Notas iniciais
Casal: escolha do leitor ^^ Não é uma songfic, mas foi inspirada na música de mesmo nome do título, interpretada pela cantora Perla. (não é a cantora de funk, pelo amor de Deus >.<)

Não há dúvidas de que existe amor nesse mundo. O que me preocupa é como expressá-lo.”

Osamu Dazai

- Você acha que ele vai gostar? — recebi a pergunta, como quem recebe uma indigestão: queimação no estômago seguida de mal-estar.

- Não sei, provavelmente... — respondi, olhando de canto para a pequena caixinha de presente sobre a mesa de centro. Tentei deixar clara minha indiferença, fingindo prestar atenção no filme que passava na TV. — Ele gosta dessas coisas, né... pulseiras, correntes...

- Gosta, mas não tenho certeza se ele prefere prateado ou dourado, acabei comprando prateado...

Rodei os olhos, tentando prender minha atenção na tela à minha frente. Ele falava e falava, sentado ao meu lado, e eu só queria lhe dizer que calasse a porra da boca.

Aquela boca que eu queria pra mim, mas não teria nem quando os porcos criassem asas. Ah, como eu odiava me sentir assim! Dia após dia, repetia pra mim mesmo que eu não me importava. Que estava muito bem sozinho e que ele tinha todo o direito de ser feliz com quem quisesse. Por isso respirava fundo e procurava me acalmar sempre que ele vinha compartilhar de sua vidinha amorosa patética comigo.

E eu sentia inveja daquela vidinha amorosa patética. Por quê? É o que eu gostaria de saber. Talvez porque eu quisesse que coisas assim também acontecessem comigo.

Me sentia fraco e estúpido quando admitia pra mim mesmo esses desejos secretos. Eu sempre me impunha essa postura de forte, de inatingível. É como fui criado, não sabia ser de outro jeito. E me repreendia a cada vez que meu coração me traía. E eu só queria que esse sentimento morresse pra que eu não me importasse de verdade.

“Morra! Desapareça!”

- ...e acho que amanhã não vai dar pra gente ir ao cinema, tudo bem? É que ele quer conhecer aquele restaurante novo no centro. Eu podia desmarcar, mas sabe como é...- ele continuou, me olhando agora como quem pede desculpas — ... semana passada a gente já não saiu porque eu fui assistir aquele show com você... Você entende, né?

- Claro, eu entendo.

“Entendo o caralho!”, apertei com força o botão do controle remoto, descontando minha raiva nos canais que eram trocados freneticamente diante dos meus olhos. “Não foi você quem disse que estava super afim de ver a porra do show?”, pensei, irritado. Depois me irritei comigo mesmo, pra variar um pouco. Será que ainda não me dei conta de que ele não me deve absolutamente nada?

É isso o amor? É ir jantar no restaurante novo do centro? É comprar presentinhos? É falar da outra pessoa como quem fala de um novo bichinho de estimação? Que porra é essa? E por que ninguém me explica logo pra eu saber o que eu to fazendo de errado?

- ... ah, a propósito, ele disse que gostou bastante de você! — ele ainda continuava falando com uma voz melodiosa e animada que já começava a me fazer ranger os dentes. É claro. Como não gostar de mim? Eu sou sempre amável. Sempre simpático, sempre educado. Sempre escondendo o que eu sinto pelas pessoas, seja o sentimento bom ou ruim. Como não gostar?

- Ah, que bom... também achei ele legal. — dei um meio sorriso, não tendo a mínima idéia de como eu fazia aquilo. Odiando o fato de que, sim, o cara era de fato muito legal. Às vezes eu achava um porre como as pessoas podiam ser legais. E eu sei o quanto isso soa imaturo. O que eu tava querendo, afinal? E por que eu perdia tanto tempo pensando nesse tipo de coisa?

Talvez eu devesse procurar algum tipo de ajuda profissional. Tinha que haver algum medicamento inibidor de devaneios que eu pudesse tomar de doze em doze horas pra parar com essas idiotices. Quem sabe sob o efeito de algum narcótico legalizado eu pudesse simplesmente falar pra ele “Olha, eu gosto de você assim. Tudo bem se você não sentir o mesmo, mas eu realmente, realmente, quero que você saiba que é assim que eu me sinto.”

Por que... eu não falava isso agora? Eu devia falar agora e acabar logo com isso!

Via sua boca se mexendo, me contando coisas sobre um outro alguém, e já não conseguia ouvir uma só palavra. Só fazia que sim com a cabeça, alternando meu olhar entre seu rosto lindo, tão lindo, e a TV. Será que eu gosto mesmo de você? Será que eu te amo e toda essa coisa? Ou será que é só atração porque eu ando me sentindo muito só? Porque se for só isso, não vale a pena te contar...

“Não comece a analisar! Não comece! Você tá sendo covarde e sabe disso!”, fechei os olhos por um segundo, tentando respirar. Tá. Talvez eu precisasse da ajuda dos narcóticos legalizados pra dizer qualquer coisa que fosse. Eu sempre falei demais, e em alto e bom som. Alto demais na biblioteca. Alto demais durante as aulas de biologia. Alto demais dentro da minha própria cabeça. Mas nunca tive problema algum pra me expressar! Então que porra de timidez patológica era essa que agora se instaurava em meu ser? Que medo insano de rejeição era esse que se apossava de mim? Devo ser tão ou mais patético que todos os patéticos apaixonados de quem tiro sarro.

Que ótimo.

- ...e bem, eu acho que amo ele de verdade. — escutei então, só naquele momento acordando pro mundo real e pro que ele me dizia alegremente e eu nem prestava muita atenção, perdido em minhas neuroses individualistas.

- Espera... o quê? — perguntei, finalmente deixando o controle remoto de lado, incrédulo sobre o que tinha acabado de ouvir. -Você... acha... que ama ele de verdade? — repeti estupidamente, olhando agora para o rosto que me fitava sorrindo. E eu não sabia se ele ria pra mim ou de mim. Da minha cara de idiota.

- Amo...

Abri a boca, mas som algum foi produzido.

Como? Como “amo”? Como é isso? E como ele dizia aquilo assim tão fácil? Tão sem complicações? Tão serenamente? Meu cérebro iria entrar em parafuso a qualquer instante, e eu sentia que faria uma besteira, e das grandes, se não recebesse uma explicação.

Não, ele não me devia absolutamente nada. E sim, ainda assim eu queria uma explicação. Me processe. Eu estava pasmo e fodido de raiva ao mesmo tempo.

- Mas...como você sabe... que ama de verdade? — perguntei então, a voz entrecortada e contida, e era muito provável que uma veia bem grossa e azul estivesse assustadoramente saltada em minha testa enquanto eu dizia aquilo.

Eu ainda tava tentando entender o básico do amor e agora ele me vinha com essa de “amor verdadeiro”? O que era aquilo? Uma versão atualizada do “amor normal”?

- Ah, a gente sabe, né... — ele respondeu, abrindo o melhor de seus sorrisos, como quem diz o óbvio simplesmente pelo prazer de dizê-lo. — A gente sente...e simplesmente sabe...

Simplesmente sabe...

Essa é uma porra de uma mentira! Foi a primeira coisa que me veio a mente. Se a gente sente e sabe, por que então eu sinto e não sei? Quis gritar de ódio e frustração, sendo martelado bem no meio da cabeça com a antiga certeza de que o problema devia mesmo ser comigo. Porque nada era simples pra mim. Era assim que eu entendia a maior parte das coisas do mundo. Complexas e indecifráveis. Talvez minha lógica fosse distorcida. Eu sempre sentia emoções muito fortes, mas nunca sabia dar nome a elas.

- O amor é assim. — ele finalizou num suspiro, como quem encerra o assunto, e pegou a caixinha de presente de cima da mesa, olhando-a ternamente.

E eu queria estraçalhar em mil pedaços toda aquela ternura.

- Quer saber? Vá pro inferno com seu amor! — respondi então de supetão, levantando-me diante da cara de completo choque que ele me fez, e acho que nunca na vida o vi tão confuso. Mas foda-se. Ele não tinha o direito de me falar de amor. Não com aquela autoridade no assunto. Me fazendo sentir que nunca serei capaz de compreender esse sentimento da mesma forma que a maioria das pessoas.

Que nunca então serei amado... como a maioria das pessoas.

“O amor é assim.”

Que porra você sabe sobre o amor?

Saí com pressa pela porta da frente antes que ele pudesse me falar qualquer coisa e corri pela rua sem rumo até chegar à esquina.

Então chorei.

Notas finais
MUITO obrigada por ter lido! Deixe um review, ficarei muito contente.^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!