Vulto da Noite
1 Único
Notas iniciais
Às vezes eu paro e penso
E de pensar me canso e paro
Viver é algo tão denso
Sorrir algo tão raro
Não que as lágrimas sejam impedidas de cair
Não deveriam nem mesmo surgir
Não tenho escolha enfim
Porque estou vivo, fato
Mas nada disso devo a mim
Devo a quem jaz longe, fora do faro
E tinha um cheiro tão reconfortante
Perfume simples, inebriante.
Monstro, dizem que no futuro me torno
Homem, sinto que ainda sou
Odiado, pela divindade que adoro
Cristão, pelo crucifixo que restou
Nenhuma palavra, nem todas enfim
É capaz de descrever o que espero de mim.
Um pobre garoto,
Perdido, triste e maltratado
Homem não completo, falho
Ingênuo, apaixonado.
Paixão que é minha, mas não o amor
O amor é dele, de meu senhor.
Um mestre que age no escuro
Veste-se da noite e vermelho
É minha arma e meu escudo
E de minha alma o espelho
Não sei se eu o crio ou se me acolhe
Sei apenas que é ele, a quem ela escolhe.
Ela que é o dia encarnado
Traz consigo a luz que do Sol rompe
Ilumina-me, abobalhado
Meus pensamentos corrompe
Mas não me ama, ama outro
Um outro que sou eu, noutro.
Porque se não era para conhecê-la
De que vale tanto sofrer?
Se não era para tê-la
Para que séculos viver?
Se minha vida não me pertence, dou-a a ti, por bem
Dou-te minha alma, meu corpo, e tudo além.
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