– Mãe, o que tem pra comer?

– Charlotte, você devia controlar essa sua fome.

– Mas eu estou com fome, não posso fazer nada. — Minha mãe e sua obsessão com o meu peso, o seu peso e o peso de todo mundo um dia ainda vai me enlouquecer, sou a unica mais gordinha aqui dessa casa?

– Tudo bem, tem alguns sanduíches dentro da geladeira, mas se aparecer uma estria nessa sua coxa gorda, não venha me culpar!

– Nossa, mãe, era tudo o que eu mais queria ouvir hoje. — Hannah, a moça que também chamo de mãe, não media muitas as palavras comigo. Mas já era de se esperar, estava em seu salto agulha preto e vestindo um vestido azul estilo "sou mãe, mas ainda sou sexy" mas custa por uma pantufa?

Nunca estava nos maiores de meus confortos dentro de casa, sempre tive minha mãe como inspiração, mas sempre quebrei meu queixo tentando chegar ao mesmo nível dela. Emagrecer não era comigo, mas pelo menos, herdei os cachos ruivos dela. Mas meu corpo nunca foi como o dela, minhas coxas encostavam uma na outra, meu guarda-roupa é 70% preto pra esconder alguma gordurinha indesejada e sem falar que minha barriga não é chapada. Simplesmente o oposto dela.
Como de costume, eram 15h da tarde e eu continuava com meu pijama lilás com um ursinho bege segurando uma flor, todo feliz, estranhamente estampado dos meus peitos até meu umbigo. Nesse tempo chuvoso de Wallington, nada melhor que continuar sentada no meu sofá, praticamente, vegetando. Quando recém sento, no estilo menos feminina possível, meu pai entra pela porta com força. Estranho, já que ele normalmente chega daqui a duas ou três horas.

– Ué, pai. Chegou mais cedo?

– Onde está sua mãe?

– Acho que ela tá lá em cima, não tenho certez... — interrompo a frase e percebo que ele está suando, tremendo. — Pai, aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu. — Ele me olha cabisbaixo, nunca vira ele daquela maneira. Pela primeira vez, eu vi medo nos olhos do meu pai. — Me perdoe, Charlotte.

– Não, pai, que isso?! Pra tudo tem um jeito. — Levanto e vou abraçar ele, mas ele sai correndo gritando pela minha mãe. Vou atrás dele, subo as escadas enquanto faço um coque no meu cabelo, algo que sempre faço quando estou nervosa, ou com calor, neste caso estou sofrendo uma mistura dos dois.
Meu pai entra no quarto dele, minha mãe está lá, mas fecha a porta logo diante de mim, impedindo que eu possa ver. Mas fico escutando pela porta.

– Taylor, você parece cansado.

– Hannah, me perdoe!

– O que aconteceu, amor?

– Eu fudi com tudo! — Meu pai falando palavrão? O negócio deve ser sério.

– O que você quer dizer com isso? Amor, eu to com você pro que precisar.

– Eu estou devendo pra muita gente, eles vão vir nos caçar pra pegar esse dinheiro.

– Nos caçar? Como assim? Quanto você deve?

– 200,000 dólares.

– O que? — Consegui ouvir minha mãe histérica lá de fora.- Como você deve 200,000??? Você não voltou a jogar, voltou, Taylor?

– Me desculpe, Hannah! — Meu pai jogava? Como nunca fiquei sabendo disso?

– O que faremos, ele vão te matar, Taylor! Nós não temos todo esse dinheiro!

– Eles vão me matar de qualquer jeito, vocês precisam escapar de algum jeito, eles podem chegar a qualquer momento. — Eles vão matar o meu pai? Como? Não posso ficar calada.

– Pai! O que está acontecendo? — Minha mãe estava de pé, toda descabelada com lágrimas já escorrendo por sua maçã do rosto.

– Filha, você escutou tudo?

– Sim, pai. — Acho que não posso perder tempo agora, explicações ficam pra depois. — Vamos fugir, todos nós, eles não vão nos achar se não estivermos aqui, não é?!

– Não é tão fácil assim, Charlotte! Abandonar uma casa inteira com seu pai aqui dentro sabendo que ele vai morrer? Você ficou louca? — Minha mãe fala em um tom rude, como se a culpa fosse minha.

– Ele vem com a gente, não vou abandonar meu pai aqui dentro pra ser pisoteado por uns marmanjo que querem dinheiro!

– Filha, escute, vá pra seu quarto e faça uma mala, coloque algumas roupas, coisas importantes, não podemos perder um minuto se quer. — Meu pai fala como se já tivesse uma decisão pronta. Não discuto, apenas vou

Não tenho muito a fazer neste momento a não ser obedecer, entro no meu quarta e puxo uma mochila de mão preta ainda cheirando a bebida que meus amigos derrubaram por todo o ônibus na viagem da escola ano passado. Abro meu guarda-roupa sem nem ver o que estou pegando, apenas jogo na minha mala com até os cabides. Coloco minhas calças e alguns tênis. Bem, ainda tenho algum espaço. Pego meu iPod prata e alguns perfumes e afundo na minha mala. Fecho-a e a coloco no ombro. Lembro que ainda estou de pijama, coloco uma roupa qualquer e corro pro quarto de meus pais, vejo os dois abraçados, chorando. Fico parada, estasiada, sentindo algumas lagrimas saírem de meus olhos sem nem a menos eu perceber. O que está acontecendo realmente? Pra onde vamos? Não é o momento pra eu fazer nenhuma dessas perguntas, então apenas choro.

– Filha, você tem que ser forte. — Hannah fala, limpando algumas lágrimas de sua bochecha, mas vi que aquilo era um conselho até mesmo para ela. — Vamos achar algum lugar, mas precisamos sair daqui.

– Mãe, eu vou até o inferno se for preciso, mas não me deixem, por favor! — Pior momento pra ser carente, não sei o que faria sem meus pais. Já não tenho um mísero parente que não more em outro continente, não posso ficar sem as pessoas que mais amo.

– Estaremos juntos, filha, estaremos. — Vi sua voz começar a falhar de tanto segurar o choro, ela me abraça forte e eu faço o mesmo. Minha cabeça estava um turbilhão de pensamentos, mas precisava e reerguer naquele momento.

– Filha, vem cá. — Meu pai me chama. Corro até ele. — Eu te amo com todas as minhas forças, desculpa estar fazendo você passar por isso, sou o pior homem da humanidade. Tome, pegue isso. — Ele retira o colar com uma cruz que tem no pescoço e coloca no meu. — Se qualquer coisa acontecer, lembre-se disso.

Não faço nada mais sem ser chorar, estava sem reação, corremos todos para a porta e fomos em direção ao nosso carro. Estávamos no meio do gramado que meu pai acabará de cortar, e duas Tuksons pretas arrodeiam nosso humilde Golf.

– São eles! Corram! — Meu pai gritou e olhou para a gente. Minha mãe segurou minha mão e me puxou com tanta força que sentir meus ossos estalarem, saímos em disparada para a parte de trás da nossa casa, e então, ouvimos tiros.

Depois do barulho ensurdecedor daquela arma, o silêncio se propagou por todos os cantos, até mesmo dentro de minha cabeça. Eu e Hannah nos viramos e nos deparamos com meu pai já ajoelhado, ele levou três tiros. Ele nos olhou com seus olhos cheio d'água e murmurou desculpa e então, virou seus olhos e caiu deitado na grama. Eu não tinha reação, estava tão apavorada que paralisei, meu pai.... está morto?