento, e essa prioridade máxima era Enzo e ela.

:- Além dela, eu sabia que o próprio Felipe trazia drogas para a universidade, ainda assim para alguns seletos alunos que ele tinha “encontros”; esse era um motivo a mais que Felipe não me deixava e Eugênio também em paz. Nós flagramos ele com essas drogas. – Mais uma troca de olhares entre os policias, mais uma informação novas para eles. – E também Rodrigo.

:- Rodrigo Nehme? — ele perguntou já sabendo da história, queria que ela contasse mais ou ousasse mentir ali. Seria presa imediatamente.

:- Isso. Ele sempre foi mais amigo de Eugênio, amigo eu digo como uma forma banal eram muito mais conhecidos, por que Eugênio só se aproximava de Rodrigo por interesse para ir as festas que ele promovia e também para ás vezes consumir drogas. Assim como Rodrigo de Eugênio, por conta de sua popularidade, ele queria lotação em suas festas. – ela apertou os lábios logo em seguida, tentando não se arrepender do que falava. Ele a tinha traído com Dulce, não deveria ser importar com o que aconteceria com ele.

:- Eugênio também era usuário?

:- Assim como eu, não era um vício por assim dizer, naquele tempo era isso o que mais nos aproximávamos um do outro assim que tudo surgiu entre nós.

:- Como aconteceu o seu namoro com Alfonso? — Dalton perguntou do amigo.

:- No começo da Universidade, quase no meio do ano quando eu, ele, Dulce e Eugênio éramos inseparáveis, convivíamos muito e Alfonso com o tempo me pediu em namoro eu aceitei, por ter me apaixonado por ele.

:- Mas, depois você o trocou por Eugênio.

:- Quando eu conheci Alfonso foi no mesmo dia que conheci Eugênio, eu naquela época eu queria me divertir, não queria compromisso sério com ninguém, até me apaixonar. Claro que eu tive interesse em Eugênio, tanto que numa das festas que formos antes mesmo do meu namoro com Alfonso, nós ficamos. Mas, não passou disso colocamos a culpa na bebida e tudo mais. Depois Dulce tinha me falado do seu interesse por Eugênio, eu deixei o caminho livre para os dois e nisso Alfonso se aproximou e o namoro começou.

:- Você chegou a conhecer a família de Alfonso?

:- Mais ou menos. – Angelique voltou a ficar nervosa, já estava começando a imaginar onde eles queriam chegar, o fato é, ela contaria ou não.

:- Seja mais clara, Angelique. – Andréa pediu.

:- Eu conheci os pais dele por fotos, mas não pessoalmente. E o irmão dele eu vi algumas poucas vezes.

:- Não acha muita coincidência justamente você ser usuária de drogas e também conhecer o irmão do seu namorado, na ocasião. – Dalton voltou a falar de forma agressiva. – Você sabe quem é o Príncipe?

Angelique de um momento para o outro a frente dos olhos perspicazes de Andréa, começou a ficar pálida, nem quando falou da situação no bar ela tinha mudado tanto assim, a olho nu.

Por que ela conhecia, não como eles estavam julgando.

:- Eu.. vou falar o que eu sei. – ela começou apertando uma mão na outra. – Vez ou outra Gonzalo vendeu drogas, ele também era um dos traficantes da universidade, mas por conta de ser irmão de Poncho e manter sua identidade longe do irmão. Eu nunca procurei saber sobre quem era o deixava de ser a pessoa que me vendia drogas, eu apenas as queria e pronto. Eu mantive o segredo de Gonzalo por que ele mantinha o meu anonimato também. Porém, anos mais tardes quando eu era estagiária na Universidade e Eugênio apenas um dos gerentes de lá. Rodrigo foi fazer uma visita para um conhecido lá dentro, eu peguei uma conversa dele com um aluno, suposto traficante também. Sobre o tal Príncipe ter voltado a cidade, não demorou para que Gonzalo aparecesse lá na Universidade também. Apenas liguei um + um para ligar os fatos.

:- Por que não falou nada disso com ninguém? Por que não disse a polícia sobre saber a verdadeira identidade de Príncipe? – Dalton questionou irritado.

:- Eu não tinha o por que. Sei que foi um erro como cidadã, porém sendo sincera e egoísta ao falar aquilo não era um problema meu.

Dalton sentiu uma raiva por escutar aquilo dela, por quanto tempo ele buscou essa descoberta poderia ter salvo vida de diversas pessoas, ele deveria saber que Angelique mesmo que não fosse mais usuária de drogas, nutria uma espécie de lealdade ao homem que forneceu a ela momento as drogas que a levavam para um outro mundo como ela queria. Ele entendia isso, mas não queria dizer que não sentia raiva.

:- Agora você pode me falar mais sobre a sua relação com o senhor Siller? – Andréa perguntou e viu Angelique ficar novamente desestabilizada.

Angelique ficou distante se lembrando de todos os momentos que passou ao lado de Eugênio, do quanto ela foi feliz ao lado dele e de como ela ainda estava machucada pela traição dele.

:- Angelique? – ela voltou a olhar para a investigadora. – Te fiz uma pergunta.

:- Ele foi tudo na minha vida e hoje não é mais nada. – ela soltou uma frase vazia.

:- Isso não responde minha pergunta.

:- Ele foi o homem que mais amei e o que hoje eu mais odeio por ter me magoado, da pior forma. A mesma que a minha.

:- Seja mais clara.

:- Vocês devem saber que não estamos mais juntos, que nos separamos por traições, a minha e a dele. Eu me envolvi pela lábia de Alfonso e acabei transando com ele, tudo foi gravado e enviado a Eugênio, ele também não ficou atrás de mim. Novamente se envolveu com Dulce, mesmo eu perdoando uma vez, continuou caindo na teia de sedução daquela mulher traiçoeira. Acabou tudo que construímos durante anos, ele foi o pai do meu filho, cuidou como se fosse dele. Ele foi o homem que eu tanto desejei ter e amar, apesar de... – Quando não conseguiu controlar o poder de dar voz aos seus pensamentos, Angelique se calou por finalmente perceber que estava fazendo daquilo tudo uma sessão de terapia.

:- Apesar de que?

:- Foram raros os momentos, mas aconteceu uma vez na minha frente. Ele sofre de transtorno dissociativo de identidade, tem dupla personalidade. – ela apertou os lábios. – Bipolar. Entretanto é imperceptível por que ele se cuida, a Alma sempre esteve por perto para cuidar do filho, tanto que eu só presenciei uma vez ele mudado. Dizia se chamar Bill e comprou muito chocolate, comeu até passar mal andava pela casa toda sem parar e não entrava na cozinha, eu fiquei sem entender até Alma me explicar.

:- Ele comenta sobre esse traço de personalidade com alguém?

:- Não sei. Mas, Eugênio não costuma falar sobre isso, não gosta assim como eu de falar do tempo das drogas.

:- Para terminar esse depoimento, o que pode me dizer sobre Dulce María sua, ex amiga.

:- Nada. — Angelique foi ríspida.

:- Nada?

:- É um tipo de mulherzinha depressível que não merece nada além de sofrimento, não escondo o meu ódio por ela. É um tipo de pessoa que brinca com as outras, com Alfonso, com Eugênio. Ela queria acabar com o meu relacionamento com Eugênio e conseguiu. Foi a sua promessa, ela está cumprindo. Deviam ficar de olho nela policiais.

Andréa concordava em pensamento com Angelique, Dulce era um tipo de mulher manipuladora pode perceber nisso quando ela se ofereceu para depor e logo fazer com o que Angelique estivesse aqui também, já tinham a alertado sobre Dulce.

O que era novidade para ela era ver de perto os sentimentos e expressões de Angelique, ela em sua frente foi mãe, foi a adolescente frágil, a professora egoísta e agora a mulher magoada e traída.

:- Ficaremos de olho nela sim Angelique, assim como você e em todos os outros até que esse caso seja verdadeiramente solucionado. O seu depoimento termina aqui, se for o caso o que naturalmente será, você será chamada novamente.

:- Ok. Obrigada.

Após ambas levantarem, escutaram batidas na porta.

:- Policial, acompanhe Angelique até a saída, por favor.

Angelique sem sequer olhar para Dalton que ficou calado escutando apenas o depoimento, foi andando com o policial até a saída do prédio. Andréa e Dalton trocaram olhares, já sabiam o que fariam.

Ficariam apenas em silêncio.

Por mais que parece estranho, eles ficariam em silêncio apenas pensando em cada palavra dita por Angelique. Isso poderia durar o tempo que for, meia hora, uma, duas, tanto faz. Eles precisavam desse tempo para refletir e encontrar um caminho para prosseguir a investigação, o que era fato, que o próximo a depor seria Eugênio Siller.

Enquanto Angelique caminhava para ir embora, não enxergava o que estava ao seu redor, fazia tudo numa espécie de piloto automático, se lembrou da covardia que ela sentiu e que a fez deixar o pai num asilo tudo para que não descobrissem que ela não tinha dito tudo em seu depoimento. Que não adiantou de nada por que essas marcas do passado foram expostas agora. Se lembrou do que ele falou quando se reencontraram.

Por que ela descobriu onde ele estava e conseguiu falar com ele, que apesar de tudo tinha a perdoado. Ele disse que não importava o que ela fizesse ou o quanto vivesse, eles sempre seriam parte da vida um do outro. Os quatro.

Ela não queria admitir, mas aquilo era verdade. Aquela era uma história sobre os quatro sobre o quanto eram ligados um ao outro, Poncho, Eugênio, Dulce e ela. Que não tinham história se não mencionasse o outro. Eram vítimas das artimanhas do outro.

Num jogo sem fim.

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