Vozes Encaixotadas
4 IV
Assim, os dias se passaram. Rapidamente se habituou aos seus chamados, gritos, e chantagens, tudo porque Padia se recusava a abri-la.
Tenho tanto para ensinar.
“Não há nada que eu deseje aprender”, retrucava com veemência. Isso a deixava quieta por instantes, mas tudo recomeçava momentos depois.
Você não sabe de nada.
"Eu poderia concordar com você, mas aí nós duas estaríamos erradas", rebateu com impaciência. O inverno chegava ao fim, e julgava que aquilo estivesse indo longe demais.
Do que você tem medo?
A pergunta a intrigou. Padia temia muitas coisas. As pessoas e seus olhares maldosos, a charretes prontas para atropelar quem se pusesse em seu caminho, a ganância e o egocentrismo de seus monarcas. E a própria caixa. Mas não admitiria aquilo em voz alta.
Aproximando-se vagarosamente, repousou sua mão calejada sobre o tampo de madeira. Podia sentí-la vibrando de excitação debaixo de seus dedos. Ajoelhou-se modo que sua boca estivesse na mesma altura que o objeto.
“Sei o que fez com sua antiga possuidora”, murmurou com uma confiança singular, como há muito não demonstrava. “Não me fará cair em tentação da mesma forma”.
Ela estremeceu, e com um último suspiro, aquietou-se.
Era a caixa misteriosa de Pandora.
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