Não pode ser possível, minha casa estava queimada! O cheiro de fumaça ainda estava por todo o lugar mas nunca passara por minha cabeça que vinha da minha casa. Todas minhas lembranças, as marcações do quanto eu crescia a cada ano na porta da sala, a varanda que eu e meu pai reformamos, estava tudo destruído, não sobrara nada. O teto já tinha desabado na parte da frente, estava tudo carbonizado. O que eu fiz pra merecer isso? Tudo isso aconteceu em um mísero dia? O que bostas eu fiz pra estar vivendo tudo isso?

– Moça, você tem certeza que mora aqui?

– Eu... — gaguejo um pouco. — Eu acho que tenho.

– Ela está toda queimada, você costumava morar nela queimada?

– Você é burro? É idiota, né? Não ta vendo que ela foi queimada agora? Eu não tenho mais onde morar!! — Nem me importo que fui grossa com ele, as coisas mais inimagináveis aconteceram hoje, não acho que deveriam esperar uma gentileza minha.

– Moça, qual seu nome? — Ele fala ainda dentro do carro, olhando pela janela do caroneiro.

– Charlotte. Charlotte Fountney.

– Charlotte, eu sinto muito por este dia que está tendo. Onde vai morar agora?

– Eu não sei, moço. — Ele me interrompe e fala o nome dele. Patrick. — Talvez eu vá para casa de algum amigo, eu não sei, nenhum deles são tão fortes a ponto de eu poder morar na casa deles

– E seus parentes?

– Se não estão mortos, estão na Austrália ou no Brasil, e são primos segundos.

– Charlotte, olha, se quiser passar um tempo na minha casa até que tudo se estabeleça, está tudo bem! Não é muito grande, mas apenas eu e minha irmã moramos lá. Não parece merecer o que está passando agora.

– Moço.... — Finalmente olho para ele, quem sabe seja uma luz no fim do túnel, coloco as duas mãos na cabeça, agarro meus cabelos e começo a chorar. Espero que ele entenda que isso seja um sim. Tanta dor física e psicológica me jogaram ao chão, cai de joelhos e chorei desesperadamente. Coloquei as mãos no meu rosto e chorei gritado, chorei como nunca chorei antes. Patrick desceu do carro e me abraçou, coloquei a cabeça no seu peito e comecei a ficar tonta de tão acabada que estava. — Obrigada, Patrick. Obrigada. — Falei entre soluços.

Combinamos de que ele me buscaria dentro de uma meia hora, ele iria avisar sua irmã e eu iria ver se sobrou algo que não fora carbonizado. Eu estava zonza, estava parada no meio da sala onde só via móveis queimados e saindo fumaça, nada prestou. Subi cuidadosamente para o segundo andar, o fogo deve ter fragilizado o chão então estudei cada passo meu. Caminhava aquele corredor com tristeza, o assoalho rangia quando meu pé tocava. Abri a porta do meu quarto e entrei, tudo preto, e parecia que uma parte de mim também escurecia e morria, a outra parte viva dentro de mim já morrera ao decorrer deste dia. Abri meu guarda-roupa e encontrei algumas roupas que não foram deterioradas, segurei-as com força contra o peito e pensei que aquilo poderia ser a ultima coisa que sobrou. Meu celular foi roubado por aqueles homens, meus documentos, e Deus sabe o que fizeram com minha mãe. Só queria ouvir a voz dela e me dizer que estava tudo bem.
Patrick buzina e eu desço correndo. É isso, adeus casinha.

– Encontrou algo?

– Destroços, cheiro de fumaça e lembranças ao fogo. Ah, e encontrei essas roupas.

– Eu sinto muito, muito mesmo por tudo isso que está acontecendo. — Apenas assenti com a cabeça e mordi o lábio inferior, prendendo o choro.

Chegamos na casa dele, era uma casa de dois andares marrom, com um jardim lindo cheio de tulipas azuis. A casa por fora era bonita, passei um tempo observando e pensando no que se tornaria minha vida a partir desse minuto. A irmã de Patrick sai na porta, era uma moça alta, cabelos negros lisos até a altura de seu peito, tinha uma aparência latina. Olhos verdes, pele meio morena, grandes peitos e bumbum. Uma versão minha, sem o cabelo ruivo, caso passasse 4 anos na academia e na cama de bronzeamento.

– Você deve ser a Charlotte. — Ela abre os braços para um abraço. — Eu sou Tyna, seja bem-vinda.

– Obrigada por me deixar ficar aqui, está sendo um dia bem difícil.

– Patrick me contou, venha, entre. — Tyna segura minha mão e me puxa até para dentro de sua casa. — Bem, está é sua nova moradia agora, pode ficar o tempo que precisar aqui, viu?

– Não tenho como agradecer... Eu digo, peguei uma carona com Patrick no meio da estrada e agora estou morando com vocês. Muito obrigado.

– Não há de que. — Patrick coloca a mão no meu ombro. — Venha, veja onde fica o seu quarto. Ele me leva até o segundo andar, é a segunda porta a direita, devo me lembrar disso.

– Este é seu quarto. — O quarto não era do mesmo tamanho que o meu era, era um pouco menor, tinha uma cama de solteiro com lençol branco e uma cabeceira marrom clarinha. O guarda-roupa ficava do lado da porta. Me sento na cama e coloco minhas roupas do meu lado. — Organize suas coisas aqui, Tyna está fazendo a janta, você deve estar faminta.

– Patrick... — Ele já estava saindo do quarto.

– Sim?

– Posso te pedir um favor?

– Claro, sem problema.

– Você tem um telefone, ou um celular, para eu tentar ligar para a minha mãe. Não sei onde ela está e estou preocupada.

– Claro, claro. — Ele tira o celular do bolso e me entrega.

– Obrigada.

Começo a digitar o número dela e tenho uma mistura de felicidade com angústia. E se ela não atender? Será que está tudo bem? Precisava fazer aquilo, preciso saber onde e como minha mãe está. O celular começa a chamar, chamar e chamar mas ninguém atende, até cair na caixa de mensagem.

– Ninguém atendeu? — Eu neguei com a cabeça, já sentindo que iria começar uma longa noite de choro. — Bem, fique com meu celular, pode tentar quantas vezes quiser, caso alguém me ligue, o meu quarto é o do lado, tudo bem?

– Sim, obrigada de novo. Acho que vou dormir um pouco, não estou com ânimo para comer.

– Tudo bem, seu prato vai ficar na geladeira qualquer coisa, o banheiro é o ultimo do corredor. Durma bem, Charlotte.

– Vou tentar. — Ele fecha a porta, eu abraço no meu travesseiro e choro. Choro. Pelo visto é isso que farei por um bom tempo.

continua.....