Vício M(eu)
2 Capítulo 1 - Comum? Acho que não.
Notas iniciais
Capítulo 1 — Comum? Acho que não.
–– E esse ano, a minha didática será diferente. Nós vamos fazer muitas redações! –– a professora ergue os dois braços para cima e planta um sorriso demasiado em seu rosto, acho que ela está no mínimo satisfeita com o seu novo plano de ensino. A turma inteira faz uma careta, até eu permito-me esboçar alguma reação, mas isso é só porque eu realmente odeio do fundo da minha alma redações. Não me dou bem com as palavras, nem na parte teórica, nem na oral. A única que está feliz com isso é Diana, que é a editora chefe do jornal da escola. Na verdade, seria mais honesto de minha parte colocar no plural, pois são dois jornais:
Os Dois Jornais:
Jornal Oficial: onde você encontra as notícias dos mais variados campeonatos e as vantagens em se estudar nesse patético colégio.
Jornal Clandestino: trata os alunos mais populares como celebridades e conta todas as fofocas de quem tem uma vida interessante e é venerado.
–– E também, –– agora ela seguia sua fala com um tom mais sério, talvez de frustração. –– muitos debates. Sobre assuntos, é claro, muito polêmicos! Eu vou dar um mês, escutem bem, um mês. –– ela frisa a data e usa de seus olhos arregalados para enfatizar um pouquinho mais –– Então não quero desculpinhas esfarrapadas quanto aos atrasos, para eu ter em cima da minha mesa uma redação impecável, sobre algo polêmico. Vocês vão pensar se são a favor ou contra o assunto que escolheram e vão me dar argumentos maravilhosos! Estamos entendidos? –– A Srta. Philips finaliza a sua fala de professora de inglês.
A turma responde com um “sim” num coro de velório.
O sinal soa, dando fim ao segundo dia de aula e eu me encaminho para a sala da diretoria, apenas para confirmar se continuaria com o meu emprego de bibliotecária.
–– Não entendo você, Srta. Fox. Ninguém vai à biblioteca. Não consigo ver coerência em passar todo o seu tempo livre numa sala escura e solitária! –– dizia o diretor com um tom dramático e exagerado. Chego a abrir a boca para dizer que não me importo, mas ele me interrompe antes de eu formular algo para ser interrompido. –– Mas, já que a senhorita insiste tanto... Vá logo! Ande, saia daqui, estou muito ocupado! Vamos! –– E assim termina o monólogo, com o diretor me fitando com os seus olhos negros e me expulsando da sua sala.
Ele não sabe o que diz, a biblioteca não é um lugar não habitado. Tem gente que vai lá, sim sinhô! Tem uma pessoa que vai, e essa pessoa não sou eu.
É. Um. Garoto. Bonito. Popular. Que. Lê. Poesia.
Ele é Zack, faz parte do time titular de futebol e é um dos melhores amigos de Jack, o capitão do time e namoradinho de Sofie. Sempre fico observando Zack, é alto e forte como todos os jogadores, tem cabelos e olhos castanhos como qualquer garoto comum, mas não. Ele não pode ser comum. Ele é a única pessoa que vai à biblioteca. Ele lê poesia. Ele até, uma vez, já me deu “oi”. Definitivamente “comum” é uma característica que não pode ser diretamente relacionada a ele.
Zack tem até meio que um ritual quando acaba a leitura.
O Ritual de Zack:
Fecha lentamente o livro.
O deposita sobre a mesa.
Fecha os olhos e (penso eu) reflete.
Com cuidado, coloca o livro na estante correta.
Deixa escapar um longo suspiro enquanto admira o livro na estante.
Num piscar de olhos arranca a melancolia de seu semblante e vai embora.
Às vezes me pergunto se seus amigos-brutamontes-jogadores sabem de sua afinidade com as rimas poéticas. Suspeito que não.
Os únicos dias que tenho algo para fazer além de ler, aqui na biblioteca, é quando Zack aparece e eu posso ficar contemplando discretamente cada ato seu. No entanto, depois ele que vai embora, fico no mais belo tédio. Na verdade, não sei como ainda não me acostumei. Não sou lembrada nem para sofrer bullying. É como se eu simplesmente não existisse.
Balanço a cabeça, afastando todas essas ideias deprimentes e volto a enxergar o que de fato há. Várias estantes repletas de livros empoeirados. Zack não está aqui, e eu preciso urgentemente parar de transformar recordações em alucinações. Giro a cadeira de rodinhas para o outro lado da bancada, onde fica um único computador. Abro o Google e digito “Assuntos polêmicos”. Sim, eu fiz isso mesmo. Vamos ver se adianto alguma coisa dessa redação. Vou descendo a página, rezando para que algum link me chame a atenção. E pela primeira vez alguma prece minha é atendida.
O título do post diz: “Masturbação Feminina”. Levo a flechinha até ele e pressiono o botão esquerdo do mouse. Clico, e uma página em branco aparece. Aguardo pacientemente o carregamento completo.
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