Dulce

Ela caminhava com dificuldade, mancando por uma dor no pé direito, enquanto empurrava seu carrinho de limpeza nos corredores daquele local quieto, por conta dos alunos não estarem ali. O horário de aula só começaria dali a algumas horas.

:- Clotilde! – alguém gritou atrás dela e só que ela parou um tempo depois por conta de uma surdez que tinha no ouvido esquerdo. – Clotilde, a senhora por favor vá limpar a sala do diretor, o senhor José está doente e não veio hoje, a senhora pode ir lá sim.

:- Mas, eu não tenho acesso para aquele lado meu filho. – disse com confusão, para o jovem funcionário se lembrando das instruções que recebeu assim que foi contratada.

:- Sim, por isso aqui está a chaves da sala. – o jovem lhe entregou a chave e um cartão para a frágil senhora. – Clotilde, eu preciso que me escute com atenção. Muita atenção. Cuidado com aquela sala, qualquer erro seu, posso ser demitido.

:- Claro, meu jovem. – guardou com sua mão repleta de sardas os utensílios.

E ele então saiu apresado por ter que fazer mil coisas ao mesmo tempo, o evento do reencontro dos ex-alunos estava cada vez mais próximos e ele era um dos encarregados.

A senhora mudou seu caminho e pensou alto contendo um sorriso.

“Eu quero mais que você se foda, meu jovem.”

Finalmente chegou na sala do diretor, a placa escrita diretoria fez com que uma satisfação circulassem junto com sangue em suas veias. Quando foi abrir a porta, esta mesma se abriu antes.

:- Oh! Que susto! – A mulher riu arrumando o óculos que a deixava com cara de professora. – Desculpe senhora.

:- Não foi nada minha jovem. – A senhora respondeu saindo da frente com seu carrinho e dando a passagem para a professora passasse.

:- Obrigada, bom trabalho para a senhora. – Angelique sorriu amável para ela antes de sair da sala realmente e ir embora.

“Vagabunda!”

A senhora pensou empurrando o carrinho para a sala do diretor, passou pela recepcionista, a secretária facilmente com o seu crachá e com seu cartão dado pelo jovem, ela finalmente entrou na sala de Eugênio, o diretor daquela Universidade.

A sala estava completamente vazia.

Não que quisesse realmente ver Eugênio ali, por que isso a atrapalharia, porém fazia tempo que não o via assim cara a cara a última vez foi semana passada. Pegou seu celular e viu o arquivo onde tinha a senha, para a atividade do que ela queria fazer, deu uma olhada discreta por toda a sala e decorou onde estavam as recentes instaladas câmeras.

No tempo que ela estudava ali, não tinha câmeras, por que se tivesse não seria presa por um crime que não cometeu.

Com um pano qualquer foi observando onde ela começaria o seu trabalho, tirando realmente poeira de alguns objetos apenas para que as câmeras a gravasse um pouco, ela foi caminhando até debaixo da câmera principal e com uma descrição impressionante digitou a senha e esperou o sinal. Uma luz vermelha apareceu e ela soube então que as câmeras pararam de gravar. Por conta de seu sistema.

Ela se lembrou de quando Poncho explicou isso para ela alguns meses atrás quando estavam no hotel, que tinham o mesmo sistema antigo de segurança. Para um expert seria tão fácil burla esse sistema como tirar doce de uma criança.

Finalmente Dulce pode endireitar seu corpo, poderia parar de fingir, a dor que a fazia mancar, a fingida surdez, a fragilidade e amabilidade com as pessoas, caminhou até um espelho e sorriu para o seu reflexo, nem ela se reconheceria.

Estava a cara de uma senhora de uns 60 e poucos anos, estava a cara de Clotilde.

Poncho não sabia o que ela estava fazendo, não sabia que ela conseguiu um emprego de faxineira na Universidade Elite Way. Demorou para conseguir se infiltrar na sala da diretoria, como queria desde o começo, mas conseguiu. Decidiu agir sozinha e quando descobrisse algo importante contaria a Poncho.

Afinal o trabalho de colocar câmeras na casa de Eugênio não dava resultado, talvez por ela não gravarem um áudio de qualidade, só gravava cenas rotineiras que dava nojo de ver.

Não tinha muito tempo então decidiu ser rápida começou a vasculhar tudo o que ela tinha acesso na busca de algo que servisse para ela. E foi assim durante dias. Quando ela tinha tempo de saia da agência e ia para a faculdade, ela era temporária então não viam problema dela trabalhar apenas quando a chamassem.

Dulce se passou por Clotilde até encontrar algo que seria realmente útil para sua vingança.

‘●’

:- Mais que droga! Não tem nenhuma informação a mais. – Suspirei me contendo. Olhando pela oitava vez aquelas fichas que consegui apanhar da sala de Eugênio.

A ficha do tal Rodrigo Nehme, não tinha nada demais que ela não soubesse, apenas que casualmente ele viajava muito e faltava também, será que era interessante o fato dele ter voltado para a faculdade na época do assassinato?

Talvez, só que por minhas lembranças, ele voltou, mas viajou em seguida.

Algo me chamou a atenção, passou pela minha frente sorte que ele não me viu dentro do meu carro, ele atravessou a rua, passou na frente do meu carro e entrou no bar. E eu sorri, hoje seria uma noite divertida.

Guardei todos os papéis que eu tinha numa pasta e dentro do carro. Dei uma última olhada no meu visual arrumei inutilmente uma mecha de cabelo, que estava cacheado. E sai do carro dando as chaves para o manobrista.

Fui para o bar e procurei-o com o olhar, quando o achei fui para a direção oposta, como há umas duas semanas Eugênio depois de seu expediente no Elite, vai direto para um bar beber antes de ir para casa e já o escutei algumas vezes ligando para sua casa e dizendo que estava preso no trabalho, enganando a noiva. Hoje ele fez novamente, só que dessa vez, em vez de observá-lo vou conversar com ele, só tinha que esperar o momento certo.

Que chegou depois de uma hora e meia.

Ele estava bêbado e sozinho ali, essa era minha chance perfeita, para falar com ele.

:- Ora, ora, ora o que temos aqui! – Eu falei em seu ouvido me aproximando mais da cadeira alta que tinha ao seu lado. E sorri quando ele me olhou.

:- Dulce! – ele disse enrolado, bêbado dando mais importância a sua bebida do que quem estava ao seu lado. Até mesmo minha pessoa.

:- Você não deveria está com sua família perfeita? – Para completar meu sarcasmo eu fiz questão demonstrar as aspas com meus dedos, me lembrando de como uma vez ele me definiu sua relação com Angelique e até Enzo.

Ele ficou olhando para frente o movimento do balcão, a cabeça cambaleava assim como os olhos claros não tinham um ponto fixo, parecia até que sequer tinha me escutado, só parecia.

:- Perfeição não existe! – Disse alto e mal humorado.

Me deu vontade de rir, gargalhar na cara dele, mas me contive.

:- Demorou a descobrir isso. O que Angelique fez? Ou Enzo? Para você descobrir que a perfeição que você idealizava não existe.

:- Eles são humanos, assim como eu, e os humanos não são perfeitos. – Revirei os olhos com sua resposta! Bêbados, só falta agora começar a falar de amor ou de política para mim.

:- Quer saber de algo que eu descobri, Eugênio? – eu disse me aproximando dele.

Ele ficou me olhando de uma forma zonza, sem ficar realmente parado, quem visse até pensava que ele não estava prestando atenção, que a bebida o faria esquecer. Mas, eu sabia que Eugênio poderia ter a pior das ressacas no dia seguinte, mas ele lembraria de tudo. Absolutamente tudo.

:- O que?

:- Digamos que eu tive acesso a uns papéis, que digamos são exclusivos, — fui falando inocente. – eu me surpreendi quando estava lendo, sabe? Eles são a prova que certo diretor, super faturou as contas da sua universidade! Poxa, isso pode ser tornar um grande e grave problema se não só os donos da faculdade como sua família souber, não é verdade? – fingi aquele momento que tinha pena, só fingi por que em realidade estava explodindo de alegria.

:- Como você teve acesso a esses papeis? – ele já me perguntou temeroso, esquecendo sua bebida, isso demonstrava que ele estava consciente.

:- O que importa? Acho que você deveria se preocupar mesmo é como vai fazer com que eu cale essa minha boca linda. – mordi os lábios de propósito o fazendo olhar, peguei por um momento a bebida dele e tomei o resto em um gole. – E terá que ser um argumento interessante, por que já imagino como as pessoas ficaram decepcionadas com você. – depositei o copo de vidro agora vazio no balcão para encará-lo.

:- E você odeia isso. – continuei olhando para sua boca mesmo, porque eu sempre fui atraída por ela. – Odeia que as pessoas que você gosta se decepcionem contigo.

:- Aonde você quer chegar?

:- Ainda não sei, estou pensando seriamente, para ser sincera. O fato é que espero que fique claro que você está na minha mão agora, qualquer vacilo seu eu. Te pego de jeito, branquelo. – pincelei meu dedo no seu nariz.

:- Estou ficando tão cansado de tudo.- ele me cortou me fazendo estranhar por que esperava outra reação sua. – Tão cansado que tenho vontade de que você diga a todos mesmo.

Fiquei confusa, mas isso não poderia acontecer, ele não poderia inverter o jogo dessa forma, ele tinha que ficar em minhas mãos.

:- Está falando isso da boca para fora. Eu conheço você Eugênio. Se eu contasse tudo o que sei, você não só teria que conviver com a decepção dos outros como também o peso na sua consciência. A decepção com você mesmo. Agora está apenas anestesiado por conta do álcool.

:- Eu descobri que Enzo não é meu filho! – ele soltou realmente triste. – Ouvi uma conversa de Angelique com suas amigas, e ela dizia que ele não é meu filho.

E novamente tive vontade de rir.

:- Agora me conta outra novidade? Assim que botei os olhos no garoto eu já sabia disso. – sorri para ele por que aquele assunto o machucava, e se o feria eu estava feliz. – Como é descobrir que sua santa não é tão angelical assim? – agora eu ri na cara dele.

:- Ela mentiu durante anos para mim. – ele disse com raiva, pedindo outra bebida forte para ele. – Não suporto mentiras.

Soltei uma gargalhada. Falou o cara que traiu a namorada comigo várias vezes, ele tinha um dom para mentir para ela que eu ficava surpresa. Só que meu sorriso morreu quando essas lembranças minhas e dele, me vieram à cabeça. Aquilo poderia ser interessante, extremamente arriscado, porém interessante.

:- Está com raiva de Angelique por que omitiu isso de você? Por que ela lhe tirou um filho? Por que ela de certa forma traiu você da pior forma possível? Eu posso dizer algo que pode te aliviar não que eu queira o seu bem é claro.

:- O que você pode me dizer? – Foi impressão minha ou ele foi irônico comigo agora?

:- Talvez porque eu entenda de traição? – agora ele me olhou. Sabia que eu estava falando dele. – Quer ouvir meu conselho?

Ele não fez nada além de continuar bebendo, encarei aquilo como um “me dá igual”, não foi um sim, porém também não foi um não.

:- Se vingue dela. – me aproximei dele e com a boca em seu ouvido. – Me beija!

Ele se moveu rápido para me encarar, sei que aquilo era loucura, mas ele estava com a guarda baixa. Se conseguisse conhecê-lo a me beijar seria como recordar os velhos tempos. Ele trairia Angelique comigo. Aquilo não tinha preço para mim. Não importava que isso se voltaria contra a minha vingança particular. Não importava o que Poncho pensaria quando descobrisse.

Eu só queria que Angelique sofresse. E ela sofreria ao saber que seu noivo me beijou. Se eu não estava lucrando com minha vingança, não perderia ao ver Angelique se decepcionar com Eugênio.

Sabia que aquele olhar voltaria nele. Mais cedo ou mais tarde, o mesmo olhar do menino que agia mais pelos seus hormônios do que pelo sentimento pela namorada. Eugênio me encarava com os mesmo olhos desse menino, nesse momento ele estava considerando a possibilidade. Eu sabia disso não só pela forma como me olhava, mas como ele molhava os lábios.

Estava muito magoado com Angelique, ele tinha um lado impulsivo, que ficava mais evidente quando estava com raiva ou triste com alguém. Nesses momentos que cometemos erros. Decidi avançar mais. Agir.

:- Apenas um encostar de lábios. Um selinho se preferir. – sugeri com uma voz baixa que fazia ele se aproximar mais para ter que me escutar.

:- Por que está fazendo isso?

:- Não importa. O que é importante é a razão pela qual você vai fazer isso. – processei os argumentos que diria a ele. – Tudo o que você mais quer agora é aliviar essa dor que está sentindo, uma das formas de aliviar a traição dela, é fazê-la sofrer também. Pense no que mais machucaria Angelique nesse momento, Eugênio?

Deixei a pergunta no ar, ele era o tipo de pessoa influenciável, quando desejar que ele tome ação era só apertar os botões corretos. O que deu certo.

Eugênio pegou seu copo de bebida se afastando e o tomando de uma vez pela careta que fez a bebida fez efeito, sabia que aquilo seria sua desculpa, amanhã quando ele se arrependesse. Ele colocaria a culpa na bebida. Então ele se aproximou e me beijou. Não foi um selinho como eu sugeri, foi um beijo mesmo.

Naquele momento correspondendo seu beijo, ninguém saberia além de mim. Que eu tinha saudade. Saudade de Eugênio, saudade essa que ultrapassou todo meu ódio e desejo de vingança por ele. Eu sentia algo muito estranho ainda. Era isso que teria que tomar cuidado.

Emoções por seu inimigo?

Isso era inaceitável.

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