Vulnerável
2 "Dor"
Meu grito fora tão alto que consegui sentir gosto de sangue na boca, não acredito no que estava vendo. Meu pai estava ali, na minha frente, deitado e coberto de sangue, e eu não pude fazer nada. Fiquei tonta, queria vomitar, não sabia nem mais se aquilo era realmente real ou era apenas o pior pesadelo que eu tive. Estava tão sem reação que não conseguia correr até lá para ajudar, ou pelo menos tentar. Minha mala caiu do ombro e tudo o que eu queria era ir até lá para ver se tinha uma chance de ele estar vivo. Meu pai? Meu pai está morto? Minha cabeça estava em um silêncio, que apesar de tudo, estava bem barulhento. Entrei em choque, tudo parecia se mover em câmera lenta, minha mãe, ainda segurando minha mão, estava no mesmo estado que eu.
– Filha, corra! — Ouvi um murmuro muito baixo, estava tão atordoada que meu batimento cardíaco era tudo que eu escutava. E então minha mãe me empurrou com tanta força a ponto de me tirar daquele transe. — CORRA!
Tentei correr, ainda com os olhos fixados em meu pai. Ele morreu, na minha frente, e eu não pude fazer nada. Quando finalmente entendi o que estava acontecendo, as lágrimas vieram a tona. Não pudia parar naquele momento ou aqueles homens poderiam me parar, mas minhas lágrimas estavam embaçando muito minha visão. Dei uns três passos rápidos em direção a parte de trás da minha casa, e então uma mão grande e quente segurou meu pulso e o puxou com força. O puxão foi tão forte que dei de cara com um peitoral malhado escondido sobre uma camiseta gola v preta, me dei conta que não era minha mãe.
– Aonde você pensa que vai, mocinha? — O homem com o cabelo raspado e barba por fazer fala num tom irônico, ele tinha uns 2 metros, quase o dobro da minha altura e músculos que um espirro dele poderiam me jogam a milhas de distância.
– Me solte, seu filho da puta! — Tentei puxar meu braço de volta em vão, tudo o que ele fez foi ir para trás de mim em um piscar de olhos e imobilizar meus braços. Por mais que eu tentasse sair de lá, parecia não causar um mísero efeito nele.
– É melhor ficar quietinha, vai ser melhor pra você.
– Obrigue-me! — Por que falei isso? Foi só o tempo de sentir o puxão de cabelo que ele dera em meu coque já todo desmanchado e eu quase gritar de dor.
Com a cabeça para o céu, o troglodita semi-careca não largava meus cabelos, mas pude ver um homem fazendo o mesmo com minha mãe, ele também era alto e forte, cabelos castanhos (muito bem arrumados para um assassino) e sua expressão facial me irritava, ele sorria só com o canto dos lábios. Como alguém pode se divertir num momento como esse?!
Minha mãe estava chorando, seus olhos não desgrudavam do corpo do meu pai. A cara de dor que ela estava fazendo me queimava por dentro, parei de lutar e chorei mais ainda. Por que aquilo estava acontecendo? Logo com a gente, que fomos sempre dentro da lei, pelo menos até onde eu sei.
Um homem de jaqueta de couro preta e óculos BL marrom, como já era de se esperar, alto, sai da outra tukson com um sorriso bobo no rosto
– Vocês devem ser os Fountney, não?
– O que você quer? — Minha mãe pergunta.
– Bem, queria este homem morto. — Ele se aproxima do meu pai. — Mas já consegui isso. Você sabe que ele me deve muito, não é?
– Seu arrogante insensível! Como você pode matar um homem por dinheiro? Eu espero que você morra no inferno!
– Ninguém é sempre bonzinho, eu apenas não sou bonzinho o tempo inteiro. Belas pernas, aliás. — Ele encara minha mãe e começa a rir, uma risada visivelmente forçada. E minha mãe, por mais forte que ela ainda tente parecer, suas lágrimas rolam por todo seu rosto.
– Nós não temos esse dinheiro.
– Bem, quero meus 200.000 dólares, problema é seu se não conseguir. — Ele se aproxima tanto de minha mãe que seus peitos se encostam.
– Você tem filhos? — Que raios de pergunta é essa mãe?
– Não, por que?
– Não terá mais nenhum agora. — Minha mãe dá uma joelhada tão forte nos testículos dele que ele chegou a pular (e eu quase senti a dor que ele sentiu). Que orgulho, mãe!
– Acabem com elas. — Ele geme no chão, com as mãos em suas partes baixas. Senti o homem saindo de trás de mim e veio parar na minha frente. Ele segurou meus ombros e olhos nos meus olhos e disse
– Boa noite, garotinha. — Ele coloca seu braço o mais para trás possível e da um soco no meio da minha cara com toda sua força. Eu cai para trás e vi tudo girar e minha visão estava sendo engolida por uma névoa preta, a dor que sentia no meu queixo era enorme, mas minha visão foi completamente engolida pela escuridão e eu apaguei.
Eu abri meus olhos, a dor que eu sentia tinha se espalhado pela minha cara inteira. Coloquei a mão na minha cara e vi que meu olho estava inchado. Merda, eu estava com um olho roxo. Nunca tive um mas não gostei da experiência. Espera, eu não estou mais no quintal da minha casa, eu estava deitada em uma grama alta, tentei me apoiar em algo para sentar mas eu estava em um morro pequeno. Fiz força para me apoiar e senti uma pontada gigante nas minhas costas, estava inteira dolorida. O sol ainda estava quase se pondo, mas pude ver o quão suja eu estava.
O que tinha acontecido? Me lembro só daquele guarda-roupas me dando um soco e depois disso tudo o que eu me lembro era ter sentido muito calor. Onde estava minha mãe? E meu pai? O que fizeram com eles? Tentei ficar de pé mas ao apoiar meu pé, cai de novo. Tinha virado meu pé feio, levantei um pouco minha calça e vi o tamanho do hematoma na minha canela, na verdade, na minha perna inteira. Ou pelo meu corpo inteiro, não sei, era tanta dor que não liguei pra mais nada. Tentei levantar de novo mais cuidadosamente, não tinha ninguém por perto, mas resolvi gritar pela minha mãe. Ninguém respondeu. Olhei para os lados e percebi que estava numa estrada, como vim parar aqui?
Sai da grama e fui em direção contra as placas, me lembro deste lugar quando viajava com meus pais. Meu pé doendo estava dificultando minha caminhada, daqui um tempo iria escurecer e não tem muita luz por esses lados. Vejo uma luz vindo pelas minhas costas, um farol. Deus, se você existe, deixe ele me dar uma carona! Começo a acenar desesperadamente e esticar meu polegar para cima, qualquer coisa para chamar a atenção do carro. Ele para um pouco mais da minha frente, é um Camaro vermelho, que bela maneira de pegar uma carona de volta para casa.
– Olá mocinha, onde quer ir?
– Para Wallington.
– Sorte sua, é para lá que eu vou. — Ele ri, não tenho clima pra acompanhar a risada, não sei se terei outra vez na verdade, mas só quero uma carona. — Bem, entre no carro.
– Obrigada. — Entro no banco do caroneiro e já encosto minha cabeça no vidro.
– Você me parece um pouco abatida, o que aconteceu?
– Você não vai querer saber.
– Bem, se eu não gostar da história, eu te jogo pra fora do carro.
– Supondo que agora seja umas 19h, nas últimas quatro horas, eu tive que fugir da minha casa para não ser morta, vi meu pai ser assassinado na minha frente, fui espancada por um cara de 2 metros e possivelmente fui jogado no meio do mato e não sei onde minha mãe está. — Ele ficou em silêncio, por um bom tempo, até chegar em casa para falar a verdade.
– Está é sua rua? — Sim, aquela era minha rua, mas aquela não era minha casa. Simplesmente não tinha mais casa. Estava inteiramente queimada.
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